PARTE PRÉ-TEXTUAL (estrutura editorial)
FALSA FOLHA DE ROSTO
(Página apenas com o título)
PEDI NHENETÍ KROTSEBA
CRER COM TRADIÇÃO NA RESISTÊNCIA
Nhenety Kariri-Xocó
VERSO DA FALSA FOLHA DE ROSTO
Obra literária de narrativa tradicional indígena que reúne contos sobre memória, espiritualidade, resistência cultural e história do povo Kariri-Xocó do Baixo São Francisco.
Todos os contos foram originalmente publicados no blog do autor.
Blog do autor:
kxnhenety.blogspot.com
© Nhenety Kariri-Xocó
Todos os direitos reservados.
FOLHA DE ROSTO (Frontispício)
PEDI NHENETÍ KROTSEBA
CRER COM TRADIÇÃO NA RESISTÊNCIA
Contos de Memória, Fé e Resistência do Povo Kariri-Xocó
Autor
Nhenety Kariri-Xocó
Brasil
2026
FICHA CATALOGRÁFICA (modelo acadêmico)
Ficha catalográfica (modelo simplificado)
Nhenety Kariri-Xocó
PEDI NHENETÍ KROTSEBA: crer com tradição na resistência /
Nhenety Kariri-Xocó.
1ª edição.
Livro de contos que reúne narrativas sobre memória, tradição, religiosidade e resistência cultural do povo indígena Kariri-Xocó do Baixo São Francisco.
Inclui glossário de termos indígenas.
Literatura indígena brasileira
Cultura Kariri-Xocó
Narrativas tradicionais
História indígena do Nordeste
Resistência cultural
CDD — Literatura indígena brasileira
DEDICATÓRIA
Este livro é dedicado aos meus ancestrais e os anciãos e anciãs do povo Kariri-Xocó.
Àqueles que guardaram as histórias, os cantos, os ensinamentos e a memória do nosso povo mesmo em tempos difíceis.
Aos que ensinaram através da palavra falada, das conversas ao redor do fogo, das caminhadas pela mata, das histórias contadas nas casas e nos terreiros.
Foram eles que mantiveram viva a cultura, o Toré, a espiritualidade, os saberes da natureza e a identidade do povo Kariri-Xocó.
Muitos já partiram para o mundo dos encantados, mas suas palavras continuam vivas na memória de seu povo.
Que este livro seja também uma forma de agradecer, respeitar e honrar aqueles que vieram antes de nós.
E que as novas gerações possam continuar ouvindo, aprendendo e caminhando com a sabedoria dos mais velhos.
Ao povo de minha aldeia, que mantém viva a chama da tradição.
E às novas gerações, para que saibam que nossa história continua caminhando.
Com respeito e gratidão,
Nhenety Kariri-Xocó
AGRADECIMENTOS
Agradeço ao meu povo Kariri-Xocó, guardião de saberes antigos que atravessam gerações.
Aos anciãos e anciãs que mantiveram viva a memória do povo, transmitindo histórias, palavras e ensinamentos.
Aos jovens da aldeia, que continuam fortalecendo a identidade indígena.
A todos que valorizam a cultura indígena brasileira e compreendem que preservar memória é também construir futuro.
EPÍGRAFE
“A tradição não desaparece.
Ela apenas espera o momento certo
para voltar a caminhar.”
— Sabedoria Kariri-Xocó
SUMÁRIO
Falsa folha de rosto
Verso da falsa folha de rosto
Folha de rosto
Ficha catalográfica
Dedicatória
Agradecimentos
Epígrafe
Sumário
Prefácio
Apresentação
Introdução
Palavra do Autor
Contos ( 01 a 10 )
01. Ibenhete Onhantoá – As Imagens dos Santos na Parede;
02. Duantoá Okenerá – As Fogueiras dos Santos nas Portas;
03. Woroy Saicrã Boighytéá, História das Doenças Daqui e das que Vieram;
04. Tiri Moaîba Atseá – O Conselho de Amoãny e os Insetos que Passaram a Prejudicar as Pessoas;
05. Teudiokié Honéá Uanieá, A Luta Pelos Direitos Indígenas;
06. Woroia Wontseré – História dos Grupos de Toré;
07. Toráhekié - Quando os Pés Aprendem a Conversar;
08. Amiteá Nhenetí Tseho – O Fogo de Amotyra;
09. Woroy Toklikli Bohé Uanie, O Conto da Escola Onde a Palavra Anda;
10. Nhaehí Aiby, Resgate da Língua Kariri-Xocó.
Apêndices
Glossário
Dados biográficos do autor
Sobre a obra
Orelha do livro
PREFÁCIO
Este livro reúne contos que nascem da memória viva do povo Kariri-Xocó, habitantes históricos da região do Baixo São Francisco. As narrativas aqui apresentadas não são apenas histórias literárias, mas registros culturais que atravessam o tempo, conectando tradição indígena, experiências históricas e formas próprias de interpretar o mundo.
Ao longo dos contos, o leitor encontrará a presença constante de elementos fundamentais da identidade Kariri-Xocó: o Toré, a memória dos anciãos, a relação com a natureza, os encontros culturais e as estratégias de resistência diante das transformações impostas pela história.
Mais do que contar histórias, esta obra preserva vozes.
APRESENTAÇÃO
Os contos deste livro foram escritos a partir da memória cultural do povo Kariri-Xocó, unindo tradição oral e registro escrito.
Cada narrativa traz palavras da língua indígena, elementos históricos e experiências vividas ou transmitidas pelos mais velhos.
Assim, a obra procura cumprir dois objetivos:
preservar a memória cultural do povo Kariri-Xocó
e compartilhar com o mundo a riqueza de sua tradição.
INTRODUÇÃO
A história dos povos indígenas do Brasil é marcada por encontros, transformações e resistências. No caso do povo Kariri-Xocó, que habita a região do Baixo São Francisco, essa trajetória inclui a convivência com missionários, colonizadores, cidades em expansão e políticas de reconhecimento indígena.
Mesmo diante dessas mudanças, a memória cultural permaneceu viva por meio da oralidade, dos rituais, das narrativas e da transmissão de conhecimentos entre gerações.
