1. FALSA FOLHA DE ROSTO
NATIÁ BUYÕ DZÉÁ
Aldeia de Muitos Nomes
Nhenety Kariri-Xocó
2. VERSO DA FALSA FOLHA DE ROSTO
Obra literária composta por contos históricos e culturais baseados na memória coletiva do povo Kariri-Xocó.
Texto e concepção: Nhenety Kariri-Xocó
Ano da edição: 2026
Local: Aldeia Kariri-Xocó – Porto Real do Colégio – AL
Todos os direitos reservados ao autor.
3. FOLHA DE ROSTO (FRONTISPÍCIO)
NATIÁ BUYÕ DZÉÁ — ALDEIA DE MUITOS NOMES
Contos de memória, território e identidade do povo Kariri-Xocó
Autor: Nhenety Kariri-Xocó
4. FICHA CATALOGRÁFICA (Modelo)
(Para registro oficial, recomenda-se bibliotecário habilitado, mas segue modelo técnico.)
Kariri-Xocó, Nhenety.
Natiá Buyõ Dzéá: Aldeia de Muitos Nomes / Nhenety Kariri-Xocó. — Porto Real do Colégio, AL: Edição do Autor, 2026.
Inclui glossário bilíngue Kariri-Xocó/Português.
ISBN: (inserir quando registrar)
Literatura indígena brasileira.
Memória histórica – Kariri-Xocó.
Territorialidade indígena – Baixo São Francisco.
Contos indígenas contemporâneos.
CDD: 869.899
5. DEDICATÓRIA
Dedico este livro aos Tokenhé, nossos antepassados,
que caminham invisíveis ao nosso lado.
Ao povo Kariri-Xocó,
que nunca deixou a memória morrer.
E às crianças da aldeia,
que herdarão não apenas a terra,
mas os nomes verdadeiros dela.
6. AGRADECIMENTOS
Ao povo Kariri-Xocó, guardião da palavra viva.
Aos anciãos e anciãs, que mantêm o fio da memória.
Aos jovens aprendizes, que transformam escuta em continuidade.
Aos amigos indígenas e não indígenas que respeitam a história e ajudam a preservá-la.
E à própria terra da Sementeira, que ensinou resistência pelo silêncio.
7. EPÍGRAFE
“A terra pode receber muitos nomes,
mas só responde àqueles que a escutam.”
— Sabedoria Kariri-Xocó
8. SUMÁRIO
Dedicatória
Agradecimentos
Epígrafe
Prefácio
Apresentação
Introdução
Contos ( 01 a 11 ):
01. Natiádé Oparámü – A Aldeia Mãe do Baixo São Francisco
02. Natiá Dzurichi – A Aldeia da Lagoa Comprida
03. Natianie Beiné Naticróraí – Quando a Aldeia Virou Cidade
04. Natiuani Erácró – A Aldeia Indígena Urbana
05. Hietçãde Baretsé – Nossa Vida na Floresta
06. Undéá Aiby Radda – Os Lugares da Terra
07. Batsomyá Bohé Woderáehó – A Vida Cultural e Social na Rua
08. Eisdembé Woderáehó – A Feira na Rua
09. Wohoerá Natiá – O Quintal de Indaiá e Namoâny
10. Dzéá Wanherécó – Os Muitos Nomes da Fazenda Sementeira
11. Canghíá Uchété – Quando os Bons Tempos Chegaram
Apêndice I – Linha do Tempo Histórica
Apêndice II – Glossário Kariri-Xocó
Dados Biográficos do Autor
9. PREFÁCIO
(Sugestão de texto — pode ser assinado por liderança, pesquisador ou pelo próprio autor)
Este livro não é apenas literatura. É território escrito.
Cada conto é uma retomada simbólica. Cada nome indígena recuperado é uma forma de devolver à terra aquilo que dela nunca deveria ter sido retirado: sua identidade.
"Natiá Buyõ Dzéá" revela que a história oficial registra documentos, mas a memória indígena registra pertencimento.
Aqui, a aldeia não é passado — é permanência.
10. APRESENTAÇÃO
Esta obra reúne onze contos que narram a trajetória territorial, cultural e espiritual do povo Kariri-Xocó, desde a formação das aldeias às margens do Opará até a retomada da Fazenda Sementeira em 1978.
Cada narrativa foi construída a partir da oralidade ancestral, combinando memória histórica e literatura contemporânea indígena.
Os contos estão interligados como partes de uma única aldeia que atravessou muitos nomes, mas jamais perdeu sua essência.
11. INTRODUÇÃO
A expressão Natiá Buyõ Dzéá significa “Aldeia de Muitos Nomes”.
Ao longo dos séculos, o território do povo Kariri-Xocó recebeu diversas denominações oficiais: missão, vila, colônia, campo experimental, fazenda modelo. Cada nome representou uma tentativa de reorganizar o espaço segundo interesses externos.
Entretanto, a identidade indígena nunca foi apagada.
Este livro reconstrói, por meio do conto literário, a trajetória histórica da aldeia — da Lagoa Comprida à retomada da Sementeira — mostrando que território é mais que chão: é memória coletiva.
12. CONTOS ( 01 a 11 )
01. NATIÁDÉ OPARÁMÜ – A ALDEIA MÃE DO BAIXO SÃO FRANCISCO
O sol descia lento sobre as águas largas do rio quando Anawany, sentada à sombra de um velho juazeiro, quebrou o silêncio da tarde. Seus olhos acompanhavam o caminho do Opará, que seguia firme, como quem conhece todos os destinos.
