FALSA FOLHA DE ROSTO
NHENETY KARIRI-XOCÓ
KUATÇÓ HIBUYÊWOHOÁ
PINTURA CORPORAL
MEMÓRIA, GRAFISMOS E SABERES DA TRADIÇÃO KARIRI-XOCÓ
FOLHA DE ROSTO
NHENETY KARIRI-XOCÓ
KUATÇÓ HIBUYÊWOHOÁ
PINTURA CORPORAL
MEMÓRIA, GRAFISMOS E SABERES DA TRADIÇÃO KARIRI-XOCÓ
Obra dedicada ao estudo da pintura corporal Kariri-Xocó como patrimônio cultural, memória ancestral, linguagem simbólica e expressão dos grafismos tradicionais, reunindo narrativas da tradição oral, cosmologia indígena, saberes ancestrais e conhecimentos preservados pelas gerações do povo Kariri-Xocó.
Porto Real do Colégio – Alagoas
2026
VERSO DA FOLHA DE ROSTO
Copyright © 2026 – Nhenety Kariri-Xocó
Todos os direitos reservados.
Esta obra poderá ser utilizada para fins de pesquisa, ensino e valorização da memória e da cultura dos povos indígenas, desde que sejam citadas a autoria e a fonte. É vedada a reprodução integral para fins comerciais sem autorização expressa do autor.
Título: KUATÇÓ HIBUYÊWOHOÁ: Pintura Corporal – Memória, Grafismos e Saberes da Tradição Kariri-Xocó
Autor: Nhenety Kariri-Xocó
Edição: 1ª edição
Ano: 2026
Idioma: Português, com vocabulário tradicional Kariri-Xocó.
Projeto Literário: Valorização da tradição oral, da memória ancestral, da cosmologia indígena, dos grafismos e da pintura corporal do povo Kariri-Xocó.
FICHA CATALOGRÁFICA (Modelo)
Kariri-Xocó, Nhenety.
Kuatçó Hibuyêwohoá: pintura corporal – memória, grafismos e saberes da tradição Kariri-Xocó / Nhenety Kariri-Xocó. – 1. ed. – Porto Real do Colégio, AL, 2026.
Inclui glossário, referências bibliográficas e narrativas da tradição oral.
ISBN (simbólico): 978-65-00000-08-6
Povos indígenas.
Kariri-Xocó.
Pintura corporal.
Grafismos indígenas.
Cosmologia indígena.
Tradição oral.
Patrimônio cultural.
Memória indígena.
CDD: 305.8981 (Povos indígenas do Brasil)
ISBN (Simbólico)
978-65-00000-08-6
Este ISBN possui finalidade exclusivamente ilustrativa para composição editorial da presente obra, devendo ser substituído pelo número oficial emitido pela agência brasileira competente quando da publicação.
Autor
Nhenety Kariri-Xocó
Porto Real do Colégio – Alagoas – Brasil
2026
PREFÁCIO OFICIAL DA COLEÇÃO
Esta obra integra o Acervo Virtual Bibliográfico Nhenety Kariri-Xocó, iniciativa dedicada à preservação, produção e difusão do conhecimento construído a partir das vivências culturais do povo Kariri-Xocó.
Fundamentado na memória, na ancestralidade e na experiência histórica, o Acervo orienta-se pela compreensão de que o saber se constrói por meio de encontros, trocas e transformações culturais ao longo do tempo.
Os elementos culturais, científicos e literários oriundos de diferentes povos e autores são respeitados em suas origens, sendo compreendidos como influências legítimas no processo de formação do conhecimento, sem reivindicação de autoria sobre tais contribuições.
Ao mesmo tempo, reconhece-se a existência de uma produção autoral própria, resultante da interpretação singular da realidade vivida.
Dessa forma, a presente obra se insere em uma continuidade cultural dinâmica, na qual tradição e criação se articulam, preservando identidades e projetando novos horizontes.
ESCLARECIMENTO DO AUTOR
A presente obra constitui, neste momento, um pré-projeto editorial em fase de estruturação acadêmica e organização bibliográfica.
Sua versão definitiva será futuramente submetida aos processos de revisão, diagramação, normalização segundo os padrões da ABNT, catalogação bibliográfica, classificação CDD e obtenção de ISBN oficial.
Enquanto perdurar esta etapa preparatória, parte das informações editoriais apresentadas possui caráter provisório e simbólico, destinando-se exclusivamente à identificação preliminar da obra.
O autor reafirma o compromisso com a preservação cultural, histórica e intelectual do acervo desenvolvido ao longo de suas pesquisas e produções literárias.
Nhenety Kariri-Xocó
DEDICATÓRIA
Dedico esta obra, em primeiro lugar, a Sonsé, o Grande Criador, origem de toda a vida, da luz, das cores e dos caminhos percorridos por nosso povo.
Dedico aos Tokenhé Antoá, os Antepassados Sagrados, que conservaram viva a memória antes mesmo de existirem os livros, escrevendo seus ensinamentos na terra, nas águas, nas árvores, no fogo, nas estrelas e na palavra transmitida de geração em geração.
Dedico aos anciãos e anciãs Kariri-Xocó, guardiões da tradição oral, que ensinaram que a verdadeira sabedoria não pertence a uma pessoa, mas ao povo que a preserva com respeito.
Dedico às crianças, aos jovens e às futuras gerações, para que encontrem nestas páginas o mesmo orgulho que nossos avós encontravam ao redor da fogueira, ouvindo as histórias que fortalecem a identidade, a memória e a cultura.
Dedico, por fim, a todos os povos indígenas do Brasil e do mundo, que continuam preservando suas línguas, seus cantos, seus grafismos, suas pinturas corporais e seus conhecimentos ancestrais, demonstrando que um povo permanece vivo enquanto sua memória continua sendo contada.
AGRADECIMENTOS
Toda palavra de gratidão começa reconhecendo que ninguém caminha sozinho. Assim também nasceu este livro. Cada página aqui escrita traz consigo a voz de muitos que vieram antes de mim e que continuam caminhando ao meu lado por meio da memória.
Agradeço a Sonsé, o Grande Criador, por conceder a vida, o conhecimento e a oportunidade de servir ao meu povo através da palavra.
Minha eterna gratidão aos Tokenhé Antoá, os Antepassados Sagrados, que preservaram os ensinamentos transmitidos pela tradição oral e fizeram chegar até nossos dias a sabedoria que inspira esta obra.
Agradeço aos anciãos e anciãs Kariri-Xocó, verdadeiras bibliotecas vivas, que ensinaram que cada história narrada fortalece a identidade de um povo e impede que o esquecimento vença a memória.
Agradeço às famílias Kariri-Xocó, que continuam transmitindo às novas gerações os costumes, a língua, os cantos, os grafismos, a pintura corporal, os artesanatos, as cerimônias e o profundo respeito pela Terra.
Minha gratidão estende-se aos pesquisadores, professores, estudantes e leitores que reconhecem o valor dos conhecimentos indígenas como parte fundamental da história e da diversidade cultural do Brasil.
