FALSA FOLHA DE ROSTO
TRONCOS ANCESTRAIS KARIRI-XOCÓ
Histórias dos Sobrenomes Indígenas e das Famílias Guardiãs da Memória
Nhenety Kariri-Xocó
FOLHA DE ROSTO
TRONCOS ANCESTRAIS KARIRI-XOCÓ
Histórias dos Sobrenomes Indígenas e das Famílias Guardiãs da Memória
Nhenety Kariri-Xocó
Porto Real do Colégio – Alagoas
2026
VERSO DA FOLHA DE ROSTO
Direitos desta edição reservados ao autor.
Esta obra reúne narrativas genealógicas, memórias familiares e tradições orais preservadas pelo povo Kariri-Xocó, registradas com o objetivo de contribuir para a valorização da história indígena, da ancestralidade e da memória coletiva.
Todos os direitos reservados.
FICHA CATALOGRÁFICA (MODELO)
Kariri-Xocó, Nhenety.
Troncos Ancestrais Kariri-Xocó: histórias dos sobrenomes indígenas e das famílias guardiãs da memória / Nhenety Kariri-Xocó. – Porto Real do Colégio, AL, 2026.
v. 1 : il.
Inclui referências bibliográficas.
ISBN: 978-65-0000-000-0
Povos Indígenas – Brasil.
Kariri-Xocó – História.
Tradição Oral.
Genealogia Indígena.
Memória Cultural.
Patrimônio Imaterial.
CDD: 980.41
ISBN (SIMBÓLICO)
ISBN: 978-65-0000-000-0
(Número simbólico para fins de organização da obra. O ISBN definitivo deverá ser solicitado junto à Agência Brasileira do ISBN.)
PREFÁCIO OFICIAL DA COLEÇÃO
Esta obra integra o Acervo Virtual Bibliográfico Nhenety Kariri-Xocó, iniciativa dedicada à preservação, produção e difusão do conhecimento construído a partir das vivências culturais do povo Kariri-Xocó.
Fundamentado na memória, na ancestralidade e na experiência histórica, o Acervo orienta-se pela compreensão de que o saber se constrói por meio de encontros, trocas e transformações culturais ao longo do tempo.
Os elementos culturais, científicos e literários oriundos de diferentes povos e autores são respeitados em suas origens, sendo compreendidos como influências legítimas no processo de formação do conhecimento, sem reivindicação de autoria sobre tais contribuições.
Ao mesmo tempo, reconhece-se a existência de uma produção autoral própria, resultante da interpretação singular da realidade vivida.
Dessa forma, a presente obra se insere em uma continuidade cultural dinâmica, na qual tradição e criação se articulam, preservando identidades e projetando novos horizontes.
ESCLARECIMENTO DO AUTOR
A presente obra constitui, neste momento, um pré-projeto editorial em fase de estruturação acadêmica e organização bibliográfica.
Sua versão definitiva será futuramente submetida aos processos de revisão, diagramação, normalização segundo os padrões da ABNT, catalogação bibliográfica, classificação CDD e obtenção de ISBN oficial.
Enquanto perdurar esta etapa preparatória, parte das informações editoriais apresentadas possui caráter provisório e simbólico, destinando-se exclusivamente à identificação preliminar da obra.
O autor reafirma o compromisso com a preservação cultural, histórica e intelectual do acervo desenvolvido ao longo de suas pesquisas e produções literárias.
Nhenety Kariri-Xocó
DEDICATÓRIA
Dedico esta obra aos meus ancestrais Kariri-Xocó, aos homens e mulheres que preservaram a memória de nosso povo através da palavra falada, das histórias contadas ao redor do fogo, dos ensinamentos transmitidos nas famílias e da resistência mantida ao longo das gerações.
Dedico também aos anciãos e anciãs que compartilharam suas lembranças, permitindo que parte dessa herança fosse registrada para as futuras gerações.
AGRADECIMENTOS
Agradeço primeiramente ao Grande Criador pela vida, pela memória e pela oportunidade de registrar parte da história de meu povo.
Aos anciãos Kariri-Xocó, Xocó, Karapotó e povos parentes, que mantiveram vivas as narrativas transmitidas através da tradição oral.
Aos familiares que compartilharam documentos, fotografias, lembranças e conhecimentos ancestrais.
À comunidade Kariri-Xocó de Porto Real do Colégio, guardiã dessa rica herança cultural.
E a todos aqueles que contribuem para a valorização da história dos povos indígenas do Brasil.
EPÍGRAFE
“Enquanto houver alguém para contar uma história, os ancestrais continuarão vivos entre seu povo.”
— Sabedoria da tradição oral indígena
PREFÁCIO DO VOLUME
O presente volume reúne narrativas familiares preservadas entre os Kariri-Xocó, registrando sobrenomes indígenas, genealogias, migrações, lideranças, práticas culturais e memórias ancestrais. Mais do que um levantamento de famílias, esta obra constitui um testemunho da continuidade histórica de um povo que encontrou na tradição oral uma forma de preservar sua identidade.
Cada capítulo apresenta uma parte dessa grande árvore ancestral, revelando trajetórias humanas ligadas ao Rio São Francisco, às antigas aldeias indígenas, aos processos de migração e às formas de resistência cultural construídas ao longo dos séculos.
RESUMO
Esta obra apresenta um estudo baseado na tradição oral, na memória familiar e em registros históricos relacionados ao povo Kariri-Xocó de Porto Real do Colégio, Alagoas. O livro reúne narrativas sobre sobrenomes indígenas, linhagens familiares, migrações, lideranças tradicionais, pajés, caciques, agricultores, pescadores, canoeiros, ceramistas e guardiões da memória coletiva. A pesquisa busca contribuir para a preservação da história indígena e para o fortalecimento da identidade cultural das futuras gerações.
Palavras-chave: Kariri-Xocó; tradição oral; genealogia indígena; memória cultural; ancestralidade.
ABSTRACT
This work presents a study based on oral tradition, family memory and historical records related to the Kariri-Xocó people of Porto Real do Colégio, Alagoas, Brazil. The book gathers narratives about indigenous surnames, family lineages, migrations, traditional leaders, shamans, chiefs, farmers, fishermen, canoe makers, potters and guardians of collective memory. The research aims to contribute to the preservation of indigenous history and to strengthen cultural identity for future generations.
Keywords: Kariri-Xocó; oral tradition; indigenous genealogy; cultural memory; ancestry.
APRESENTAÇÃO
Este livro nasceu da necessidade de registrar histórias que durante muito tempo permaneceram guardadas na memória dos mais velhos. Ao reunir narrativas familiares, o autor busca preservar parte do patrimônio imaterial do povo Kariri-Xocó, valorizando os conhecimentos transmitidos de geração em geração.
NOTA DO AUTOR
As narrativas aqui apresentadas foram construídas a partir de relatos orais, documentos históricos, registros familiares e memórias compartilhadas pelos anciãos da comunidade. Em diversos momentos, tradição oral e documentação histórica caminham lado a lado, compondo um registro que busca respeitar os conhecimentos indígenas e sua forma própria de transmitir a história.
MEMÓRIA DO AUTOR
Sou Nhenety Kariri-Xocó, contador de histórias oral e escrita, descendente de famílias indígenas que ajudaram a construir a trajetória de meu povo. Cresci ouvindo relatos dos anciãos, aprendendo que a memória é uma das maiores riquezas de uma comunidade.
Este livro representa uma continuidade dessa escuta, transformando em registro escrito aquilo que durante gerações foi preservado pela palavra dos mais velhos.
INTRODUÇÃO
A história dos povos indígenas não se encontra apenas nos documentos oficiais. Ela também vive nas lembranças dos anciãos, nos nomes das famílias, nos cantos, nos rituais e nas narrativas transmitidas entre gerações.
Entre os Kariri-Xocó, os sobrenomes indígenas constituem importantes marcas de identidade e pertencimento. Cada nome carrega histórias de migração, resistência, liderança, espiritualidade e permanência cultural.
A presente obra busca registrar parte dessa herança, reunindo narrativas sobre os principais troncos familiares que contribuíram para a formação histórica e cultural do povo Kariri-Xocó.
SUMÁRIO
Falsa Folha de Rosto
Folha de Rosto
Verso da Folha de Rosto
Ficha Catalográfica
ISBN (Simbólico)
Prefácio Oficial da Coleção
Esclarecimento do Autor
Dedicatória
Agradecimentos
Epígrafe
Prefácio do Volume
Resumo
Abstract
Nota do Autor
Memória do Autor
Apresentação
Introdução
Capítulo I – Os Guardiões da Aldeia: Histórias das Famílias Botó e Suíra
Capítulo II – Flechas e Caminhos das Águas: Histórias das Famílias Baca e Pirigipe
Capítulo III – Entre a Pesca e a Agricultura: Histórias das Famílias Poité e Suré
Capítulo IV – A Travessia dos Xocó: Histórias das Famílias Muirá e Tononé
Capítulo V – Artesãos da Memória: Histórias das Famílias Emurá e Nidé
Capítulo VI – Povos da Canoa e das Correntezas: Histórias das Famílias Maromba e Ibá
Capítulo VII – O Barro e a Permanência: Histórias das Famílias Tinga e Sóia
Capítulo VIII – O Fogo Sagrado e os Vigilantes da Terra: Histórias das Famílias Taré e Tibiriçá
Capítulo IX – Os Nomes das Águas e das Chuvas: Histórias das Famílias Giri e Giriçá
Capítulo X – Resistência e Retomada: Histórias das Famílias Irecê e Teipó
Capítulo XI – Heranças Maternas e Alianças Indígenas: Histórias das Famílias Itapó e Chiré
Capítulo XII – O Mel e a Montanha Ancestral: Histórias das Famílias Pahankó e Iraminon
Considerações Finais
Referências Bibliográficas
Sobre o Autor
CAPÍTULO I – OS GUARDIÕES DA ALDEIA: HISTÓRIAS DAS FAMÍLIAS BOTÓ E SUÍRA
A história do povo Kariri-Xocó é sustentada pela memória dos troncos familiares que, ao longo das gerações, assumiram a responsabilidade de preservar os conhecimentos ancestrais, a espiritualidade indígena e os valores coletivos da aldeia. Entre essas linhagens destacam-se as famílias Botó e Suíra, cujas trajetórias se entrelaçam com a liderança tradicional, a pajelança, os saberes de cura e a proteção dos espaços sagrados. Guardiões da palavra antiga e dos ensinamentos recebidos dos antepassados, seus membros desempenharam papéis fundamentais na condução da comunidade, na manutenção das práticas espirituais e na preservação do Ritual Sagrado do Ouricuri, assegurando que a identidade cultural Kariri-Xocó permanecesse viva através do tempo.
