FALSA FOLHA DE ROSTO
PORTO REAL DO COLÉGIO: HISTÓRIA, CULTURA, RELIGIOSIDADE E MEMÓRIA POPULAR
Nhenety Kariri-Xocó
FOLHA DE ROSTO
PORTO REAL DO COLÉGIO: HISTÓRIA, CULTURA, RELIGIOSIDADE E MEMÓRIA POPULAR
Nhenety Kariri-Xocó
1ª Edição
Porto Real do Colégio – AL 2026
VERSO DA FOLHA DE ROSTO
Copyright © 2026 por Nhenety Kariri-Xocó
Todos os direitos reservados.
Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida sem autorização do autor, exceto para fins acadêmicos e de pesquisa, mediante citação da fonte.
Porto Real do Colégio – Alagoas Brasil
Edição independente.
FICHA CATALOGRÁFICA (MODELO)
Kariri-Xocó, Nhenety.
Porto Real do Colégio: história, cultura, religiosidade e memória popular / Nhenety Kariri-Xocó. – Porto Real do Colégio, AL: Edição do Autor, 2026.
xxx p. : il.
Inclui referências bibliográficas.
ISBN: 978-65-0000-000-0
História de Porto Real do Colégio. 2. Cultura Popular. 3. Kariri-Xocó. 4. Memória Social. 5. Patrimônio Cultural. I. Título.
ISBN (SIMBÓLICO)
ISBN: 978-65-0000-000-0
(Registro simbólico para fins de apresentação editorial.)
PREFÁCIO OFICIAL DA COLEÇÃO
Esta obra integra o Acervo Virtual Bibliográfico Nhenety Kariri-Xocó, iniciativa dedicada à preservação, produção e difusão do conhecimento construído a partir das vivências culturais do povo Kariri-Xocó.
Fundamentado na memória, na ancestralidade e na experiência histórica, o Acervo orienta-se pela compreensão de que o saber se constrói por meio de encontros, trocas e transformações culturais ao longo do tempo.
Os elementos culturais, científicos e literários oriundos de diferentes povos e autores são respeitados em suas origens, sendo compreendidos como influências legítimas no processo de formação do conhecimento, sem reivindicação de autoria sobre tais contribuições.
Ao mesmo tempo, reconhece-se a existência de uma produção autoral própria, resultante da interpretação singular da realidade vivida.
Dessa forma, a presente obra se insere em uma continuidade cultural dinâmica, na qual tradição e criação se articulam, preservando identidades e projetando novos horizontes.
ESCLARECIMENTO DO AUTOR
A presente obra constitui, neste momento, um pré-projeto editorial em fase de estruturação acadêmica e organização bibliográfica.
Sua versão definitiva será futuramente submetida aos processos de revisão, diagramação, normalização segundo os padrões da ABNT, catalogação bibliográfica, classificação CDD e obtenção de ISBN oficial.
Enquanto perdurar esta etapa preparatória, parte das informações editoriais apresentadas possui caráter provisório e simbólico, destinando-se exclusivamente à identificação preliminar da obra.
O autor reafirma o compromisso com a preservação cultural, histórica e intelectual do acervo desenvolvido ao longo de suas pesquisas e produções literárias.
Nhenety Kariri-Xocó
DEDICATÓRIA
Dedico esta obra ao povo Kariri-Xocó, aos moradores de Porto Real do Colégio, aos antigos mestres da tradição oral, aos pescadores, agricultores, artesãos, religiosos e trabalhadores que ajudaram a construir a memória coletiva de nossa terra.
Dedico também aos meus familiares e a todos aqueles que preservam a história e a cultura do Baixo São Francisco para as futuras gerações.
AGRADECIMENTOS
Agradeço aos anciãos Kariri-Xocó, aos moradores de Porto Real do Colégio, aos pesquisadores, professores, lideranças indígenas e amigos que compartilharam conhecimentos, histórias e documentos que contribuíram para a realização desta obra.
Agradeço igualmente aos leitores do Blog Kxnhenety, cuja participação ao longo dos anos incentivou a continuidade das pesquisas sobre a história regional.
EPÍGRAFE
“Um povo sem memória é como um rio sem nascente.”
(Provérbio adaptado pelo autor)
PREFÁCIO DO VOLUME
Este livro reúne memórias, acontecimentos históricos, manifestações culturais, tradições religiosas e experiências vividas pelos habitantes de Porto Real do Colégio e da Aldeia Kariri-Xocó.
A obra procura registrar aspectos da vida cotidiana que muitas vezes permanecem apenas na tradição oral, preservando para as futuras gerações elementos fundamentais da identidade regional.
RESUMO
Esta obra apresenta um panorama histórico e cultural do município de Porto Real do Colégio, Alagoas, e da Aldeia Kariri-Xocó. O estudo reúne informações referentes à formação social, manifestações religiosas, festas populares, folclore, cultura ribeirinha, atividades econômicas, instituições públicas, esportes, brincadeiras tradicionais e lugares de memória. A pesquisa fundamenta-se em bibliografia especializada, documentos históricos e relatos da tradição oral, contribuindo para a preservação do patrimônio cultural material e imaterial do Baixo São Francisco.
Palavras-chave: Porto Real do Colégio; Kariri-Xocó; Cultura Popular; História Regional; Memória Social.
ABSTRACT
This work presents a historical and cultural overview of the municipality of Porto Real do Colégio, Alagoas, Brazil, and the Kariri-Xocó Indigenous Village. The study gathers information regarding social formation, religious manifestations, popular festivals, folklore, riverside culture, economic activities, public institutions, sports, traditional games, and places of memory. The research is based on specialized bibliography, historical documents, and oral tradition narratives, contributing to the preservation of the material and immaterial cultural heritage of the Lower São Francisco River region.
Keywords: Porto Real do Colégio; Kariri-Xocó; Popular Culture; Regional History; Social Memory.
APRESENTAÇÃO
O presente livro resulta de anos de pesquisa, observação e registro das tradições culturais de Porto Real do Colégio e da Aldeia Kariri-Xocó. Seu objetivo é preservar a memória coletiva da população, valorizando personagens, acontecimentos, costumes, festas, religiosidade e formas de vida que marcaram a história regional.
NOTA DO AUTOR
As informações aqui reunidas foram obtidas por meio de pesquisa bibliográfica, entrevistas, observação participante e registros da tradição oral. Alguns fatos apresentados pertencem ao campo da memória popular e do imaginário coletivo, sendo preservados como parte do patrimônio cultural da comunidade.
MEMÓRIA DO AUTOR
Sou Nhenety Kariri-Xocó, indígena do povo Kariri-Xocó de Porto Real do Colégio, Alagoas. Desde cedo desenvolvi interesse pela história de meu povo, pelas narrativas dos mais velhos e pela memória das comunidades do Baixo São Francisco.
Esta obra representa uma contribuição à preservação da identidade cultural regional e ao fortalecimento da memória histórica das futuras gerações.
SUMÁRIO
Falsa Folha de Rosto
Folha de Rosto
Verso da Folha de Rosto
Ficha Catalográfica
ISBN (Simbólico)
Prefácio Oficial da Coleção
Esclarecimento do Autor
Dedicatória
Agradecimentos
Epígrafe
Prefácio do Volume
Resumo
Abstract
Apresentação
Nota do Autor
Memória do Autor
Apresentação
Introdução
Capítulo I – História Colonial, Imperial e Administrativa
Capítulo II – Religiosidade Católica e Festas Cristãs
Capítulo III – Religiosidade Afro-Brasileira
Capítulo IV – Festas Populares e Folguedos
Capítulo V – Cultura Popular, Artes e Entretenimento Circo
Capítulo VI – Folclore, Lendas e Imaginário Popular
Capítulo VII – O Rio São Francisco e a Cultura Ribeirinha
Capítulo VIII – Pesca e Modos de Vida Ribeirinha
Capítulo IX – Agricultura, Trabalho e Economia Rural
Capítulo X – O Progresso Agropecuário e a Formação Rural
Capítulo XI – Transportes, Comunicação e Modernização
Capítulo XII – Comércio e Vida Urbana
Capítulo XIII – Educação e Instituições Públicas
Capítulo XIV – Esporte e Lazer
Capítulo XV – Integração dos Kariri-Xocó na Sociedade Local
Capítulo XVI – Brincadeiras e Jogos Tradicionais
Capítulo XVII – Lugares de Memória e Patrimônio Colegiense
Capítulo XVIII – Tradições e Memórias Populares de Porto Real do Colégio e da Aldeia Kariri-Xocó
Considerações Finais
Referências Bibliográficas
INTRODUÇÃO
Porto Real do Colégio constitui um dos mais importantes núcleos históricos do Baixo São Francisco. Sua formação resultou da interação entre povos indígenas, colonizadores portugueses e populações afrodescendentes, produzindo uma rica diversidade cultural.