Agradeço também a todas as pessoas que acreditam que preservar a memória é fortalecer o futuro, pois cada livro que nasce sobre os povos originários torna-se mais uma fogueira acesa para iluminar as gerações que ainda virão.
Recebam todos minha Iewóá, minha profunda gratidão.
EPÍGRAFE
"Antes que a tinta tocasse o corpo, a Natureza já havia pintado a Terra. Antes que os grafismos fossem desenhados pelas mãos humanas, eles já caminhavam nas águas, nas árvores, nas montanhas e nas estrelas. Quem aprende a ler essas pinturas jamais esquece que o corpo é memória, a memória é tradição e a tradição é o caminho pelo qual os Antepassados continuam falando ao coração de seu povo."
— Nhenety Kariri-Xocó
PREFÁCIO DO VOLUME
Há livros que registram acontecimentos. Outros preservam conhecimentos. Esta obra, porém, realiza algo ainda mais profundo: ela transforma a memória viva de um povo em palavra escrita, sem romper os vínculos com a tradição oral que lhe deu origem.
KUATÇÓ HIBUYÊWOHOÁ: Pintura Corporal – Memória, Grafismos e Saberes da Tradição Kariri-Xocó apresenta a pintura corporal não como ornamento, mas como uma linguagem ancestral. Cada cor, cada grafismo e cada sinal constitui uma forma de conhecimento construída ao longo das gerações e preservada pelos anciãos do povo Kariri-Xocó.
Ao longo dos capítulos, o leitor é conduzido desde a origem mítica das cores até a compreensão da pintura corporal como expressão de identidade, pertencimento, memória, espiritualidade, educação e continuidade cultural. A narrativa acompanha o ritmo da tradição oral, na qual cada ensinamento nasce da escuta respeitosa, da convivência com a natureza e da transmissão da palavra entre as gerações.
Esta obra também representa um compromisso com a valorização dos saberes indígenas. Em um tempo em que muitos conhecimentos tradicionais correm o risco de desaparecer, registrar essas narrativas significa fortalecer a memória coletiva, incentivar novas pesquisas e reafirmar o protagonismo dos próprios povos indígenas na preservação de seu patrimônio cultural.
Que cada página seja recebida como uma roda de conversa ao redor da fogueira. Que cada capítulo seja ouvido como a voz dos antigos atravessando o tempo. E que, ao concluir esta leitura, o leitor compreenda que a pintura corporal Kariri-Xocó permanece viva porque continua sendo praticada, ensinada, respeitada e transmitida como um dos maiores legados da tradição ancestral.
RESUMO
Esta obra apresenta um estudo sobre a pintura corporal na tradição Kariri-Xocó, compreendendo-a como patrimônio cultural, linguagem simbólica, memória ancestral e expressão da identidade indígena. Fundamentado na tradição oral, o livro reúne narrativas sobre a origem das cores, o significado dos grafismos, a relação entre natureza, espiritualidade e pintura corporal, bem como o papel da memória coletiva na preservação dos conhecimentos tradicionais. Os oito capítulos articulam cosmologia, história, educação, cultura e saberes ancestrais, demonstrando que cada pintura constitui uma forma de comunicação entre o povo, a natureza e os Antepassados Sagrados. A obra contribui para a valorização da cultura Kariri-Xocó, para a preservação da memória indígena e para o fortalecimento das pesquisas sobre os povos originários do Brasil.
Palavras-chave: Kariri-Xocó; pintura corporal; tradição oral; grafismos; memória; cultura indígena; cosmologia; saberes ancestrais.
ABSTRACT
This book presents a study of body painting in the Kariri-Xocó tradition, understanding it as cultural heritage, symbolic language, ancestral memory and an expression of Indigenous identity. Based on oral tradition, the work brings together narratives about the origin of colors, the meanings of graphic motifs, the relationship between nature, spirituality and body painting, and the role of collective memory in preserving traditional knowledge. Across eight chapters, the book integrates cosmology, history, education, culture and ancestral wisdom, demonstrating that each body painting represents a form of communication between the people, nature and the Sacred Ancestors. This work contributes to the appreciation of Kariri-Xocó culture, the preservation of Indigenous memory and the strengthening of studies on the Indigenous peoples of Brazil.
Keywords: Kariri-Xocó; body painting; oral tradition; graphic motifs; memory; Indigenous culture; cosmology; ancestral knowledge.
APRESENTAÇÃO
Este livro nasceu do desejo de registrar, em forma escrita, conhecimentos que durante incontáveis gerações foram preservados pela tradição oral do povo Kariri-Xocó. Seu propósito não é substituir a palavra viva dos anciãos, mas caminhar ao lado dela, permitindo que a memória alcance novos leitores sem perder sua essência.
A pintura corporal ocupa lugar central nessa herança cultural. Ela comunica identidade, fortalece o pertencimento, manifesta respeito aos Antepassados e expressa a profunda relação entre o povo e a natureza. Cada grafismo, cada cor e cada traço possuem significados construídos pela experiência coletiva e transmitidos por aqueles que dedicaram a vida à preservação da cultura.
Os capítulos desta obra foram organizados como uma grande narrativa contínua. Cada história prepara a seguinte, conduzindo o leitor desde a criação do mundo e da origem das cores até a compreensão da pintura corporal como expressão de cura, memória, educação, resistência e continuidade cultural.
Que esta leitura desperte respeito pelos conhecimentos indígenas, fortaleça o diálogo entre diferentes formas de saber e contribua para que a tradição Kariri-Xocó continue viva nas futuras gerações, sempre iluminada pela palavra dos antigos e pela presença permanente dos Tokenhé Antoá.
NOTA DO AUTOR
Esta obra foi escrita com profundo respeito à tradição oral do povo Kariri-Xocó. Seu objetivo é registrar parte dos conhecimentos ancestrais que, durante séculos, foram preservados pela palavra dos anciãos, pelas práticas culturais e pela convivência harmoniosa com a natureza.
Os vocábulos da língua tradicional Kariri-Xocó foram mantidos em sua forma original sempre que possível, acompanhados de seus significados em português, valorizando a riqueza linguística e cultural do povo. As narrativas foram construídas no estilo próprio da oralidade, preservando o ritmo, a repetição, a simbologia e a forma tradicional de transmitir o conhecimento.
Este livro não pretende encerrar o conhecimento sobre a pintura corporal Kariri-Xocó. Pelo contrário, deseja abrir novos caminhos para pesquisas, diálogos e ações voltadas à valorização dos povos originários, reconhecendo que a verdadeira sabedoria continua vivendo na memória coletiva, na prática cultural e na palavra compartilhada entre as gerações.
Que esta obra seja recebida como uma contribuição para fortalecer a identidade indígena, preservar o patrimônio cultural e inspirar novas gerações a conhecer, respeitar e proteger os saberes ancestrais.