História dos Botó
Os mais antigos contavam que os Botó eram uma família de grande importância entre os Kariri-Xocó de Porto Real do Colégio. Diziam que esse nome guardava a lembrança de um pequeno besouro conhecido na língua Tupi como Botó ou Potó, aquele que avisa sua presença e ensina a atenção aos sinais da natureza. Foi dessa família ancestral que, no início do século XX, surgiu um ramo que seguiu seu próprio caminho, dando origem aos Tingui-Botó de Feira Grande, em Alagoas.
Na memória dos mais velhos, Pedro Lolaço era lembrado como o tronco antigo da família Botó. Homem de saberes profundos, conhecedor das rezas, dos sonhos e dos ensinamentos recebidos dos antepassados. A tradição também recorda que exerceu a função de capitão-mor da Aldeia de Colégio, liderando seu povo e ajudando a preservar os costumes herdados dos ancestrais. Contava-se ainda que, no tempo em que o Ritual Sagrado do Ouricuri era realizado no Monte do Alto do Bode, Pedro Lolaço figurava entre os guardiões dos conhecimentos transmitidos de geração em geração.
De Pedro Lolaço nasceram João Botó, Rosa Botó e Vicente Botó. João Botó teve como filhos José Botó, Manoel Botó, conhecido como Nesinho, e Cícero Botó. Rosa Botó teve dois filhos, João de Rosa e Macrina, que também deram continuidade aos laços familiares e à memória dos seus antepassados.
Vicente Botó teve os filhos Euclides, Celestina, Dorfina e Joaninha, ampliando os ramos dessa grande árvore de parentesco. Assim, os Botó permaneceram vivos na história e na memória do povo Kariri-Xocó, deixando marcas nos saberes, nas lideranças e nas tradições preservadas pelos mais velhos. Ainda hoje, seus descendentes guardam com orgulho a lembrança daqueles que vieram antes, mantendo acesa a herança ancestral transmitida de geração em geração.
História dos Suíra
Conta a tradição dos antigos que o sobrenome Suíra nasceu entre os Kariri com um significado sagrado: “os que curam pelo sopro”. Desde os tempos mais remotos, essa família foi reconhecida entre o povo Kariri-Xocó por guardar conhecimentos de cura, rezas, cantos e ensinamentos transmitidos de geração em geração. Os mais velhos dizem que o sopro dos Suíra não era apenas o ar da respiração, mas a força espiritual que levava esperança aos enfermos e proteção à comunidade.
Entre os ancestrais dessa linhagem destacou-se Luduvico, filho da Rua dos Índios, nascido no ano de 1778, quando Porto Real ainda fazia parte dos antigos domínios da Coroa Portuguesa. Cresceu ouvindo os ensinamentos dos anciãos, aprendendo os caminhos da tradição e tornando-se um respeitado pajé de seu povo. Sua vida foi dedicada à preservação dos costumes Kariri, permanecendo junto de sua comunidade até sua partida, em 1855, na mesma terra onde nasceu e construiu sua história.
Os relatos guardados pela memória do povo contam que a sabedoria de Luduvico não terminou com ele. Seus conhecimentos seguiram adiante através de seus descendentes, alcançando o pajé Manoel Baltazar, seu filho; o pajé Manoel Paulo, seu neto; e o pajé Manoel Joaquim de Santana, seu bisneto materno. Assim, a chama da tradição continuou acesa, passando de uma geração para outra, como o fogo que nunca se deixa apagar no centro da aldeia.
Foi dessa mesma família de curadores e guardiões da memória que nasceu o pajé Francisco Queiroz Suíra, homem de grande respeito entre os Kariri-Xocó. E foi também dessa linhagem que veio o atual pajé Júlio Queiroz Suíra, herdeiro de uma longa corrente de saberes ancestrais. Dessa forma, a história dos Suíra permanece viva, unindo passado e presente através da palavra, da cura, da espiritualidade e da resistência cultural do povo Kariri-Xocó.
As histórias das famílias Botó e Suíra revelam muito mais do que simples laços de parentesco: representam a continuidade de uma herança espiritual e cultural que atravessa séculos. Por meio de líderes, capitães, pajés, rezadores e guardiões da tradição, essas famílias contribuíram para fortalecer a vida comunitária, preservar os conhecimentos de cura e manter viva a espiritualidade indígena. Seus descendentes continuam carregando a responsabilidade de honrar os ensinamentos dos ancestrais, protegendo o Ritual Sagrado do Ouricuri e transmitindo às novas gerações os valores que sustentam a existência do povo Kariri-Xocó. Dessa forma, a memória dos Botó e dos Suíra permanece como um testemunho de resistência, sabedoria e fidelidade às tradições herdadas dos antigos.
CAPÍTULO II – FLECHAS E CAMINHOS DAS ÁGUAS: HISTÓRIAS DAS FAMÍLIAS BACA E PIRIGIPE
Este capítulo reúne memórias ancestrais preservadas pelas famílias Baca e Pirigipe, cujas histórias se entrelaçam com a resistência do povo Kariri-Xocó ao longo das gerações. Guardadas na tradição oral dos Natú e transmitidas pelos mais velhos, essas narrativas revelam a profunda ligação entre os povos indígenas e o Opará, o Rio São Francisco, fonte de vida, caminho de deslocamentos e espaço sagrado de convivência. Ao mesmo tempo, recordam a herança deixada pelos antigos chefes, líderes e guardiões da coletividade, cujos ensinamentos continuam orientando a preservação da identidade, da memória e do pertencimento indígena nas terras do Baixo São Francisco.
História dos Baca
Os mais velhos contam que o nome Baca vem de tempos antigos, de um tempo em que os povos caminhavam seguindo os ensinamentos dos ancestrais e dos antepassados. Diziam que Baca era o povo da flecha, aquele que sabia ouvir o vento e encontrar seu caminho pelos sinais da mata. Na antiga fala dos povos da terra, seu nome guardava a força do homem, do povo e da ponta da flecha que atravessa o tempo. Entre os Kariri-Xocó, essa lembrança permaneceu viva na memória coletiva, passada de geração em geração, enquanto o nome Natú continuava a recordar a antiga aldeia dos antepassados.
Entre os descendentes desse povo destacou-se Manoel Altanazio Baca, homem respeitado de sua comunidade. Nasceu no ano de 1811, na Aldeia de Colégio, na conhecida Rua dos Índios, às margens do Velho Chico. Viveu como agricultor e também serviu como cabo de esquadra, trabalhando pela sobrevivência de sua família e de seu povo. Os mais antigos lembravam dele como um homem ligado à terra e às tradições herdadas dos ancestrais, construindo sua vida naquele lugar onde nasceu e onde viria a encerrar sua caminhada em 1880.
Manoel Altanazio deixou filhos que continuaram a história da família Baca: Maria Tomazia, João Vicente e Antônia Rosa. Cada um carregou consigo a memória dos antigos, mas foi Maria Tomazia quem se tornou uma das grandes guardiãs das lembranças do povo. Conhecida também pelo nome Natú ou Natuba, ela preservava conhecimentos que vinham de muito longe, guardados nas palavras, nos costumes e nas histórias contadas ao redor das famílias da aldeia.
Foi assim que, no ano de 1935, quando o pesquisador Carlos Estevão chegou à Rua dos Índios para ouvir os remanescentes da antiga aldeia, encontrou em Maria Tomazia uma voz da memória ancestral. Suas palavras ajudaram a manter viva a identidade Kariri-Xocó em uma época de muitas dificuldades. Os ensinamentos que ela transmitiu tornaram-se importantes para que, anos depois, em 1944, fosse reconhecido o Posto Indígena Padre Alfredo Dâmaso. Por isso, até hoje, quando os mais velhos falam da família Baca, lembram que a flecha de seus ancestrais não se perdeu no tempo, pois continua apontando o caminho da memória, da resistência e da permanência do povo Kariri-Xocó.
História dos Pirigipe
Conta a tradição dos antigos habitantes das margens do Opará, o grande Rio São Francisco, que muito antes da chegada dos estrangeiros viveu um importante chefe indígena chamado Piragibe. Seu nome atravessou os séculos como símbolo de coragem, liderança e sabedoria. Nascido anos antes da chegada dos caraí "brancos" nas terras ribeirinhas que hoje pertencem a Alagoas, Piragibe tornou-se conhecido entre diversos povos indígenas e, mais tarde, migrou para outras regiões do Nordeste. Contudo, mesmo partindo, deixou parentes e descendentes espirituais guardando sua memória nas terras do Baixo São Francisco.
Entre os Kariri-Xocó, essa lembrança ancestral permaneceu viva através da família Pirigipe, cujo sobrenome é tradicionalmente compreendido como “os nadadores como peixe”. O nome evoca a profunda ligação dos antigos povos das águas com os rios, lagoas e caminhos aquáticos que sustentavam a vida das comunidades indígenas. Assim, os Pirigipe passaram a representar não apenas uma família, mas também a continuidade de uma herança ligada às águas e aos conhecimentos transmitidos pelos antepassados.
Os mais velhos contam que a memória de Piragibe permaneceu entre seus parentes e descendentes simbólicos, fortalecendo os laços de pertencimento do povo Kariri-Xocó. Nas narrativas familiares, o nome Pirigipe tornou-se um elo entre o passado e o presente, recordando as gerações que viveram às margens do Opará e construíram sua história em estreita relação com a natureza, os peixes e os caminhos do rio.