— Tia Maiara, — perguntou a menina, com a curiosidade própria de quem começa a escutar os chamados da memória — por que sempre dizem que aqui é Natiádé Oparámü, a Aldeia Mãe do São Francisco?
A anciã respirou fundo. Seus olhos, marcados pelo tempo, pareciam atravessar séculos. Tocou a terra com a mão aberta, como quem pede licença aos espíritos antigos, e começou a falar.
— Antes de qualquer bandeira, antes das cruzes e dos nomes estrangeiros, este rio já se chamava Opará. Ele era — e ainda é — caminho, ventre e palavra. Foi às margens dele que muitos povos viveram livres: Kariri, Karapotó, Aconãs, Tupinambás, Chocó, Natu, Caxagó, Progê… Cada um com sua língua, seu canto e sua maneira de existir.
Maiara apontou para o rio, que refletia o céu avermelhado.
— Quando os colonizadores chegaram, trouxeram a divisão. Aldearam nossos povos em missões: Colégio, Jaciobá, São Brás, Pacatuba, Ilha de São Pedro. Diziam que era proteção, mas era controle. Mesmo assim, nossos parentes resistiram, guardando o saber como semente enterrada.
A voz da anciã ficou mais grave.
— No tempo em que Portugal transformava aldeias em vilas, muitas missões foram apagadas. Aqui, em Colégio, tentaram fazer o mesmo. Em 1876, nos chamaram de Vila de Porto Real do Colégio. Mas a terra lembrava quem éramos. E ajudou o fato de termos, por um tempo, um indígena na administração: Alferes Firmino José dos Santos. Foi assim que muitos parentes de outras missões vieram buscar abrigo aqui.
Anawany escutava atenta, como quem recebe um presente invisível.
— Vieram Natu, Xocó, Prakiô, Caxagó, Carnijó, Pankararu, Romari, Xucuru… Cada chegada reforçava o espírito acolhedor da aldeia. Por isso ela se tornou mãe.
O vento passou entre as folhas, como se confirmasse a palavra.
— Alguns seguiram novos caminhos — continuou Maiara. — Em 1912, parentes fundaram o Tingui-Botó. Em 1944, o Posto Indígena Padre Alfredo Dâmaso trouxe assistência, mas também vigilância. Em 1966, os Xocó daqui se reencontraram com os Xokó da Ilha de São Pedro, e em 1979 veio a retomada. Mais tarde, surgiram os Karapotó de Terra Nova, os Fulkaxó, os Aconãs, os Caxagó, os Pankariri…
A anciã sorriu, com ternura.
— Todos partiram, mas todos levaram um pouco daqui. E agora muitos retornam às suas terras antigas, formando novas aldeias. É o ciclo do Opará: ir, voltar, renascer.
Anawany olhou novamente o rio. Pela primeira vez, entendeu que ele não apenas corria — ele lembrava.
— Então, tia… — disse a menina, em voz baixa — a Aldeia Mãe nunca deixa de ser mãe.
Maiara assentiu.
— Natiádé Oparámü não é só um lugar. É um espírito. E enquanto houver memória, ele continuará vivo, correndo junto com o São Francisco.
O rio seguiu seu curso. E a história, mais uma vez, foi contada.
02. NATIÁ DZURICHI – A ALDEIA DA LAGOA COMPRIDA
O sol já caminhava devagar rumo ao poente quando o menino Marã, sentado à sombra de um juazeiro antigo, quebrou o silêncio da tarde. Seus olhos curiosos acompanhavam o movimento do vento sobre a lagoa distante, enquanto sua voz buscava respostas no tempo.
— Vovô Akanauá — perguntou com respeito —, nós moramos aqui nessa Natiwaré, a Aldeia dos Padres. Mas onde era nossa morada antigamente?
O velho Akanauá respirou fundo. Seus olhos, marcados pelo tempo, pareciam atravessar gerações. Olhou para o horizonte, como quem conversa com os espíritos antigos, e então respondeu:
— Olha, Marã, antes de estarmos aqui, nosso povo vivia na Natiá Dzurichi, a Aldeia da Lagoa Comprida. Ela ficava ao norte da igreja dessa Missão do Colégio. Era ali que nossos passos eram livres, onde a água conversava com a terra e onde os cantos dos antigos ecoavam.
Marã escutava atento, como quem recolhe sementes para o futuro.
— Os padres, os waré, chegaram — continuou o avô — e trouxeram a mudança. Nos levaram para cá. Junto conosco vieram outros parentes, aldeados também: Karapotó, Aconãs, Tupinambás. Povos diferentes, histórias diferentes, todos reunidos num mesmo destino.
O menino ficou em silêncio por alguns instantes. Depois, com a curiosidade ardendo no peito, fez outra pergunta:
— Vovô… por que aquela colina onde ficava a Natiá Dzurichi é chamada de Hechi Wathõ, o Alto do Bode?
Akanauá sorriu de leve, como quem sabe que cada nome guarda uma história.
— Meu neto — disse com calma —, quando os Carai chegaram por essas terras, trouxeram muito Cradzó, o gado. Vieram também muitos Wathõá, os bodes. Depois que fomos retirados da nossa aldeia, aquela colina ficou abandonada. E foi ali que as cabras passaram a ficar, porque havia boas pastagens. Assim, o lugar recebeu o nome que carrega até hoje.
O vento soprou mais forte naquele momento, como se confirmasse a palavra do ancião. Marã permaneceu em silêncio, guardando no coração o que havia escutado. Sabia que aquelas histórias não eram apenas lembranças, mas caminhos para que a memória do povo Kariri-Xocó continuasse viva.