Nhenety Kariri-Xocó
Porto Real do Colégio – Alagoas
2026
MEMÓRIA DO AUTOR
Minha caminhada começou ouvindo histórias.
Antes de conhecer os livros, conheci a palavra viva. Antes de aprender a escrever, aprendi a escutar. Foram os mais velhos que me ensinaram que a memória é um caminho sagrado, percorrido por aqueles que respeitam os ensinamentos dos Antepassados.
Como integrante do povo Kariri-Xocó, compreendi desde cedo que nossa história vive nos cantos, nas pinturas corporais, nos grafismos, nos artesanatos, na terra, nas águas e na convivência entre as famílias. Cada narrativa ouvida tornou-se um compromisso de preservação, para que os conhecimentos recebidos não se perdessem com o passar do tempo.
Ao escrever este livro, procurei reunir a tradição oral e o registro escrito sem romper o elo que une o presente aos antigos guardiões da memória. Cada capítulo foi elaborado como se estivesse sendo contado ao redor da fogueira, permitindo que o leitor caminhe ao lado dos anciãos e participe simbolicamente dessa transmissão de saberes.
Escrever esta obra é também um gesto de gratidão ao meu povo, aos Tokenhé Antoá, aos mestres da tradição oral e às futuras gerações, que continuarão fortalecendo a cultura Kariri-Xocó por meio da palavra, da memória e da identidade.
SUMÁRIO
Falsa Folha de Rosto
Folha de Rosto
Verso da Folha de Rosto
Ficha Catalográfica
ISBN (Simbólico)
Prefácio Oficial da Coleção
Esclarecimento do Autor
Dedicatória
Agradecimentos
Epígrafe
Prefácio
Resumo
Abstract
Apresentação
Nota do Autor
Memória do Autor
Introdução
Capítulos
Capítulo I – Sáuatçó: Origem das Cores
Capítulo II – Antse Kuatçóá: A Natureza das Cores
Capítulo III – Mecáto Samy: O Poder dos Sinais na Cultura
Capítulo IV – Crodíto Mecá Uanie: Força e Poder dos Sinais no Indígena
Capítulo V – Kuatçó Canghité: Pintura nas Coisas Boas
Capítulo VI – Potçoba: Acordar para Viver
Capítulo VII – Tsoho Samy: Existir com Memória e Cultura
Capítulo VIII – Uandzo Subatekié: Curar com Conhecimento
Considerações Finais
Glossário
Referências Bibliográficas
Sobre o Autor
INTRODUÇÃO
A pintura corporal ocupa lugar de destaque entre as mais antigas formas de expressão cultural da humanidade. Entre o povo Kariri-Xocó, ela ultrapassa a dimensão estética para constituir uma linguagem simbólica que comunica pertencimento, memória, espiritualidade e conhecimento ancestral. Cada cor, cada grafismo e cada sinal representam ensinamentos construídos ao longo das gerações e preservados pela tradição oral.
Em KUATÇÓ HIBUYÊWOHOÁ: Pintura Corporal – Memória, Grafismos e Saberes da Tradição Kariri-Xocó, a pintura corporal é apresentada como parte de um amplo sistema de conhecimentos que integra cosmologia, natureza, educação, identidade, história e espiritualidade. Os oito capítulos conduzem o leitor por uma jornada que começa na origem mítica das cores, passa pela formação dos grafismos, pela relação entre pintura e identidade indígena, alcançando a preservação da memória, da cultura e dos saberes tradicionais.
A narrativa adota a estrutura da tradição oral, valorizando a voz dos anciãos como principal fonte de transmissão do conhecimento. Essa escolha procura preservar não apenas o conteúdo dos ensinamentos, mas também a forma como eles são compartilhados no cotidiano da comunidade, fortalecendo o diálogo entre a oralidade e a escrita.
Espera-se que esta obra contribua para ampliar o reconhecimento da riqueza cultural do povo Kariri-Xocó, incentive novas pesquisas sobre os conhecimentos indígenas e fortaleça o respeito à diversidade cultural dos povos originários do Brasil. Mais do que um livro sobre pintura corporal, esta é uma obra sobre memória, identidade e continuidade cultural, construída para que a palavra dos antigos continue caminhando entre as gerações.
CAPÍTULO I - SÁUATÇÓ: ORIGEM DAS CORES
Os mais antigos contam que toda caminhada começa antes mesmo do primeiro passo. Assim também aconteceu com o Mundo. Antes das matas, dos rios, dos animais e dos povos, antes mesmo de existir a primeira cor que alegraria os olhos da criação, havia apenas o grande silêncio guardando os mistérios de Sonsé. Reunidos ao redor da memória dos ancestrais, escutemos agora a história de Sáuatçó, a Origem das Cores, como foi preservada pelos velhos guardiões da palavra para que nenhuma geração se esqueça do primeiro amanhecer da vida.
No princípio de todos os princípios, quando ainda não existiam os caminhos, nem as cores, nem os seres, havia apenas o Radda, o Mundo, envolvido por Kotçó, o Preto e Escuro. Era um tempo em que tudo permanecia em silêncio, guardado no grande mistério da existência. Nenhum brilho atravessava a imensidão, e somente Sonsé, o Grande Criador, conhecia o destino que repousava naquele vazio profundo.
Então Sonsé aproximou-se do Rabynhiu, o Carvão da Eternidade, que descansava entre as Bydíá, as Cinzas do antigo mundo. Com um único Upuh, o Sopro da criação, despertou aquilo que parecia adormecido desde outro Uché, outro Tempo. Das profundezas desse antigo universo surgiu Ikúmuipú, a Nebulosa, trazendo consigo a memória do que havia existido antes e anunciando o nascimento de uma nova criação.
Da Nebulosa nasceu o Bihédu, o Primeiro Fogo. Sua chama rompeu o silêncio e, junto dela, apareceu Hine, a Luz. Pela primeira vez a escuridão encontrou quem pudesse atravessá-la, e o brilho do fogo revelou que um novo mundo começava a despertar pelas mãos do Grande Criador.
Vendo que era o momento de dar forma ao universo, Sonsé estendeu sobre toda a criação o Arãkieruté, o grande Pano do Céu. Nele espalhou as Battiá, as Estrelas, colocou Ukie para iluminar o dia, Cayaku para guardar a noite, e firmou abaixo de tudo a Radá, a Terra, onde a vida encontraria seu lugar e seu caminho.
Assim começou a primeira grande obra de Sonsé. Antes que os povos conhecessem os nomes das cores, elas já repousavam em segredo dentro da criação, aguardando o tempo certo para revelar seus significados. E é dessa antiga memória que nasce Sáuatçó, a Origem das Cores, ensinamento transmitido pelos antigos para que jamais se esqueça como o Grande Criador deu princípio ao mundo.