Entre os Natú, a família é associada ao clã Piracy, expressão que significa “mãe dos peixes”. Essa memória encontra representação em Maria Pirigipe, conhecida como a mãe de Neêperé, também chamada Maria Tomázia Pirigipe. Por meio dela e de tantos outros guardiões da tradição, as histórias dos antigos continuam sendo transmitidas de geração em geração, mantendo viva a lembrança dos ancestrais que fizeram das águas do Opará sua morada, sua escola e seu caminho de vida.
As trajetórias das famílias Baca e Pirigipe demonstram que a história dos Kariri-Xocó é também uma história de permanência, resistência e fidelidade à memória ancestral. Por meio das lembranças dos Natú, dos ensinamentos preservados pelas famílias e da relação inseparável com as águas do Opará, mantiveram-se vivos conhecimentos que atravessaram os séculos. A herança dos antigos chefes, líderes e guardiões continua presente nas narrativas, nos costumes e nos vínculos comunitários, reafirmando que o povo Kariri-Xocó permanece enraizado em sua terra, em sua memória e em sua tradição. Assim, como as águas do Rio São Francisco seguem seu curso, também seguem os caminhos da ancestralidade, conduzindo às novas gerações o legado daqueles que vieram antes.
CAPÍTULO III – ENTRE A PESCA E A AGRICULTURA: HISTÓRIAS DAS FAMÍLIAS POITÉ E SURÉ
Entre as águas do Rio São Francisco e os caminhos abertos pelas roças tradicionais, as famílias Poité e Suré construíram parte importante da história do povo Kariri-Xocó. Suas trajetórias revelam a profunda relação entre os povos indígenas e os recursos da natureza, onde a pesca, a agricultura e os saberes ancestrais garantiram a sobrevivência física e cultural das gerações. Ao mesmo tempo, essas famílias contribuíram para a transmissão do conhecimento por meio da educação e da tradição oral, preservando valores que fortalecem a identidade coletiva. Nos cantos, nas danças e nos círculos sagrados dos grupos do Toré, seus nomes continuam vivos, testemunhando a permanência de uma herança que une território, memória e resistência.
História dos Poité
Entre as muitas histórias guardadas pela memória do povo Kariri-Xocó, existe a lembrança da família Poité, um sobrenome antigo cujo significado remete à âncora de pedra utilizada pelos pescadores para firmar suas embarcações nas águas do rio. Assim como a âncora sustenta a canoa diante da correnteza, o nome Poité permaneceu firme atravessando gerações, carregando consigo a identidade, o trabalho e a memória dos ancestrais.
Os mais velhos contam que o tronco dessa família foi Manoel Roberto Poité, indígena Kariri e pescador, nascido em 1841 na antiga Rua dos Índios, em Porto Real do Colégio, às margens do Velho Chico. Naquele tempo, a vila ainda fazia parte da Província de Alagoas, no Império do Brasil. Vivendo da pesca e dos saberes herdados de seus antepassados, Manoel Roberto Poité construiu sua história junto ao rio, que alimentava as famílias e servia de caminho para a vida cotidiana do povo.
Dessa raiz nasceu Delmira Roberto Poité, sua filha, que deu continuidade ao ramo familiar. Delmira tornou-se mãe de Euclides Poité, pertencente à família Botó, mantendo viva a linhagem que atravessou o século XIX e alcançou os novos tempos. Assim, de geração em geração, os nomes, as histórias e os laços de parentesco foram sendo transmitidos pela palavra dos mais velhos, preservando a memória coletiva da comunidade.
Foi dessa mesma corrente ancestral que nasceu Maria de Lourdes Poité, conhecida por muitos como Indaiá, filha de Euclides Poité. E foi ela quem trouxe ao mundo Nhenety Kariri-Xocó, herdeiro dessa história que começou muito antes de seu nascimento. Por isso, quando se fala da família Poité, não se fala apenas de um sobrenome, mas de uma trajetória ligada ao rio, à pesca, à ancestralidade e à resistência do povo Kariri-Xocó, cuja memória continua viva através das narrativas contadas e recontadas pelas gerações.
História dos Suré
Entre as famílias antigas do povo Kariri-Xocó existe um nome que atravessa o tempo como uma semente levada pelo vento: Suré. Os mais velhos contam que esse sobrenome significa "cabelo de milho" ou "cabelos queimados pelo sol", lembrando aqueles que cultivavam a terra e faziam do milho sua fonte de vida e sustento. Por isso, o nome Suré sempre esteve ligado aos agricultores, homens e mulheres que conheciam os ciclos das chuvas, das sementes e das colheitas.
Na memória dos ancestrais destaca-se o clã de João Nunes de Oliveira, conhecido entre os seus como Surété. Seu nome permanece guardado nas lembranças da comunidade por ter sido o tronco de uma importante linhagem familiar. Dele nasceu Manuel Nunes Suré, chamado em sua língua indígena de Batyté, que herdou dos mais velhos os costumes, os saberes e o compromisso de manter viva a identidade de seu povo.
Os caminhos dessa história alcançam também José Nunes de Oliveira, conhecido como Nhenety Kariri-Xocó, neto paterno de Batyté. Os anciãos recordam que, em tempos passados, membros dessa família contribuíram para a educação da região da Freguesia de São Braz, quando ela foi desmembrada de Porto Real do Colégio, em Alagoas, no ano de 1875. Assim, a família Suré não apenas cultivou a terra, mas também ajudou a cultivar o conhecimento entre seu povo e seus vizinhos.
Mas Suré não é apenas um sobrenome de família. Entre os Kariri-Xocó, esse nome também ecoa nos cantos e passos do Toré, identificando um grupo tradicional de grande importância cultural. Quando o maracá ressoa e os dançadores formam o círculo sagrado, o nome Suré volta a viver na memória coletiva, unindo passado e presente, ancestrais e descendentes, numa história que continua sendo contada de geração em geração.
As histórias das famílias Poité e Suré demonstram que a memória do povo Kariri-Xocó é tecida pela união entre o rio, a terra, o conhecimento e a espiritualidade. Os Poité mantiveram viva a tradição dos povos das águas, ligados à pesca e à convivência com o Velho Chico, enquanto os Suré preservaram os saberes da agricultura tradicional e contribuíram para a formação educacional de sua região. Ambos os sobrenomes permanecem presentes na vida comunitária e nos grupos do Toré, onde os ensinamentos dos ancestrais continuam sendo celebrados através dos cantos, danças e narrativas. Assim, suas histórias ultrapassam os limites do parentesco e transformam-se em patrimônio coletivo, reafirmando a força cultural e a continuidade histórica do povo Kariri-Xocó através das gerações.
CAPÍTULO IV – A TRAVESSIA DOS XOCÓ: HISTÓRIAS DAS FAMÍLIAS MUIRÁ E TONONÉ
Este capítulo reúne as memórias de duas importantes linhagens do povo Xocó, as famílias Muirá e Tononé, cujas trajetórias se entrelaçam aos processos de migração da antiga Ilha de São Pedro, às lideranças clânicas que orientaram seu povo e à formação da Aldeia de Colégio, em Alagoas. Por meio das narrativas preservadas pelos anciãos, conhecemos homens e mulheres que desempenharam papéis fundamentais na condução de suas comunidades durante períodos de mudança e adaptação. Suas histórias revelam não apenas a continuidade das famílias indígenas ao longo das gerações, mas também a força da união entre os povos que compartilharam o território, as águas do rio São Francisco e o compromisso coletivo de manter vivas suas tradições, identidades e laços de pertencimento.
História dos Muirá
Conta a tradição dos antigos que o sobrenome indígena Muirá, guardado com respeito entre os Kariri-Xocó, tem o significado de “arco” ou “madeira”, elementos profundamente ligados à vida, à sobrevivência e à identidade de nossos ancestrais. Os mais velhos narravam que sua origem remonta ao chefe indígena Muira Ubi, homem de liderança e prestígio entre seu povo, que se uniu à índia Xocó Jaciara. Dessa união nasceram descendentes que atravessaram gerações, mantendo viva a memória de seus antepassados e transmitindo seus ensinamentos de pai para filho.
Dizem também os guardiões da memória que entre os primeiros nomes lembrados dessa linhagem encontra-se Tereza Muirá, considerada a grande matriarca do clã. Ela nasceu na Aldeia Jaciobá, nas terras da Vila de Penedo, no ano de 1687, quando a região ainda fazia parte da Capitania de Pernambuco. Filha de Jaciara e Muira Ubi, Tereza tornou-se uma importante líder clânica do povo Xocó, sendo recordada por sua sabedoria, firmeza e dedicação à preservação das tradições de seu povo.
Os anciãos relatam que Tereza viveu em uma época de grandes transformações, quando os povos indígenas do Baixo São Francisco enfrentavam desafios para manter suas terras, seus costumes e sua autonomia. Sua presença fortaleceu os laços familiares e ajudou a preservar a identidade dos descendentes de Muira Ubi e Jaciara. Por isso, seu nome atravessou os séculos e continua sendo mencionado nas histórias contadas ao redor das famílias Kariri-Xocó e Xocó.
Entre os descendentes dessa antiga linhagem destaca-se Inocêncio Pires Muirá (1855–1936), filho de José Ribeiro Sabino Pires e de Jetudes Muirá, esta reconhecida como bisneta de Tereza Muirá. Assim, a memória do clã permaneceu viva através das gerações, como um arco que liga o passado ao presente. Cada descendente carrega consigo uma parte dessa herança ancestral, preservando o nome Muirá como símbolo de pertencimento, resistência e continuidade da história indígena nas margens do grande Rio São Francisco.
História dos Tononé
Os mais antigos contam que Tononé é um sobrenome de família Xocó que carrega um belo significado: “Abraço da Criação”. Diz a tradição que esse nome foi dado àqueles que tinham a missão de acolher quem chegava à aldeia, oferecendo amizade, proteção e pertencimento. Por isso, entre os Xocó, os Tononé ficaram conhecidos como um povo de coração aberto, guardiões da boa recepção e da união entre as famílias.
Entre os membros dessa linhagem destacou-se Manoel Francisco da Silva, lembrado por todos como Manoel Tononé. Ele nasceu no ano de 1852, na Aldeia Xocó da Ilha de São Pedro, às margens do rio São Francisco, na então Província de Sergipe, durante o tempo do Império do Brasil. Canoeiro habilidoso e indígena Xocó respeitado por seu povo, dedicou sua vida ao trabalho nas águas do Velho Chico, conhecendo seus caminhos, suas correntezas e suas histórias.
