segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

WIPOKIÉ AINDZU — ATRAVESSANDO O MAR






No Tudenhé, no tempo antigo que mora na memória dos mais velhos, muitos Caraí, brancos cruzaram o Aindzu, grande mar e chegaram às nossas Radá, terra. Vieram em navios altos como montanhas flutuantes, trazendo bandeiras, mapas e promessas que o vento levou.


Mas o Radda Iworó, mundo gira como o Toré.

E chegou o Uché dos Uanieá, Tempo dos Indígenas.

Chegou o tempo em que os filhos da Radá, terra  decidiram conhecer o Radda Saidzá — o mundo deles. Não para conquistar, não para tomar, mas para cantar, ensinar e lembrar que a terra tem espírito.


Assim começou Wipokié Aindzu Yeemerãkié — atravessando o mar de avião.


Quando o pássaro de ferro cortou as Arankedzoá, nuvens pela primeira vez, os corações bateram como maracás. Não era fuga. Era retorno de dignidade. Era intercâmbio de mundos.


No ano de 2003, e depois em 2005, a ONG Thydêwá abriu Woré Arankedzoá, caminhos do céu. Sete prefeituras, o CISA, o MDH e a RELACS ajudaram a tecer essa ponte invisível entre continentes. Cinco indígenas atravessaram o Aindzu, oceano e pousaram nas Mair Naticróraí da França.


A Turnê chamava-se Índios na França.

Levaram Buruhúá, artesanatos feitos com mãos que conhecem a madeira e a fibra como parentes.


Levaram Dakloná, adornos que brilhavam como o sol sobre o rio.


Levaram Wonhé — os Cantos do Toré — que ecoaram além-mar.


Quando chegaram a Paris, olharam para o alto e viram a grande estrutura de ferro tocar o céu. O povo de lá a chamava de Torre Eiffel.


Mas eles sorriram.

— Yebewó Meratá — disseram.

O Grande Tronco de Ferro.


E naquele instante, a torre deixou de ser apenas monumento. Tornou-se árvore de outro território.


Os cantos do Toré dançaram sob o céu francês. O mar já não era distância. Era ponte.


Em 2018, novo voo rasgou as nuvens rumo à Radá Ingueré — a Terra dos Ingleses. Com apoio do Fundo de Cultura da Bahia e acolhimento da Universidade de Leeds, os Uanieá chegaram ao Reino Unido.


Lá, entre prédios antigos e ruas de pedra, ergue-se um relógio que marca as horas do mundo. O povo de lá o chama de Big Ben.

Mas os indígenas olharam para ele com outro entendimento.


— Yeiwouché — disseram.

O Grande Relógio, Roda do Tempo.


Enquanto o sino ecoava sobre Londres, marcando o tempo oficial dos impérios, os filhos da Radá sentiam outro tempo pulsar dentro de si — o tempo do Toré, o tempo da memória, o tempo da ancestralidade.


O Yeiwouché marcava horas.


Lá, na terra da névoa, o Toré também encontrou espaço.


Nas viagens participaram Tibiriçá, Ayrá, Atyá, Mayá, Tawanã, Xumalhá, Aranawí — filhos das etnias Kariri-Xocó, Fulni-ô e Pataxó-Hãhãhãe. Não iam como visitantes silenciosos. Iam como povos vivos.


Mostraram que o Nordeste brasileiro pulsa em canto, artesanato e memória.

Mostraram que a cultura não é passado — é presença.


No Tudenhé, os Caraí atravessaram o mar para chegar às nossas Radá.

Agora, no Uché dos Uanieá, somos nós que atravessamos.


Não como vencidos.

Mas como cantadores de mundos.

Porque Wipokié Aindzu não é apenas atravessar o mar.


É atravessar o tempo.

É transformar distância em diálogo.

É lembrar ao mundo que a cultura indígena não ficou na história — ela voa.


E quando o avião pousa, o Toré continua dançando dentro do peito.




Autor: Nhenety Kariri-Xocó 







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