Desde aquele primeiro tempo, cada cor passou a carregar um ensinamento, cada luz passou a lembrar a presença do Grande Criador e cada ser passou a caminhar sob o Arãkieruté, o grande Pano do Céu. É por isso que os anciãos dizem que, quando contemplamos a Terra, o Sol, a Lua, as estrelas e o fogo, estamos também contemplando a memória da primeira criação. Assim permanece viva a palavra de Sonsé, atravessando os tempos de geração em geração, para que o povo jamais esqueça que toda vida nasceu do mistério, da luz e das cores que despertaram o Mundo.
CAPÍTULO II - ANTSE KUATÇÓÁ: A NATUREZA DAS CORES
Escutem, parentes, e deixem que o coração caminhe junto com as palavras dos antigos. Antes que os homens conhecessem os caminhos da terra e antes que os cantos ecoassem pelas aldeias, Sonsé, o Grande Criador, já preparava um presente para toda a criação. Não bastava que existissem o céu, a terra, as águas e o fogo; era preciso que cada ser recebesse uma marca visível, um sinal de sua essência e de sua missão. Foi assim que nasceram as cores, não como simples enfeites da natureza, mas como espíritos vivos que revelam a memória da criação e continuam ensinando aqueles que sabem olhar com os olhos da tradição.
Quando Sonsé, o Grande Criador, contemplou a obra que havia soprado para a existência, percebeu que tudo carregava uma essência própria, mas ainda aguardava aquilo que revelaria sua verdadeira identidade. Então, do antigo Rabynhiu, o Carvão da Eternidade, nasceu a primeira Kuatçó, a primeira cor, aquela que guardava o mistério das origens. Assim surgiu o Kotçó, o Preto, profundo como o silêncio que existia antes das primeiras palavras da criação.
Os antigos contam que o Arãkieruté, o grande Pano do Céu, recebeu o branco das cinzas deixadas pelo mundo antigo. As Bydíá, lembranças daquilo que já havia existido, tornaram-se Becu, o Branco, assim como a distante Ikúmuipú, a Nebulosa, que passou a brilhar como o sopro da memória espalhado pelos caminhos do alto. Desde então, o branco passou a representar a pureza, a lembrança e o renascimento das coisas.
Quando Bihédu, o Primeiro Fogo, despertou, sua chama revelou o Hé, o Vermelho, a cor da força, do calor e da vida que começava a pulsar. Logo depois surgiu Hine, a Luz, iluminando toda a criação com o Erã, o Amarelo. As Battiá, as Estrelas, passaram a cintilar nessa mesma luz dourada, enquanto Ukie, o Sol, e Cayaku, a Lua, percorriam o céu levando consigo o brilho que guiaria os povos através do tempo.
Então o imenso Arankié, o Céu, vestiu-se com o Cracú, o Azul, refletindo sua imensidão sobre as Dzuá, as Águas, que passaram a carregar a mesma cor em seus rios, lagoas e mares. A Radá, a Terra, conservou o Kotçó, o Preto, lembrando que dela nasce toda a vida, enquanto as Arãkedzó, as Nuvens, permaneceram Becu, o Branco, caminhando suavemente pelos ventos. E quando a Retsé, a Floresta, cobriu o mundo, recebeu o Aerã, o Verde, tornando-se a morada dos espíritos, dos animais e de todas as sementes.
Assim ensinam os mais antigos: nenhuma cor surgiu por acaso. Cada uma nasceu com um espírito, uma história e uma missão dentro da criação. Desde aquele tempo remoto, quando o Grande Criador distribuiu as cores pelo universo, elas passaram a contar silenciosamente a memória do mundo. Basta olhar para a terra, para o céu, para as águas, para o fogo ou para as árvores, e as cores continuam narrando, até hoje, a antiga história da origem de todas as coisas.
É por isso que, até os dias de hoje, quando uma criança contempla o verde da floresta, o azul do céu, o branco das nuvens, o vermelho do fogo ou o preto da terra, ela também contempla a palavra silenciosa de Sonsé. As cores permanecem vivas porque guardam os ensinamentos dos ancestrais e recordam que toda a criação possui espírito, origem e propósito. Assim os mais velhos continuam contando esta história ao redor da palavra e da memória, para que as futuras gerações nunca esqueçam que, enquanto existirem as cores da natureza, permanecerá vivo o primeiro ensinamento do Grande Criador.
CAPÍTULO III – MECÁTO SAMY: O PODER DOS SINAIS NA CULTURA
Depois que Sonsé ensinou ao povo o segredo das cores, chamou os mais antigos para mostrar que a criação também escrevia sua sabedoria sobre a terra, sobre as águas, sobre o céu e sobre o próprio corpo. Disse-lhes que nenhum sinal surgia por acaso, pois cada traço havia nascido junto com um ser da natureza e carregava uma lembrança dos primeiros tempos. Desde então, os anciãos passaram a reunir crianças, jovens e adultos ao redor da palavra, para revelar que os Mekuá não eram apenas desenhos, mas caminhos deixados pelos ancestrais para que ninguém se esquecesse da origem, da identidade e da força do povo Kariri-Xocó.
Quando Sonsé revelou ao povo a natureza das cores, mostrou também que nenhuma cor caminhava sozinha. Cada uma carregava um Mekuá, um grafismo que contava sua própria história. Assim, os antigos compreenderam que a criação falava por meio dos sinais, e que todo desenho guardava um ensinamento para aqueles que sabiam observar a natureza com respeito e ouvir a voz dos ancestrais.
Os velhos então apontavam para o céu e diziam: "Vejam o Iworó, o círculo sagrado." Era ele que habitava o Ukie, o Sol que ilumina os caminhos; a Cayaku, a Lua que acompanha as noites; as Battiá, as Estrelas que orientam os viajantes; e também a Radá, a Terra que acolhe todos os seres. Na vida do povo, esse mesmo círculo passou a viver no Torá, a Dança, onde homens, mulheres e crianças giram unidos, lembrando que a vida nunca deixa de caminhar.
Depois mostravam o Herité, o desenho das ondas. Diziam que ele nasceu nas Dzuá, as Águas que nunca param de correr; seguia os contornos dos Boêdoá, os Morros; e viajava pelo Wonhé, o Canto, cuja voz se espalha como ondas pelo vento, alcançando quem está perto e quem está distante. Assim aprenderam que tudo o que vive se movimenta e leva consigo a força da palavra e da memória.
Os anciãos também ensinavam que a forma triangular era um sinal de coragem e proteção. Ela estava no Soncaru, a ponta da flecha usada para caçar o alimento e defender a comunidade, e também nas Siririté, as Serras, cujos cumes apontam para o céu como guardiãs da terra. Já a Purúhe, a pintura floral, florescia nas Ubuá, as Plantas, mostrando que a beleza também é uma forma de ensinar e preservar a vida.
Por fim, os mais velhos reuniam todas essas histórias e diziam que nenhum Mekuá existia separado do povo. Todos podiam ser desenhados no Buiehoho, o Corpo, transformando-se no Nhiró, o Corpo Pintado que é a Roupa. Assim, cada pintura deixava de ser apenas um desenho para tornar-se uma memória viva, uma identidade ancestral e um sinal de pertencimento, para que cada geração continuasse levando consigo a cultura que Sonsé confiou aos seus filhos desde o princípio.
