Números, Medidas, Tempo e Saberes Culturais
Nhenety Kariri-Xocó
FALSA FOLHA DE ROSTO
ALFABETIZAÇÃO E LETRAMENTO MATEMÁTICO NA LÍNGUA KARIRI
Números, Medidas, Tempo e Saberes Culturais
Nhenety Kariri-Xocó
2026
FOLHA DE ROSTO
ALFABETIZAÇÃO E LETRAMENTO MATEMÁTICO NA LÍNGUA KARIRI
Números, Medidas, Tempo e Saberes Culturais
Nhenety Kariri-Xocó
Obra de caráter educativo, cultural e de preservação da memória linguística Kariri.
2026
VERSO DA FOLHA DE ROSTO
ALFABETIZAÇÃO E LETRAMENTO MATEMÁTICO NA LÍNGUA KARIRI
Números, Medidas, Tempo e Saberes Culturais
Autor, organização e curadoria:
Nhenety Kariri-Xocó
Obra destinada à valorização da língua, da memória, dos conhecimentos tradicionais e das práticas educativas relacionadas à matemática no contexto Kariri-Xocó.
Primeira edição digital: 2026.
Esta publicação possui finalidade educativa, cultural e de preservação da memória. Os registros linguísticos apresentados devem ser compreendidos como subsídios de pesquisa e ensino, sujeitos ao diálogo permanente com os conhecedores da língua, professores, anciãos e pesquisadores.
FICHA CATALOGRÁFICA
KARIRI-XOCÓ, Nhenety.
Alfabetização e letramento matemático na língua Kariri: números, medidas, tempo e saberes culturais / Nhenety Kariri-Xocó. — 1. ed. — 2026.
Obra digital.
Língua Kariri.
Alfabetização indígena.
Letramento matemático.
Numerais.
Matemática indígena.
Saberes tradicionais.
Cultura Kariri-Xocó.
Educação indígena.
I. Kariri-Xocó, Nhenety.
II. Título.
Ficha de caráter editorial e simbólico, destinada à organização da edição digital.
ISBN (SIMBÓLICO)
ISBN simbólico/editorial: a definir
Registro destinado à organização bibliográfica e cultural da obra em sua edição digital.
Observação: este campo possui finalidade simbólica e editorial e não substitui um ISBN oficial emitido pela agência competente.
PREFÁCIO OFICIAL DA COLEÇÃO
Esta obra integra o Acervo Virtual Bibliográfico Nhenety Kariri-Xocó, iniciativa dedicada à preservação, produção e difusão do conhecimento construído a partir das vivências culturais do povo Kariri-Xocó.
Fundamentado na memória, na ancestralidade e na experiência histórica, o Acervo orienta-se pela compreensão de que o saber se constrói por meio de encontros, trocas e transformações culturais ao longo do tempo.
Os elementos culturais, científicos e literários oriundos de diferentes povos e autores são respeitados em suas origens, sendo compreendidos como influências legítimas no processo de formação do conhecimento, sem reivindicação de autoria sobre tais contribuições.
Ao mesmo tempo, reconhece-se a existência de uma produção autoral própria, resultante da interpretação singular da realidade vivida.
Dessa forma, a presente obra se insere em uma continuidade cultural dinâmica, na qual tradição e criação se articulam, preservando identidades e projetando novos horizontes.
ESCLARECIMENTO DO AUTOR
A presente obra constitui, neste momento, um projeto editorial em fase de estruturação e organização bibliográfica.
Sua versão definitiva poderá futuramente ser submetida aos processos de revisão, diagramação, normalização segundo os padrões da ABNT, catalogação bibliográfica, classificação CDD e obtenção de ISBN oficial.
Enquanto perdurar esta etapa preparatória, parte das informações editoriais apresentadas possui caráter provisório e simbólico, destinando-se à identificação preliminar da obra e à organização interna do Acervo.
O autor reafirma o compromisso com a preservação cultural, histórica e intelectual do acervo desenvolvido ao longo de suas pesquisas e produções literárias.
Nhenety Kariri-Xocó
DEDICATÓRIA
Dedico este livro aos meus antepassados, aos anciãos e anciãs que guardaram palavras, histórias e conhecimentos que atravessaram gerações.