A memória dos anciãos também recorda que Manoel Tononé era primo do cacique Inocêncio Muirá. Os dois eram figuras importantes entre os Xocó e viveram um período de grandes mudanças para o povo. Segundo a tradição oral, quando chegou o momento de deixar a Ilha de São Pedro, eles estavam entre as últimas famílias a permanecer naquele território ancestral, resistindo enquanto puderam junto às suas parentelas.
Conta-se ainda que, no ano de 1898, Manoel Tononé, Inocêncio Muirá e seus familiares atravessaram as águas do São Francisco e seguiram para a Aldeia de Colégio, em Porto Real do Colégio, Alagoas, onde passaram a viver ao lado de seu povo Xocó. Ali continuaram a preservar suas lembranças, seus costumes e sua identidade indígena. Manoel Tononé encerrou sua caminhada em 1936, na Rua dos Índios, mas seu nome permanece vivo na memória das gerações que continuam a honrar a história da família Tononé e a tradição do abraço que acolhe e fortalece a comunidade.
As histórias das famílias Muirá e Tononé recordam um dos momentos mais marcantes da memória Xocó: a travessia das águas do São Francisco e a mudança da Ilha de São Pedro para a Aldeia de Colégio. Guiados por suas lideranças clânicas e fortalecidos pelos vínculos familiares, esses grupos contribuíram para a construção de uma nova etapa da vida comunitária sem abandonar suas raízes ancestrais. A união entre parentes, aliados e diferentes famílias indígenas tornou-se a base para a preservação da identidade coletiva, permitindo que a memória dos antigos continuasse a ser transmitida às gerações seguintes. Assim, os nomes Muirá e Tononé permanecem como símbolos de resistência, pertencimento e da capacidade dos povos indígenas de transformar a travessia e a mudança em caminhos de continuidade cultural e fortalecimento comunitário.
CAPÍTULO V – ARTESÃOS DA MEMÓRIA: HISTÓRIAS DAS FAMÍLIAS EMURÁ E NIDÉ
O presente capítulo reúne as histórias das famílias Emurá e Nidé, guardiãs de saberes que atravessaram gerações entre o povo Kariri-Xocó. Por meio de suas trajetórias, revelam-se importantes aspectos da vida tradicional indígena, marcada pelo trabalho dos balaieiros que transformavam os recursos da mata em arte e utilidade, pela sabedoria dos pescadores que encontravam no Rio São Francisco sustento e ensinamento, pela coragem dos guerreiros Kariri que defenderam seus territórios ancestrais e pela liderança dos caciques e conselheiros responsáveis por orientar a comunidade. Assim, as memórias dessas famílias constituem um valioso patrimônio cultural, preservando conhecimentos, valores e experiências que continuam fortalecendo a identidade coletiva do povo Kariri-Xocó.
História dos Emurá
Os mais velhos contam que, entre os Kariri-Xocó, existe uma antiga família conhecida pelo sobrenome Emurá, também pronunciado Muru. Diz a tradição que esse nome vem do povo Kariri-Xocó e significa “aquele que faz balaio de cipó”, lembrando a arte paciente das mãos que entrelaçam as fibras da mata para criar objetos úteis ao cotidiano. Assim, o nome da família carrega consigo a memória do trabalho, da sabedoria e do conhecimento transmitido de geração em geração.
Contam ainda que o tronco dessa família foi José Santana, indígena Kariri nascido no ano de 1828, na antiga Rua dos Índios, na Paróquia de Nossa Senhora da Conceição de Porto Real do Colégio, quando a região ainda fazia parte da Província de Alagoas, ligada à Vila de Penedo, nos tempos do Império do Brasil. Seu nascimento aconteceu em uma época em que os povos indígenas do Baixo São Francisco lutavam para preservar suas tradições, seus territórios e sua identidade diante das muitas mudanças que chegavam à região.
José Santana viveu grande parte de sua vida às margens do Velho Chico, trabalhando como pescador. As águas do rio eram sua fonte de sustento e também um caminho por onde circulavam histórias, ensinamentos e lembranças dos ancestrais. Como muitos homens de seu tempo, conhecia os segredos das correntezas, das cheias e das vazantes, mantendo uma relação profunda com a natureza que cercava seu povo.
Quando partiu, em 1916, na mesma Rua dos Índios onde havia nascido, deixou como herança não apenas seu nome, mas também uma descendência que continuou sua história. Dele vieram Marco Ferreira, Martiniano Lima, Vicente F. Ferro e Maria Colodina, cujas gerações preservaram a memória de seu ancestral. E assim, de boca em boca e de coração em coração, a história da família Emurá ou Muru continua sendo contada entre os Kariri-Xocó, como um balaio de cipó tecido pelos fios da lembrança e da tradição.
História dos Nidé
Os mais velhos contam que o nome Nidé vem de um tempo muito antigo, do tempo dos grandes chefes e guerreiros que defendiam as terras dos Kariris. Segundo a tradição oral, esse nome teria sua origem em Canindé, palavra associada à arara de penas azuis que voa pelos céus do Nordeste, ave admirada por sua beleza, força e liberdade. Ao longo das gerações, o nome foi preservado na memória das famílias e passou a representar não apenas uma linhagem, mas também uma herança ligada à coragem, à resistência e ao pertencimento ao território ancestral.
Naquele período, muitos povos indígenas precisaram unir forças para enfrentar o avanço dos criadores de gado sobre suas terras. Os caminhos, rios e campos tradicionalmente ocupados pelos povos originários passaram a ser disputados, levando diferentes nações indígenas a formar uma grande aliança em defesa de seus territórios. Entre os líderes dessa resistência destacou-se o célebre chefe Janduí, lembrado por sua coragem e sabedoria, ao lado dos Canindés, parentes culturais e linguísticos dos Kariris, que lutaram juntos para proteger suas aldeias, suas famílias e seus modos de vida.
Com o passar dos anos, as guerras chegaram ao fim, mas a memória dos antigos chefes não desapareceu. Seus nomes continuaram vivos nas histórias contadas pelos avós, nas lembranças preservadas pelas famílias e nos ensinamentos transmitidos de geração em geração. Dessa forma, os feitos dos ancestrais permaneceram guardados na tradição oral, fortalecendo a identidade coletiva dos povos indígenas do sertão nordestino e mantendo viva a lembrança daqueles que lutaram pela defesa de suas terras.
Por isso, ainda hoje existe entre o povo Kariri-Xocó uma família que carrega o sobrenome Nidé. Esse nome representa muito mais do que uma identificação familiar; constitui uma herança de memória e pertencimento que atravessou séculos. Entre os Nidé destacou-se o saudoso cacique Otávio Nidé (1908–1986), homem de grande conhecimento e respeitado por toda a comunidade. Conhecedor das histórias das famílias, intérprete de sonhos, rezador e conselheiro dos mais jovens, era visto como um guardião dos ensinamentos antigos, pois carregava consigo a memória dos ancestrais e a luz dos conhecimentos transmitidos pelos mais velhos.
As histórias das famílias Emurá e Nidé demonstram que a memória de um povo é tecida por muitas mãos e sustentada por diferentes formas de conhecimento. Nos balaieiros permanecem os saberes do trabalho tradicional; nos pescadores, a íntima relação com as águas do Velho Chico; nos guerreiros Kariri, a lembrança da resistência e da defesa do território; e nos caciques e conselheiros, a continuidade da orientação espiritual, política e cultural da comunidade. Reunidas, essas trajetórias revelam a força dos ancestrais que ajudaram a construir a história do povo Kariri-Xocó, mantendo viva uma herança que continua sendo transmitida pelas narrativas, pelos ensinamentos e pela memória coletiva das gerações presentes e futuras.
CAPÍTULO VI – POVOS DA CANOA E DAS CORRENTEZAS: HISTÓRIAS DAS FAMÍLIAS MAROMBA E IBÁ
Nas margens vivas do grande curso do Rio São Francisco, onde as águas conduzem caminhos e memórias, se formam as antigas tradições de navegação indígena e dos canoeiros que aprenderam a ler as correntezas como quem lê os sinais da própria vida. É nesse universo de saberes fluviais que se entrelaçam as histórias das famílias Maromba e Ibá, guardiãs de uma herança marcada pelo movimento das canoas, pela força da pajelança e pela sabedoria das lideranças tradicionais que orientam o povo nas travessias físicas e espirituais. Entre rios, ilhas e migrações, a memória ancestral se mantém viva como corrente contínua, sustentando a identidade coletiva e os vínculos profundos com as águas sagradas do território.
História dos Maromba
Os mais antigos contam que o sobrenome Maromba nasceu das águas e da sabedoria dos povos do rio. Dizem que Maromba significa jangada ou curral flutuante, lembrando as estruturas que boiavam sobre as correntezas do grande São Francisco. Foi desse tronco familiar que surgiu João Maromba, indígena originário de Pacatuba, terra que mais tarde se transformaria na Freguesia de São Félix de Pacatuba, na então Província de Sergipe, durante os tempos do Império do Brasil.
Conta a tradição que João Maromba veio ao mundo no ano de 1835 e cresceu ouvindo as histórias dos antigos e aprendendo os costumes de seu povo. Com o passar dos anos, seguiu seu caminho até a Ilha de São Pedro, onde passou a viver junto ao povo Xocó. Ali fortaleceu seus laços familiares e comunitários, participando da vida da aldeia e cultivando a terra às margens do rio que sustentava tantas gerações indígenas.
Os mais velhos também recordam que, quando chegaram novos tempos e novas necessidades, os Xocós deixaram a Ilha de São Pedro e atravessaram o São Francisco rumo a Porto Real do Colégio. Essa mudança ocorreu em 1882, e João Maromba seguiu com seu povo para a nova aldeia. Com ele vieram seus filhos José Maromba, Francisco Maromba, Pedro Maromba e Gregório Maromba, todos nascidos ainda na Ilha de São Pedro, antes da grande travessia para as terras de Colégio.