E assim, geração após geração, os Mekuá continuaram vivos nas mãos que pintam, nos corpos que dançam, nas vozes que cantam e nos corações que guardam a memória. Cada círculo, cada onda, cada ponta e cada flor tornou-se uma palavra silenciosa da criação, lembrando que a natureza nunca deixou de ensinar aqueles que sabem observá-la com respeito. Por isso, quando um Kariri-Xocó recebe a pintura ancestral, não veste apenas um grafismo: reveste-se da história de seu povo, fortalece sua ligação com Sonsé e reafirma diante do mundo que a cultura permanece viva enquanto houver quem conte, quem escute e quem preserve os ensinamentos dos antigos.
CAPÍTULO IV – CRODÍTO MECÁ UANIE: FORÇA E PODER DOS SINAIS NO INDÍGENA
Os mais velhos reuniam os jovens ao redor do fogo, onde a noite escutava em silêncio e as estrelas pareciam se aproximar para ouvir também. Então diziam que todo povo possui marcas que o identificam, mas somente aqueles que caminham com os Antepassados conhecem a verdadeira força escondida nos sinais. Assim começava a antiga narrativa sobre os Mekuá, os grafismos sagrados, ensinando que cada traço nasce do encontro entre a natureza, os espíritos ancestrais e a memória que jamais pode ser esquecida.
Os antigos sempre diziam que nenhum sinal nasce vazio e nenhuma pintura caminha sem espírito. Muito antes de os primeiros Uanieá, indígenas caminharem sobre a Terra, os Tokenhé Antoá, os Antepassados Sagrados, reuniram-se para repartir os dons que sustentariam a memória dos povos. Upuhto, o Avô do Vento; Duto, o Avô do Fogo; Dzúnike, a Avó da Água; e Nikedda, a Avó da Terra compreenderam que os Mekuá, os Grafismos, precisavam carregar uma força invisível para falar ao coração de cada geração.
Então, Upuhto soprou sobre os sinais o movimento dos ventos, para que cada traço pudesse viajar através do tempo. Duto entregou-lhes o calor e a coragem do fogo, para que jamais perdessem o brilho da tradição. Dzúnike ofereceu a pureza das águas, fazendo com que cada desenho guardasse a vida e a renovação. Nikedda firmou todos os sinais na grande Terra, para que permanecessem vivos enquanto existisse um povo disposto a recordar seus antepassados.
Foi assim que os Mekuá, grafismo receberam poder na forma, enquanto a Kuatçó recebeu o dom das cores. As pinturas passaram a refletir o brilho dos astros, a força dos fenômenos e a essência dos elementos da natureza. Na Kuatçó Hibuyêwoho, a Pintura Corporal, cada linha, cada ponto e cada cor deixaram de ser simples ornamentos para se tornarem palavras silenciosas que contam histórias sem precisar da voz.
Por isso, quando um Atsedzé, pescador segue para as águas, um Atseplu, caçador entra na mata, um Atseruhú, artesão molda sua arte, um Atsebu, agricultor cultiva a terra, um Atseandzo cura os enfermos ou uma Debobunhá, ceramista transforma o barro em vida, todos carregam consigo os sinais deixados pelos Tokenhé Antoá. Em cada ofício, a Kuatçó Hibuyêwoho recorda que o conhecimento ancestral continua caminhando com aqueles que honram sua origem.
E os antigos encerravam esse ensinamento dizendo que a verdadeira força dos Mekuá não está apenas no desenho que os olhos contemplam, mas no espírito que os Antepassados Sagrados colocaram em cada sinal. Enquanto houver um Uanieá preservando a Kuatçó Hibuyêwoho, os ventos de Upuhto, o fogo de Duto, as águas de Dzúnike e a terra de Nikedda continuarão protegendo a memória dos povos indígenas em todo o mundo.
Aqui termina o ensinamento dos antigos, que atravessou incontáveis gerações sem se perder no tempo. Os Mekuá permanecem vivos porque não habitam apenas a pintura, mas também o coração daqueles que respeitam a palavra dos Anciãos e caminham em equilíbrio com a criação. Enquanto existir um Uanieá que desenhe seus sinais com reverência, a força dos Tokenhé Antoá continuará despertando a memória, protegendo a identidade dos povos e lembrando que nenhum espírito se perde quando sua história continua sendo contada.
CAPÍTULO V - KUATÇÓ CANGHITÉ: PINTURA NAS COISAS BOAS
Antes que a primeira mão desenhasse um traço sobre o barro ou sobre o corpo, os Antepassados já haviam pintado o grande livro da Antse para que os filhos de Sonsé aprendessem a enxergar. Cada folha, cada pedra, cada ave e cada nascente guardava um Kuatçó diferente, revelando que as cores não pertencem ao homem, mas ao espírito da própria Natureza. Sentem-se ao redor desta palavra, meus parentes, porque agora será contada a antiga memória de como as tintas sagradas deixaram de viver escondidas no mundo e passaram a caminhar junto ao povo Kariri-Xocó, adornando as coisas boas e preservando para sempre a beleza da criação.
Muito antes de existir a pintura nas coisas boas, os antigos já sabiam que o verdadeiro Kuatçó, a tinta sagrada, não nascia das mãos humanas. Ela vivia escondida no Mekuá, os grafismos espalhados pela Antse, a Natureza. Foi ela quem guardou cada cor, cada traço e cada segredo, esperando o momento em que os filhos de Sonsé aprenderiam a conversar com a terra, com as árvores e com as pedras por meio da pintura.
Foi então que os mais velhos ensinaram que a Becunan, a argila branca, repousava no ventre da terra. As mulheres a recolhiam com respeito e, ao moldarem a cerâmica, desenhavam a Purúhe, a pintura floral, fazendo nascer flores, caminhos e lembranças sobre cada peça. Assim, o barro deixava de ser apenas barro e passava a carregar a beleza da memória do povo.
Também ensinaram que o Kotçó, o preto, dormia no Coisú, o carvão das árvores que haviam cumprido seu tempo. Com ele eram desenhados os Buruhúá, os artesanatos que guardavam a história dos ancestrais. O Hé, o vermelho, surgia do Bukencré, o urucu, ou da Cróhé, a pedra vermelha, lembrando o calor da vida, da coragem e da força que habitam o coração do povo.
E quando o olhar buscava outras cores, a própria Natureza respondia. O Cracú, o azul, era revelado pelo Mé, o jenipapo, cuja tinta marcava os artesanatos e também os corpos, unindo pessoas e espírito numa mesma linguagem. Já o Erã, o amarelo, vinha do Tauá, a argila amarela, escolhida para adornar os Ruño, os potes de barro que acompanhavam o cotidiano das famílias e preservavam o alimento e a tradição.