Entre os grupos indígenas da região, os Kariri-Xocó destacam-se por sua resistência histórica e pela preservação de importantes tradições culturais. Ao longo dos séculos, a convivência entre diferentes grupos sociais contribuiu para a construção de uma identidade regional singular.
Neste contexto, o presente livro procura registrar elementos da história, cultura, religiosidade e memória popular que ajudaram a moldar a vida social de Porto Real do Colégio e da Aldeia Kariri-Xocó.
CAPÍTULO I - HISTÓRIA COLONIAL, IMPERIAL E ADMINISTRATIVA
A história de Porto Real do Colégio, localizada às margens do rio São Francisco, é marcada pela presença indígena, pela atuação missionária dos jesuítas e pela formação das instituições civis, religiosas e administrativas que contribuíram para a construção do município ao longo dos séculos. Desde os aldeamentos indígenas e as propriedades coloniais do século XVII até a consolidação dos órgãos públicos municipais nos séculos XIX e XX, a localidade desenvolveu uma identidade própria, resultante do encontro de diferentes tradições culturais e processos históricos.
Fazenda Urubumirim – Propriedade do colonizador Antônio Souto de Macedo, doada à devoção de Nossa Senhora da Conceição em 1675. Em suas terras desenvolveu-se o núcleo que deu origem ao Colégio dos Jesuítas no Baixo São Francisco.
Residência de Urubumirim – Centro da administração inaciana no Baixo São Francisco durante o século XVII. A residência coordenava as aldeias de Colégio e São Brás, promovendo atividades ligadas à produção de artefatos de couro, enfermagem, artes e ofícios.
Igreja Matriz – A Igreja Paroquial de Nossa Senhora da Conceição, padroeira de Porto Real do Colégio, foi edificada em 1661 durante o período da missão jesuítica. Ao longo dos séculos, passou por diversas reformas e ampliações.
Visita de D. Pedro II – Segundo a tradição oral de Porto Real do Colégio, o imperador D. Pedro II visitou a localidade em 16 de outubro de 1859, sendo recebido pelo chefe tribal Manoel Baltazar.
Colônia São Francisco – Criada em 1878 no município de Porto Real do Colégio, teve como objetivo reunir e assistir os flagelados da seca. Sua administração foi confiada ao agrimensor Manoel de Souza Braga.
Intendência – Instituição administrativa criada em 1876, onde o intendente exercia as funções do poder executivo local. O primeiro intendente foi Francisco Xavier. A sede da Intendência funcionou até 1926, quando teve início a transição para a administração municipal moderna.
Prefeitura – Sede do Poder Executivo Municipal. Em Porto Real do Colégio, sua organização consolidou-se a partir de 1931, durante a administração de Joaquim Ferreira Barbosa, permanecendo como estrutura administrativa até os dias atuais.
Câmara Municipal – Instituição do Poder Legislativo local, criada em 1876. É o órgão responsável pela representação política da população do município por meio dos vereadores eleitos.
Delegacia de Polícia – Unidade de segurança pública existente desde o período da Intendência. Responsável pelas atividades policiais e investigações criminais, teve seu edifício reformado em 1921.
Paróquia de Nossa Senhora da Conceição – Instituição religiosa responsável pelos registros sacramentais e pela assistência espiritual da comunidade. Foi criada em 1827 e está localizada na Rua da Matriz, Centro de Porto Real do Colégio.
Centenário da Independência – Em 1922, Porto Real do Colégio participou das comemorações do Centenário da Independência do Brasil. As festividades incluíram desfiles cívicos com a participação da filha do ex-intendente Ignácio Albino de Figueiredo e de representantes indígenas do município.
Os marcos apresentados destacam alguns dos principais acontecimentos, edifícios, instituições e personagens que participaram da formação histórica de Porto Real do Colégio, evidenciando sua importância no contexto do Baixo São Francisco e do estado de Alagoas. O registro deste fatos contribuirá para os estudos para uma preservação da memória ancestral, cultural, histórica e espiritualidade.
CAPÍTULO II - RELIGIOSIDADE CATÓLICA E FESTAS CRISTÃS
A religiosidade católica exerce papel fundamental na formação histórica, social e cultural do município de Porto Real do Colégio, Alagoas. Desde o período colonial, as tradições cristãs foram incorporadas ao cotidiano da população por meio das celebrações litúrgicas, procissões, novenas, missões religiosas, festas de santos padroeiros e diversos ritos que marcam os ciclos da vida, da morte e das principais datas do calendário cristão.
Ao longo dos séculos, essas manifestações religiosas tornaram-se importantes elementos de identidade coletiva, reunindo famílias, fortalecendo laços comunitários e preservando costumes transmitidos de geração em geração. As festividades não se limitam aos aspectos espirituais, mas também promovem encontros sociais, atividades culturais, música, gastronomia e expressões populares que enriquecem a vida da comunidade.
Novenas de Nossa Senhora da Conceição, 29 de novembro até 8 de dezembro á procissão, com Parque de Diversões Jorginho, barracas de jogos e entretenimento.
Procissão de São Roque, a festa do Padroeiro de Porto Real do Colégio desde 1911, os festejos com missas nos dias 14, 15 e 16 de agosto procissão pelas ruas da cidade.
Bom Jesus dos Navegantes, a procissão de barcos, lanchas e navio Encomendador Peixoto, no Rio São Francisco, com a imagem de Bom Jesus de Porto Real do Colégio, no último domingo de fevereiro.
Domingo de Ramos, a festa móvel cristã, no domingo anterior à Páscoa, representando a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém, os colegienses participam da procissão com ramos no domingo que antecede a Sexta-Feira Santa.
Procissão Senhor dos Passos, o ritual católico da terceira semana da Quaresma, na procissão reproduz os momentos finais da vida de Jesus Cristo, encontro entre mãe e filho a caminho do Calvário.
Procissão das Almas, a procissão ocorre na madrugada da Sexta-feira da Paixão ao Sábado de Aleluia, os fiéis com velas acessas, vestem túnicas brancas, representam as almas.
Corpus Christi, a comemoração litúrgica da Igreja Católica, que acontece na quinta-feira, no domingo seguinte ao de Pentecostes, os fiéis enfeitam as ruas da cidade para a procissão.
Sexta-feira da Paixão, a data religiosa cristã que relembra a crucificação de Jesus, no município é dia santo, na tradição é dia de pedir as bençãos, dos pais, avós, padrinhos, também á troca de presentes.
Período de Natal, a festa religiosa cristã, enfeitam a casa com árvore natalina, ceia, bebidas, presentes, dando Feliz Natal, as 00:00 horas do dia 25 de dezembro, comemorando o nascimento de Cristo.
Réveillon, a virada de ano, festa de passagem do Ano-velho para o Ano-novo, no dia 31 de dezembro, com missa às 00:00 horas , pessoas se cumprimentam dando Feliz Ano Novo.
Missão de Frei Damião, as santas missões realizadas por Frei Damião e Frei Fernando, com seus sermões, caminhadas e romarias, também muito frequente em Porto Real do Colégio na década de 1970.
Coral da Igreja, o Coral da Igreja Nossa Senhora da Conceição, com 8 membros, animas as festas religiosas católica, no município de Porto Real do Colégio.
Batizados, após o rito cristão católicos, os padrinhos fazem uma festa na casa do afilhado (a), junto aos compadres, oferecem bebidas, comidas aos convidados.
Festa de Casamento, após a cerimônia de matrimônio religioso ou civil, os noivos fazem festa para os convidados, com música para todos dançar, comida e bebidas a vontade.
Fogueira do Morto, o fogo acesso a noite, na porta do falecido (a), a família do morto providencia café, pão para os visitantes, contam histórias sobre o finado relembrando sua trajetória até o dia amanhecer.
Sentinela do Morto, o rito de cantos fúnebre para a pessoa que morreu, geralmente com benditos, Ato de Contrição, Salve Rainha, as rezas vai até certas horas da noite.
Nesse contexto, destaca-se a participação ativa do povo Kariri-Xocó, que ao longo de sua trajetória histórica manteve relações de convivência e intercâmbio cultural com a sociedade local, integrando-se a diversas celebrações religiosas do município. Essa participação demonstra a riqueza do patrimônio cultural colegiense, marcado pela coexistência de diferentes tradições e formas de expressão da fé.
As festas religiosas, procissões, romarias, celebrações natalinas, ritos fúnebres e demais práticas apresentadas neste capítulo revelam a importância da religiosidade cristã na construção da memória coletiva de Porto Real do Colégio, constituindo um valioso legado histórico e cultural preservado pelas gerações passadas e presentes.
CAPÍTULO III – RELIGIOSIDADE AFRO-BRASILEIRA
Os afrodescendentes estão presentes no município desde os primeiros tempos da colonização do Baixo São Francisco, entre os séculos XVI e XVII. Em Porto Real do Colégio, a religiosidade de matriz africana permaneceu ativa ao longo das décadas de 1960 e 1970, destacando-se o Candomblé de Zuleica, figura muito querida e respeitada pela população local. Outras manifestações religiosas bastante frequentes nesse período incluíam oferendas dedicadas aos orixás, realizadas por parte da comunidade.