Na memória transmitida de geração em geração, João Maromba é lembrado como líder clânico dos Maromba, agricultor dedicado e homem respeitado entre os seus. Estabelecido na antiga Rua dos Índios, em Porto Real do Colégio, ajudou a fortalecer sua comunidade e a preservar a identidade de seu povo. Seu ciclo de vida encerrou-se em 1921, mas seu nome permaneceu vivo entre os descendentes, que continuam a guardar e contar a história do tronco familiar Maromba, ligando as terras de Pacatuba, a Ilha de São Pedro e a Aldeia de Colégio em uma mesma corrente de memória ancestral.
História da Família Ibá
Os mais velhos do povo Kariri-Xocó contam que a família Ibá constitui uma das linhagens tradicionais preservadas pela memória ancestral da comunidade. Segundo os conhecimentos registrados sobre a língua dos antigos Kariri, a palavra Ibá significa “povo da canoa” ou “gente da canoa”, estando associada ao modo de vida indígena ligado às águas do Rio São Francisco. Alguns estudiosos também registram o sentido de “carro” ou “veículo”, ideia que remete ao movimento, ao caminho e à continuidade da vida. Até os dias atuais, esse nome permanece vivo entre diversas famílias da Aldeia Kariri-Xocó, em Porto Real do Colégio, representando um importante elo entre o presente e os antepassados.
Na tradição oral, os anciãos recordam que a grande matriarca dessa linhagem foi Maria Rosa Ibá, nascida na Ilha de São Pedro em 1869, período em que os Xocó ainda habitavam a ilha, antes da migração para a Aldeia de Colégio, ocorrida em 1882. Sua trajetória atravessou gerações e permaneceu guardada na memória dos descendentes como parte fundamental da história coletiva do povo. Por meio de suas lembranças e ensinamentos, sua presença continuou viva entre aqueles que herdaram o compromisso de preservar as tradições e os laços familiares.
Maria Rosa Ibá tornou-se uma importante referência familiar por ter sido mãe de Maria Murú Ibá, que se uniu em casamento ao pajé Manoel Joaquim de Santana, conhecido por todos como Dunga. Essa união fortaleceu os vínculos entre famílias de grande relevância dentro da comunidade e deu continuidade a uma descendência que passou a ocupar lugar de destaque na história dos Kariri-Xocó. Dessa linhagem nasceu o antigo cacique Jonas Ibá, cuja liderança permaneceu viva na lembrança de seu povo, juntamente com outros descendentes que contribuíram para manter acesa a memória ancestral.
Entre esses descendentes destacam-se Augustinho Ibá, Ana Sé (Anacé), Gercina Soia e Rosa Ibá, guardiões de histórias, nomes e tradições transmitidas de geração em geração. Por isso, quando os Kariri-Xocó falam da família Ibá, não recordam apenas uma genealogia, mas uma trajetória profundamente ligada à Ilha de São Pedro, às águas do Rio São Francisco e à resistência cultural de seu povo. A história dessa família continua sendo contada como parte da grande narrativa dos Kariri-Xocó, reafirmando a importância dos ancestrais na construção da identidade, da memória coletiva e da continuidade cultural da comunidade.
Assim, as trajetórias das famílias Maromba e Ibá reafirmam que a história do povo se constrói sobre a sabedoria da navegação indígena, a resistência dos canoeiros do São Francisco, a força espiritual da pajelança e a continuidade das lideranças tradicionais que atravessam gerações. Nas águas do Rio São Francisco, permanecem não apenas rotas de deslocamento, mas caminhos de memória, onde os ancestrais continuam guiando seus descendentes. Cada nome, cada travessia e cada ensinamento preservado fortalece a identidade coletiva e renova o compromisso com a vida comunitária, fazendo da correnteza um arquivo vivo da história e da espiritualidade do povo.
CAPÍTULO VII – O BARRO E A PERMANÊNCIA: HISTÓRIAS DAS FAMÍLIAS TINGA E SÓIA
As trajetórias das famílias Kariri-Xocó são marcadas por deslocamentos históricos, atravessamentos de rios e permanências construídas na memória coletiva, onde as migrações familiares não representam apenas mudanças de território, mas também processos de continuidade cultural e fortalecimento identitário. Nesse capítulo, as histórias das famílias Tinga e Sóia revelam como a vida entre margens, ilhas e aldeias foi moldada pela relação profunda com a terra, com o rio e com os modos tradicionais de existência. A cerâmica indígena surge como expressão central desse percurso, unindo técnica e espiritualidade, enquanto as matriarcas da tradição assumem o papel de guardiãs dos saberes, transmitindo às novas gerações conhecimentos que atravessam o tempo. Assim, a transmissão dos saberes se revela como o elo que mantém viva a memória do povo, mesmo diante das transformações históricas.
História da Família Tinga
A família Tinga está entre os antigos grupos familiares que ajudaram a formar a história do povo Kariri-Xocó. Segundo a tradição oral, seus ancestrais vieram de Pacatuba, em Sergipe, destacando-se Maria de Aniceto, mãe de Aniceto Tinga, que nasceu na Ilha de São Pedro, na Aldeia Xocó.
Posteriormente, a família atravessou o rio São Francisco e estabeleceu-se em Porto Real do Colégio, integrando a comunidade que viria a ser reconhecida como Aldeia Kariri-Xocó. Entre seus descendentes destacam-se Pedro Tinga e Ernestina Tinga, pais de Antonio Tinga, cujos nomes aparecem em documentos históricos da primeira metade do século XX.
Ao longo das gerações, a família Tinga tornou-se símbolo de união, resistência e continuidade cultural. De Pacatuba à Ilha de São Pedro e desta para Porto Real do Colégio, sua trajetória permanece viva na memória oral e na história do povo Kariri-Xocó.
Assim, a trajetória da família Tinga representa uma caminhada de permanência e adaptação ao longo do tempo. De Pacatuba à Ilha de São Pedro, e desta para Porto Real do Colégio, seus descendentes ajudaram a preservar a identidade indígena, mantendo vivas as memórias ancestrais que continuam a fortalecer o povo Kariri-Xocó até os dias atuais.
História da Família Sóia
Quando os mais velhos se sentavam à sombra das árvores para recordar os tempos antigos, o nome Sóia surgia acompanhado de respeito e admiração. Diziam que esse sobrenome tinha origem no mundo das águas e dos peixes, significando entre os antigos falantes da Língua Geral um “peixe diferente”, associado ao termo tupi Piramiré, o peixe de dois olhos voltados para o mesmo lado. Era um nome que atravessava gerações, carregando consigo a memória dos Xocó e de suas caminhadas ao longo das margens do Velho Chico.
Entre os troncos mais lembrados dessa família estava Maria Eleuteria Sóia, nascida em 1878 na Ilha de São Pedro, em Porto da Folha, Sergipe, quando o Brasil ainda era Império. Os antigos contavam que ela era uma habilidosa ceramista Xocó, conhecedora dos segredos do barro, das águas e do fogo. Em 1882, ainda criança, acompanhou seu povo na migração para a Aldeia de Colégio, em Alagoas, levando consigo as tradições herdadas dos antepassados. Na nova terra, ajudou a preservar uma arte antiga que unia trabalho, sustento e identidade cultural.
Com o passar dos anos, Maria Eleuteria tornou-se uma das grandes matriarcas da comunidade. Suas filhas nasceram já na Aldeia de Colégio e cresceram observando as mãos da mãe moldarem panelas, potes, alguidares e outros utensílios de barro. Entre elas estavam Josefa Sóia, Antônia Gás, Maria dos Anjos, Jardilina e outras mais, todas reconhecidas como grandes ceramistas. Assim como a mãe, aprenderam a retirar o barro da terra, a dar forma às peças e a transformá-las pelo fogo, mantendo viva uma tradição transmitida de geração em geração.
Quando Maria Eleuteria Sóia faleceu, em 1956, na Rua São Vicente, em Porto Real do Colégio, deixou uma extensa descendência e um legado que ia muito além dos laços de sangue. Permaneceu viva na memória do povo como uma guardiã dos saberes da cerâmica Xocó, uma mulher que ajudou a manter acesa a chama das tradições de seu povo. E até hoje, quando os descendentes recordam seu nome, lembram não apenas de uma ancestral, mas de uma mestra do barro, cuja história continua moldada na memória coletiva, assim como as peças que suas mãos criaram ao longo da vida.
Ao observar as narrativas das famílias Tinga e Sóia, percebe-se que a força da memória Kariri-Xocó está profundamente enraizada nas migrações familiares, que tecem caminhos entre Sergipe e Alagoas, entre a Ilha de São Pedro e Porto Real do Colégio, reconstruindo pertencimentos ao longo do tempo. Nesse percurso, a cerâmica indígena não é apenas ofício, mas também linguagem de continuidade, onde o barro ganha forma como extensão da própria história do povo. As matriarcas da tradição, como Maria Eleuteria Sóia, Maria de Aniceto, Ernestina Tinga e Josefa Sóia, entre outras, tornam-se pilares dessa continuidade, assegurando que o conhecimento não se perca. A transmissão dos saberes, assim, permanece viva como um gesto coletivo, onde cada geração molda, como o barro nas mãos, a permanência de sua própria história e identidade.
CAPÍTULO VIII – O FOGO SAGRADO E OS VIGILANTES DA TERRA: HISTÓRIAS DAS FAMÍLIAS TARÉ E TIBIRIÇÁ
Entre os muitos troncos familiares que compõem a memória do povo Kariri-Xocó, as famílias Taré e Tibiriçá ocupam lugar de destaque por guardarem ensinamentos transmitidos através da tradição oral, do trabalho na agricultura e da defesa dos territórios ancestrais. Suas histórias revelam como o conhecimento dos mais velhos atravessa gerações, preservando valores de solidariedade, respeito à terra e compromisso com a coletividade. Também demonstram os laços históricos de integração entre diferentes povos indígenas do Nordeste, cujas famílias, ao compartilharem vivências, costumes e alianças, fortaleceram a continuidade cultural e a resistência de suas comunidades ao longo do tempo.