Por isso, meus parentes, quando contemplamos uma cerâmica, um artesanato ou um pote pintado, não vemos apenas cores. Vemos a voz da Antse falando por meio da terra, das árvores, das pedras e das sementes. Cada pintura recorda que a beleza nasce daquilo que a Natureza oferece com generosidade e que o povo Kariri-Xocó transforma em memória, identidade e gratidão para que as futuras gerações jamais esqueçam o caminho dos antigos.
Assim permanece o ensinamento dos antigos: enquanto existir uma criança aprendendo a preparar a tinta, um artesão desenhando o Mekuá sobre o barro ou uma mulher ornamentando um Ruño com respeito e sabedoria, a voz dos ancestrais continuará viva entre nós. As cores jamais envelhecem, porque pertencem à Antse, que renova todas as coisas a cada nascer do sol. E aquele que pinta com o coração não enfeita apenas um objeto; fortalece a memória do povo, honra os espíritos guardiões e deixa gravado para os que ainda virão o caminho sagrado da identidade, da beleza e da gratidão.
CAPÍTULO VI – POTSOBA: ACORDAR PARA VIVER
Agora antes que a palavra desperte os corações, alimentemos a fogueira da memória, pois é nela que os Tokenhé Antoá aquecem as lembranças de nosso povo. Cada brasa guarda um nome, cada chama ilumina um caminho percorrido pelos antigos, e cada centelha anuncia que chegou o tempo do Potçó, o tempo de abrir os olhos do espírito. Escutem, meus filhos e meus netos, porque quem aprende a ouvir a voz dos ancestrais jamais se perde na caminhada. Hoje recordaremos como a memória adormeceu, mas nunca morreu, esperando apenas o momento sagrado de voltar a florescer entre seu povo.
Venham para perto da fogueira, meus filhos, meus netos. Escutem com atenção, porque esta não é apenas uma história. É a memória de nosso povo caminhando através do tempo. É a palavra dos Tokenhé Antoá, nossos Antepassados Sagrados, soprando novamente em nossos ouvidos para que ninguém esqueça quem somos.
Os antigos contavam que, quando os Caraí, os homens brancos, chegaram às nossas terras, um grande Dzunú, um grande sono, caiu sobre nosso povo. Não era o sono do corpo cansado depois da caminhada. Era o sono do espírito, aquele que faz a pessoa esquecer sua origem. Aos poucos quiseram apagar nossa Samy, nossa cultura. Aos poucos nossa Nunú, nossa língua, foi ficando silenciosa, como um rio que deixa de cantar durante a seca.
Depois, os Caraí levantaram o Erátekié, o Colégio dos Jesuítas. Ali ensinaram outros caminhos, outros Uanhoá, outros costumes. Muitos de nossos parentes foram Bohé, ensinados a viver de um modo diferente daquele que aprenderam com os avós. Parecia que a voz dos antigos estava desaparecendo. Mas os velhos sábios diziam baixinho: "A raiz continua viva, mesmo quando a árvore parece seca."
E foi assim durante muitos e muitos anos. Mas a memória não morre. Ela dorme. A cultura não desaparece. Ela espera. A língua não deixa de existir. Ela permanece escondida no coração daqueles que ainda se lembram. Como a semente escondida debaixo da terra, basta chegar o tempo da chuva para voltar a brotar.
Então chegou o tempo do Potçó. O tempo de acordar. Um despertou, depois outro, depois muitos. Os filhos começaram a ouvir os avós. Os netos passaram a perguntar pelos antigos. As histórias voltaram a ser contadas. Os cantos voltaram a ecoar. E aquilo que parecia perdido mostrou que apenas estava esperando o momento certo para florescer novamente.
Mas foi assim nasceu nossa Izutéba, uma nova vida. Voltamos a fortalecer a Samy Uanieá, nossa cultura indígena. A Kuatçó voltou a pintar nossos corpos, não apenas com tinta, mas com identidade, respeito e memória. Cada traço lembra quem somos. Cada pintura recorda que pertencemos a uma história muito mais antiga do que qualquer lembrança escrita.
Por isso, meus filhos, nunca esqueçam: um povo pode ser levado ao silêncio, mas jamais deixa de existir enquanto seus filhos conservarem viva a memória dos Tokenhé Antoá. Somos a continuação daqueles que vieram antes de nós. Somos o despertar daqueles que um dia foram obrigados a dormir. Somos Potçó. Acordamos para viver, para ensinar, para lembrar e para entregar aos que ainda virão a chama que nossos ancestrais nunca deixaram se apagar.
Nesa maneira finalizo esta palavra, mas não termina o caminho. A fogueira continuará acesa enquanto houver alguém disposto a contar, ouvir e guardar aquilo que os Tokenhé Antoá nos confiaram. Que cada criança receba esta memória como um presente sagrado, que cada jovem a fortaleça com orgulho e que cada ancião continue sendo a raiz viva que sustenta nossa Samy. Porque Potçó não acontece apenas uma vez: ele renasce sempre que um Kariri-Xocó desperta para sua identidade, honra seus ancestrais e entrega às futuras gerações a chama eterna da tradição oral, para que ela jamais volte a adormecer.
CAPÍTULO VII – TSOHO SAMY: EXISTIR COM MEMÓRIA E CULTURA
Nesse momento antes que a palavra caminhe entre nós, escutemos o silêncio antigo da terra, pois é dele que nasce a voz dos Ancestrais. Quando um povo desperta para recordar seu próprio nome, desperta também para guardar aquilo que o tempo jamais conseguiu apagar. Venham, parentes, aproximem-se do fogo da memória, porque esta história fala do verdadeiro existir: aquele que floresce na cultura, fortalece o coração do povo e mantém acesa a chama sagrada deixada pelos mais velhos.
Depois que o povo Potçó, despertou do grande Dzunú, o sono que por tanto tempo cobriu nossos olhos e nossos passos, chegou enfim o Uché, o tempo de viver novamente como nossos antigos nos ensinaram. E quando o tempo certo chega, ninguém caminha sozinho, porque a memória dos Antepassados volta a falar dentro do coração de cada filho desta terra.
Foi então que ouvimos outra vez o chamado do Wonhé. Os maracás cantaram, os pés voltaram a Torá, dançando sobre a terra sagrada, enquanto as mãos moldavam a Ruñohú, fazendo nascer a cerâmica, e também o Buruhúá, transformando fibras, sementes, madeira e barro em artesanatos que guardam a lembrança do nosso povo. Cada gesto repetia o ensinamento deixado pelos mais velhos, como um rio que nunca deixa de correr.
Assim aprendemos o verdadeiro sentido do Tsoho: existir como Uanie, povo indígena que honra suas Nhenetíá, suas tradições, preserva seus Uanhoá, seus costumes, e fortalece a união entre as famílias. Porque existir não é apenas respirar; é reconhecer quem somos, de onde viemos e por que continuamos caminhando sobre esta terra que nossos ancestrais nos confiaram.