Candomblé de Zuleica – Liderança religiosa afro-brasileira ligada aos cultos de origem africana. Suas atividades eram realizadas na antiga Rua Santa Cruz. Entre as celebrações destacavam-se as festividades dedicadas a São Cosme e São Damião, realizadas anualmente em 27 de setembro.
Despacho de Macumba – Oferenda tradicionalmente associada a Exu, composta por elementos como cachaça, cigarro, galo preto, velas, pano preto, farofa e outros itens relacionados aos pedidos ou agradecimentos dirigidos à entidade. As oferendas eram geralmente depositadas por pessoas da cidade nas encruzilhadas.
Oferenda para Iemanjá – Homenagem dedicada à orixá das águas, realizada por meio de pequenos barcos lançados nas águas do Rio São Francisco. Nessas oferendas eram colocados presentes como rosas brancas, arroz-doce, perfumes, bijuterias e espelhos, especialmente durante as celebrações da passagem do Ano-Novo.
As manifestações religiosas afro-brasileiras constituíram importante elemento da diversidade cultural e espiritual de Porto Real do Colégio. Por meio de seus rituais, celebrações e práticas devocionais, contribuíram para a preservação de tradições ancestrais transmitidas entre gerações, fortalecendo a identidade cultural da comunidade e enriquecendo o patrimônio histórico do município.
CAPÍTULO IV - FESTAS POPULARES E FOLGUEDOS
As festas populares e os folguedos sempre desempenharam papel fundamental na formação da identidade cultural de Porto Real do Colégio. Por meio das danças, músicas, brincadeiras, celebrações religiosas e manifestações comunitárias, gerações de colegienses construíram laços de convivência, preservaram tradições e transmitiram conhecimentos que fazem parte da memória coletiva do município. Este capítulo apresenta algumas das principais festas e folguedos que marcaram diferentes épocas da história local, revelando a riqueza cultural de um povo que soube celebrar a vida, a fé, a amizade e suas raízes históricas.
Bumba Meu Boi, a festa popular de Porto Real do Colégio, personagens Boi ( índio Soyré ) e o Mateus ( Birra ), acontecia no mês de Janeiro, entre 1968 a 1974.
Guerreiro, um folguedo natalino, de Porto Real do Colégio, Alagoas, a fusão de reisados e chegança, do mestre Joaquim Migué, com Indígenas Kariri-Xocó entre 1958 a 1970.
Pastoril, com canções e danças religiosas no período natalino, apresentado no coreto próximo a Igreja Matriz de Porto Real do Colégio, deixou de ser praticado em 1973.
Carnaval, as Machinhas de Carnaval na Praça Pelé, com grande número de foliões, animadas pelo saxofonista Niraldo, clarinete Tonho e Companhia, foi até o período de 1986.
Serra-Velho, a brincadeira de provocação para mexer com os mais velhos da cidade, feita por pessoas irreverentes, na quarta-feira da Quaresma, desde o século XVIII, terminou em 1976, aqui em Colégio.
Forró Real, o evento que acontece no período junino de 23 a 29 de junho, criado em 1992, com artistas do forró pé de serra e forró eletrônico, o Forró Real é bastante famoso em Alagoas.
Bailes dos Anos 70, acontecia no Salão Paroquial na Rua Santa Cruz, promovidas pela turma da 8ª série do Ginásio São Francisco, com bandas de rock, cantores, com música da jovem guarda, forró-pé-de-serra, funcionou até 1988.
Discoteca Beira Rio, o salão de dança música disco, criada em 1977, era ponto de encontro dos colegienses, bastante frequentada aos finais de semana, funcionou até 1993.
Farra dos Seresteiros, o gênero musical, presente nas farras dos colegiense, nos fins de semana, sendo de dia ou a noite, Lu de Queiroz e amigos, entrou em declínio em 1989.
Pau de Sebo, a brincadeira de subir no mastro untado de sebo, para ganhar o prêmio, acontecia na Rua Dr. Clementino Dumont, em Porto Real do Colégio, no mês de janeiro até 1980.
As festas populares e os folguedos de Porto Real do Colégio representam muito mais do que momentos de diversão e entretenimento; constituem importantes expressões da história, da cultura e da identidade de seu povo. Embora algumas dessas manifestações tenham desaparecido com o passar do tempo, permanecem vivas na lembrança daqueles que as vivenciaram e nas narrativas transmitidas entre as gerações. Registrar essas tradições é contribuir para a preservação do patrimônio cultural colegiense, valorizando homens e mulheres que mantiveram acesa a chama das celebrações populares e ajudaram a construir a memória histórica do município.
CAPÍTULO V – CULTURA POPULAR, ARTES E ENTRETENIMENTO
A história cultural de Porto Real do Colégio é marcada por diversas manifestações artísticas, recreativas e informativas que contribuíram para a formação da identidade coletiva de seu povo. Ao longo das décadas, o município vivenciou momentos de lazer, educação e integração social por meio do cinema, da música, dos serviços de comunicação comunitária, dos parques de diversão e de outros espaços de entretenimento que se tornaram referências afetivas para várias gerações. Essas iniciativas fortaleceram os laços comunitários e enriqueceram a vida cultural da população colegiense.
Sessão de Cinema – A exibição de filmes no Salão Paroquial, realizada principalmente nos finais de semana, proporcionou momentos de lazer e convivência social para a população. Os filmes eram trazidos pelas empresas Cine Fernandes e Cine Veneza, da cidade de Propriá (SE), que atendiam Porto Real do Colégio entre os anos de 1971 e 1976.
Serviço de Alto-Falante – Importante canal de informação pública, cultura, educação e religiosidade, o serviço de alto-falante possibilitou a divulgação de notícias, avisos, campanhas comunitárias e eventos locais. Criado em 1952, marcou profundamente a memória dos colegienses, permanecendo ativo até sua desativação em 1984.
Filarmônica 7 de Julho – Fundada em 2001, a orquestra filarmônica tornou-se um dos maiores símbolos culturais do município. Suas apresentações animam festas religiosas católicas, eventos cívicos, comemorações populares e solenidades, representando motivo de orgulho para a população local.
Parque Jorginho – Tradicional espaço de diversão itinerante, com sede em Porto Real do Colégio, está presente na cidade desde o final da década de 1970. Suas atrações costumam integrar os festejos da padroeira Nossa Senhora da Conceição, realizados anualmente entre os dias 29 de novembro e 8 de dezembro.
Parque Aquático Sonho Real MM – Empresa fundada em 2018, localizada no Centro de Porto Real do Colégio (AL), voltada para atividades recreativas e turísticas. O empreendimento destaca-se como espaço de lazer familiar, oferecendo atrações aquáticas e contribuindo para o desenvolvimento do setor de entretenimento local.
A cultura popular, as artes e as formas de entretenimento desempenharam papel fundamental na construção da memória social de Porto Real do Colégio. O cinema, os serviços de comunicação comunitária, a música filarmônica e os parques de diversão proporcionaram momentos de aprendizado, integração e alegria para diferentes gerações. Esses elementos, além de promoverem o lazer, ajudaram a preservar tradições, fortalecer o sentimento de pertencimento e enriquecer o patrimônio cultural do município, tornando-se parte importante da história e da identidade do povo colegiense.
CAPÍTULO VI – FOLCLORE, LENDAS E IMAGINÁRIO POPULAR
O folclore constitui um dos mais importantes patrimônios culturais de um povo, preservando narrativas, crenças, costumes e ensinamentos transmitidos de geração em geração. Em Porto Real do Colégio e em toda a região do Baixo São Francisco, lendas, assombrações, personagens populares e histórias fantásticas fazem parte da memória coletiva, refletindo influências indígenas, europeias, africanas e sertanejas. Essas narrativas ajudaram a explicar fenômenos da natureza, transmitir valores morais e fortalecer a identidade cultural das comunidades ribeirinhas.
Tesouro dos Jesuítas – A lenda conta que, sabendo da expulsão da Companhia de Jesus em 1759, os jesuítas teriam escondido um grande tesouro nas proximidades do Rio São Francisco. Desde então, muitas histórias falam de riquezas enterradas que jamais foram encontradas.
Bezerro de Bronze – Segundo a tradição popular, existia uma escultura de bronze atribuída aos jesuítas, conhecida como Bezerro de Bronze. A narrativa afirma que os indígenas eram colocados em seu interior como forma de castigo e aprendizado da nova religião durante o século XVII.
Mudo da Marialva – Conhecido por sua força extraordinária, o estivador Davi tornou-se uma figura lendária do Baixo São Francisco. Piloto da canoa Marialva, viveu até o final da década de 1960, sendo lembrado pelas histórias que destacavam sua resistência física e coragem.
Papafigo – Lenda bastante difundida em diversas regiões do Brasil, conta a história de um velho que sequestrava crianças para retirar-lhes o fígado, acreditando que isso poderia curar uma doença misteriosa. Em Porto Real do Colégio, essa narrativa também fez parte do imaginário popular durante muitos anos.