Dedico às crianças e aos jovens Kariri-Xocó, para que possam reconhecer na própria língua um caminho de conhecimento, aprendizagem e pertencimento.
Dedico aos professores indígenas que transformam a sala de aula em espaço de memória, cultura e continuidade.
Dedico também às futuras gerações, para que possam receber, ampliar e transmitir os conhecimentos que hoje registramos.
Que cada número aprendido em nossa língua seja também uma lembrança de nossos ancestrais.
AGRADECIMENTOS
Agradeço primeiramente aos meus antepassados e aos mais velhos, guardiões da memória e dos conhecimentos que chegaram até nós.
Agradeço à comunidade Kariri-Xocó, espaço vivo onde língua, cultura, território, memória e educação continuam encontrando caminhos para permanecer.
Agradeço aos professores, estudantes, pesquisadores e colaboradores que contribuem para a valorização dos conhecimentos indígenas.
Agradeço especialmente às pessoas que mantêm viva a palavra, pois uma língua não sobrevive somente nos livros: ela permanece quando é falada, ensinada, escutada e transmitida.
Agradeço também às novas tecnologias, utilizadas aqui como instrumentos de organização, pesquisa, escrita e preservação, sem substituir a memória e o conhecimento daqueles que constituem a fonte viva da tradição.
A todos que contribuem para que a palavra Kariri continue caminhando entre as gerações, minha gratidão.
Iewóá. Inatekié.
EPÍGRAFE
“Contar é registrar.
Registrar é lembrar.
Lembrar é preservar.
Preservar é transmitir.”
— Nhenety Kariri-Xocó
PREFÁCIO DO VOLUME
A matemática está presente em todos os povos e sociedades. Entretanto, as formas de contar, medir, organizar o tempo, comparar quantidades e transmitir conhecimentos podem assumir diferentes expressões culturais.
Este volume nasce da intenção de reunir subsídios para uma proposta de alfabetização e letramento matemático em língua Kariri.
O ponto de partida são os registros dos numerais e de palavras relacionadas à matemática, às medidas e ao tempo. A partir deles, propõe-se uma metodologia que aproxima o ensino escolar dos conhecimentos culturais e linguísticos.
O livro não pretende encerrar o conhecimento matemático ou linguístico Kariri. Ao contrário, procura abrir caminhos para novas pesquisas, novos registros e novas práticas pedagógicas.
O número pode ser aprendido no papel, mas também pode ser percebido nos dedos, nas mãos, nos pés, nos objetos, nas medidas, nos ciclos da Lua, na passagem dos anos e nas atividades cotidianas.
A matemática pode, portanto, tornar-se uma linguagem de encontro entre a escola e a cultura.
Este livro é uma contribuição para esse caminho.
RESUMO
Este livro apresenta uma proposta de alfabetização e letramento matemático na língua Kariri, tomando como referência registros dos numerais e de vocabulário relacionado à contagem, às operações matemáticas, às medidas, às capacidades e ao tempo. A proposta busca aproximar o ensino da matemática dos conhecimentos linguísticos e culturais Kariri-Xocó, valorizando o corpo, os objetos tradicionais, o território, a natureza e os ciclos temporais como possibilidades pedagógicas.
Os numerais são apresentados de forma descritiva, permitindo relacionar palavra, quantidade, corpo e representação escrita. O vocabulário matemático reúne termos associados a contar, somar, subtrair, multiplicar, medir e organizar o tempo.
A metodologia proposta parte da experiência concreta para alcançar progressivamente a representação abstrata do número. O estudante é convidado a ouvir, falar, contar, escrever, calcular e aplicar os conhecimentos em situações significativas.
A obra possui caráter educativo, cultural e de preservação da memória linguística, reconhecendo a importância dos anciãos, professores e conhecedores da língua na transmissão dos saberes.
Palavras-chave: língua Kariri; alfabetização; letramento matemático; numerais; matemática indígena; cultura Kariri-Xocó; saberes tradicionais.
ABSTRACT
This book presents a proposal for mathematical literacy and numeracy education in the Kariri language, based on records of numerals and vocabulary related to counting, mathematical operations, measurements, capacities and time.
The proposal seeks to connect mathematics education with Kariri-Xocó linguistic and cultural knowledge, valuing the human body, traditional objects, territory, nature and temporal cycles as educational possibilities.