História dos Taré
Quando os mais velhos se reúnem ao redor do fogo e a noite espalha seu silêncio sobre a aldeia, costuma-se recordar que Taré é um antigo sobrenome do povo Kariri-Xocó. Os anciãos ensinam que Taré significa “fogo quente sagrado”, pois as histórias que nascem junto às chamas carregam a memória dos ancestrais e os ensinamentos deixados para as novas gerações. Como o fogo que aquece e ilumina, os Taré mantêm viva a lembrança daqueles que ajudaram a construir a história do povo.
Entre esses nomes está Floraci Taré, nascida em 1912 na Aldeia Brejo dos Padres, em Tacaratu, Pernambuco. Mulher trabalhadora e respeitada, aprendeu desde cedo o valor da terra e da convivência comunitária. Floraci fazia parte de uma família conhecida entre os Kariri-Xocó, onde também se destacavam seus parentes José Taré, lembrado como grande marceneiro e escultor em madeira, e Anísio Taré, seu irmão, homens que deixaram suas marcas por meio do trabalho e da dedicação à comunidade.
Os mais velhos contam que Floraci uniu sua vida à de Manoel Gire Içá, formando um casal que encontrava na roça o sustento da família. Juntos trabalhavam a terra, acompanhando o tempo das chuvas e das colheitas. Dessa união nasceu Pedro Giri, único filho do casal, que herdou a memória de seus pais e se tornou um importante elo entre as gerações da família. Hoje, ao alcançar seus 87 anos de vida, Pedro continua sendo uma referência viva dessa história familiar.
Floraci faleceu em 1942, na Rua dos Índios, em Porto Real do Colégio, Alagoas, mas sua lembrança permanece acesa entre seus descendentes e parentes. Os Taré formam uma numerosa família na Aldeia Kariri-Xocó, unida por laços de sangue, amizade e casamentos com outras famílias indígenas. Assim, como o fogo sagrado que nunca deve se apagar, a história dos Taré continua sendo contada ao redor das rodas de conversa, preservando a memória, a identidade e a ancestralidade do povo Kariri-Xocó.
História dos Tibiriçá
Os mais velhos contam que Tibiriçá é um antigo sobrenome de família entre os Kariri-Xocó, vindo da língua tupi, onde Tibiri-sá significa "vigia da terra" ou "sentinela da terra". É um nome que carrega a lembrança daqueles que observavam e protegiam seu povo, suas matas, seus caminhos e seus lugares sagrados. Por isso, quando o nome Tibiriçá é pronunciado, ele traz consigo a memória dos guardiões da terra e da tradição.
Entre os ancestrais dessa família destaca-se João Tibiriçá Içá, conhecido por muitos como João Tenório. Nascido em 1905 na Aldeia Brejo dos Padres, em Tacaratu, Pernambuco, era filho de Francisco Manoel Tenório Içá e Maria Rosa Içá, ambos pertencentes ao povo Pankararu. Desde cedo aprendeu o valor do trabalho na agricultura e o respeito pelos costumes herdados dos mais antigos. Mais tarde, seguindo os caminhos da vida, veio estabelecer seus laços junto ao povo Kariri-Xocó, no Baixo São Francisco.
Os anciãos lembram que João Tenório construiu uma grande família. De sua primeira união nasceu sua filha Helena, ainda em terras Pankararu. Depois, ao lado de Luiza da Neves, teve outros filhos na Aldeia Kariri-Xocó: Rosa, Antônia, Maria Véia, José Tenório e Valdenoura. Cada filho e filha levou adiante os ensinamentos recebidos, fazendo crescer os ramos dessa árvore familiar que continua viva através das gerações.
Quando João Tibiriçá Içá partiu, em 1964, na Rua São Vicente, em Porto Real do Colégio, deixou muito mais que lembranças. Deixou descendentes, histórias e ensinamentos que permanecem guardados na memória do povo. Até hoje, a numerosa família Tibiriçá continua honrando o legado de seu ancestral, mantendo viva a herança indígena e a história que passa de boca em boca, de coração em coração, como fazem os povos da tradição oral.
As trajetórias das famílias Taré e Tibiriçá mostram que a força de um povo não reside apenas em suas origens, mas também na capacidade de manter viva sua memória e seus vínculos comunitários. Como guardiões dos saberes transmitidos pela oralidade, trabalhadores da terra e defensores dos territórios ancestrais, seus descendentes continuam honrando os ensinamentos recebidos dos antigos. Ao mesmo tempo, suas histórias testemunham a integração entre povos indígenas irmãos, cujas relações familiares e culturais contribuíram para fortalecer identidades, preservar tradições e assegurar que a chama da ancestralidade continue iluminando os caminhos das futuras gerações Kariri-Xocó.
CAPÍTULO IX – OS NOMES DAS ÁGUAS E DAS CHUVAS: HISTÓRIAS DAS FAMÍLIAS GIRI E GIRIÇÁ
Os nomes das famílias indígenas guardam em si muito mais do que simples identificações de parentesco; são verdadeiros mapas da memória ancestral. Entre os Kariri-Xocó, os sobrenomes Giri e Giriçá evocam antigas conexões entre povos, territórios e elementos da natureza, especialmente as águas que unem o sertão às margens do Rio São Francisco. As narrativas transmitidas pelos anciãos revelam laços históricos com os Pankararu de Tacaratú, Pernambuco, e mostram como rios, chuvas, nascentes e caminhos de migração se transformaram em símbolos de identidade e pertencimento. Assim, a formação dessas famílias se entrelaça à ancestralidade indígena, preservando conhecimentos que atravessaram gerações e permanecem vivos na tradição oral.
História dos Giri
Também se dizia que parte do nome estava ligada à palavra tupi “îy”, que significa rio ou água. Dessa forma, o nome Giri passou a ser compreendido por muitos como uma expressão profundamente conectada aos cursos d’água, às chuvas e às forças que sustentam a vida. Era como se o próprio nome carregasse a lembrança permanente dos rios que alimentam a terra e os povos.
Com o passar dos anos, outra denominação familiar ganhou destaque entre os Kariri-Xocó: Giriçá. Registrada nos tempos do Posto Indígena Padre Alfredo Dâmaso e do antigo Serviço de Proteção aos Índios, essa designação passou a fazer parte da história de diversas famílias da comunidade, preservando memórias que remontam aos antigos contatos entre povos indígenas e agentes do Estado.
Os estudiosos da língua tupi explicam que Giriçá pode reunir diferentes significados.
Alguns associam o termo à ideia de “comedor de formigas”, especialmente da saúva, animal conhecido por sua importância no imaginário e na alimentação de diversos povos indígenas. Outros identificam em sua composição os elementos ligados à água, à chuva e ao termo “yçá”, que pode significar tronco, haste ou mesmo a formiga alada conhecida como içá.
Por isso, quando os mais velhos pronunciam os nomes Giri e Giriçá, não estão apenas recordando pessoas e famílias. Estão evocando rios, chuvas, árvores, insetos e caminhos ancestrais que unem o sertão de Pankararú às margens do São Francisco. São nomes que guardam a memória de um povo e lembram que cada palavra herdada dos antepassados carrega dentro de si uma história que continua viva enquanto houver alguém para contá-la.
História dos Giriçá
Conta a memória dos mais velhos que, há muitas gerações, chegou às terras do Baixo São Francisco uma família vinda das serras de Pankararú, em Tacaratú, Pernambuco. Entre seus membros destacava-se Manoel Gira Iça, homem respeitado por seu povo e guardião das histórias de seus antepassados. Com ele viajavam costumes, palavras antigas e lembranças que atravessaram o tempo, sendo transmitidas de pais para filhos como um tesouro sagrado.
Dizem os anciãos que Manoel Gira Iça tornou-se o pai de Pedro Giri, que mais tarde viveu na aldeia Kariri-Xocó e constituiu sua família ao lado de Necí Suré, tia paterna de Nhenety. Assim, os laços entre famílias e gerações foram sendo tecidos como uma grande rede de parentesco, fortalecendo a memória coletiva do povo.
Nas rodas de conversa, quando a noite descia sobre a aldeia e o fogo iluminava os rostos dos mais velhos, costumava-se falar sobre o significado do nome Giri. Não era apenas um sobrenome ou uma identificação familiar; carregava consigo ecos de uma língua ancestral que guardava a sabedoria da natureza e dos espíritos das águas.
Os conhecedores da palavra antiga ensinavam que o elemento “Gi” podia estar relacionado a “jia”, termo de origem tupi associado à protetora das fontes e das nascentes, aquela que vela pelas águas que brotam da terra. Em outras narrativas, era lembrada como a Mãe da Chuva, entidade ligada à fertilidade, à renovação da vida e à abundância necessária para os povos da floresta e do sertão.
As histórias das famílias Giri e Giriçá demonstram que a memória indígena é construída pela união entre pessoas, territórios e forças da natureza. Os rios e as chuvas presentes nos significados atribuídos aos nomes simbolizam a continuidade da vida, a renovação dos ciclos e a permanência dos vínculos ancestrais. As conexões com os Pankararu e com as antigas rotas percorridas pelos antepassados revelam que a formação das famílias Kariri-Xocó ocorreu por meio de encontros, migrações e alianças que fortaleceram a comunidade ao longo do tempo. Dessa forma, os nomes herdados dos mais velhos permanecem como testemunhos vivos da ancestralidade, guardando em cada palavra a lembrança daqueles que caminharam antes e deixaram seu legado para as gerações futuras.
CAPÍTULO X – RESISTÊNCIA E RETOMADA: HISTÓRIAS DAS FAMÍLIAS IRECÊ E TEIPÓ
As histórias das famílias Irecê e Teipó revelam importantes capítulos da trajetória política e da resistência do povo Kariri-Xocó ao longo das gerações. Por meio de suas lideranças, protetores indígenas e guardiões da memória coletiva, essas famílias participaram de momentos decisivos na defesa dos direitos do povo e na preservação de seu território ancestral. Suas narrativas estão ligadas às lutas pela permanência na terra, às retomadas territoriais e ao fortalecimento da organização comunitária, demonstrando como a memória política indígena continua viva por meio daqueles que assumiram a responsabilidade de conduzir, proteger e representar sua comunidade diante dos desafios de cada época.