Papai Noel – Figura lendária associada ao Natal, o bom velhinho de roupas vermelhas distribui presentes às crianças na noite de 24 de dezembro. Sua imagem tornou-se uma das mais queridas pelas novas gerações.
Serpente do Rio – Conta a lenda que uma mulher teria agredido a própria mãe e, após sua morte, foi transformada em uma gigantesca serpente. Diz-se que religiosos retiraram seu corpo do cemitério em um caixão de ferro e o lançaram às águas do Rio São Francisco, de onde teria seguido em direção ao mar.
Corpo Santo – Segundo a crença popular, algumas pessoas de grande santidade faleciam e seus corpos permaneciam incorruptos, como se ainda estivessem vivos. Essa condição era vista como sinal de virtude e proximidade com o divino.
Corpo Seco – Diferentemente do Corpo Santo, o Corpo Seco representa a pessoa extremamente má em vida. A tradição afirma que a terra rejeita seus restos mortais e que nem mesmo o inferno os aceita, restando apenas pele e ossos em uma aparência assustadora.
Lobisomem – Uma das lendas mais conhecidas do folclore brasileiro. Conta-se que um homem se transforma em uma criatura semelhante a um lobo durante as noites de lua cheia. Em Porto Real do Colégio existem diversas histórias relacionadas a esse ser lendário.
Caravanas Ciganas – Durante muitos anos, grupos de ciganos montados a cavalo acampavam nos arredores de Porto Real do Colégio. Além de comercializar diversos produtos, realizavam leituras de mãos e previsões, despertando curiosidade e fascínio entre os moradores.
As lendas e narrativas populares de Porto Real do Colégio representam uma valiosa herança cultural preservada pela tradição oral. Misturando fatos históricos, crenças religiosas, ensinamentos morais e elementos fantásticos, essas histórias ajudaram a formar a identidade cultural das comunidades ribeirinhas do Baixo São Francisco. Mais do que simples relatos imaginários, elas constituem testemunhos da criatividade, da memória coletiva e da forma como diferentes gerações compreenderam e interpretaram o mundo ao seu redor.
CAPÍTULO VII – O RIO SÃO FRANCISCO E A CULTURA RIBEIRINHA
O Rio São Francisco, conhecido carinhosamente como Velho Chico, sempre foi muito mais que um curso d'água para os habitantes de Porto Real do Colégio e de toda a região do Baixo São Francisco. Ao longo dos séculos, suas águas serviram como caminho para o transporte, fonte de alimento para os pescadores, espaço de lazer para as famílias e cenário de manifestações culturais que marcaram gerações. A vida ribeirinha desenvolveu costumes próprios, moldados pela convivência diária com o rio, criando uma identidade cultural profundamente ligada às canoas, aos portos, às pescarias, às embarcações e às tradições populares que ainda permanecem vivas na memória do povo.
Porto de Baixo, o antigo cais do porto em Colégio, onde ficavam atracadas as canoas de transporte e pescaria. Desde 1972, o local passou a funcionar como ponto de embarque e desembarque das lanchas que fazem a travessia entre Porto Real do Colégio e Propriá.
Porto das Canoinhas, o tradicional atracadouro das canoas de pescaria, localizado na margem do Rio São Francisco, em frente à bomba d'água do SAAE, em Porto Real do Colégio, permanece em atividade até os dias atuais.
Porto dos Homens, local protegido pela vegetação às margens do Rio São Francisco, próximo à Salgadeira, onde os homens mais velhos costumavam tomar banho nus. O costume permaneceu até aproximadamente 1984.
Coroas de Areia, praias de água doce formadas por bancos de areia que surgem como ilhas fluviais no Rio São Francisco, em Porto Real do Colégio, constituindo um dos principais espaços de lazer da população durante os fins de semana.
Corrida de Barcos, competição fluvial realizada com pequenas canoas de pescaria, geralmente durante as festividades de Bom Jesus dos Navegantes, nas manhãs do mês de janeiro, antes da procissão.
Batim, salto ornamental praticado pelos ribeirinhos a partir dos barrancos do Rio São Francisco durante os períodos de cheia. Atualmente ocorre com menor frequência devido ao assoreamento e às alterações no regime natural do rio.
Canoas do São Francisco, embarcações tradicionais que fizeram parte da cultura e da economia ribeirinha. Entre elas destacou-se a famosa canoa Canindé. Seu uso entrou em declínio após a expansão do transporte rodoviário e a consolidação da BR-101 na década de 1970.
Lanchas do São Francisco, embarcações motorizadas que se destacaram no transporte de cargas e passageiros no Baixo São Francisco durante a década de 1970, entre elas Sumatra, Sãobraense, Goiânia e Oriente.
Lanchas de Colégio, a navegação motorizada no município teve início por volta de 1960 com a lancha Vitória, pertencente à SUVALE. Posteriormente surgiram outras embarcações, como Fátima, Nordeste, Iraci e Cláudia, contribuindo para a mobilidade regional.
Navegação a Vapor, iniciada no Baixo São Francisco em 1852, ligando Penedo a Piranhas, em Alagoas. O último vapor da região, o Encomendador Peixoto, encerrou suas atividades em 1969.
Grandes Lanchas, embarcações motorizadas que passaram a operar regularmente no Baixo São Francisco a partir da década de 1950, destacando-se a Tupã, Tupy e Tupigy, que realizaram linhas entre Penedo e Piranhas até o encerramento da navegação em 1979.
A história do Rio São Francisco confunde-se com a própria história de Porto Real do Colégio. Seus portos, embarcações, praias fluviais e tradições populares testemunharam o cotidiano de inúmeras gerações que construíram sua existência às margens do Velho Chico. Embora muitas práticas tenham desaparecido ou se transformado com o avanço dos tempos modernos, a memória da cultura ribeirinha continua viva na lembrança dos moradores e no patrimônio cultural da região. Preservar essas histórias significa manter viva a identidade de um povo que encontrou no rio não apenas um meio de sobrevivência, mas também uma fonte permanente de cultura, convivência e pertencimento.
CAPÍTULO VIII – PESCA E MODOS DE VIDA RIBEIRINHA
A pesca artesanal sempre desempenhou papel fundamental na subsistência, na economia e na identidade cultural das populações ribeirinhas do Baixo São Francisco. Ao longo de gerações, homens e mulheres desenvolveram técnicas próprias de captura de peixes, utilizando instrumentos confeccionados de acordo com os conhecimentos transmitidos pelos mais velhos. Essas práticas, associadas ao cotidiano das canoas, aos ciclos das águas e à convivência com o rio, constituem um importante patrimônio cultural que continua presente na vida das comunidades de Porto Real do Colégio.
Pescaria de Tarrafa – Arremesso manual de uma rede circular de malha, lançado de forma que se abra completamente antes de tocar a água. Trata-se de uma das técnicas tradicionais mais antigas da pesca artesanal, ainda amplamente utilizada pelos pescadores da região.
Pesca com Rede de Bóia – Utiliza uma extensa rede de malha equipada com bóias, atualmente muitas vezes confeccionadas em isopor, podendo alcançar cerca de 100 metros de comprimento. A atividade é realizada principalmente em canoas que navegam pelas águas do Rio São Francisco.
Pesca com Rede de Galão – Rede de arrasto de menor porte, sustentada por dois suportes de madeira. Possui um compartimento em forma de bolsa na parte inferior, onde os peixes ficam retidos durante a captura.
Mercado do Peixe – O Mercado do Peixe Alírio Nunes de Oliveira, inaugurado em 2006, tornou-se um importante centro de comercialização da produção pesqueira local, reunindo pescadores e consumidores do município de Porto Real do Colégio e contribuindo para o fortalecimento da economia ribeirinha.
A pesca artesanal representa muito mais do que uma atividade econômica para os povos ribeirinhos. Ela expressa saberes tradicionais, formas de organização comunitária e uma relação histórica de respeito e dependência das águas do Rio São Francisco. Mesmo diante das transformações sociais e ambientais ocorridas ao longo do tempo, as técnicas e costumes ligados à pesca permanecem como símbolos da resistência cultural e da identidade das comunidades que vivem às margens do Velho Chico, preservando uma herança transmitida de geração em geração.
CAPÍTULO IX – AGRICULTURA, TRABALHO E ECONOMIA RURAL
A agricultura e as atividades produtivas rurais constituíram, ao longo de séculos, uma das principais bases da sobrevivência e do desenvolvimento econômico de Porto Real do Colégio. O trabalho coletivo, a utilização dos recursos naturais das lagoas e várzeas, a cooperação entre famílias e as práticas tradicionais de cultivo e beneficiamento dos alimentos moldaram a vida cotidiana da população local. Neste capítulo são apresentados os principais elementos da economia rural colegiense, destacando atividades agrícolas, manufaturas artesanais e formas comunitárias de trabalho que contribuíram para a formação histórica, cultural e econômica do município.