The numerals are presented descriptively, establishing relationships among words, quantities, the body and written representations. The mathematical vocabulary includes terms associated with counting, addition, subtraction, multiplication, measurement and the organization of time.
The proposed methodology begins with concrete experiences and gradually develops toward abstract representations of numbers. Students are encouraged to listen, speak, count, write, calculate and apply knowledge in meaningful situations.
This work has an educational, cultural and linguistic preservation purpose, recognizing the importance of elders, teachers and language keepers in the transmission of knowledge.
Keywords: Kariri language; literacy; mathematical literacy; numerals; Indigenous mathematics; Kariri-Xocó culture; traditional knowledge.
APRESENTAÇÃO DO VOLUME
Este volume foi elaborado a partir da necessidade de reunir, em uma única obra, alguns registros relacionados aos números e ao vocabulário matemático na língua Kariri.
A proposta parte de uma pergunta simples, porém profunda:
Como ensinar matemática utilizando também a língua e os conhecimentos culturais de um povo?
A resposta começa pela valorização dos próprios registros linguísticos.
Quando uma criança aprende que determinada quantidade possui um nome em sua língua ancestral, ela não está apenas aprendendo matemática. Está descobrindo que sua língua também é capaz de nomear, organizar, comparar e transmitir conhecimentos.
Assim, este livro procura contribuir para uma educação em que língua e matemática caminhem juntas.
NOTA DO AUTOR
Este trabalho nasceu da reunião de subsídios linguísticos e culturais relacionados aos números, às medidas e ao tempo na língua Kariri.
O objetivo do autor é contribuir para que esses conhecimentos possam ser utilizados em atividades educativas e permaneçam disponíveis para professores, estudantes, pesquisadores e futuras gerações.
O livro deve ser compreendido como uma obra em construção permanente.
A língua é viva. Os registros podem apresentar diferenças de grafia, pronúncia, interpretação e uso conforme as fontes, variedades linguísticas, épocas e contextos.
Por isso, este trabalho não pretende estabelecer uma forma definitiva para todos os usos da língua Kariri.
Pretende, sobretudo, registrar, organizar e abrir caminhos para o estudo.
MEMÓRIA DO AUTOR
Minha caminhada como contador de histórias está profundamente ligada à memória do meu povo.
Desde cedo compreendi que muitas histórias, palavras e conhecimentos vivem na lembrança das pessoas mais velhas. Quando um ancião fala, não transmite somente uma informação: transmite uma parte da caminhada de seu povo.
Ao longo da minha trajetória, venho reunindo histórias, palavras, conhecimentos, memórias e experiências Kariri-Xocó, transformando parte dessa tradição oral em registros escritos, livros, cordéis, artigos e materiais educativos.
O trabalho com a língua Kariri segue esse mesmo caminho.
Registrar uma palavra é uma forma de impedir que ela desapareça da memória escrita. Registrar um número é também registrar uma maneira de pensar, contar e compreender o mundo.
Neste livro, procuro colocar a escrita a serviço da memória.
Acredito que a tecnologia pode ajudar nessa tarefa quando utilizada como ferramenta de preservação, organização e transmissão, sempre reconhecendo que a fonte fundamental do conhecimento está nas pessoas, na comunidade e na tradição.
Sou contador de histórias.
E contar também é guardar.
Guardar também é ensinar.
Ensinar também é preparar a próxima geração para continuar a caminhada.
APRESENTAÇÃO
A alfabetização tradicionalmente ensina a criança a reconhecer letras, palavras, frases e textos. O letramento amplia esse processo ao mostrar que a leitura e a escrita fazem parte das práticas sociais.
No campo da matemática, ocorre processo semelhante.
A criança precisa aprender os números, mas também precisa compreender o que eles significam e como utilizá-los em situações concretas.
Quando esse processo acontece em uma comunidade indígena, existe ainda uma dimensão importante: a valorização da língua e dos conhecimentos culturais.
Por isso, este trabalho propõe uma relação entre:
LÍNGUA + NÚMERO + CORPO + CULTURA + TERRITÓRIO + TEMPO.
Essa relação permite desenvolver atividades em que o estudante aprende matemática sem se afastar de sua própria realidade cultural.