Os contos reunidos neste livro procuram registrar parte dessa memória, apresentando episódios que refletem a relação entre tradição, espiritualidade, território e resistência.
CONTOS ( 01 a 05 )
01. IBENHETE ONHANTOÁ – AS IMAGENS DOS SANTOS NA PAREDE
Geriçá sentava-se sempre no mesmo banco de madeira, encostado à parede mais antiga da casa. Ali, o barro batido do chão conhecia seus passos desde menino, e a parede, coberta por imagens, guardava mais histórias do que muitos livros. Acima de sua cabeça, alinhadas com cuidado, estavam as Ibenhete Onhantoá, as imagens dos santos na parede, testemunhas silenciosas do tempo.
O jovem Içánauá, seu neto, observava curioso aquelas figuras de papel, pintura e fotografia. Para ele, eram imagens; para o avô, eram presenças.
— Vovô Geriçá, — perguntou o menino — por que o senhor fala com essas imagens como se fossem gente viva?
O ancião sorriu devagar, como quem abre uma porta antiga.
— Porque elas caminharam com nosso povo, meu neto.
E começou a contar.
Disse que o contato dos Uanieá, os indígenas, com a Erantoá, a igreja, vinha desde o princípio da chegada dos Caraí, os brancos, chamados Peróá, os portugueses. Vieram com eles os Waréá, missionários, e fundaram a Natiwaré, a Aldeia dos Padres. Ali, entre rezas estranhas e palavras novas, os primeiros encontros aconteceram.
A primeira Ibenhete, a imagem de santo que chegou àquelas terras, foi a de Hietçãdé Tohikiete, Nossa Senhora da Conceição. Era feita de Hé, madeira, e de Bunháongó, barro cozido em terracota. Não era apenas objeto: era símbolo de um tempo novo que se impunha, mas que também era reinterpretado pelos olhos indígenas.
— Ela viu nossos avós crescerem, — disse Geriçá — e ouviu nossas línguas misturadas às deles.
No século XIX, continuou o ancião, a Natiá, a aldeia, foi transformada em Natierácró, cidade. Mudaram os nomes, as cercas, os caminhos. Mas os Kenhéá, os costumes da Itu, a fé aprendida dos colonizadores e missionários, foram absorvidos pelos Uanieá à sua maneira, atravessando os séculos sem apagar quem eles eram.
Içánauá escutava atento.
Já na Natiá Samyá, a aldeia aculturada, na década de 1970, surgiram novas imagens. Na Woderáehó Uanieá, a Rua dos Índios, apareceram os Atsemiucan, vendedores ambulantes. Eles traziam objetos do mundo dos Caraí: rádios, retratos, calendários coloridos.
Foi nesse Uché, nesse tempo, que chegaram as Ibenhehanpé, imagens de parede de santos, e também a Ibentserã, a fotografia, imagem da pessoa no papel. Vieram as He-erã, pinturas no papel, e pouco a pouco as casas indígenas passaram a ter, em suas paredes, santos impressos, colados, pendurados.
Geriçá levantou-se com esforço e apontou para uma imagem amarelada.
— Essa aqui não é só papel, Içánauá. Ela carrega o tempo em que aprendemos a olhar o mundo do outro sem esquecer o nosso.
O neto se aproximou e tocou a parede com cuidado. Pela primeira vez, entendeu que aquelas imagens não estavam ali para substituir a memória indígena, mas para revelar o caminho tortuoso da convivência, da resistência silenciosa e da adaptação.
Naquela casa, as Ibenhete Onhantoá não eram apenas santos na parede. Eram marcas do encontro entre mundos, guardadas pelo olhar atento de Geriçá e agora acolhidas pela curiosidade viva de Içánauá.
E assim, entre imagens, palavras e silêncio, a história continuava.
02. DUANTOÁ OKENERÁ – AS FOGUEIRAS DOS SANTOS NAS PORTAS
Na Pehó Kayaku, a Lua da enxurrada de dezembro, o Iwo Opará, o grande Rio São Francisco, começava a subir suas Dzuá, águas trazendo no corpo os troncos de Sutuá, árvores antigas arrancadas pela força da correnteza. Era nesse tempo que Suré e Seremy, mestres do Toré, caminhavam atentos pelas margens, olhos de quem sabe ler os sinais da terra.
— Essa lenha já vem benzida pelo rio, dizia Suré, tocando o tronco úmido.
— É Héisú boa pras Buyêantoá, fogueira sagrada respondia Seremy. Vai aquecer santo e gente.
Os meninos Awanã e Naryãny seguiam atrás, curiosos, aprendendo em silêncio. Eles sabiam: nada ali era só madeira. Tudo tinha tempo, nome e espírito.
Quando chegava a Uanhí Kayaku, a Lua da lavoura de março, o povo abria as Bechiéá, roças plantando Masiche, milho e Ghinhé, feijão. E no dia 19, antes mesmo do sol se despedir, Suré acendia a primeira Buyê, a fogueira de São José, bem na Okenerá, a porta da casa.
— É aqui que o santo entra, explicava ele a Awanã.
— E é aqui que o Toré começa, completava Seremy, batendo leve o maracá.
As Woderáehó Natiá, ruas da aldeia, se enchiam de luz e cheiro de fumaça boa. As portas viravam lugares sagrados.
Na Dzó Kayaku, a Lua da chuva de junho, o coração da aldeia batia mais forte. No dia 13, a fogueira de Santo Antônio chamava o povo. Quando a Kayá chegava, a noite as Buyê mó torá Toré, fogueiras eram acesas, e a Bohé, a coletividade do povo, se formava em roda.
Seremy cantava, Suré puxava o passo, e Awanã e Naryãny já dançavam, aprendendo com o corpo aquilo que não se ensina com palavra.
Nos dias 23 e 24, o Masichi Erã, o milho verde, era colhido. As Amí Nhenetí, comidas da tradição surgiam: canjica, pamonha, pipoca. O Toré ecoava junto aos Buyêranke, os fogos que riscavam o céu em cores, sem apagar a força do chão.