Plantação de Arroz – O cultivo de arroz nas regiões da Lagoa Grande e da Várzea do Itiúba contou com a participação de indígenas e da população local, que trabalhavam como meeiros entre 1923 e 1977.
Batimento de Arroz – Trabalho realizado em sistema de mutirão para beneficiar o arroz colhido. Os participantes batiam o arroz com cacetes, realizavam a limpeza dos grãos e o ensacamento da produção. Tradicionalmente eram servidas feijoadas aos trabalhadores. Essa atividade manual permaneceu até aproximadamente 1975, quando passou a ser substituída por máquinas agrícolas.
Fábrica de Arroz – Usina de beneficiamento de arroz criada em 1937 na então Rua dos Índios, posteriormente denominada Rua São Vicente. A unidade impulsionou a economia do município de Colégio, permanecendo em atividade até sua desativação em 1969.
Farinhada – Antiga prática comunitária e cooperativa de produção de farinha de mandioca, ainda presente em Porto Real do Colégio, especialmente nas comunidades rurais do interior do município, preservando conhecimentos tradicionais transmitidos entre gerações.
Mutirão da Casa de Taipa – Trabalho coletivo realizado por familiares, amigos e vizinhos para a construção da moradia de um novo casal. Essa tradição solidária, bastante comum no passado, encontra-se atualmente em processo de desaparecimento.
Várzea do Itiúba – Terras inundáveis pelas águas do rio São Francisco e do rio Itiúba, onde a população mais humilde de Colégio retirava seu sustento por meio da agricultura, da pesca e da caça. Em 1975, a área foi desapropriada pela Codevasf.
Projeto Itiúba – Projeto de irrigação voltado ao cultivo de arroz, implantado em 1975, abrangendo uma área de aproximadamente 2.000 hectares e beneficiando 305 famílias de parceleiros no município de Porto Real do Colégio. O empreendimento impulsionou significativamente a economia regional.
Olaria – Atividade dedicada à fabricação artesanal de tijolos, telhas e outros artefatos de barro, introduzida pelos missionários jesuítas no Baixo São Francisco no século XVII. Desenvolvida nas regiões das lagoas do Cordeiro, Grande e Comprida, constituiu importante fonte de trabalho e renda para indígenas e população local, permanecendo ativa até 1994.
Caieira de Tijolos – Forno artesanal de formato piramidal utilizado na queima de tijolos, possuindo na base aberturas destinadas à alimentação do fogo com lenha. A maior caieira construída pelos Kariri-Xocó alcançou a produção de aproximadamente 100 mil tijolos, utilizando dez bocas de fogo, nas margens da Lagoa do Cordeiro, em 1976.
A história da agricultura, do trabalho comunitário e das atividades produtivas rurais de Porto Real do Colégio revela a capacidade de adaptação, cooperação e resistência de seu povo. Das plantações de arroz às olarias, das farinhadas aos mutirões de construção, cada atividade representou não apenas uma fonte de sustento, mas também um importante elemento de identidade cultural. Mesmo diante das transformações tecnológicas e das mudanças econômicas ocorridas ao longo do tempo, essas práticas permanecem como parte da memória coletiva do município e do patrimônio histórico dos povos indígenas e das comunidades tradicionais do Baixo São Francisco.
CAPÍTULO X– O PROGRESSO AGROPECUÁRIO E A FORMAÇÃO RURAL
No século XIX, a antiga Aldeia de Porto Real do Colégio foi transformada em vila, e grande parte de suas terras passou gradativamente para o domínio do Estado e de particulares. Ao longo do século XX, essas áreas receberam diferentes denominações e funções dentro de projetos governamentais voltados ao desenvolvimento agropecuário, à experimentação agrícola e à formação de trabalhadores rurais. Tais iniciativas contribuíram para a ocupação econômica da região e para a modernização das atividades agrícolas. Nesse processo, os indígenas Kariri-Xocó foram progressivamente integrados às transformações ocorridas em seu território tradicional, até que, após décadas de reivindicações e resistência cultural, retomaram parte de suas terras ancestrais, onde foi oficialmente restabelecida a Aldeia Kariri-Xocó.
Fomento Agrícola – Em 1940, o antigo Serviço do Algodão passou a denominar-se Fomento Agrícola, assumindo a administração da propriedade e transferindo sua vinculação da esfera estadual para a administração do Governo Federal.
Campo Experimental das Sementes – Em 25 de agosto de 1941, o Fomento Agrícola de Porto Real do Colégio foi reorganizado como Campo Experimental das Sementes, destinado ao desenvolvimento de pesquisas e experiências voltadas ao aprimoramento da produção agrícola regional.
Posto Agropecuário Federal – Também em 1941, foi instalado o Posto Agropecuário Federal em Porto Real do Colégio, permanecendo sob a administração do Fomento Agrícola até 1955.
Centro de Treinamento para Tratoristas – Em 1955, o Ministério da Agricultura, por intermédio da Superintendência do Ensino Agrícola e Veterinário, em convênio com a SUVALE e o Ministério do Interior, implantou o Centro de Treinamento para Tratoristas, que funcionou até 1960, promovendo a capacitação técnica de trabalhadores rurais.
Fazenda Escola – Em 1960, o Centro de Treinamento para Tratoristas passou a denominar-se Fazenda Escola. A instituição oferecia cursos de Extensão Rural Doméstica destinados a jovens mulheres em regime de internato, dispondo inclusive de atividades culturais e educativas, como sessões de cinema. Suas atividades foram encerradas em 1963.
Fazenda Modelo – Em 1964, a Fazenda Escola foi transformada em Fazenda Modelo, dedicada à criação de gado holandês para fornecimento de matrizes aos pecuaristas da região, além do desenvolvimento de projetos de piscicultura. A instituição permaneceu em funcionamento até 1978.
Aldeia Kariri-Xocó – Em 1978, as terras e a sede da antiga Fazenda Modelo passaram a constituir a Aldeia Kariri-Xocó, quando os indígenas retornaram da Rua São Vicente, localizada na periferia da cidade de Porto Real do Colégio, para reassumir parte de seu território tradicional.
EMATER – O Instituto de Assistência Técnica e Extensão Rural (EMATER), criado em 1975, passou a atuar posteriormente no município de Porto Real do Colégio, oferecendo assistência técnica, orientação produtiva e apoio ao desenvolvimento das atividades rurais.
FUNRURAL – O Fundo de Assistência ao Trabalhador Rural (FUNRURAL), criado em 1971, levou à população do campo benefícios previdenciários e serviços de saúde itinerantes, incluindo atendimento médico, odontológico e de enfermagem por meio de ônibus ambulatoriais que percorriam povoados e aldeias. O programa foi extinto em 1985.
A sucessão de instituições agrícolas implantadas em Porto Real do Colégio ao longo do século XX demonstra a importância estratégica da região para os projetos governamentais de desenvolvimento rural no Baixo São Francisco. Desde o Fomento Agrícola até a Fazenda Modelo, essas iniciativas contribuíram para a modernização da agricultura, a formação de trabalhadores e a introdução de novas técnicas produtivas. Contudo, além de sua dimensão econômica, esse processo também esteve ligado à história do território tradicional dos Kariri-Xocó. A transformação das antigas terras indígenas em áreas de experimentação e produção agropecuária marcou um período de profundas mudanças sociais e culturais. A criação da Aldeia Kariri-Xocó, em 1978, representou não apenas uma nova denominação administrativa, mas um importante marco na retomada territorial e na reafirmação da identidade histórica de um povo que preservou suas tradições mesmo diante das transformações impostas ao longo dos séculos.
CAPÍTULO XI – TRANSPORTES, COMUNICAÇÃO E MODERNIZAÇÃO
A segunda metade do século XX marcou profundas transformações em Porto Real do Colégio. O desenvolvimento dos meios de transporte e comunicação aproximou a cidade dos grandes centros regionais, facilitando o deslocamento de pessoas, mercadorias e informações. A chegada da ferrovia, a travessia por balsas e ferry-boats, a construção da ponte sobre o Rio São Francisco, a presença de um campo de aviação e a expansão dos serviços telefônicos simbolizaram uma nova etapa da história colegiense, caracterizada pelo progresso, pela integração regional e pela modernização da vida cotidiana.
Maria Fumaça – A locomotiva a vapor, conhecida popularmente como Maria Fumaça, com seu característico apito, faz parte da memória afetiva dos colegienses. Integrante da rede ferroviária da RFFSA (Rede Ferroviária Federal S.A.), operou entre 1950 e 1972. Um exemplar permanece preservado junto à antiga estação ferroviária como testemunho desse importante período histórico.
Estação Ferroviária – Local de embarque e desembarque de passageiros, bem como de carregamento e descarregamento de mercadorias. A estação de Colégio funcionou entre 1950 e 1972, desempenhando papel fundamental na integração econômica e social do município.