E enquanto a tarde se despedia, a Natiá Dzurichi seguia existindo — não apenas na terra, mas na palavra transmitida de avô para neto.
03. NATIANIE BEINÉ NATICRÓRAÍ, QUANDO A ALDEIA VIROU CIDADE DE BRANCOS
Na casa simples, feita de silêncio e memória, o velho Nhenety recebia todos os dias visitantes de muitos caminhos. Vinham estudantes indígenas e não indígenas, crianças curiosas, jovens inquietos e até adultos carregados de dúvidas. Sentavam-se no chão, escutavam atentos e aprendiam que a história não mora apenas nos livros, mas vive na palavra de quem lembra.
Certo dia, entre tantos rostos atentos, Tawanã — criança de seu próprio povo — ergueu a voz com respeito e curiosidade:
— Tio Nhenety, é verdade que essa cidade ao lado já foi nossa aldeia?
O ancião respirou fundo. Seus olhos caminharam longe, atravessando o tempo, como quem pisa devagar nas pegadas dos antigos. Então respondeu:
— É verdade, sim, Tawanã. Antes de ser cidade, tudo aquilo foi aldeia. Nossa aldeia se chamava Natianie.
Nhenety começou a contar.
Disse que a Natianie ficava na Dzurichi, na Lagoa Comprida, no território sagrado do Hechi Wathõ, conhecido hoje como Alto do Bode. Ali, os antigos viviam em harmonia com a terra, com a água e com o tempo, o Uché, que não corre, apenas ensina.
Mas um dia chegaram os Waré, os padres jesuítas. Eles reuniram os povos indígenas e criaram a Natiwaré, a Aldeia dos Padres. No início, parecia apenas mais uma mudança imposta pelo vento do mundo. Depois, vieram muitos Caraí, os brancos.
Pouco a pouco, a paisagem foi se transformando. Onde havia chão batido, ergueram Eracró, casas de pedra. Onde ecoavam cantos antigos, levantaram a Erantoá, a igreja. Onde os velhos ensinavam pela palavra, surgiu o Erátekié, o colégio dos padres.
O tempo passou, e a Natianie deixou de ser aldeia como antes. Tornou-se beiné, outra coisa. Uma Natiá diferente, distante do modo antigo de viver. Os padres foram expulsos, mas os brancos ficaram. A aldeia virou freguesia, depois distrito, e por fim cidade.
Então Nhenety concluiu, com voz firme e triste:
— Assim nasceu a Naticróraí, a aldeia de pedra dos brancos. Mas lembra, Tawanã: mesmo coberta de pedra, a terra ainda guarda nossos passos.
O menino silenciou. Aprendeu que cidades podem crescer, nomes podem mudar, mas a memória indígena permanece viva enquanto alguém se lembra e conta.
E naquela casa simples, mais uma vez, a história voltou a respirar.
04. NATIUANI ERÁCRÓ – A ALDEIA INDÍGENA URBANA
A aldeia sempre esteve ali, mesmo quando a cidade cresceu ao seu redor. Antes de Porto Real do Colégio ter nome de rei e pedra, já havia chão, rio, passos e memória Kariri-Xocó. Foi desse ventre antigo que nasceu a cidade, moldada pelo tempo, pelo contato e pelas mudanças que o mundo impôs.
Com os anos, vieram outros costumes, outras formas de viver. Os Kariri-Xocó aprenderam a conviver com a civilização europeia, absorvendo hábitos, tecnologias e palavras novas. Mas, no fim da década de 1970, chegou o tempo da retomada. Saíram da cidade e fundaram novamente sua aldeia — não distante do mundo moderno, mas enraizada na identidade ancestral. Assim nasceu uma aldeia diferente: indígena e urbana ao mesmo tempo.
Era comum, nas tardes tranquilas da comunidade, que as crianças cercassem os mais velhos com perguntas. Queriam entender por que a aldeia tinha ruas, postes, casas de pedra e aparelhos que falavam sozinhos. Foi numa dessas tardes que o jovem Itauaçú, curioso como todo aprendiz da vida, aproximou-se de sua avó Anemy, guardiã das palavras e dos sentidos.
— Vovó, o que é uma Aldeia Indígena Urbana? — perguntou ele, sentando-se ao seu lado.
Anemy sorriu com a calma de quem já ouviu muitas perguntas e conhece muitas respostas.
— Meu neto, Aldeia Indígena Urbana é Natiuani Erácró.
Natiá é Aldeia.
Uanie é Indígena.
Erá é Casa.
Cró é Pedra.
Ela fez uma pausa, olhando ao redor.
— Então, somos uma Aldeia Indígena de Casas de Pedra, mas com espírito antigo e coração vivo.
Itauaçú abriu um sorriso largo.
— Agora eu entendi, vovó.
Anemy continuou, apontando com o olhar para os caminhos da aldeia.
— Aqui temos Woderáehó, que são as ruas por onde caminhamos. Vieram também os Iabaerá, os conjuntos residenciais. Temos o Hinebakró, a luz que nasce do tronco de pedra, os postes que levam energia à noite. E ali, onde as crianças correm e os jovens sonham, fica o Bypeddá, o campo de Byghitó, o futebol.
Depois, falou das casas.
— Dentro das Erá, nossas casas, convivem o antigo e o novo:
o Crameokli, o rádio que leva vozes distantes;
a Cramenunhí, a geladeira que guarda o alimento;
o Crameupudu, o fogão a gás que aquece a comida;
e o Warudókli, a televisão que mostra o mundo.