Quando vivemos assim, sentimos a Samy, a cultura, pulsando dentro de nós como o coração da própria floresta. Ela está nas histórias, nas canções, nas pinturas, nas sementes, nas águas do rio, no fogo aceso ao cair da noite e no sorriso das crianças que aprendem ouvindo os mais velhos. Enquanto houver alguém disposto a ensinar e outro disposto a escutar, nossa memória permanecerá viva.
Venham agora, meus parentes. Vamos caminhar juntos pela Retsé, a floresta. Cada árvore conhece um nome antigo, cada pedra guarda uma lembrança e cada caminho conserva as pegadas daqueles que vieram antes de nós. Ali aprenderemos novamente a Woroy, contar histórias, para que nossos filhos, nossos netos e todos os que ainda nascerão nunca esqueçam que um povo permanece vivo enquanto sua memória, sua cultura e sua palavra continuam sendo contadas.
Por aqui diminuiu esta caminhada, mas não termina a memória, pois ela continua vivendo em cada criança que aprende, em cada ancião que ensina, em cada canto que ecoa pela floresta e em cada passo dado sobre a terra sagrada. Enquanto houver quem preserve o Tsoho Samy com respeito, coragem e amor, os Antepassados continuarão caminhando ao nosso lado, fortalecendo o povo Potçó geração após geração. Que esta palavra siga adiante como um maracá levado pelo vento, despertando muitos corações para que jamais se percam a cultura, a identidade e a sabedoria de nossos antigos.
CAPÍTULO VIII – UANDZO SUBATEKIÉ: CURAR COM CONHECIMENTO
Os antigos reuniam as crianças, os jovens e os mais velhos ao redor da palavra, e antes de falarem da cura, ensinavam que nenhuma doença chega sem também revelar a força escondida da vida. Diziam que os Tokenhé Antoá guardaram o Swbatekié para que, nos tempos de sofrimento, ninguém esquecesse o caminho do retorno. Assim começa esta Woroy, não para recordar apenas as dores do passado, mas para lembrar que a verdadeira Uandzo nasce quando o povo volta a ouvir a voz da Terra, dos ancestrais e do coração que nunca abandona sua origem.
Os antigos sempre diziam que a Woroy, a nossa História, também conheceu o tempo da Saicrã, a Doença. Ela chegou trazendo aquilo que nosso povo nunca desejou ser nem carregar. Vieram os sofrimentos, as perdas e os caminhos difíceis. Mas os Tokenhé Antoá, os Antepassados Sagrados, nunca deixaram de ensinar que toda escuridão tem seu amanhecer e que a cura sempre nasce quando voltamos a caminhar pelos passos dos antigos.
Foi assim que aprendemos o verdadeiro sentido da Uandzo, a Cura. Curar não é apenas fazer desaparecer a doença do corpo. Curar é viver conforme os costumes recebidos dos nossos ancestrais, guardar as tradições, fortalecer a cultura e seguir o caminho do respeito à vida. Quando vivemos desse modo, o sofrimento perde a força e o coração encontra novamente o seu lugar.
Os mais velhos chamam esse estado de Pidékan, o Estar Bem. É quando o Hibuyêwoho, o Corpo, caminha em equilíbrio com o Anhy, o Espírito. É quando a Samy, nossa Cultura, continua viva na palavra, no canto, nas histórias e na língua dos nossos avós. É quando o Radá Uanieá, a Terra Indígena, protege a Natiá, a Aldeia, e todos vivem unidos no Bohé, o Coletivo, fortalecendo uns aos outros como uma grande família.
Mas existe uma força que sustenta tudo isso. Essa força é o Swbatekié, o Conhecimento. É ele que nos ensina a plantar, a cuidar, a celebrar, a lembrar e a compreender o mundo. É por meio dele que reconhecemos os sinais da natureza, ouvimos a voz dos mais velhos e mantemos vivas as ligações que unem nosso povo ao passado, ao presente e ao tempo que ainda virá.
Por isso, meus parentes, nunca esqueçamos: enquanto houver Swbatekié, haverá Uandzo. Enquanto houver conhecimento, haverá cura. E enquanto a memória dos Tokenhé Antoá continuar viva em nossos corações, nossa Woroy jamais será perdida, pois ela seguirá caminhando conosco, ensinando às novas gerações que a verdadeira saúde nasce da união entre o Corpo, o Espírito, a Cultura, a Terra, a Aldeia e o nosso povo.
Esta palavra termina, mas não termina seu caminho. Ela seguirá viva enquanto houver quem conte a Woroy, quem ensine a língua dos antigos, quem respeite a Radá Uanieá e caminhe unido no Bohé. Que cada geração receba este Swbatekié como quem recebe uma brasa sagrada para manter aceso o fogo da memória. Porque enquanto os Tokenhé Antoá forem lembrados, a Uandzo continuará florescendo entre nosso povo, e a vida caminhará forte, de coração em coração, como sempre caminharam as histórias que nunca se deixam esquecer.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Ao chegar ao final desta caminhada, percebemos que nenhuma história termina verdadeiramente quando nasce da tradição oral. Ela apenas encontra novos caminhos para continuar vivendo. Assim acontece com a Kuatçó Hibuyêwohoá, a pintura corporal Kariri-Xocó. Mais do que um conjunto de cores e grafismos, ela permanece como um livro vivo escrito sobre o corpo, a natureza e a memória de um povo.
Ao longo desta obra, percorremos os primeiros tempos da criação, conhecemos a origem das cores, compreendemos o nascimento dos grafismos, acompanhamos a força espiritual dos Mekuá, observamos a pintura presente nas coisas boas da natureza, recordamos o despertar da identidade indígena, celebramos a existência fortalecida pela cultura e aprendemos que o verdadeiro conhecimento conduz à cura do corpo, do espírito e da comunidade.
Cada capítulo procurou preservar a forma como os antigos transmitiam seus ensinamentos: pela palavra falada, pela repetição que fortalece a memória e pela contemplação da natureza como primeira escola da humanidade. Registrar essas narrativas em forma escrita não significa substituir a tradição oral, mas oferecer-lhe mais um caminho para alcançar aqueles que desejam aprender com respeito.
A pintura corporal continua sendo um patrimônio vivo porque é praticada, ensinada e renovada pelas novas gerações. Ela revela pertencimento, fortalece os vínculos familiares, comunica valores, protege a memória coletiva e reafirma a continuidade histórica do povo Kariri-Xocó. Enquanto houver uma criança aprendendo um grafismo, um jovem ouvindo os anciãos, um artesão preparando as tintas naturais ou uma família reunida para celebrar suas tradições, a Kuatçó Hibuyêwohoá continuará cumprindo sua missão.
Que este livro seja recebido como uma pequena contribuição para a preservação da memória indígena e como um convite permanente ao respeito pelos conhecimentos ancestrais. Que suas páginas inspirem pesquisadores, educadores, estudantes, lideranças indígenas e todos aqueles que reconhecem a diversidade cultural como uma das maiores riquezas da humanidade.