Armazém Carnaúba – Instalação destinada ao armazenamento e movimentação de cargas transportadas pela Rede Ferroviária Federal S.A. Localizado em Porto Real do Colégio, funcionou entre 1950 e 1972, sendo importante centro de trabalho para estivadores e demais profissionais ligados ao transporte ferroviário.
Grande Hotel – Estabelecimento de hospedagem, alimentação e entretenimento vinculado ao movimento ferroviário da região. Situado em Colégio, funcionou entre 1950 e 1972, acolhendo viajantes, comerciantes e funcionários da ferrovia.
Ferry-Boats – Embarcações especializadas no transporte de composições ferroviárias através do Rio São Francisco, ligando Porto Real do Colégio (AL) a Propriá (SE). Operaram entre 1967 e 1972, permitindo a continuidade do tráfego ferroviário entre os dois estados.
Porto das Balsas – Atracadouro destinado às balsas que realizavam o transporte de pessoas, mercadorias, caminhões e automóveis pelo Rio São Francisco, estabelecendo a ligação entre Porto Real do Colégio e Propriá. Funcionou principalmente entre 1967 e 1972, destacando-se a tradicional Balsa Atlântida, muito lembrada pela população regional.
Ponte sobre o Rio São Francisco – Importante obra de engenharia que passou a ligar os estados de Alagoas e Sergipe, unindo as cidades de Porto Real do Colégio e Propriá por meio da BR-101. Sua construção foi iniciada em 1968 e sua inauguração ocorreu em 1972, substituindo gradativamente os antigos sistemas de travessia fluvial.
Campo da Aviação – Área destinada ao pouso e decolagem de aeronaves de pequeno porte, localizada a leste da cidade de Porto Real do Colégio. Utilizado desde a década de 1950 até aproximadamente 1976, permaneceu vivo no imaginário popular como símbolo dos primeiros contatos da população local com a aviação.
TELASA S/A – Telecomunicações de Alagoas – Empresa responsável pelos serviços de telefonia no estado, chegou a Porto Real do Colégio na década de 1970, ampliando significativamente as possibilidades de comunicação da população. Em 1998, com o processo de privatização do sistema brasileiro de telecomunicações, seus serviços foram incorporados por novas operadoras, iniciando uma fase que culminaria na popularização dos telefones fixos e, posteriormente, dos aparelhos celulares.
Os avanços nos transportes e nas comunicações transformaram profundamente a realidade de Porto Real do Colégio durante o século XX. A ferrovia, as embarcações de travessia, a ponte sobre o Rio São Francisco, o campo de aviação e a expansão dos serviços telefônicos contribuíram para integrar o município às dinâmicas econômicas e sociais da região. Embora muitos desses equipamentos e serviços tenham desaparecido ou sido substituídos por tecnologias mais modernas, permanecem vivos na memória coletiva como marcos de uma época de progresso, desenvolvimento e esperança para as gerações que testemunharam a modernização da cidade.
CAPÍTULO XII – COMÉRCIO E VIDA URBANA
Ao longo de sua história, Porto Real do Colégio desenvolveu uma dinâmica comercial que acompanhou o crescimento populacional e as transformações econômicas do Baixo São Francisco. Desde as antigas feiras livres e pequenas bodegas familiares até os estabelecimentos comerciais de maior porte e os serviços de fiscalização estadual, o comércio desempenhou papel fundamental no abastecimento da população, na circulação de mercadorias e na integração do município com as cidades vizinhas. Esses espaços comerciais também se constituíram como importantes locais de convivência social, troca de informações e fortalecimento das relações comunitárias.
Feira da Cidade – Tradicional evento comercial realizado às sextas-feiras, reunindo feirantes, comerciantes ambulantes e produtores rurais de Porto Real do Colégio e de municípios circunvizinhos. A feira tornou-se um dos principais centros de abastecimento popular, movimentando a economia local e fortalecendo os laços sociais e culturais da região.
Mercearia do Teixeirinha – Estabelecimento comercial tradicional de Porto Real do Colégio, referência no comércio local durante grande parte do século XX. Comercializava gêneros alimentícios, bebidas, ferramentas e diversos produtos de consumo cotidiano, permanecendo em funcionamento até 1985.
Mercearia de Antônio Donato – Importante casa comercial da cidade, especializada na venda de gêneros alimentícios, utensílios domésticos e mercadorias diversas. Durante décadas foi uma das principais referências comerciais de Porto Real do Colégio, mantendo suas atividades até a década de 1990.
Bodega de Seu Joaquim – Pequena mercearia localizada na Rua Dr. Clementino Dumont, onde eram comercializados produtos de primeira necessidade e artigos variados. Seu proprietário, Joaquim Migué (Miguel), tornou-se figura muito estimada pela população, integrando a memória afetiva e a cultura popular do município.
Mercado da Carne Eraldo Custódio – Equipamento público inaugurado em 2006 com a finalidade de concentrar e organizar a comercialização de carnes bovinas, suínas e de aves. Sua criação contribuiu para melhorar as condições de abastecimento e atendimento aos consumidores de Porto Real do Colégio.
Posto Fiscal Estadual – Unidade da Secretaria da Fazenda do Estado de Alagoas implantada em 1972, às margens da Rodovia BR-101. Destinava-se à fiscalização de mercadorias em trânsito e ao controle da arrecadação tributária, especialmente do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS), desempenhando importante papel na administração fiscal da região.
A história do comércio e da vida urbana de Porto Real do Colégio reflete a capacidade de adaptação e crescimento de sua população diante das transformações econômicas e sociais ocorridas ao longo do tempo. Feiras, mercearias, bodegas, mercados e órgãos públicos contribuíram para a formação de uma rede de abastecimento essencial ao desenvolvimento do município. Mais do que espaços de compra e venda, esses locais constituíram pontos de encontro, convivência e construção da identidade coletiva, permanecendo vivos na memória da comunidade como símbolos e progresso urbano e da história econômica dos colegienses.
CAPÍTULO XIII – EDUCAÇÃO E INSTITUIÇÕES PÚBLICAS
A educação e as instituições públicas desempenharam papel fundamental no desenvolvimento social de Porto Real do Colégio e da Aldeia de Colégio ao longo do século XX e início do século XXI. A implantação de programas de alfabetização, escolas municipais, bibliotecas e serviços públicos contribuiu para ampliar o acesso ao conhecimento, fortalecer a cidadania e melhorar a qualidade de vida da população urbana e indígena. Esses investimentos refletiram o esforço contínuo do poder público em promover a formação educacional e a organização dos serviços essenciais para o município.
MOBRAL – Movimento Brasileiro de Alfabetização – Programa federal criado em 1967 e implantado nacionalmente a partir de 1968. Chegou à Aldeia de Colégio em 1971, promovendo a alfabetização de jovens e adultos que não tiveram acesso à educação regular. Suas atividades foram encerradas em 1985, quando foi substituído por novos programas educacionais.
Ginásio São Francisco – Escola municipal de ensino secundário criada em 1960, localizada às margens do Rio São Francisco, em Porto Real do Colégio. Durante décadas contribuiu para a formação educacional de diversas gerações de estudantes do município, permanecendo em funcionamento até sua desativação em 1991.
Centro Educacional Professor Ernande F. Magalhães – Instituição integrante da rede municipal de ensino, criada em 1989, localizada na Rua da Independência, s/n, Centro, Porto Real do Colégio, Alagoas. Destaca-se pela oferta de ensino e pela contribuição à formação educacional de crianças e jovens do município.
Biblioteca Pública Municipal Enoy Magalhães Bitencourt – Criada em 2001, localizada na Avenida Moacyr Andrade, s/n, Centro, Porto Real do Colégio, Alagoas. Constitui importante espaço de incentivo à leitura, pesquisa e preservação da memória cultural do município.
SAAE – Serviço Autônomo de Água e Esgoto de Porto Real do Colégio – Autarquia municipal criada em 1965 com a finalidade de administrar os serviços de abastecimento de água e saneamento básico, atendendo à população urbana e contribuindo para a melhoria das condições de saúde pública do município.
A trajetória da educação e das instituições públicas em Porto Real do Colégio demonstra o esforço coletivo pela construção de uma sociedade mais instruída, organizada e preparada para enfrentar os desafios de cada época. Escolas, programas de alfabetização, bibliotecas e serviços públicos constituíram importantes instrumentos de desenvolvimento social, beneficiando tanto a população urbana quanto as comunidades indígenas da região. Esses marcos históricos permanecem como testemunhos do compromisso do município com a formação humana, a cidadania e o bem-estar de seus habitantes.
CAPÍTULO XIV – ESPORTE E LAZER
O esporte e o lazer sempre desempenharam papel importante na vida social de Porto Real do Colégio, constituindo espaços de convivência, integração comunitária e fortalecimento dos laços entre as famílias da cidade, dos povoados e da Aldeia Kariri-Xocó. Ao longo das décadas, campos de futebol, campeonatos, desfiles cívicos e festividades públicas contribuíram para a formação da identidade cultural do município, reunindo diferentes gerações em momentos de celebração, competição saudável e participação coletiva.