Anemy lembrou também dos caminhos e dos meios de ir e vir:
— Ainda usamos a Ibákabaru, a carroça de burro, mas também a Ibaranú, a moto; o Ibápohdu, o automóvel; e a Ibaworóbi, a bicicleta que desliza leve pelas ruas.
Por fim, sua voz ficou mais firme, como quem ensina algo importante.
— Temos nossas casas de cuidado e aprendizado: a Subatekerá, a escola; o Pidékanerá, o posto de saúde; a Inghérá, a creche; e o Erádzu, a casa da água, onde nasce a água encanada que corre pelas torneiras.
Itauaçú ouviu tudo em silêncio, entendendo que viver numa Aldeia Indígena Urbana não era deixar de ser quem se é, mas aprender a caminhar entre mundos sem perder as raízes.
E assim, em Natiuani Erácró, a modernidade não apagou a ancestralidade — apenas passou a morar com ela.
05. HIETÇÃDE BARETSÉ – NOSSA VIDA NA FLORESTA
Nas Radaá Hechi, as Terras Altas que se afastam da Naticróraí, a cidade de Porto Real do Colégio, estende-se a Retsé, nossa floresta viva. Ali repousa a Natianie, a Aldeia Indígena Tradicional do povo Kariri-Xocó, onde o tempo não corre apressado e cada passo respeita a respiração da Antse, a Natureza.
Foi ali que o velho cacique Nidé sentou-se à sombra de um angico antigo, com o olhar voltado para o Boêdo Dzurió Tasí, o Morro da Lagoa da Enxada, no lado Leste da floresta. Seus cabelos brancos lembravam a névoa que, ao amanhecer, cobre as folhas quando o Ukie, o Sol, desperta a terra, e a Kaiaku, a Lua, se recolhe lentamente rumo ao Opará, o Rio São Francisco, onde se põe ao Oeste.
Ao seu lado estava Nhamuãny, a jovem de olhos atentos e pensamento inquieto. Ela aprendia tanto com os livros da escola quanto com as palavras silenciosas da floresta. Naquele dia, trouxe consigo Mariana, uma moça branca da cidade, sua colega de estudos, curiosa e respeitosa, que caminhava com cuidado, como quem pisa num chão sagrado.
— Aqui tudo escuta, disse Nidé, com voz baixa e firme. — A floresta ouve antes de falar.
Mariana observava, admirada. Via os Keríá Retsé, os animais silvestres, surgirem como ensinamentos vivos: o Ibozoim, sonhim gritava oculto; a Kati, abelha zumbia entre as flores; o Munim, Grilo marcava o ritmo do chão; enquanto o Nieɲi, cobra deslizava silencioso entre as folhas. Mais adiante, o Klimi, lontra surgia à beira d’água, e o Hamo, bicho deixava suas marcas na terra fofa.
Nhamuãny explicou, com orgulho sereno, que aquela diversidade não era apenas vida — era parentesco. O Tatú, o Jabuti, o Jacaré, o Coelho, o Veado do Mato, todos tinham seu lugar no equilíbrio antigo ensinado pelos Tokenhé, os antepassados.
Os Ieendeá, os pássaros, cruzavam o Aranke, o céu aberto: o Gongá, sabiá cantava como se chamasse lembranças; o Xáj, picapau batia o bico nos troncos; o Tute, pombo e o Xõn, urubu circulavam no alto, guardiões do invisível.
Quando a Kayá, a noite, caiu sobre a floresta, o céu se fez Battiá, coalhado de estrelas. A Kaiaku, lua iluminou os caminhos, e o lamento do Urutau ecoou como uma história antiga sendo recontada.
Mariana sentiu, pela primeira vez, que aprender não estava apenas nos cadernos. Estava ali, na coletividade, no Tseho Bohé, no modo como o povo vivia seus Matkaí, rituais que mantêm a floresta viva porque mantêm viva a memória.
— Nossa vida é aqui, concluiu Nidé. — Enquanto houver respeito, a Retsé continuará falando.
Nhamuãny sorriu. Mariana silenciou. E a floresta, satisfeita, continuconsiderou cada uma delas parte de sua própria história.
06. UNDÉÁ AIBY RADDA – OS LUGARES DA TERRA
Kanawí caminhava devagar, como quem escuta a terra antes de pisá-la. Seus pés conheciam cada curva da Radda, cada cheiro trazido pelo vento que vinha do Iwo Opará. Para ele, a terra não era apenas chão: era corpo vivo, memória antiga, voz dos Tokenhé, antepassados.
Naquela manhã, Kanawí não caminhava sozinho.
Ao seu lado vinham George, biólogo de olhos atentos, sempre com um caderno nas mãos, e Clarice, antropóloga silenciosa, que preferia ouvir antes de perguntar. Ambos eram pesquisadores brancos, vindos de longe, atraídos pelo que os livros não conseguiam explicar.
— Aqui é Undéá Aiby Radda — disse Kanawí, quebrando o silêncio. — Os Lugares da Terra.
George levantou os olhos do caderno. Clarice sorriu com respeito.
— Nosso Tseho, povo vive aqui desde os Tokenhé, antepassados — continuou Kanawí —, com Natiá, aldeias espalhadas ao longo do Iwo Opará, que vocês chamam de Rio São Francisco.
Eles caminharam até um ponto mais alto.
Kanawí estendeu o braço, desenhando os limites invisíveis no ar.