Na finalização, nos dias 28 e 29, o Toré seguia noite adentro. Quando o Sabucanheyé, o galo, anunciava o amanhecer, era Suré quem entoava o canto final, como quem fecha um ciclo e abre outro. Agora, Awanã e Naryãny cantavam juntos, voz firme, memória viva.
Mesmo com a chegada da Hinebakró, da energia elétrica, com o Crameokli, o rádio e o Craiwonhé, Toca-disco tocando Amara Caraí, as cantigas de branco, o povo não largou o Toré. Dançava-se também o Torá Rocruté, o Toré com roupa de pano, sem esquecer a pintura da alma.
Era tempo de vestir Rocruté woroby, roupa nova, mas também de renovar o espírito antigo.
Suré olhou para os mais novos e disse baixinho:
— Enquanto houver fogo na porta, o povo não se perde.
E assim, ano após ano, as Duantoá Okenerá, as Fogueiras dos Santos nas Portas, continuam acesas — não só na lenha, mas no coração do povo Kariri-Xocó.
03. WOROY SAICRÃ BOIGHYTÉÁ, HISTÓRIA DAS DOENÇAS DAQUI E DAS QUE VIERAM
Naquele fim de tarde em que o sol já se escondia atrás das árvores do Opará, a jovem Namuãny sentou-se perto da fogueira, observando o velho Bidzamu, o Pajé, preparar seus remédios de folhas, raízes e palavras antigas. O cheiro da lenha queimando misturava-se ao silêncio respeitoso da aldeia.
Com o coração inquieto, Namuãny rompeu o silêncio:
— Bidzamu, é verdade que todas as Saicrã, as doenças, foram trazidas pelos Caraí, os brancos?
O velho Pajé ergueu os olhos devagar, como quem busca respostas no tempo antigo. Passou a mão enrugada sobre o rosto e respondeu com voz firme, porém serena:
— Não, Namuãny. Nem todas. Algumas Saicrã já moravam nesta terra antes dos Caraí chegarem. Outras, sim, foram as que aqui vieram, as Boighytéá.
Ele então começou a contar o que aprendeu com seus ancestrais, palavras guardadas como sementes.
Disse que os parentes Tupi da Aindzubé, da beira do mar, já conheciam certas doenças desde tempos imemoriais.
Falavam da Pereba, a ferida que não fecha; da Akubaby, as febres e a malária que enfraquecem o corpo; da Seba, os vermes que roubam a força das crianças; do Vupir, a doença silenciosa do coração; e da Poxi, que mancha o corpo e o destino.
— Essas — explicou Bidzamu — já caminhavam conosco antes do primeiro Caraí pisar nesta terra.
Mas o Pajé também falou das doenças que chegaram com os passos estrangeiros, trazidas nas roupas, na respiração e no contato forçado. Os Kariri do Opará logo perceberam sua presença cruel:
a Aba-póra, a peste que varria aldeias;
a Uhu, a gripe que derrubava fortes guerreiros;
os Borôrus, as bexigas que marcavam a pele e a memória;
a Tatapora, que atacava as crianças;
as Dsebudana, febres sem nome;
a Baekla, a tosse longa da tuberculose;
e a Wonghecri, a doença da mente, que confundia o espírito.
— Essas — disse o Pajé, abaixando a cabeça — chegaram com o mundo que mudou tudo.
Por muito tempo, as Saicrã levaram parentes, deixando aldeias em luto. Mas o tempo também trouxe caminhos de cura. Com a criação do Posto Indígena Padre Alfredo Dâmaso, surgiu uma enfermaria, remédios e novas formas de cuidado, somando-se ao saber antigo dos Pajés.
Hoje, contou Bidzamu com esperança, a Aldeia Kariri-Xocó tem um Polo Base de Saúde, com médico, dentista, enfermeira, técnicos e agentes de saúde. Um espaço inaugurado em 15 de maio de 2014, símbolo de resistência, sobrevivência e continuidade da vida.
O fogo da fogueira já virava brasa quando o Pajé concluiu:
— Enquanto houver memória, palavra e cuidado, nosso povo seguirá curando o corpo e o espírito.
Namuãny ficou em silêncio. Agora entendia que a história das doenças era também a história da luta e da permanência de seu povo.
04. TIRI MOAÎBA ATSEÁ – O CONSELHO DE AMOÃNY E OS INSETOS QUE PASSARAM A PREJUDICAR AS PESSOAS
Na sombra fresca de uma grande Sutuá, árvore às margens do Opará, sentava-se Amoãny, a anciã conselheira do povo. Seus cabelos brancos pareciam fios de lua, e seus olhos guardavam histórias mais antigas que as pedras do rio. Ao seu lado, brincavam suas netas, Kayany e Soany, curiosas como passarinhos recém-saídos do ninho.
— Vovó Amoãny, — perguntou Kayany, coçando o braço — por que existem insetos que mordem, coçam e fazem adoecer as pessoas?
Soany completou, espantando uma Kõpere, muriçoca que zumbia perto do ouvido:
— Eles sempre foram assim?
Amoãny sorriu devagar, como quem abre uma porta antiga, e respondeu:
— Não, minhas netas. Nem sempre foi assim. Ouçam, pois esta é uma história da Radadé, a Mãe Terra.
Ela apontou para a floresta que ainda resistia.
— Antigamente, quando as Retséá, as Florestas, cobriam quase toda a terra, havia equilíbrio. As Atseá, as Pessoas, sabiam viver em harmonia com a Antse, a Natureza. Nós, os Uanieá, indígenas respeitávamos cada ser, grande ou pequeno.
Kayany e Soany sentaram-se mais perto.
— Naquele tempo — continuou Amoãny — os Tiri, os Insetos, tinham seus lugares certos.
O Dú, o Piolho, vivia nos pelos dos animais silvestres.
O Munim, o Grilo, cantava escondido entre as folhas.
A Kõpere, a Muriçoca, repousava nas sombras das matas.
O Xykxyk, o Gafanhoto, saltava livre nas campinas.
A Pyxa, o Bicho-de-pé, dormia na Kitci, a areia.
O Chichã, o Percevejo, habitava troncos antigos.
