O Uché, o Tempo, não caminhava: ele deslizava manso sobre as Dzuá, as águas do Opará. E quem soubesse olhar percebia que algo estava mudando. As antigas Ubácruté, canoas de pano que durante décadas cortaram o rio com paciência e coragem, começavam a ceder espaço a uma nova forma de viajar.
Chegavam as Ubauipú Itohiquiete, as Lanchas dos Viajantes. Eram canoas transformadas, agora com cobertura firme e motor a diesel no ventre, rompendo a correnteza com mais ligeireza. O rio era o mesmo, mas o jeito de atravessá-lo ganhava outro ritmo.
No Baixo São Francisco, quase toda Ubauipú carregava uma história anterior. Antes lancha, fora Ubácruté. As mãos que um dia esticaram pano e confiaram no vento, agora aprenderam a domar o motor. Não era abandono do passado, mas continuação — evolução que respeita a origem.
No antigo Radamy Cródzu, o Porto de Baixo, onde antes repousavam as canoas de pano, o cenário se renovava. As Ubauipúá alinhavam-se à margem, prontas para a travessia entre Porto Real do Colégio e Propriá. De um lado e do outro do rio, pessoas, histórias, mercadorias e esperanças cruzavam juntas.
Cada lancha levava quarenta passageiros e três tripulantes. Custava pouco atravessar: três reais para quem escolhia o rio, seis para quem seguia pelo Ibápohduá, o automóvel, pelas estradas de terra e asfalto. Mas não era só o preço que pesava na escolha. Havia quem preferisse o balanço das águas, o vento no rosto, o cheiro do rio vivo.
Mesmo com as rodovias cortando a paisagem e os transportes terrestres acelerando o mundo, as Ubauipúá continuavam essenciais. Não apenas como meio de transporte, mas como elo cultural. Para muitos, entrar numa lancha não era só atravessar: era Tuyokié, passear com o rio, conversar com o Opará, lembrar que a vida também sabe fluir.
E assim, enquanto o Tempo seguia mudando, as Lanchas dos Viajantes continuavam indo e vindo, levando no casco não apenas pessoas, mas a memória viva de um povo que aprendeu a transformar sem esquecer.
Autor: Nhenety Kariri-Xocó

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