— A leste, o Boêdo Dzurió Tasí, o Morro da Lagoa da Enxada. A oeste, o próprio rio. Ao norte, o Iwo Tibirí, Rio da Formiga. Ao sul, a Pohó Itiúba, a Várzea do Rio da Canoa.
Clarice anotava, mas o que mais a impressionava não eram os nomes, e sim a maneira como Kanawí falava deles — como se cada palavra fosse um parente.
— Esses lugares aparecem nas Woroyá, as histórias dos antepassados — disse ele, enquanto os conduzia em direção à serra da Maraba. — É daqui que tiramos a Tabatinga, a argila branca. Ela vira Ruñohú, nossa cerâmica. Cada peça guarda um pedaço da serra.
George ajoelhou-se, tocando a terra clara com cuidado.
— A composição mineral disso é impressionante — murmurou.
Kanawí sorriu.
— A terra ensina antes da ciência.
Mais adiante, apontou para outra serra.
— Ali é a Apreaca. Dela tiramos o caroá, que vira corda. Nada se perde. Tudo retorna.
Quando chegaram às Dzurióá, as lagoas, Kanawí parou em silêncio. Clarice sentiu que aquele não era um lugar comum.
— Aqui estão as Ebebunhá — explicou ele em voz baixa. — Fontes de barro. Daqui vem o Tauá, a argila amarela, e a Ebebunháhe, a vermelha. Cada cor tem um tempo, um uso, um respeito.
O vento passou suave sobre a água. George fechou o caderno. Clarice baixou a cabeça.
Por fim, Kanawí os conduziu à Retsé, a floresta.
— Aqui fica a Natianie, nossa aldeia tradicional — disse. — E mais adiante, perto da cidade, a Natierácró, a aldeia urbana. Dois mundos, uma só raiz.
Clarice respirou fundo.
— Kanawí… — disse ela — o que você quer que levemos conosco quando formos embora?
O indígena olhou para a terra, depois para o rio, depois para o céu.
— Levem o entendimento de que a Radda não é lugar vazio. Ela tem nome, memória e espírito. E quem aprende a ver, Ubí, nunca mais pisa sem cuidado.
O sol começava a se pôr sobre o Iwo Opará. Naquele instante, George e Clarice compreenderam: não estavam apenas pesquisando um território — estavam sendo apresentados a um modo de existir.
07. BATSOMYÁ BOHÉ WODERÁEHÓ, A VIDA CULTURAL E SOCIAL NA RUA
A antiga Natiá, a Aldeia dos Uanieá Kariri-Xocó, acordava todos os dias com o mesmo sopro da terra, ainda que seus olhos agora vissem mudanças. Onde antes só havia caminhos de barro e casas de palha, surgiram as Erácró, casas de pedra e alvenaria. Vieram também os Hinebakró, postes de luz elétrica, iluminando a noite e alterando o silêncio antigo. Assim, pouco a pouco, a aldeia virou Natierácró, uma cidade.
Mesmo com as transformações, o coração do povo não se afastou de suas raízes. Ao norte da cidade, os anciãos decidiram erguer uma nova Natianie, uma aldeia indígena que guardasse os Kenhéá, os costumes tradicionais, ainda que misturados aos elementos do mundo dos brancos. Ali, o passado e o presente aprenderam a caminhar juntos.
O Tseho, o povo, cresceu. As famílias aumentaram, novas casas surgiram, e foi preciso organizar as Woderáehó, as ruas da aldeia. Essas ruas não eram apenas caminhos: eram lugares de encontro, de troca, de vida cultural e social, onde a Batsomyá, vida cultural pulsava em cada gesto coletivo.
Em uma dessas ruas vivia Samany, ceramista de mãos firmes e olhar atento.
Desde cedo aprendera com as mais velhas a conversar com o barro. Na Ruñohú, cerâmica ela moldava potes, panelas e figuras que carregavam histórias. Ao seu lado, sempre atentos, estavam os jovens Rayane e Tanauá, aprendizes curiosos, que observavam cada movimento, cada silêncio, cada ensinamento que não precisava de palavra.
Mais adiante, sob a sombra de um juazeiro antigo, trabalhava Akinoã, artesão respeitado. Seu Buruhúá, artesanatos nascia da madeira, da palha e da fibra retirada com cuidado da natureza. Ele ensinava que o artesanato não era só trabalho, mas respeito: à terra, aos espíritos e aos que viriam depois. Rayane e Tanauá também passavam horas ali, aprendendo a ouvir antes de fazer.
Durante o dia e à noite, o povo se reunia nas Okenerá, as portas das casas. Ali se conversava, se ria e se contavam Woroyá, histórias antigas que atravessavam gerações. As Inghéá, crianças da aldeia, enchiam as ruas com suas Benhekié, brincadeiras que misturavam Kaiworaí, cantigas de roda dos brancos, com as Kauanieá, cantigas indígenas que ecoavam como reza e alegria.
Entre uma casa e outra, os Keríerá, animais domésticos caminhavam livres: o Curé, porco; o Igaborou, cavalo; o Cradzó, boi; o Wathõ, bode; a Erintuca, ovelha; o Irerê, pato; e o Sabucá, galo. Eles faziam parte da aldeia tanto quanto as pessoas, cruzando as ruas sem pressa, como se também conhecessem o valor daquele lugar.
As mudanças traziam novos sons e imagens. Passavam pela aldeia a Ibákabaru, a carroça de burro; a Ibaworóbi, bicicleta; o Ibápohdu, automóvel; e a Ibaranú, moto. Eram sinais claros de que o mundo dos brancos estava cada vez mais próximo. Ainda assim, nas Woderáehó, permanecia viva a imagem das pessoas trabalhando, criando, ensinando.