O Takyra, o Carrapato, vivia nos corpos da Doyé, da Chorecá, do Hazú e de outros Keríá Retsé, os Animais Silvestres.
E a Tunguçu, a Pulga, fazia parte desse mesmo ciclo.
— Então eles não prejudicavam ninguém? — perguntou Soany.
— Não, — respondeu a anciã — porque cada ser tinha sua morada.
A voz de Amoãny ficou mais grave.
— Mas vieram os Caraí, chamados de Peró por outros povos. Derrubaram as florestas para plantar cana e levantar Natiacró, as Cidades. Onde antes havia vida diversa, restaram campos vazios e fumaça.
Kayany apertou a mão da irmã.
— Sem as florestas, os Tiri perderam seus lares — disse Amoãny. — Sem Keríá Retsé, animais silvestres, sem árvores, sem sombra. Então eles caminharam, sem querer, para as Erá, as Casas, para as Bechiéá, as Roças, para os corpos das pessoas e dos Keríerá, os Animais Domésticos.
— Foi aí que eles se tornaram… — murmurou Kayany.
— Tiri Moaîba Atseá — completou Amoãny — os insetos que prejudicam as pessoas.
O vento passou entre as folhas, como se concordasse.
— Lembrem-se, minhas netas — concluiu a anciã — o erro não nasceu nos insetos, mas no desequilíbrio causado pelos humanos. Quando a Antse é ferida, todos sofrem. Até os menores seres mudam seu caminho.
Kayany e Soany olharam para a floresta com novos olhos. Não viam mais apenas árvores, mas casas antigas de muitos povos invisíveis.
E Amoãny, em silêncio, agradeceu à Radadé por ainda restarem histórias para ensinar — e ouvidos dispostos a ouvir.
05. TEUDIOKIÉ HONÉÁ UANIEÁ, A LUTA PELOS DIREITOS INDÍGENAS
Naquele tempo em que existir como Tseho Uanie ainda exigia silêncio e cautela, dois irmãos sustentavam o povo Kariri como colunas invisíveis da mesma casa: Suíra, o Pajé, e Nidé, o Cacique. Um guardava a palavra antiga, o outro conduzia os passos do presente. Ambos caminhavam juntos, porque assim ensinavam os ancestrais: a luta sem espírito se perde, e o espírito sem luta se cala.
O princípio da resistência começou com o Boedo Nhenetíá, o esconder das tradições, imposto quando os missionários levaram o povo para a missão de Natiwaré, a Aldeia dos Padres. Ali, queriam dobrar o tempo indígena ao tempo do sino. Mas Suíra dizia que tradição não morre — ela apenas se oculta, como raiz em tempo de seca. Nessa época o Cacique era Jonas Ibá que faleceu e ficou Nidé em seu lugar.
Na Natierácró, a aldeia urbana misturada aos Caraí, brancos a vigilância era constante. Ainda assim, à noite, o povo saía em silêncio. Suíra e Nidé iam à frente, seguidos pelos mais jovens. Na Retsé, a floresta, longe dos olhos do mundo branco, o Matikay, ritual continuava vivo. Em Boedo, no segredo, o canto, a dança e a reza atravessaram muitos Battiá, anos mantendo o povo unido.
Com o passar dos anos, as Radda, terras foram tomadas, as antigas Natiá, aldeias transformadas em Naticróraí, cidades. Aos indígenas restou a Woderáehó Uanieá, a Rua dos Índios, estreita no espaço, mas larga de memória. Nidé observava aquilo com o coração apertado, e Suíra sentia que os antepassados pediam um novo movimento.
Foi então que, no início dos anos de 1942, os irmãos decidiram que o tempo do esconder precisava dar lugar ao tempo do falar. Começaram as Itohiquiete, longas e difíceis viagens até a cidade de Bom Conselho, em Pernambuco. Não iam sozinhos. Seguiam juntos Iraminõ, Jonas Ibá e Jurandi, irmão de sangue do povo e tio querido, homem de coragem e palavra firme.
A estrada era dura, mas os passos eram muitos. Em Bom Conselho, buscavam Claixiúa-lhá, o Padre Alfredo Dâmaso, assim chamado pelos Fulni-ô de Águas Belas. Nidé falava da terra roubada, das aldeias transformadas em cidade, do povo empurrado para a margem. Suíra rezava antes de cada encontro, pedindo que os antepassados sagrados amansassem os ouvidos de quem precisava escutar.
Foram muitas idas e vindas, muita espera, muita humilhação também. Mas a palavra insistida cria caminho. Em 1944, veio o reconhecimento: o Serviço de Proteção aos Índios (SPI) reconheceu oficialmente os indígenas Kariri de Porto Real do Colégio. Com isso, foi fundado o Posto Indígena Padre Alfredo Dâmaso, trazendo escola e enfermaria.
Naquele dia, Suíra chorou olhando para a terra, e Nidé pisou o chão com os pés, como quem reafirma pertença. Com o Posto vieram novamente os Honéá, os direitos: à Radda, à terra; à Pidékan, a saúde; e à Bohetekié, a educação. Não era o fim da luta, mas era a prova de que o caminho dos irmãos não fora em vão.
E assim, com Suíra e Nidé lado a lado — irmãos de sangue e de missão —, junto de Iraminõ, Ibá e Poité, o povo Kariri mostrou que a memória não se apaga, apenas espera o tempo certo de voltar a caminhar.
06. WOROIA WONTSERÉ – HISTÓRIA DOS GRUPOS DE TORÉ
A fogueira ardia no centro da aldeia, cuspindo faíscas que subiam ao céu como pequenas estrelas. Ao redor dela, a noite escutava. Foi ali que o jovem Nayrã, com os olhos curiosos e o coração inquieto, rompeu o silêncio e perguntou ao velho Nidé, que descansava sobre uma pedra antiga como a própria terra:
— Meu grande cacique, o que é o Toré? Desde quando ele existe? E para que serve?
O ancião demorou a responder. Fitou o fogo como quem consulta os espíritos e, em seguida, falou com voz baixa, mas firme, como se cada palavra tivesse peso sagrado:
— O Toré, meu neto, é o som que vem da flauta e ecoa no mundo invisível. É som sagrado. Ele nasce do trovão de Tupã e corre pelo vento até encontrar nossos corpos. Vem desde o começo do mundo, desde quando nossos antepassados aprenderam a escutar a terra.