Campeonato Municipal de Futebol – Competição esportiva criada em 1976, reunindo equipes de futebol dos povoados e da sede de Porto Real do Colégio. O torneio tornou-se uma das principais tradições esportivas do município e permanece em atividade.
Campo do Murim – Campo de futebol localizado no Bairro Murim, criado na década de 1950. Durante muitos anos foi palco de partidas entre equipes locais e visitantes, sendo atualmente utilizado como estádio municipal para eventos esportivos.
Campinho – Tradicional campo de futebol improvisado nas margens da Lagoa do Cordeiro, utilizado pela juventude para partidas recreativas e torneios informais. O espaço deixou de existir em 1991 em decorrência da expansão imobiliária da área.
Desfile de 7 de Setembro – Comemoração cívica da Independência do Brasil realizada anualmente com a participação das escolas do município, entre elas o Ginásio São Francisco, a Escola Firmo de Castro, a Escola Dona Santa Bulhões, a Escola Dom Pedro II e a Escola da Aldeia Kariri-Xocó. Os desfiles ocorreram com grande participação popular, especialmente entre as décadas de 1970 e 1994.
Festa de Emancipação Política – Celebração da emancipação política de Porto Real do Colégio, realizada em 7 de julho. A programação tradicional incluía desfile das escolas do município, apresentações culturais e shows musicais, reunindo moradores e visitantes em um dos mais importantes eventos festivos da cidade.
As atividades esportivas, recreativas e cívicas registradas neste capítulo demonstram a importância dos espaços de lazer e das celebrações coletivas na construção da memória social de Porto Real do Colégio. Entre campos de futebol, campeonatos, desfiles e festividades populares, formaram-se tradições que marcaram gerações e fortaleceram o sentimento de pertencimento da população. Mais do que simples momentos de entretenimento, essas práticas constituem patrimônio cultural e afetivo do município, preservando lembranças e valores que continuam vivos na história de seu povo.
CAPÍTULO XV – INTEGRAÇÃO DOS KARIRI-XOCÓ NA SOCIEDADE LOCAL
A antiga aldeia indígena que deu origem ao atual município de Porto Real do Colégio, em Alagoas, constitui um importante marco da formação histórica e cultural do Baixo São Francisco. Ao longo dos séculos, a convivência entre indígenas, portugueses e afrodescendentes contribuiu para a construção de uma sociedade marcada pela diversidade cultural e pelas múltiplas formas de interação social.
Os tópicos a seguir apresentam alguns exemplos dessa integração social e cultural, evidenciando a participação dos Kariri-Xocó na construção da história local.
Futebol Indígena (Kariri e Guarani) – O futebol teve ampla aceitação entre os Kariri-Xocó, que organizaram equipes esportivas como Kariri e Guarani. Por meio desse esporte, os indígenas estabeleceram intercâmbio com municípios ribeirinhos do Baixo São Francisco, participando de competições e recebendo diversas equipes visitantes na Aldeia Kariri-Xocó.
Olimpíada do Índio – A primeira Olimpíada Indígena Kariri-Xocó foi realizada em 19 de abril de 1989. O evento contou com modalidades como atletismo, futebol de campo, futsal, ciclismo e futebol feminino, sendo organizado pelo chefe do Posto da FUNAI.
A Televisão – A utilização da televisão popularizou-se em Porto Real do Colégio a partir da década de 1970. Na Aldeia Kariri-Xocó, os primeiros aparelhos chegaram por volta de 1972. Atualmente, a televisão está presente na maioria dos lares, tornando-se importante meio de informação e entretenimento.
Sintonia no Rádio – O primeiro aparelho de rádio chegou à Aldeia de Colégio em 1948, trazido pelo indígena Antônio Correia. A partir das décadas de 1960 e 1970, sua utilização tornou-se cada vez mais frequente entre as famílias indígenas, mantendo-se presente até os dias atuais.
Radiograma – O serviço de radiograma, conhecido como telegrama sem fio transmitido por rádio, foi implantado na Aldeia Kariri-Xocó em 1972, quando a comunidade ainda estava localizada na Rua dos Índios. O serviço permaneceu em funcionamento até 1990.
Nhinhó – Na tradição espiritual Kariri, Nhinhó é concebido como uma entidade primordial. Segundo a visão nativa, essa divindade apresenta características semelhantes às dos próprios indígenas, utilizando pintura corporal, participando dos cantos sagrados e dançando o Toré.
Arcoverde – Indígena pernambucana, filha do cacique Uira Ubi, recebeu o nome cristão de Maria do Espírito Santo. Ao lado de Bartira e Paraguaçu, é lembrada por diversos autores como uma das figuras femininas associadas à formação histórica do povo brasileiro (ALMEIDA, 1988, p. 61).
Gaspar Lourenço – Indígena catequizado pelos jesuítas e instruído para auxiliar na evangelização de sua própria comunidade sob a supervisão do padre Leonardo Nunes. Segundo registros históricos, esteve na região do Baixo São Francisco em 1575 (ALMEIDA, 1988, p. 74).
Nesse contexto multicultural, diferentes práticas sociais aproximaram os Kariri-Xocó das comunidades vizinhas, fortalecendo vínculos de convivência e intercâmbio cultural. O esporte, os meios de comunicação e as manifestações tradicionais constituíram importantes elementos desse processo de integração, ao mesmo tempo em que a comunidade preservou aspectos fundamentais de sua identidade étnica e espiritual.
CAPÍTULO XVI – BRINCADEIRAS E JOGOS TRADICIONAIS
As brincadeiras e os jogos tradicionais constituem importante patrimônio cultural transmitido de geração em geração, fortalecendo os laços de amizade, convivência comunitária e aprendizado entre crianças e jovens. Muito antes da popularização dos jogos eletrônicos e das redes digitais, as ruas, praças, terreiros, campos e quintais eram espaços de encontro onde a criatividade transformava objetos simples em fontes de diversão. Em Porto Real do Colégio e na Aldeia Kariri-Xocó, essas brincadeiras fizeram parte do cotidiano de inúmeras famílias, preservando costumes, valores e formas de interação que permanecem vivos na memória coletiva da comunidade.
Ciranda – Cantiga folclórica realizada em roda, na qual as crianças de mãos dadas cantam e giram ao ritmo da música. Na parte final da canção, uma criança é escolhida para ocupar o centro da roda, encerrando a brincadeira com todos reunidos no meio.
Amarelinha ou Macacão – Jogo coletivo em que são desenhados no chão quadrados numerados. Cada participante lança uma pedra em um dos quadrados e percorre o percurso pulando em um pé ou nos dois, conforme as regras. Vence quem completar o circuito com menos erros.
Cabra Cega ou Quebra-Pote – Brincadeira tradicional realizada durante festas e comemorações. Com os olhos vendados e segurando um pau ou cacete, o participante tenta localizar e quebrar um pote suspenso contendo balas e outras guloseimas. Os jogadores se revezam nas tentativas até que um deles consiga acertar o alvo e romper o recipiente, momento em que os doces são distribuídos entre os presentes.
Bolas de Gude – Jogo realizado com pequenas esferas de vidro coloridas. Os participantes lançam suas bolinhas em direção às dos adversários, buscando acertá-las para conquistar as peças colocadas em disputa.
Pipas ou Papagaios – Brinquedos confeccionados com varetas de madeira, papel de seda colorido ou plástico. Empinadas ao vento, permitem a realização de diversas manobras no céu, sendo uma das brincadeiras mais populares entre crianças e adolescentes.
Pião – Brinquedo de madeira com ponta metálica que, ao ser lançado por meio de uma corda enrolada em seu corpo, gira rapidamente sobre o solo. Em algumas modalidades, os participantes tentam atingir o pião do adversário.
Estilingue – Instrumento confeccionado com galhos em forma de forquilha e tiras de borracha, utilizado para lançar pequenas pedras ou bolinhas de barro secas ao sol. Também foi empregado tradicionalmente em atividades de caça de pequeno porte.
Bater Figurinhas – Brincadeira em que as figurinhas são colocadas em um monte sobre o chão. Cada participante bate com a mão sobre elas, e as que virarem passam a pertencer ao jogador.
Corrida de Saco – Competição recreativa em que cada participante entra dentro de um saco e percorre determinada distância saltando até a linha de chegada. Vence quem completar o percurso mais rapidamente sem cair.
Dança da Corda – Brincadeira em que duas pessoas seguram as extremidades de uma corda esticada, enquanto os demais participantes tentam passar por baixo dela, inclinando o corpo para trás sem tocar na corda. A cada rodada, a altura da corda é reduzida, aumentando o grau de dificuldade.
As brincadeiras e os jogos tradicionais representam muito mais do que simples formas de entretenimento. Eles constituem expressões da cultura popular, contribuindo para o desenvolvimento físico, social e emocional das crianças, além de fortalecerem o espírito de cooperação, respeito e convivência comunitária. Ao registrar essas práticas, preserva-se uma importante herança cultural que marcou a infância de inúmeras gerações em Porto Real do Colégio e na Aldeia Kariri-Xocó, garantindo que essas memórias continuem vivas para as futuras gerações.