Samany dizia aos aprendizes que o barro guarda memória. Akinoã ensinava que a madeira sente quando é respeitada. Rayane e Tanauá aprendiam que viver na rua da aldeia era mais do que ocupar espaço: era pertencer, cuidar e continuar.
E assim, entre luz elétrica e cantiga antiga, entre carro e carroça, entre cidade e aldeia, o povo Kariri-Xocó seguia vivendo. Porque enquanto houver rua com história, mãos que criam e jovens que aprendem, a Batsomyá Bohé Woderáehó — a vida cultural e social no Rua — jamais deixará de existir.
08. EISDEMBÉ WODERÁEHÓ – A FEIRA NA RUA
Quando o sol ainda espreguiçava seus primeiros raios sobre o Opará, Parú já estava de pé. Ajustava com cuidado os colares de sementes, os arcos pequenos e as pulseiras de fibra que ele mesmo fazia desde menino. Parú era Buruhúá, artesão da aldeia, e toda Myreprí bubyhé, a sexta-feira, armava sua pucá, banca no mesmo undé, lugar bem no começo da rua onde a feira nascia como um rio de gente.
Dizia-se entre os mais velhos que, muito antes dos Caraí chegarem, os povos indígenas já sabiam trocar saberes, alimentos e objetos. A feira, para Parú, não era invenção nova; era continuação da vida. Mas foi quando a antiga Natiá virou Naticróraí, a povoação de Colégio, que o povo passou a chamar aquele encontro de Eisdembé Woderáehó, a Feira na Rua.
Logo ao lado da banca de Parú, Amélia ajeitava suas formas de bolo. Era branca, filha de ribeirinhos, mas já falava algumas palavras da língua local e gostava de ouvir as histórias dos anciãos. Seus saredu, bolos de mandioca, perfumavam o ar, misturados ao cheiro do waraeró, o beijú quente que ela assava ali mesmo, em fogo manso.
— Bom dia, Parú — disse ela, sorrindo.
— Bom dia, Amélia. Que seu saredu venda bem hoje — respondeu ele, com respeito.
Mais adiante, dona Yandé cuidava de sua banca de ubudzoá, plantas medicinais.
Sabia qual folha curava febre, qual raiz acalmava o espírito e qual chá fortalecia o corpo. Gente vinha de longe só para ouvir seus conselhos. Perto dela, seu Paulo que vendia Rocruté pendurava roupas simples de pano, enquanto gritava os preços com voz alegre.
A feira crescia. Havia uanhí, grãos e cereais; tdjeá, verduras frescas; ghinhé, feijão recém-colhido; abati-uaupé, arroz; utuá, frutas de toda cor: bacobá, banana madura; behedzí, melancia aberta no meio, vermelha como o coração da terra.
Crianças se juntavam em volta da banca de benhekié bunhá, brinquedos de barro moldados por mãos pacientes. Um pouco mais adiante, tocava um rádio velho vendendo craiwonpiwon, CD e craiwopewa, DVD enquanto um cordelista recitava versos dos torãpisetí, contando histórias de heróis, encantos e do próprio Opará.
Havia também os keríerá, animais domésticos para vender; os wãmyá, peixes no balaio ainda brilhando de rio; as natéretá, ferramentas; e a pucá tané, banca do fumo. Todos eram atsemiucan, vendedores ambulantes, cada qual trazendo um pedaço da sua vida para aquele chão.
Parú observava tudo com olhos atentos. Para ele, a feira era mais que compra e venda: era a samy, a cultura viva pulsando.
Ali se encontravam os povos dos povoados, das cidades ribeirinhas, das margens do Opará. Ali se trocavam moedas, palavras, sorrisos e memórias.
Quando o sol já ia alto, Amélia levou um pedaço de bolo até Parú. Ele, em troca, lhe deu um colar simples, feito de sementes da mata.
Assim seguia a Eisdembé Woderáehó: antiga como o povo, nova a cada sexta-feira, rua que virava história, feira que ensinava que viver é partilhar.
09. WOHOERÁ NATIÁ – O QUINTAL DE INDAIÁ E NAMOÂNY
Na antiga Woderáehó Uanie, a Rua dos Índios, em Porto Real do Colégio, havia uma Erá, uma casa simples, mas viva, porque atrás dela pulsava o Wohoerá Natiá, o quintal na aldeia onde as mulheres conversavam com a terra.
Ali moravam Indaiá, mulher de mãos firmes e olhar sereno, e sua filha Namoâny, ainda jovem, mas já atenta aos sinais da natureza. Todas as manhãs, antes que o sol se erguesse por completo, as duas caminhavam descalças pelo quintal, sentindo o frescor da terra acordando.
— A terra fala cedo, Namoâny — dizia Indaiá. — Quem aprende a ouvir, cura.
O Wohoerá era amplo e bem cuidado. Perto da casa, as Ubudzoá, plantas medicinais, cresciam em canteiros organizados pelas mãos de Indaiá. Ela ensinava à filha os nomes e os usos, não apenas como remédio, mas como respeito.
— Esta é a Ainpeân, arruda, protege a casa e o espírito.
— A Jpâkuaçû, erva-cidreira, acalma o sono inquieto.
— A Caacica, mastruz, fortalece o peito e devolve o fôlego.
Namoâny aprendia observando. Sabia que não se colhe uma folha sem pedir licença, nem se prepara um chá sem intenção boa.