Nidé explicou que o Toré não acontece por acaso. Ele nasce de um motivo, de uma necessidade do povo. Serve para agradecer a colheita, celebrar nascimentos, unir casamentos, honrar os mortos, fortalecer a paz, curar feridas do corpo e da alma, e também para afirmar a luta, a identidade e a memória.
Os anos passaram como passam as águas do rio São Francisco. Nayrã cresceu, tornou-se adulto, e em muitas fogueiras ouviu novamente as histórias do Toré. Soube então que, em 1859, quando o Imperador Dom Pedro II visitou a Aldeia Kariri de Colégio, foi recebido com um Toré conduzido pelo pajé Manoel Baltazar e por um grupo de indígenas. Mesmo diante do poder do Império, foi o som ancestral que falou primeiro.
Mais tarde, conversando com o velho Irecê, Nayrã compreendeu algo ainda mais profundo. O Toré foi essencial para o reconhecimento étnico dos Kariri de Colégio. Os grupos eram liderados pelos Duboheriá, os Mestres do saber: Manoel Ibá, Antônio Tinga, Giriçá e outros que, em 1935, dançaram e cantaram diante do pesquisador Carlos Estevão. Daquele registro nasceu, anos depois, em 1944, o Posto Indígena Padre Alfredo Dâmaso.
Mas o Toré não ficou preso às páginas dos estudos. Ele seguiu vivo. Em 1973, o cacique Irecê levou um grupo Kariri-Xocó para além da aldeia. Foram até Aracaju, capital sergipana, onde apresentaram o Toré ao mundo de fora. O som ecoou nos jornais, na televisão, e atravessou fronteiras invisíveis.
Com o tempo, muitos grupos de Toré nasceram, como sementes espalhadas pelo vento. Na década de 1990 surgiram o Seregê, liderado pelo cacique José Tenório; o Thydjo, sob a liderança de Cará; o Suré, do soprador mágico Ademir Cruz; o Wakái, do líder Mocó; e o Dzubukuá, conduzido por Nido. Esses grupos não apenas dançavam: vendiam artesanato, arrecadavam alimentos, curavam, ensinavam, falavam ao mundo.
Nos anos 2000, novos passos se somaram à roda. Vieram o Etçãmy, de Batoré; o Sabucá, de Pawanã; o Kaçafeita, de Coção; o Yegeri, das grandes chamadoras de chuva, liderado por Nelcide; e o Subatekié, do conhecimento, conduzido por Idiane Crudzá. Muitos outros ainda nasceram, tantos que a lista já não cabe na memória escrita.
Naquela mesma fogueira, agora já homem feito, Nayrã entendeu: o Toré nunca foi apenas dança ou canto. Ele é raiz viva. Enquanto houver quem escute o trovão de Tupã e bata o pé na terra, o Toré continuará renascendo, mais forte, mais firme, como esperança que não se apaga.
E o fogo, em silêncio, concordou.
07. TORÁHEKIÉ – QUANDO OS PÉS APRENDEM A CONVERSAR
Antes mesmo de Akauã aprender a dar nome às coisas, seus pés já sabiam o caminho. O chão da aldeia falava com ele, e ele respondia com passos. O Toré pulsava como coração antigo, ensinando que dançar não era divertimento apenas, mas escuta: da terra, dos mais velhos, do tempo que nunca morre.
O som do maracá vinha dos antepassados. Cada giro do corpo era um fio invisível ligando o presente ao começo de tudo.
Mas havia outros sons, vindos de fora do círculo sagrado.
Quando Akauã atravessava as estradas de terra até Porto Real do Colégio, seus ouvidos se enchiam de novidades: a sanfona que chorava e sorria ao mesmo tempo, os risos soltos dos salões, as vozes que escapavam do Crameokli, o rádio, espalhando músicas como sementes no vento. Eram sons dos Caraí, danças de festa, passos que não pediam silêncio nem reza — apenas corpo.
Foi à sombra de um salão iluminado que Akauã viu Helena pela primeira vez.
Ela dançava como quem conversa com o ar. Seus pés não marcavam o chão; deslizavam. Quando percebeu o olhar atento do jovem indígena à porta, sorriu sem estranheza, como se já o conhecesse desde antes, e estendeu a mão.
— Vem — disse apenas.
Akauã hesitou. Dentro dele moravam dois mundos. Um falava baixo, com voz antiga; o outro chamava alto, com riso e movimento. Aceitou.
Os primeiros passos foram tímidos, mas logo seus pés aprenderam a linguagem da Toráhekié Caraí, a dança de diversão do branco. Não era Toré. Não pedia silêncio. Não chamava os espíritos. Ainda assim, havia alegria, encontro, partilha.
Helena e Akauã passaram a se encontrar sempre que a música surgia. Ela queria saber do Toré, do maracá, da dança que nasce do chão. Ele queria entender aquelas danças que mudavam com o tempo, que vinham agora não só da sanfona, mas do Craiwonhé, o toca-disco, do Warudókli, o televisor, e das vozes presas em fitas e discos.
— A dança muda — dizia Helena —, mas as pessoas continuam precisando dançar.
Akauã guardava a frase como quem guarda semente.
Vieram os anos. Vieram as máquinas que levavam som e imagem para dentro das casas, inclusive para as Erá da aldeia. Alguns temeram que o Toré se apagasse diante de tantas novidades. Akauã também sentiu o medo silencioso de quem ama o que é antigo.
Numa noite de lua cheia, decidiu.
Convidou Helena para a aldeia.
O terreiro se abriu sob o céu. O Toré começou. O maracá chamou. Os corpos se alinharam. Akauã dançava como quem escreve no chão o nome do seu povo.
Helena não se moveu. Apenas sentiu. Compreendeu que ali a dança não era espetáculo — era raiz.
Quando o canto cessou, Akauã falou baixo:
— Agora, se quiseres, mostra a tua dança.
Helena ligou o pequeno rádio. O forró correu leve pelo ar. Alguns riram. Outros observaram. Pouco a pouco, pés se moveram. Não para imitar, mas para experimentar.