INTRODUÇÃO
A matemática é uma forma de organizar relações de quantidade, espaço, medida, tempo e comparação.
Todas as sociedades desenvolveram maneiras próprias de lidar com essas questões.
No contexto Kariri, os registros dos numerais e das expressões relacionadas às medidas e ao tempo oferecem possibilidades para a construção de materiais pedagógicos.
O ensino pode começar com situações simples.
A criança conta os dedos.
Depois conta objetos.
Compara quantidades.
Aprende a palavra.
Reconhece o numeral.
Escreve.
Soma.
Retira.
Agrupa.
Multiplica.
Mede.
Observa o tempo.
Dessa maneira, o aprendizado passa do concreto para o abstrato.
O corpo torna-se uma primeira referência.
As mãos ajudam a contar.
Os dedos ajudam a representar quantidades.
Os pés aparecem também como referência nos registros relacionados ao número 20.
Os objetos tradicionais podem ensinar capacidade e medida.
A Lua pode ajudar a conversar sobre os ciclos do tempo.
O ano pode ser relacionado à passagem dos dias e às atividades da comunidade.
Assim, o ensino matemático pode nascer de elementos que fazem parte da experiência cultural do estudante.
SUMÁRIO
Falsa Folha de Rosto
Folha de Rosto
Verso da Folha de Rosto
Ficha Catalográfica
ISBN ( Simbólico )
Prefácio Oficial da Coleção
Esclarecimento do Autor
Dedicatória
Agradecimentos
Epígrafe
Prefácio do Volume
Resumo
Abstract
Apresentação
Nota do Autor
Memória do Autor
Apresentação
Introdução
Sumário
1. Objetivos
1.1 Objetivo geral
1.2 Objetivos específicos
2. Fundamentação Metodológica
3. Matemática Como Saber Cultural
4. Os Numerais na Língua Kariri
5. O Corpo Como Primeiro Instrumento de Contagem
6. Vocabulário Matemático e Referências Culturais Kariri
6.1 Número, quantidade e operações
6.2 Corpo, pessoa e grandezas
6.3 Medidas tradicionais e referências de comprimento
6.4 Capacidade, quantidade e objetos
6.5 Transporte, carga e matemática
6.6 Automóvel e situações matemáticas
6.7 Adornos e contagem
6.8 Tempo, Lua e ciclos
6.9 Dinheiro e valores
6.10 A matemática presente na cultura
7. As Medidas e o Cotidiano
8. A Matemática do Tempo
9. As Operações Matemáticas
9.1 Soma
9.2 Subtração
9.3 Multiplicação
9.4 Contagem
10. Duboherí Worobü: O Mestre dos Caminhos dos Números
11. Metodologia das Atividades
12. O Papel dos Anciãos e dos Conhecedores
13. A Língua Kariri Como Língua de Conhecimento
14. Letramento Matemático e Cultura
15. Proposta de Atividades Pedagógicas
Atividade 1 — Meu corpo conta
Atividade 2 — Palavra e número
Atividade 3 — Contagem de objetos
Atividade 4 — Mais e menos
Atividade 5 — Agrupamentos
Atividade 6 — Medidas
Atividade 7 — Capacidades
Atividade 8 — O tempo
Atividade 9 — Pesquisa com os mais velhos
Atividade 10 — Meu pequeno dicionário matemático
Considerações Finais
Glossário
Referências Bibliográficas
Sobre o Autor
1. OBJETIVOS
1.1 Objetivo geral
Desenvolver uma proposta de alfabetização e letramento matemático na língua Kariri, utilizando números, medidas, tempo e vocabulário matemático como instrumentos de aprendizagem e valorização cultural.
1.2 Objetivos específicos
Reconhecer os numerais registrados na língua Kariri.
Desenvolver a leitura e a escrita dos números.
Relacionar número, palavra e quantidade.
Utilizar o corpo como referência para a contagem.
Trabalhar operações matemáticas básicas.
Relacionar matemática e cotidiano.
Valorizar formas tradicionais de medida.
Trabalhar conceitos de tempo e ciclos naturais.
Estimular a pesquisa junto aos anciãos e conhecedores.
Fortalecer a transmissão da língua entre gerações.