Entre os canteiros, passeavam os Keríerá, animais domésticos criados com cuidado feminino. O Bucuté, cão fiel, seguia Indaiá por todo o quintal; o Poió, gato atento, dormia à sombra da Bacobá; o Sabucá, galo altivo, anunciava o amanhecer; e o Kaplan, jabuti antigo, caminhava devagar, como quem guarda histórias mais velhas que a própria aldeia.
— Cada Keríerá tem um espírito — dizia Indaiá. — Eles cuidam da casa tanto quanto nós cuidamos deles.
Mais adiante estavam as Sutuá Uttihu, árvores frutíferas plantadas por gerações de mulheres. O Bucrenké, urucu, oferecia a cor do corpo e do ritual; o Mé, jenipapo, guardava o preto da pintura ancestral; o Akryte, caju, alimentava os dias de partilha; e o Obó, imbu, resistia aos tempos difíceis, ensinando paciência e força.
No fundo do quintal ficava a Uanhí Tdjeá, a lavoura. Indaiá mostrava a Namoâny como plantar o Madiki, a mandioca, com tempo e silêncio; o Ghinhé, feijão, que cresce em conjunto; e o Masiche, milho, que une famílias em colheita e festa.
— Mulher é raiz, filha — dizia Indaiá, enquanto cobria as sementes com a terra. — Quando cuidamos do Wohoerá, cuidamos do povo inteiro.
Namoâny guardou aquelas palavras como se guarda um colar antigo. Com o passar dos anos, ela entendeu que o quintal não era apenas espaço atrás da casa, mas um lugar de memória, cura e continuidade.
E assim, enquanto existirem mulheres como Indaiá e Namoâny, o Wohoerá Natiá continuará vivo — ensinando, curando e sustentando o povo Kariri-Xocó, em silêncio, junto à terra.
10. DZÉÁ WANHERÉCÓ — OS MUITOS NOMES DA FAZENDA SEMENTEIRA
O sol se punha manso sobre as águas do São Francisco quando Ynorá, ainda menina, sentou-se aos pés do velho cacique Irecê. O vento passava entre os coqueiros como se soprasse lembranças antigas, e a terra, silenciosa, parecia ouvir.
— Vovô Irecê, — perguntou ela, com a curiosidade limpa dos que ainda aprendem a escutar — essa terra onde vivemos, a Aldeia Kariri-Xocó, sempre teve esse nome?
O cacique respirou fundo. Seus olhos, marcados pelo tempo, atravessaram o rio, como se enxergassem não apenas a outra margem, mas também outros tempos.
— Não, minha neta, — respondeu com voz baixa e firme — essa terra teve muitos nomes, porque muitos foram os que tentaram apagar o nosso. Cada nome foi uma tentativa de nos arrancar da raiz. Mas a terra nunca nos esqueceu.
Irecê então começou a contar.
Disse que depois da suspensão dos aldeamentos em Alagoas, em 1873, o povo Kariri foi empurrado para fora de suas próprias moradas. Em 1876, o governo deu outro nome à terra ancestral: Vila de Porto Real do Colégio. O nome novo veio como cerca invisível, marcando no papel aquilo que já tinha dono desde o tempo dos antigos.
Pouco depois, em 1878, a Província de Alagoas criou ali a Colônia São Francisco, dizendo que era para acolher os flagelados da grande seca de 1877. Mas, enquanto acolhiam uns, continuavam afastando outros — os verdadeiros filhos da terra.
O tempo passou, e a terra ganhou mais um nome estranho: Aprendizado Agrícola e Campo de Demonstração, criado em 1º de agosto de 1912. Diziam que era para ensinar a trabalhar a terra, como se a terra não tivesse sido trabalhada, cuidada e respeitada pelos Kariri muito antes de qualquer escola chegar.
Mas o golpe mais duro, contou o cacique, veio entre 1923 e 1924, com a criação do Serviço do Algodão de Plantas Têxteis. A terra passou a ser medida, loteada, vendida. Quem quisesse ficar precisava pagar pelo chão onde seus ancestrais haviam sido enterrados. Cinco anos de prestações, juros sobre o próprio sangue. Preferência aos posseiros, diziam — mas os Kariri nunca foram vistos como posseiros, e sim como incômodo.
Em 1940, a terra mudou novamente de mãos e passou ao Fomento Agrícola, por acordo entre o governo estadual e a União. No ano seguinte, em 25 de agosto de 1941, ganhou mais um nome: Campo Experimental das Sementes. Sementes plantadas ali, mas não as sementes do povo.
Foi só em 1944 que o Estado voltou o olhar para os Kariri, criando o Posto Indígena Padre Alfredo Dâmaso, pelo Serviço de Proteção aos Índios. Não devolveu a terra, mas reconheceu a presença.
Em 1947, cinquenta hectares do Campo Experimental foram oficialmente doados aos índios de Colégio. Chamaram esse pedaço de Colônia Indígena. Pequeno território para um povo grande em história.
Vieram ainda o Posto Agropecuário Federal, em 1949; o Centro de Treinamento para Operadores Tratoristas, em 1955; a Fazenda Escola, em 1960, com cursos para rapazes e moças, todos em regime de internato. Depois, a terra passou à Companhia do Vale do São Francisco, que manteve apenas o curso de Economia Doméstica.
Em 1964, chamaram a terra de Fazenda Modelo, criando gado holandês puro, enquanto o povo originário seguia esperando justiça.
Em 1975, cessaram as atividades da fazenda. O gado foi levado, os projetos encerrados. A terra ficou em silêncio outra vez, como se aguardasse.