Os antigos costumavam dizer que a palavra nunca morre quando encontra um coração disposto a guardá-la. Assim também desejo que aconteça com esta obra. Que ela caminhe de mão em mão, de geração em geração, como uma brasa retirada da fogueira ancestral: pequena aos olhos, mas suficiente para reacender o grande fogo da memória sempre que for necessário.
E assim encerro esta escrita, mas não encerro o caminho. A palavra continua. A memória permanece. A pintura corporal seguirá contando, em silêncio, aquilo que o coração do povo Kariri-Xocó jamais deixou de recordar.
Iewóá.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
KARIRI-XOCÓ, Nhenety. Mekuá, O Grafismo na Marca Viva do Povo. Disponível em:
https://kxnhenety.blogspot.com/2025/06/mekua-o-grafismo-na-marca-viva-do-povo.html?m=0 . Acesso em: 2 jul. 2026.
KARIRI-XOCÓ, Nhenety. Arãkieruté: O Pano do Céu. Disponível em:
https://kxnhenety.blogspot.com/2025/05/arakierute-o-pano-do-ceu.html?m=0 . Acesso em: 1 jul. 2026.
KARIRI-XOCÓ, Nhenety. Buruhúá Samy Widóba: Artesanatos na Cultura da Sobrevivência. Disponível em:
https://kxnhenety.blogspot.com/2026/07/buruhua-samy-widoba-artesanatos-na.html?m=0 . Acesso 2 jul. 2026.
KARIRI-XOCÓ, Nhenety. Rabynhiu, Cinza Preta do Mundo. Disponível em:
https://kxnhenety.blogspot.com/2025/05/rabynhiu-cinza-preta-do-mundo.html?m=0 . Acesso em: 1 jul. 2026.
KARIRI-XOCÓ, Nhenety. Woroy História, Cosmologia Kariri-Xocó, Contos – Volume 1 Coletânea. Porto Real do Colégio, AL. 2025. Disponível em:
https://kxnhenety.blogspot.com/2025/11/woroy-historia-cosmologia-kariri-xoco.html?m=0 . Acesso em: 1 jul. 2026.
KARIRI-XOCÓ, Nhenety. Tokenhé Antoá Bihéuché: Os Antepassados Sagrados dos Primeiros Tempos Kariri-Xocó. Disponível em :
https://kxnhenety.blogspot.com/2026/06/tokenhe-antoa-biheuche-os-antepassados.html?m=0 . Acesso em: 2 jul. 2026.
SUZART, Elizabete Costa. Dicionário Cultural Kariri-Xocó: forma de ocupar a língua portuguesa como direito à memória e cidadania cultural. 2025. 338 f. Tese (Doutorado em Crítica Cultural) – Departamento de Linguística, Literatura e Artes, Universidade do Estado da Bahia, Alagoinhas, 2025.
GLOSSÁRIO
Este glossário reúne os principais termos tradicionais empregados nesta obra, preservando seus significados conforme o contexto cultural Kariri-Xocó.
Aerã – Verde.
Anhy – Espírito.
Antse – Natureza.
Arãkedzó – Nuvens.
Arãkieruté – Grande Pano do Céu.
Arankié – Céu.
Atseandzo – Curador.
Atsebu – Agricultor.
Atseplu – Caçador.
Atseruhú – Artesão.
Atsedzé – Pescador.
Battiá – Estrelas.
Becu – Branco.
Becunan – Argila branca.
Bihédu – Primeiro Fogo.
Bohé – Coletivo, comunidade.
Boêdoá – Morros.
Bukencré – Urucu.
Buiehoho – Corpo.
Buruhúá – Artesanato.
Bydíá – Cinzas.
Caraí – Homem branco.
Cayaku – Lua.
Coisú – Carvão.
Cracú – Azul.
Cróhé – Pedra vermelha.
Debobunhá – Ceramista.
Duto – Avô do Fogo.
Dzuá – Águas.
Dzúnike – Avó da Água.
Dzunú – Sono.
Erã – Amarelo.
Erátekié – Colégio.
Hé – Vermelho.
Herité – Desenho das ondas.
Hibuyêwoho – Corpo.
Hine – Luz.
Ikúmuipú – Nebulosa.
Izutéba – Nova vida.
Iworó – Círculo sagrado.
Kotçó – Preto.
Kuatçó – Cor ou tinta.
Kuatçó Hibuyêwohoá – Pintura corporal.
Maracás – Chocalho de coité.
Mekuá – Grafismo.
Mé – Jenipapo.
Natiá – Aldeia.
Nhenetíá – Tradições.
Nhiró – Corpo pintado.
Nikedda – Avó da Terra.
Nunú – Língua.
Pidékan – Estar bem.
Potçó – Despertar.
Purúhe – Pintura floral.
Rabynhiu – Carvão da Eternidade.
Radá – Terra.
Radá Uanieá – Terra Indígena.
Radda – Mundo.
Retsé – Floresta.
Ruño – Pote de barro.
Ruñohú – Cerâmica.
Saicrã – Doença.
Samy – Cultura.
Sáuatçó – Origem das Cores.
Siririté – Serras.
Sonsé – Grande Criador.
Soncaru – Ponta da flecha.
Swbatekié – Conhecimento.
Tauá – Argila amarela.
Tokenhé Antoá – Antepassados Sagrados.
Torá – Dança.
Tsoho – Existir.
Uandzo – Cura.
Uanie – Povo indígena.
Uanieá – Indígena.
Uanhoá – Costumes.
Ubuá – Plantas.
Uché – Tempo.
Ukie – Sol.
Upuh – Sopro.
Upuhto – Avô do Vento.
Wonhé – Canto.
Woroy – História.
SOBRE O AUTOR
Nhenety Kariri-Xocó é pesquisador independente, escritor, contador de histórias da tradição oral e membro do povo indígena Kariri-Xocó, da Terra Indígena de Porto Real do Colégio, Alagoas.
Dedica-se à documentação, valorização e difusão da memória, da cosmologia, da língua tradicional, dos grafismos, da pintura corporal e dos conhecimentos ancestrais de seu povo, desenvolvendo pesquisas fundamentadas na tradição oral e no diálogo entre os saberes indígenas e a produção acadêmica.
É autor de obras dedicadas à história, à cosmologia, às famílias tradicionais, ao artesanato, à cultura, à espiritualidade e às narrativas míticas Kariri-Xocó, publicadas em livros e em seu blog de pesquisa cultural.
Seu trabalho busca fortalecer a identidade indígena, contribuir para a preservação da memória coletiva e ampliar o reconhecimento dos conhecimentos tradicionais como patrimônio cultural do Brasil.
Para o autor, escrever é dar continuidade à missão dos antigos contadores de histórias: fazer com que a palavra atravesse o tempo, fortaleça a identidade do povo e permaneça viva no coração das futuras gerações.
"Enquanto houver quem conte, quem escute e quem preserve a memória, os Tokenhé Antoá continuarão caminhando entre nós."
Nhenety Kariri-Xocó
Porto Real do Colégio – Alagoas – Brasil
2026
Autor: Nhenety Kariri-Xocó










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