História dos Ireçê
Contam os mais velhos que os nomes carregam histórias antigas, vindas do tempo em que os ancestrais conversavam com os rios, as matas e os caminhos da terra. Entre esses nomes está Irecê, nome de família do cacique Cícero Santiago Irecê (1936–2016), importante liderança do povo Xocó de Porto Real do Colégio. Diz a tradição que esse nome guarda em si a memória das águas, pois sua origem está na antiga língua Tupi.
Na fala dos antigos, Irecê vem de “Y-recê”, expressão que pode ser entendida como “pela água”, “à tona d’água” ou “à mercê da corrente”. Assim, o nome evoca a imagem de quem segue junto ao curso do rio, acompanhando seu movimento e sua força. Para os povos indígenas do Baixo São Francisco, onde a vida sempre esteve ligada às águas, essa associação possui profundo significado, pois o rio foi caminho, alimento, proteção e fonte de memória para muitas gerações.
Os anciãos também lembram que os Xocó viveram por muito tempo sob a influência dos missionários jesuítas e que, durante esse período, utilizaram a chamada Língua Geral, derivada do Tupi, tanto na antiga Aldeia Jaciobá, em Pão de Açúcar, quanto na aldeia de Colégio, em Alagoas. Por essa razão, muitos nomes, palavras e expressões de origem tupi permaneceram vivos na memória coletiva, atravessando os séculos e chegando até os dias atuais.
E quando se fala do cacique Irecê, recorda-se também sua atuação na luta de seu povo. Em 1978, ao lado do pajé Francisco Suíra, ele liderou a entrada dos Kariri-Xocó na Fazenda Modelo, um acontecimento marcante na história da comunidade e na reafirmação de seus direitos sobre a terra ancestral. Assim, o nome Irecê segue correndo como as águas do São Francisco: trazendo consigo a lembrança dos antigos, a força da resistência indígena e a continuidade da memória de um povo que jamais deixou de lutar por sua identidade.
História dos Teipó
Quando os mais velhos se reuniam ao redor da conversa mansa, contavam que Teipó é um antigo sobrenome das famílias Kariri-Xocó. Diziam que seu significado é “Veneno”, nome dado àqueles que conheciam a arte de preparar substâncias usadas na caça, na pesca e também na defesa do povo em tempos de conflito. Esse saber, guardado de geração em geração, fazia parte dos conhecimentos tradicionais que ajudavam a garantir a sobrevivência da comunidade.
Entre os descendentes desse nome lembrado com respeito estava Luiz Antônio Teipó, nascido por volta de 1883. Os anciãos recordam que ele cresceu ouvindo as histórias dos mais velhos e acompanhando os costumes de seu povo às margens do Velho Chico. Era homem conhecido na aldeia, pertencente a uma família cujas raízes se confundiam com a própria história dos Kariri-Xocó.
Também se conta que Luiz Antônio era conhecido por Luís Antigo, ele foi irmão de Maria Matilde Teipó, mulher de grande importância na memória da comunidade. Entre os anos de 1933 e 1944, ela ficou conhecida como protetora dos indígenas de Porto Real do Colégio, defendendo seu povo em tempos difíceis. Por isso, os nomes dos dois irmãos permanecem vivos nas narrativas transmitidas pelos descendentes e pelos guardiões da memória coletiva.
Já em seus últimos anos, Luiz Antônio Teipó continuou cercado por filhos, parentes e amigos na Aldeia Kariri-Xocó, onde faleceu aproximadamente em 1965. Deixou uma numerosa descendência, entre eles José de Ouro, Nega, Júlio Teipó, Gercina, Dora, Maria dos Anjos, Antônio Gás e Jardilina, Clóvis e Pedro, além de muitos outros familiares. E assim, geração após geração, o nome Teipó segue sendo lembrado como parte da grande árvore de famílias que mantém viva a história, a identidade e a memória do povo Kariri-Xocó.
Ao recordar as trajetórias das famílias Irecê e Teipó, compreende-se que a resistência Kariri-Xocó foi construída por muitas mãos, vozes e gerações. Dos antigos protetores indígenas às lideranças contemporâneas, cada pessoa deixou sua contribuição na defesa da terra, da cultura e da identidade do povo. As retomadas territoriais, os movimentos de organização comunitária e a preservação das memórias transmitidas pelos anciãos constituem parte fundamental dessa caminhada. Assim, os nomes Irecê e Teipó permanecem como símbolos de compromisso coletivo, coragem e continuidade histórica, fortalecendo a memória política do povo Kariri-Xocó e inspirando as futuras gerações a manter viva a luta pelos direitos e pela valorização de sua herança ancestral.
CAPÍTULO XI – HERANÇAS MATERNAS E ALIANÇAS INDÍGENAS: HISTÓRIAS DAS FAMÍLIAS ITAPÓ E CHIRÉ
A história dos povos indígenas é também a história dos encontros, das alianças e dos laços familiares que atravessam gerações. Entre os Kariri-Xocó, Karapotó e outros povos aliados do Baixo São Francisco, as relações de parentesco fortaleceram a convivência, a resistência e a preservação das tradições ancestrais. Neste capítulo, as memórias das famílias Itapó e Chiré revelam caminhos distintos, mas profundamente conectados pela herança indígena. De um lado, destacam-se as alianças entre povos e lideranças que contribuíram para a defesa dos territórios tradicionais; de outro, evidencia-se a importância da descendência materna como elemento de continuidade da identidade coletiva. Mesmo quando parte dessas famílias migrou para outras regiões do Brasil, levaram consigo os saberes, as lembranças e os valores herdados dos antepassados, mantendo vivos os vínculos culturais que unem passado, presente e futuro.
História dos Itapó
Os mais velhos contam que, entre os povos indígenas de Alagoas, viveu uma importante liderança chamada Juarez Itapó, cacique do povo Karapotó, no registro do SPI, essa família é chamada Araribóia. Casado com a indígena Lindinalva Poité Muirá Kariri-Xocó, ele carregava em seu próprio nome uma marca de força e significado. Itapó quer dizer “braço de pedra”, vindo da antiga língua Tupi: ita, que significa pedra, ferro ou metal, e pó, que significa mão. Assim, seu nome lembrava a firmeza de quem sustenta seu povo e não abandona a luta.
Dizem também que os Karapotó viveram por muito tempo junto aos parentes Kariri-Xocó na região de Colégio, às margens do Baixo São Francisco. Guardavam costumes, histórias e saberes transmitidos de geração em geração, mantendo viva a memória de seus ancestrais. Entre suas tradições permanecia o uso da Língua Geral, herança de antigos tempos de contato e convivência entre diferentes povos indígenas do Nordeste.
Quando chegou o tempo de reivindicar o território próprio para seu povo, o cacique Juarez Itapó assumiu a responsabilidade de conduzir essa caminhada. Os anciãos recordam que ele reuniu lideranças indígenas de várias partes do Nordeste, fortalecendo alianças e unindo vozes em torno de um mesmo objetivo: a conquista da terra tradicional dos Karapotó. Foi uma jornada marcada pela perseverança, pela união e pela defesa dos direitos indígenas.
E assim, no ano de 1993, essa luta alcançou uma importante vitória com a conquista da Reserva Indígena Karapotó. Desde então, o povo Karapotó segue escrevendo sua história em seu território, hoje localizado no município de São Sebastião, em Alagoas. Nas rodas de conversa e na memória dos mais velhos, o nome de Juarez Itapó continua sendo lembrado como o de uma liderança que ajudou a garantir um futuro para as novas gerações, mantendo viva a identidade e a força de seu povo.
História dos Chiré
Conta a memória dos antigos que, muito antes de os Xocó deixarem de falar a antiga Língua Geral, existia entre eles o sobrenome Chiré, também pronunciado por alguns como Xý-ré. Os mais velhos explicavam que esse nome carregava um significado profundo, pois queria dizer “o que vem da mãe”, “a continuação da mãe” ou “descendente materno”. Era um nome que lembrava a força das mulheres na transmissão da vida, da cultura e da memória do povo.
Dizem ainda que o tronco dessa família foi Maria Rita Chiré, mulher nascida na antiga Rua dos Índios, em Porto Real do Colégio, às margens do Velho Chico. Seu nascimento aconteceu em um tempo de grandes mudanças, quando o Brasil deixava para trás o período do Império e entrava na era da República, em 1889. Enquanto o país mudava seus governantes e suas leis, a vida do povo seguia seu curso, guardando tradições, histórias e laços de parentesco.
Maria Rita Chiré tornou-se uma das raízes de uma grande descendência. De seu tronco familiar surgiram aqueles que mais tarde seriam conhecidos como os Rosendos. Como acontece com tantas famílias indígenas, sua história foi sendo tecida entre as lembranças da aldeia, os ensinamentos dos mais velhos e a convivência com as transformações do mundo ao redor.
Com o passar dos anos, novos caminhos foram sendo abertos para seus descendentes. No início da década de 1950, parte da família Rosendo migrou para São Paulo em busca de trabalho e novas oportunidades, levando consigo as recordações da terra natal e os ensinamentos herdados dos ancestrais. E assim, de geração em geração, o nome de Maria Rita Chiré permaneceu vivo na memória de seus descendentes, como um fio que une passado e presente na longa caminhada do povo Xocó.
As trajetórias das famílias Itapó e Chiré demonstram que a história indígena é sustentada tanto pelas alianças entre povos quanto pela força das linhagens familiares transmitidas de geração em geração. A liderança de Juarez Itapó simboliza a união dos povos aliados na defesa dos direitos e territórios indígenas, enquanto a memória de Maria Rita Chiré recorda a relevância das mulheres como guardiãs da continuidade cultural e da descendência materna. Mesmo diante das migrações para lugares distantes, como São Paulo, os descendentes dessas famílias mantiveram vivas as recordações de sua origem, preservando costumes, histórias e sentimentos de pertencimento. Assim, as heranças deixadas por seus ancestrais continuam presentes na identidade dos seus descendentes, reafirmando a permanência da cultura indígena ao longo do tempo e das transformações históricas.