Naquela noite, o Toré continuou inteiro. E a Toráhekié também encontrou lugar.
Akauã aprendeu que dançar o mundo não o afastava de sua origem. Helena aprendeu que algumas danças não se aprendem com os pés, mas com o respeito.
E assim, entre a aldeia e a cidade, os passos começaram a conversar — sem que nenhum precisasse silenciar o outro.
08. AMITEÁ NHENETÍ TSEHO – O FOGO DE AMOTYRA
O sol ainda subia manso sobre o Iwo Opará quando Amotyra reacendeu o fogo da cozinha comunitária. O cheiro da lenha estalando misturava-se ao vento do rio, trazendo lembranças antigas, guardadas no tempo em que a Aldeia ainda era chamada de Natiwaré, a Aldeia dos Padres. Ali, onde muitos Tsehoá Uanieá haviam sido reunidos, nasceram histórias, dores e também um povo de tronco antigo: os Kariri-Xocó.
Amotyra conhecia essas histórias como quem conhece os caminhos do rio. Suas mãos, marcadas pelo tempo, mexiam a massa do Waraeró, o beijú de farinha de mandioca, enquanto ela falava aos visitantes que chegavam curiosos, vindos de longe para conhecer a culinária tradicional da Aldeia.
— Aqui não servimos apenas comida — dizia ela, com voz calma. — Servimos memória.
Os turistas se sentavam em silêncio respeitoso, observando cada gesto. Amotyra contava que muitos povos haviam se encontrado naquela terra: Kariri, Karapotó, Aconãs, Tupinambá, Xocó, Natú, e até os Peró, os portugueses. Cada um trouxe sua Samyá, sua cultura, e foi assim que as Amiteá, as comidas, ganharam tantas formas, cheiros e sabores.
Ela apontava para as panelas de barro alinhadas no chão.
— Somos povo do rio — explicava. — Do Iwo Opará tiramos os Wãmyá, os peixes. Da mata, as Utuá, as frutas, as Ubuá, as plantas, e também os Keríá, os animais. Tudo conversa entre si.
Amotyra colocava o Ghinhé, o feijão, para cozinhar lentamente, enquanto a Sekiki, a farinha fina de mandioca, descansava em cestos de palha. O Masiche, o milho, era assado nas brasas, estalando como se contasse histórias antigas.
Ela sorria ao falar das heranças Tupi: a Typy-óka, a tapioca que se molda como lua branca; o Mbeju; a Abati Pipoka que pula alegre no fogo; a Pa-soka; a Moka’eka cheirosa; o Pyrau, pirão; a Pamunhã; a Acanjic; o Pirá piri’a envolto em coco; e o Ka’wi, bebida que celebra encontros.
— Cada prato tem um espírito — dizia Amotyra — e cada espírito tem uma origem.
Também lembrava que os portugueses trouxeram novos Keríerá, os animais domésticos: o Curé "porco", o Cradzó "boi", o Wathõ "bode", a Erintuca "ovelha", o Sabucá "galo" e o Tute "pombo". Vieram também frutas "manga, jaca, laranja, maçã" e temperos "alho, cebola, tomate, cenora, canela, alface" que, com o tempo, aprenderam a morar na terra indígena como se sempre fossem dali.
Quando a comida ficou pronta, Amotyra convidou todos a se aproximarem. O fogo iluminava seu rosto sereno, e por um instante os visitantes compreenderam que não estavam apenas provando alimentos, mas entrando em um território de saber ancestral.
— Enquanto esse fogo existir — concluiu Amotyra — as Amiteá Nhenetí Tseho "Comidas da tradição do povo Kariri-Xocó" continuará contando sua história, não só com palavras, mas com o gosto da terra.
E o rio, lá fora, seguia seu curso, levando consigo o aroma da tradição viva.
09. WOROY TOKLIKLI BOHÉ UANIE, O CONTO DA ESCOLA ONDE A PALAVRA ANDA
O Conto da Escola Onde a Palavra Anda
Dizem os mais velhos que, antes mesmo de existirem paredes, a Escola já morava na palavra. E foi assim que começou a Woroy Toklikli, a História Oral do Ensino Nativo, quando o vento ensinava e o rio escutava.
Na aldeia Kariri-Xocó, a Nhenetí Toklikli, a Tradição Oral, caminhava de boca em boca como quem atravessa gerações sem cansar. Ali, a Woroy, a História, não dormia nos livros: ela acordava nos contos do Bohé Uanie, o Ensino Nativo.
Quem carregava essa palavra era o Worobü Woroyá, o Contador de Histórias. Quando homem, chamavam-no Duboherí, Mestre; quando mulher, Duboherídé, Mestra. Mas, acima de tudo, eram semeadores do saber.
Havia muitos Mestres na aldeia.
A Duboheridé Ruñohú, que ensinava a terra a virar cerâmica.
Os Duboruhúá, que trançavam artesanatos como quem escreve caminhos.
O Duboeretuá, que fazia do balaio uma morada.
O Duboheri Torá, que ensinava o corpo a conversar com o chão no Toré.
O Duboherubá, senhor das canoas, que conhecia os segredos do rio.
E o Duboheri Mydzé, que lia os peixes como se fossem estrelas d’água.
Mas nem só de mãos vivia o saber. Havia também os Dzenuandzoá, Guardiões da Cura Nativa;
os Dzenuá Samyá, Guardiões da Memória e da Cultura;
o Dzenu Katiantse, Guardião das Abelhas Nativas;
e os Dzenuá Antse, Guardiões da Natureza, que falavam baixo para não assustar a vida.
Com o tempo, a palavra pediu casa. E nasceu a Erátekié Uanie, a Escola Indígena.
Ali, o Ensino escrito passou a caminhar junto com o saber antigo.
Os Duboherí Tonranran, Mestres dos Livros, chegaram sem apagar os rastros dos ancestrais.