Então o cacique sorriu, e sua voz ganhou força.
— Em 1978, minha neta, — disse Irecê — nós voltamos. O povo Kariri-Xocó ocupou a Sementeira e retomou 225 hectares. Saímos da Rua dos Índios e fundamos nossa nova morada: a Aldeia Kariri-Xocó.
Ynorá olhou ao redor. A terra parecia respirar.
— Então, vovô, quantos nomes essa terra teve?
— Muitos, — respondeu ele — mas o verdadeiro nome nunca se perdeu. A terra sabe quem somos. E enquanto houver memória, canto e luta, nenhum papel será mais forte que nossos passos.
O vento voltou a soprar. E a terra, agora chamada Aldeia, permaneceu viva — guardando em silêncio todos os nomes que tentou esquecer, mas jamais conseguiu.
11. CANGHÍÁ UCHÉTÉ – QUANDO OS BONS TEMPOS CHEGARAM
Na memória dos mais velhos, ainda ecoa o tempo em que a Natiá, a Aldeia, repousava na Woderáehó Uanieá, a antiga Rua dos Índios, apertada entre os caminhos da Naticróraí, a Cidade de Porto Real do Colégio, em Dzurióá, Alagoas. Ali vivíamos, mas não era ali que a alma dos Tokenhé, os Antepassados, repousava inteira.
Faltava espaço para o sonho, para o canto, para a roça crescer sem medo.
Então veio 1978. Ano marcado como Canchetéá — bons tempos. A mudança para a Wanheré Uanhícó, a Fazenda Sementeira, não foi apenas uma travessia de casas, mas um retorno do espírito à terra antiga. Quando o povo atravessou o Okenaye, o Grande Portão, algo invisível se abriu junto com ele: o direito de nomear. Ali escrevemos, com madeira, barro e coragem, o nome Aldeia Kariri-Xocó, selando o Canghíá Uchété — os bons tempos chegaram.
A terra nos reconheceu. Das Dzurióá, as lagoas, brotou a argila que virou Ruñonhú, cerâmica moldada pelas mãos que herdaram o saber do fogo. Das águas vieram os Wãmyá, peixes, alimento e celebração. As Erá, casas, nasceram com Wohoerá, quintais vivos, e as Bechiéá, roças, se estenderam como promessa de fartura. Cada passo no chão parecia reencontrar um rastro antigo.
Com o tempo, a aldeia foi se erguendo por inteiro. Surgiu o Erádékan, Polo Base de Saúde, cuidando dos corpos; a Erátekié, Escola, guardando a palavra; a Erantoá, Igreja, acolhendo a fé; o Bypeddá, Campo de Futebol, onde o riso corre solto; e a Erákemydzu, Estação de Tratamento d’Água, levando vida às casas. Tudo crescia em harmonia, como se a terra soubesse o lugar exato de cada coisa.
Os bons tempos trouxeram ainda mais. As Natisamyá, Aldeias Culturais, reacenderam o toré, fazendo o chão pulsar sob os pés. A Bypecró, Quadra de Futsal, virou ponto de encontro das gerações. Os Iabaerá, Conjuntos Residenciais, acolheram novas famílias. A Hinebakró, Energia Elétrica, iluminou as noites sem apagar as estrelas.
Assim, o Canghíá Uchété não foi apenas um tempo que chegou — foi um tempo que se assentou. Ficou na terra, no canto, na memória e no futuro. Porque quando um povo retorna ao chão dos seus antepassados, não constrói apenas moradas: reconstrói o próprio tempo.
Autor dos Contos: Nhenety Kariri-Xocó
13. APÊNDICE I – LINHA DO TEMPO HISTÓRICA
Período pré-colonial – Aldeias às margens do Opará
Século XVIII – Missões jesuíticas
1873 – Suspensão dos aldeamentos
1876 – Vila de Porto Real do Colégio
1912 – Aprendizado Agrícola
1923–1924 – Serviço do Algodão
1944 – Posto Indígena Padre Alfredo Dâmaso
1978 – Retomada da Fazenda Sementeira
13. APÊNDICE II – GLOSSÁRIO (Exemplo de Estrutura)
Natiá – Aldeia
Opará – Rio São Francisco
Tokenhé – Antepassados
Radda – Terra
Ruñohú – Cerâmica
Wohoerá – Quintal
Woderáehó – Rua
Buruhúá – Artesão
(O glossário completo pode ser organizado alfabeticamente ao final.)
14. DADOS BIOGRÁFICOS DO AUTOR
Nhenety Kariri-Xocó é indígena do povo Kariri-Xocó, da Aldeia Kariri-Xocó, em Porto Real do Colégio, Alagoas. Contador de histórias oral e escrita, pesquisador da memória territorial de seu povo e defensor da valorização da língua e cultura indígena.
Autor de contos publicados no blog kxnhenety.blogspot.com, dedica-se ao registro literário das narrativas históricas do Baixo São Francisco.
15. ORELHA DO LIVRO (Texto Promocional)
Uma aldeia pode ter muitos nomes.
Mas a terra reconhece apenas os passos de quem a pertence.
Em "Natiá Buyõ Dzéá", Nhenety Kariri-Xocó transforma memória em literatura e território em narrativa viva.
Entre rio, floresta, feira, quintal e retomada, o autor revela que resistir é continuar nomeando o mundo a partir da própria língua.
Este não é apenas um livro de contos.
É uma cartografia indígena do Baixo São Francisco.
Autor: Nhenety Kariri-Xocó













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