CAPÍTULO XVII – LUGARES DE MEMÓRIA E PATRIMÔNIO COLEGIENSE
Os lugares de memória constituem referências fundamentais para a compreensão da história de um povo. Mais do que simples espaços geográficos, eles guardam lembranças, experiências e acontecimentos que marcaram a vida das comunidades ao longo das gerações. Em Porto Real do Colégio, diversos locais, caminhos, construções e estruturas de uso coletivo testemunharam transformações sociais, econômicas e culturais, permanecendo vivos na memória dos moradores. Este capítulo reúne alguns desses marcos, cuja importância ultrapassa sua existência física, tornando-se parte do patrimônio histórico e afetivo colegiense.
Povoado Belém – Antiga povoação situada às margens do Rio São Francisco, nas proximidades da sede de Colégio. Conhecida pela grande quantidade de mangueiras existentes no local, foi desapropriada em 1975 em decorrência da implantação do Projeto Itiúba. Com a retirada dos moradores, muitas famílias migraram para outras localidades, permanecendo o povoado como uma importante referência da memória regional.
Estrada do Paturi – Antigo caminho de chão batido que dava acesso à região da Várzea do Itiúba, seguindo por trás do Posto Fiscal de Porto Real do Colégio. Durante décadas, serviu como importante via de ligação entre a sede municipal e diversos povoados circunvizinhos, facilitando o transporte de pessoas, animais e mercadorias.
Currais – Localidade situada nas proximidades do antigo SESP, onde existia um curral destinado ao manejo de bovinos. A área passou por transformações urbanas ao longo do tempo, sendo posteriormente ocupada pela Rua Pajé Manoel Baltazar, inaugurada em 1998, às margens da Lagoa do Cordeiro, em Porto Real do Colégio.
Palhoção – Quiosque localizado no porto das balsas e pertencente ao Sr. Helias Costa. O estabelecimento servia de ponto de apoio aos motoristas e viajantes que aguardavam a travessia do Rio São Francisco. Além da venda de bebidas e alimentação, o local era conhecido pela música e pelo ambiente de convivência social, funcionando aproximadamente entre 1967 e 1980.
Acampamento das Construtoras – Sede administrativa e alojamento das empresas de engenharia responsáveis pelas obras da ponte sobre o Rio São Francisco e da BR-101 na região. Funcionou entre 1968 e 1972 nas instalações da antiga fábrica de arroz, localizada na Rua São Vicente, antiga Rua dos Índios, tornando-se um importante centro de apoio às obras que transformaram a infraestrutura regional.
Carro de Boi – Tradicional meio de transporte de cargas e passageiros introduzido pelos colonizadores portugueses e amplamente utilizado no município durante muitos anos. Fundamental para o escoamento da produção agrícola e para a locomoção da população rural, entrou gradativamente em decadência após a melhoria das estradas e a construção da BR-101, concluída na região em 1972.
A preservação dos lugares de memória é essencial para fortalecer a identidade histórica e cultural de Porto Real do Colégio. Cada espaço aqui mencionado representa fragmentos da trajetória de homens e mulheres que contribuíram para a formação do município e de suas comunidades tradicionais, incluindo o povo Kariri-Xocó. Embora muitos desses locais tenham desaparecido ou se transformado ao longo do tempo, suas histórias permanecem vivas na lembrança dos moradores, constituindo um patrimônio imaterial que merece ser registrado, valorizado e transmitido às futuras gerações como parte da herança coletiva colegiense.
CAPÍTULO XVIII - TRADIÇÕES E MEMÓRIAS POPULARES DE PORTO REAL DO COLÉGIO E DA ALDEIA KARIRI-XOCÓ
As tradições populares de Porto Real do Colégio e da Aldeia Kariri-Xocó constituem um importante patrimônio cultural transmitido de geração em geração. Por meio das festas religiosas, das celebrações comunitárias, das manifestações artísticas e das memórias coletivas, preservam-se valores, costumes, saberes e formas de convivência que fortalecem a identidade do povo ribeirinho e indígena do Baixo São Francisco. Muitas dessas tradições estão associadas ao calendário religioso católico, enquanto outras refletem elementos próprios da cultura Kariri-Xocó, formando um rico mosaico cultural que caracteriza a região.
Fogueira de São José – Realizada no dia 19 de março, em homenagem a São José, padroeiro dos trabalhadores e protetor das plantações. Tradicionalmente, a fogueira é acesa diante das residências onde mora alguém chamado José. A celebração marca simbolicamente o início do período de plantio das roças, especialmente do milho, cuja colheita é esperada para as festividades juninas.
Fogueira de Santo Antônio – Celebrada no dia 13 de junho, com fogueiras acesas tanto na cidade de Porto Real do Colégio quanto na Aldeia Kariri-Xocó. Entre os indígenas, a festividade é enriquecida com a realização do Toré, acompanhado por cantos, danças tradicionais e queima de fogos de artifício, unindo elementos da religiosidade popular e da tradição ancestral indígena.
Noites de São João – Comemoradas nos dias 23 e 24 de junho, constituem uma das maiores festas populares da região. As ruas da cidade são iluminadas por fogueiras, enquanto moradores e visitantes participam de apresentações de forró pé-de-serra, quadrilhas e degustam comidas típicas juninas, como milho cozido, canjica, pamonha e bolo de milho.
Noites de São Pedro – Realizadas nos dias 28 e 29 de junho, encerram o ciclo principal das festividades juninas. Assim como nas celebrações de São João, as ruas são enfeitadas e iluminadas por fogueiras, reunindo famílias e amigos em torno do forró pé-de-serra e das tradicionais comidas típicas da época.
O Circo – Manifestação artística e popular de grande aceitação entre os colegienses ao longo do século XX. Diversas companhias circenses passaram pela cidade, levando espetáculos de humor, acrobacias, mágicas e atrações variadas. Entre elas destacou-se o Circo Aparecida, que esteve em Porto Real do Colégio em 1976, trazendo como uma de suas principais atrações o palhaço Chicha Rito, cuja apresentação permaneceu viva na memória de muitos moradores.
As tradições e memórias populares aqui registradas representam parte significativa da história cultural de Porto Real do Colégio e da Aldeia Kariri-Xocó. Elas revelam a força das relações comunitárias, da religiosidade, da arte e dos costumes transmitidos entre gerações. Mais do que simples celebrações, essas manifestações constituem referências de identidade e pertencimento, contribuindo para a preservação da memória coletiva e para a valorização do patrimônio cultural do povo colegiense e do povo Kariri-Xocó.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A história de Porto Real do Colégio e da Aldeia Kariri-Xocó é marcada pela diversidade cultural, pela resistência das tradições e pela constante transformação social.
As memórias reunidas nesta obra demonstram a importância da preservação dos saberes populares, das manifestações religiosas, das práticas culturais e dos lugares de memória que constituem o patrimônio histórico da região.
Espera-se que este livro contribua para futuras pesquisas e para o fortalecimento da identidade cultural das comunidades do Baixo São Francisco.
SOBRE O AUTOR
Nhenety Kariri-Xocó é pesquisador independente, escritor, memorialista, contador de histórias e integrante do povo indígena Kariri-Xocó de Porto Real do Colégio, Alagoas.
Dedica-se ao estudo da história indígena, da cultura popular, da tradição oral e da memória regional do Baixo São Francisco. É autor de pesquisas publicadas em seu Blog Kxnhenety e de diversos trabalhos voltados à preservação da identidade cultural de seu povo.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ALMEIDA, Geraldo Gustavo de. Heróis Indígenas do Brasil. Memórias sinceras de uma raça. Rio de Janeiro: Catedra, 1988 .
LIMA, Ronaldo Pereira de. Às Margens do Rio Rei. J. Andrade, Aracaju, 2006 .
LIMA, Ronaldo Pereira de. Porto Real do Colégio: História e Geografia. Prima Edições, Colégio-AL, 2018 .
MATA, Vera Lucia Calheiros. A semente da terra: identidade e conquista territorial por um grupo indígena integrado – Maceió : EDUFAL, 2014. 389.: Il.
KARIRI-XOCÓ, Nhenety. As Origens Kariri-Xocó 4. Disponível em:
https://kxnhenety.blogspot.com/2023/01/as-origens-kariri-xoco-4.html?m=0 . Acesso em: 04 jun. 2026.
KARIRI-XOCÓ, N. Blog Kxnhenety. 12 Jun. 2010 a 21 Dez. 2022 [online]. Nhenety Kariri-Xocó. Disponível em:
http://kxnhenety.blogspot.com/2010-2022.html , Acesso em 21/12/2022.
PERFIL MUNICIPAL. Ano 4, nº 4 (2013), Maceió: Secretaria de Estado do Planejamento, Gestão e Patrimônio, 2018.

Autor: Nhenety Kariri-Xocó

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