Cada professor e professora trazia consigo uma estrada de conhecimento:
o Duboruhú, que ensinava a Arte a enxergar o invisível;
o Duboherí Subateradá, que mostrava a Geografia como corpo da Terra;
o Doboherí Subantse, que revelava os segredos da Natureza;
o Dubosamy, que ensinava Cultura como raiz;
o Duboherí Nunú Peró, que dialogava com a Língua Portuguesa;
o Duboherí Worobü, que fazia a Matemática contar histórias;
o Doboherí Nunúanie, guardião da Língua Indígena;
e o Bohé Hibuyê, a Educação do Corpo, onde aprender era também mover-se.
Com ele, o Dubohé Hibuyê, Professor de Educação Física, ensinava que o corpo também pensa.
Entre todos eles caminhava Nhenety.
Não como quem manda, mas como quem escuta.
No Subatekié Uanieá, o Curso Saberes Indígenas, Nhenety era o Duboherí Utsohode, o Mestre Formador. Seu trabalho era juntar caminhos: o da escola, o da aldeia e o da memória.
Na Escola Indígena Estadual Pajé Francisco Queiroz Suíra, Nhenety e os professores sabiam que ensinar não era encher cadernos, mas acender histórias.
E toda vez que um aluno aprendia, a Woroy ganhava fôlego.
Porque enquanto houver quem conte, a História não se perde.
E assim segue a Woroy Toklikli Bohé Uanie:
um conto que não termina,
uma escola que anda,
uma palavra que vive.
10. NHAEHÍ AIBY NUNÚ, RESGATE DA LÍNGUA KARIRI-XOCÓ
Quando os missionários chegaram às margens do Opará, não vieram apenas com cruzes e promessas. Trouxeram também o silêncio.
Levaram os Uanieá, indígenas para a Natiwaré, a Aldeia dos Padres, onde escreveram o Tonranraná — livros de gramática e catecismo — para entender como nosso povo falava, como pensava, como nomeava o mundo.
Aprenderam nossa Nunú Antse, língua nativa para, depois, nos ensinar a esquecê-la.
Os Waréá, padres passaram a ensinar a Samy Caraí, a cultura dos brancos, e proibiram nossos antepassados de falar a língua nativa. A ordem era clara: a partir dali, só o Nunú Peró, língua portuguesa deveria ser ouvida. A língua Kariri foi empurrada para dentro das casas, depois para dentro da memória, até quase desaparecer no fundo do silêncio.
O tempo seguiu seu caminho duro.
A antiga Natiá, aldeia virou Naticróraí, povoação dos brancos. As terras foram tomadas, os direitos negados, e já no Império do Brasil nosso povo foi declarado invisível. Mas o espírito Kariri-Xocó nunca aceitou o fim.
Quando chegou a República, chegou também o tempo de lutar outra vez pelo reconhecimento étnico.
Foi na Woderáehó Uanie, a Rua dos Índios, que um gesto pequeno reacendeu a chama. Ali, no Posto Indígena, o indígena Iraminõ reuniu o que ainda restava da língua: poucas palavras, sobreviventes, datilografadas em quatro folhas de papel, em letras vermelhas — como se o sangue da memória ainda pulsasse nelas.
O jovem Nhenety soube da existência daquele vocabulário. Procurou Iraminõ. Sentaram, conversaram, compartilharam palavras como quem partilha sementes raras. Já na Aldeia Kariri-Xocó, na Fazenda Modelo, algo começou a nascer: o Nhaehí Aiby Nunú — o Resgate da Língua.
Com um Cramycá Samyonhé, um simples gravador de voz, Nhenety passou a traduzir os Wonhé Torá, os cantos de Toré, para a língua Kariri. Depois criou um blog, onde espalhou cantos, frases e palavras, oferecendo aos jovens da aldeia aquilo que quase lhes havia sido roubado: a própria voz.
A tecnologia, antes instrumento de apagamento, virou ali ferramenta de resistência.
Com o apoio da Thydêwá, ONG cultural, e ao lado de Sebastian, seu amigo Caraí, Nhenety gravou CDs e DVDs de cantos de Toré. O som antigo ganhou novos caminhos, atravessando fios, telas e gerações.
A revitalização da língua ganhou novo fôlego com a criação do grupo de WhatsApp OKAX, reunindo cerca de cento e vinte participantes. Logo depois nasceu a Escolinha da Língua Subatekié Nunú, conduzida por Indiane Crudzá e Nhenety — professora e coordenador pedagógico — onde a língua deixou de ser lembrança e voltou a ser ensinada.
Vieram também os estudiosos. Thea, Daiane, Elizabete. Caminharam junto, acompanharam as atividades, escreveram artigos e teses, sempre com a participação ativa de Nhenety e Indiane. A língua Kariri-Xocó, antes calada, passou a existir também nos livros, nas universidades, sem perder o chão da aldeia.
E assim, palavra por palavra, canto por canto, a Nunú Antse voltou a respirar.
Porque uma língua não morre enquanto houver quem a pronuncie com o coração.
Autor dos Contos: Nhenety Kariri-Xocó
APÊNDICES
Apêndice A
Contexto histórico do povo Kariri-Xocó
O povo Kariri-Xocó habita historicamente a região do Baixo Rio São Francisco, no município de Porto Real do Colégio, estado de Alagoas. Sua trajetória inclui processos complexos de contato cultural, missões religiosas, perda territorial e posterior reorganização comunitária.
Durante o período colonial e imperial, muitos povos indígenas da região foram reunidos em aldeamentos missionários. Entre esses espaços destacou-se a chamada Aldeia dos Padres (Natiwaré), que mais tarde se transformaria em núcleo urbano.
Apesar das transformações históricas, o povo Kariri-Xocó manteve práticas culturais fundamentais, como o Toré, a tradição oral, os conhecimentos sobre natureza e medicina tradicional.
No século XX, especialmente a partir da década de 1940, iniciou-se um novo ciclo de reconhecimento indígena, com a criação do Posto Indígena Padre Alfredo Dâmaso, ligado ao antigo Serviço de Proteção aos Índios (SPI).
Esse processo marcou o início de novas lutas por direitos territoriais, educação indígena diferenciada e políticas de saúde.