CAPÍTULO XII – O MEL E A MONTANHA ANCESTRAL: HISTÓRIAS DAS FAMÍLIAS PAHANKÓ E IRAMINON
As histórias das famílias Pahankó e Iraminon revelam importantes caminhos da memória ancestral do povo Kariri-Xocó, unindo a força simbólica da montanha e a sabedoria guardada no mel. De um lado, o Morro do Aracaré permanece como referência de origem, pertencimento e resistência cultural; de outro, o mel e as abelhas representam trabalho, união e abundância, valores transmitidos entre gerações. Por meio das narrativas preservadas pelos mais velhos, este capítulo apresenta lembranças familiares, trajetórias de migração, ensinamentos ancestrais e vínculos de parentesco que continuam fortalecendo a identidade coletiva do povo Kariri-Xocó.
História dos Pahankó
Os mais velhos contam que os Pahankó constituem uma grande família do povo Kariri-Xocó. Seus antepassados teriam vindo das terras do Morro do Aracaré, em Sergipe, trazendo consigo suas lembranças, seus costumes e a força espiritual herdada dos ancestrais. Na memória da família permanece a figura do velho Antônio Cândido Pahankó, homem respeitado entre os seus e lembrado até hoje pelas gerações mais antigas. Por meio dele, muitos conhecimentos, histórias e ensinamentos foram preservados e transmitidos de pais para filhos e de avós para netos.
Segundo a tradição oral, o Morro do Aracaré guarda uma história ainda mais antiga. Antes das transformações trazidas pelos tempos modernos, aquelas terras foram habitadas pelos Urumaris. Mais tarde chegaram os missionários e novas formas de organização passaram a fazer parte da vida da região. Apesar das mudanças ocorridas ao longo dos séculos, a memória daquele lugar permaneceu viva entre os descendentes, que continuaram a reconhecer no Aracaré um marco importante de sua ancestralidade.
Com o passar dos anos, as famílias cresceram e novas gerações formaram seus próprios lares. Em 2010, o senhor Francisco Sampaio Pahankó reuniu seus parentes e organizou um espaço para que a grande família pudesse viver unida na Terra Indígena Kariri-Xocó, em Alagoas. A iniciativa fortaleceu os laços de parentesco e contribuiu para a preservação da identidade familiar e cultural herdada dos antigos.
Para manter viva a lembrança do caminho percorrido pelos ancestrais, o grupo recebeu o nome de Parrancó Aracaré. Dessa forma, o nome do antigo lugar continuou atravessando o tempo como uma ponte entre as gerações passadas e futuras. Ainda hoje, quando os mais velhos falam do Aracaré, não se referem apenas a um morro ou a uma terra distante, mas a uma origem comum, a uma memória preservada e a um caminho ancestral que continua acompanhando o povo Kariri-Xocó em sua trajetória
História dos Iraminon
Contam os mais velhos do povo Kariri-Xocó que existe uma antiga família conhecida pelo nome de Iraminon, um nome guardado na memória das gerações e transmitido de pais para filhos ao longo do tempo. Entre os Xocó, esse nome está ligado ao cultivo e ao cuidado com o mel, alimento precioso que a natureza oferece e que sempre teve grande valor para os povos indígenas. Por isso, muitos anciãos dizem que Iraminon pode ser compreendido como aquele que cultiva o mel ou como portador de um mel especial, símbolo de dedicação, trabalho e abundância.
Os antigos também lembram que, na língua Tupi antiga, a palavra "eíra" significa mel de abelha, enquanto outras formas linguísticas associadas ao nome remetem aos laços de parentesco e à continuidade da família. Já na tradição Kariri, a abelha é conhecida como "inxu", ser pequeno e trabalhador que produz o mel e contribui para a vida da floresta. Assim, o nome Iraminon reúne em si a lembrança do mel, da abelha e da força dos vínculos familiares, elementos que caminham juntos na história desse povo.
Entre os ancestrais mais lembrados dessa linhagem está Manoel Iraminõ, considerado um dos antigos representantes da família. Dele descendem muitos filhos e filhas, formando uma extensa rede de parentes que se espalhou ao longo das gerações. Entre os nomes preservados na memória familiar estão Nila Iraminon, Antonia Iraminon e Vera Iraminon, mulher que se tornou mãe de Joana, posteriormente esposa de Nhenety Kariri-Xocó. Esses nomes permanecem vivos porque cada pessoa carrega consigo um pedaço da história de seu povo.
Quando os mais velhos narram essa trajetória ao redor das conversas familiares e dos encontros da comunidade, ensinam que um nome não é apenas uma identificação, mas também um legado. O nome Iraminon guarda recordações dos ancestrais, do trabalho ligado ao mel, da presença das abelhas e da união entre os parentes. Dessa forma, a história dessa família continua sendo contada de geração em geração, fortalecendo a memória, a identidade e a herança cultural do povo Kariri-Xocó.
As trajetórias das famílias Pahankó e Iraminon demonstram que a memória de um povo é construída tanto pelos lugares sagrados quanto pelos conhecimentos transmitidos no cotidiano. O Morro do Aracaré permanece vivo como símbolo da ancestralidade dos Pahankó, enquanto o mel e a tradição ligada às abelhas continuam representando o legado cultural dos Iraminon. Juntas, essas histórias reafirmam a importância dos laços familiares, da preservação da tradição oral e do respeito aos ancestrais, assegurando que os ensinamentos do passado continuem orientando as gerações presentes e futuras do povo Kariri-Xocó.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A construção desta obra permitiu reunir fragmentos de memória preservados ao longo de muitas gerações entre os Kariri-Xocó. Cada sobrenome indígena, cada tronco familiar e cada narrativa registrada representa uma parte importante da história coletiva do povo, formando uma grande árvore ancestral cujas raízes se estendem pelos antigos territórios indígenas do Baixo São Francisco.
Ao longo dos capítulos, foram apresentados líderes, pajés, caciques, canoeiros, pescadores, agricultores, ceramistas, artesãos, guerreiros, conselheiros e guardiões da tradição oral. Suas trajetórias demonstram que a história indígena não é composta apenas por acontecimentos registrados em documentos oficiais, mas também pelas lembranças preservadas nas famílias, pelos ensinamentos transmitidos pelos anciãos e pelos conhecimentos que atravessam gerações.
As histórias das famílias Botó, Suíra, Baca, Pirigipe, Poité, Suré, Muirá, Tononé, Emurá, Nidé, Maromba, Ibá, Tinga, Sóia, Taré, Tibiriçá, Giri, Giriçá, Irecê, Teipó, Itapó, Chiré, Pahankó e Iraminon revelam diferentes caminhos percorridos pelos ancestrais. Algumas narrativas recordam antigas migrações; outras destacam lideranças políticas e espirituais; outras ainda preservam memórias ligadas ao trabalho, à terra, ao rio, às montanhas, às abelhas, à agricultura, à pesca e aos rituais tradicionais. Juntas, essas histórias demonstram a riqueza e a diversidade da experiência histórica do povo Kariri-Xocó.
Mais do que registrar genealogias, este livro busca valorizar a tradição oral como fonte legítima de conhecimento e memória. Os relatos dos anciãos, as lembranças familiares e os ensinamentos transmitidos pelas gerações mais antigas constituem um patrimônio cultural de enorme importância para a compreensão da trajetória dos povos indígenas do Nordeste.
Assim, "Troncos Ancestrais Kariri-Xocó: Histórias dos Sobrenomes Indígenas e das Famílias Guardiãs da Memória" torna-se um testemunho da permanência cultural, da resistência histórica e da força dos vínculos comunitários. Que estas páginas possam contribuir para a valorização da memória indígena, inspirar novas pesquisas e servir de herança para as futuras gerações, assegurando que os nomes dos ancestrais continuem vivos enquanto houver quem conte suas histórias.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BRASIL. Ministério da Agricultura, Serviço de Proteção aos Índios (SPI), 4ª Inspetoria Regional. Ressenceamento população indígena Padre Alfredo Damaso localizado em Porto Real do Colégio, Estato de Alagoas. 1945. 6 fl.
SUÍRA, Francisco Queiroz. Entrevista de um Pajé Kariri: Aldeia Kariri-Xocó, Porto Real do Colégio-AL, 10-20 ago. 1986.
KARIRI-XOCÓ, Nhenety. Origens Kariri-Xocó 5. Disponível em:
https://kxnhenety.blogspot.com/2023/01/as-origens-kariri-xoco-5.html?m=0 . Acesso em: 28 maio 2026.
KARIRI-XOCÓ, Nhenety. Conexões Étnico-Históricas dos Kariri-Xocó. Disponível em:
https://kxnhenety.blogspot.com/2026/06/conexoes-etnico-historicas-dos-kariri.html?m=0 . Acesso em: 17 jun. 2026.
IRAMINON, Manoel. Entrevista de um Ancião Xocó: Aldeia Kariri-Xocó, Porto Real do Colégio-AL, 13-22 nov. 1985.
NIDÉ, Otávio Queiroz. Entrevista de um Cacique Kariri: Aldeia Kariri-Xocó, Porto Real do Colégio-AL, 06-14 jun. 1981.
VENANCIO, Manuela Machado Ribeiro. Os Kariri-Xocó do Baixo São Francisco: organização social, variações culturais e retomada das terras do território de ocupação tradicional.Tese de doutorado pela Universidade Fluminense de Niterói, 2018.
SUZART, Elizabete Costa. Dicionário Cultural Kariri-Xocó: forma de ocupar a língua portuguesa como direito à memória e cidadania cultural. 2025. 338 f. Tese (Doutorado em Crítica Cultural) – Departamento de Linguística, Literatura e Artes, Universidade do Estado da Bahia, Alagoinhas, 2025.
SOBRE O AUTOR
Nhenety Kariri-Xocó é indígena do povo Kariri-Xocó de Porto Real do Colégio, Alagoas. Pesquisador da tradição oral, contador de histórias oral e escrita, dedica-se ao registro da memória ancestral, das genealogias indígenas e da história cultural dos povos do Baixo São Francisco.
Autor de pesquisas voltadas à valorização da tradição oral indígena, desenvolve trabalhos que unem memória familiar, documentação histórica e patrimônio cultural, contribuindo para a preservação dos conhecimentos transmitidos pelos anciãos de sua comunidade.
Autor: Nhenety Kariri-Xocó


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