Apêndice B
O Toré como expressão cultural
O Toré é uma das manifestações culturais mais importantes dos povos indígenas do Nordeste brasileiro. Entre os Kariri-Xocó, ele representa:
ritual espiritual
expressão cultural
afirmação identitária
instrumento de resistência política
O Toré reúne canto, dança, música e elementos simbólicos que conectam o povo à memória ancestral.
GLOSSÁRIO
Antse — Natureza
Atseá — Pessoas
Bohé — Ensino
Duboherí — Mestre do saber
Erá — Casa
Iwo Opará — Rio São Francisco
Natiá — Aldeia
Nunú — Língua
Peró / Caraí — Branco / não indígena
Radda — Terra
Retsé — Floresta
Samyá — Cultura
Toré — Ritual tradicional indígena
Uanieá — Indígenas
PALAVRA DO AUTOR
Sou Nhenety Kariri-Xocó, contador de histórias de meu povo.
Escrevo porque as palavras também são caminhos de resistência. Durante muito tempo nossas histórias caminharam apenas pela oralidade, sendo contadas ao redor da fogueira, nas rodas de conversa ou nos momentos de aprendizado entre anciãos e jovens.
Hoje escrevo para que essas histórias continuem vivas também no papel.
Cada conto deste livro nasce de lembranças, ensinamentos e observações da vida de nosso povo.
Não escrevo apenas para contar histórias, mas para registrar a memória de quem somos.
PALAVRA FINAL
Memória e Caminho do Povo Kariri-Xocó
Este livro nasceu da memória.
Das histórias ouvidas desde criança, das palavras dos anciãos, das conversas nas casas, das lembranças da aldeia e das caminhadas pela nossa terra.
Muitas dessas histórias foram contadas ao redor do fogo, nas reuniões da comunidade, nos momentos de celebração e também nos tempos difíceis em que nosso povo precisou se manter firme para continuar existindo.
Escrever estas páginas foi uma forma de guardar essas lembranças, para que não se percam com o tempo.
O povo Kariri-Xocó segue caminhando.
Nossa cultura continua viva no Toré, na palavra dos mais velhos, na educação das crianças, na luta por direitos e no cuidado com a natureza.
Cada geração tem a responsabilidade de aprender, preservar e transmitir esses saberes.
Que estas histórias possam chegar aos jovens do nosso povo e também a todos aqueles que desejam conhecer e respeitar a história dos povos indígenas do Brasil.
A memória é um caminho que liga o passado ao futuro.
E enquanto nossas histórias continuarem sendo contadas, o povo Kariri-Xocó continuará existindo.
Com respeito à memória dos nossos antepassados e esperança nas novas gerações.
Nhenety Kariri-Xocó
SOBRE A OBRA
PEDI NHENETÍ KROTSEBA — Crer com tradição na resistência reúne dez contos que retratam aspectos históricos, culturais e espirituais do povo Kariri-Xocó do Baixo São Francisco.
As narrativas dialogam com a tradição oral indígena e com acontecimentos históricos reais, abordando temas como:
religiosidade e espiritualidade indígena
convivência cultural entre povos indígenas e colonizadores
história das aldeias
preservação da memória
luta pelos direitos indígenas
revitalização da língua Kariri-Xocó
educação indígena
culinária tradicional
tradição do Toré
O livro busca registrar saberes transmitidos por gerações e reafirmar a importância da cultura indígena como patrimônio vivo do Brasil.
DADOS BIOGRÁFICOS DO AUTOR
Nhenety Kariri-Xocó é indígena do povo Kariri-Xocó, da Aldeia Kariri-Xocó localizada em Porto Real do Colégio, no estado de Alagoas.
É contador de histórias oral e escrita, pesquisador da cultura indígena e divulgador da memória histórica de seu povo.
Seu trabalho dedica-se à valorização da tradição, da língua indígena e da cultura Kariri-Xocó, utilizando tanto meios tradicionais quanto ferramentas contemporâneas, como blogs, gravações e projetos culturais.
Nhenety também participa de iniciativas voltadas à revitalização da língua indígena Kariri-Xocó e ao fortalecimento da educação indígena.
Seu blog reúne textos, contos e reflexões sobre cultura, história e identidade indígena.
Blog do autor:
kxnhenety.blogspot.com
ORELHA DO LIVRO
Este livro nasce da memória.
Em PEDI NHENETÍ KROTSEBA — Crer com tradição na resistência, o autor indígena Nhenety Kariri-Xocó reúne contos que atravessam o tempo para contar a história de seu povo.
Entre fogueiras, cantos de Toré, histórias de anciãos, culinária tradicional, lutas políticas e resgate da língua ancestral, o leitor é convidado a conhecer um universo onde memória e resistência caminham juntas.
Cada narrativa revela que a cultura indígena não pertence apenas ao passado — ela continua viva no presente.
Mais do que um livro de contos, esta obra é um testemunho da permanência do povo Kariri-Xocó e de sua capacidade de transformar memória em futuro.
CONTRACAPA
PEDI NHENETÍ KROTSEBA — Crer com tradição na resistência reúne contos que preservam a memória, a cultura e a espiritualidade do povo Kariri-Xocó, habitantes da região do Baixo São Francisco, em Alagoas.
Nas páginas desta obra, o autor indígena Nhenety Kariri-Xocó conduz o leitor por narrativas inspiradas na tradição oral, nos ensinamentos dos anciãos e nas experiências vividas por seu povo ao longo da história.
Entre fogueiras de santos, cantos de Toré, histórias da natureza, lembranças das antigas aldeias e relatos das lutas por direitos indígenas, os contos revelam um universo onde memória, espiritualidade e resistência caminham juntas.
A obra também registra momentos importantes da história recente, como as mobilizações indígenas pela garantia de direitos após a Constituição de 1988, quando lideranças de diversos povos viajaram até Brasília para defender educação diferenciada e saúde indígena.
Mais do que um livro de contos, esta obra é um testemunho de identidade, resistência e continuidade cultural.
Ao compartilhar essas histórias, o autor contribui para manter viva a memória do povo Kariri-Xocó e fortalecer o respeito às culturas indígenas do Brasil.
Autor: Nhenety Kariri-Xocó













Nenhum comentário:
Postar um comentário