2. FUNDAMENTAÇÃO METODOLÓGICA
A proposta fundamenta-se na compreensão de que a aprendizagem matemática pode começar pelas experiências concretas do estudante.
A criança não precisa encontrar o número somente no livro.
Ela pode encontrá-lo no próprio corpo, nos objetos, nos frutos, nos animais, na casa, no território e nas atividades comunitárias.
A sequência metodológica proposta é:
OUVIR → FALAR → CONTAR → OBSERVAR → ESCREVER → CALCULAR → APLICAR → TRANSMITIR.
Primeiro, o estudante escuta a palavra.
Depois aprende a pronunciá-la.
Em seguida relaciona a palavra à quantidade.
Posteriormente reconhece e escreve o numeral.
Depois utiliza o conhecimento em operações e situações práticas.
Por fim, torna-se capaz de transmitir o conhecimento a outra pessoa.
3. A MATEMÁTICA COMO SABER CULTURAL
A matemática não precisa ser apresentada como conhecimento distante da cultura.
Medir uma terra, dividir uma quantidade, guardar farinha, transportar frutos, armazenar água, observar a Lua ou contar dias são ações que envolvem raciocínio matemático.
Quando esses conhecimentos são levados para a escola, o estudante percebe que a matemática também está presente na vida de sua comunidade.
A educação passa, então, a estabelecer uma ponte entre o conhecimento escolar e o conhecimento cultural.
4. OS NUMERAIS NA LÍNGUA KARIRI
Os registros dos numerais na língua Kariri constituem importante subsídio para o desenvolvimento da alfabetização e do letramento matemático.
Neste capítulo, os números são apresentados de maneira descritiva, relacionando o numeral, sua forma registrada ou sugerida na língua Kariri, seu sentido e sua possibilidade de utilização pedagógica.
A proposta parte da compreensão de que a criança pode aprender matemática relacionando:
CORPO → QUANTIDADE → PALAVRA → NUMERAL → ESCRITA → CÁLCULO.
Os registros apresentados devem ser compreendidos como subsídios de pesquisa e ensino, sujeitos ao diálogo permanente com os conhecedores da língua, anciãos, professores, pesquisadores e comunidade Kariri-Xocó.
Nos números 11 a 20, são apresentadas formas indicadas como sugestões de neologismos, construídas a partir de referências linguísticas Dzubukuá e Kipeá. Por essa razão, essas formas devem ser utilizadas pedagogicamente com a devida identificação de seu caráter de proposta linguística, sem confundi-las automaticamente com formas tradicionais já consolidadas no uso cotidiano Kariri-Xocó.
4.1 Número 1 — bihé
O número 1 é registrado na língua Kariri como:
bihé
Corresponde à ideia de uma unidade.
Pedagogicamente, pode ser trabalhado mostrando um único objeto, uma semente, uma pedra, um fruto ou um dedo.
Exemplo:
1 objeto = bihé.
A criança aprende a relacionar a palavra à quantidade e posteriormente ao numeral escrito.
4.2 Número 2 — wacháni
O número 2 é registrado como:
wacháni
Corresponde à quantidade de duas unidades.
O professor pode utilizar dois objetos para representar a quantidade.
Exemplo:
2 objetos = wacháni.
A atividade pode envolver sementes, frutos, pedras ou outros materiais disponíveis no ambiente escolar.
4.3 Número 3 — wachanidikié
O número 3 é registrado como:
wachanidikié
Corresponde à quantidade de três unidades.
O estudante pode representar essa quantidade utilizando três objetos ou três dedos.
Exemplo:
3 objetos = wachanidikié.
Essa atividade ajuda a estabelecer a relação entre palavra, quantidade e numeral.
4.4 Número 4 — sumarã orobae
O número 4 é registrado como:
sumarã orobae
Corresponde à quantidade de quatro unidades.
O professor pode apresentar quatro objetos ou solicitar que o estudante represente quatro dedos.
Exemplo:
4 objetos = sumarã orobae.
Nesse momento, a criança começa a perceber a sequência crescente das quantidades.
4.5 Número 5 — mŷ bihé misã saí
O número 5 é registrado como:
mŷ bihé misã saí
O sentido registrado é:
“levar uma mão para ele”.
A expressão estabelece uma relação direta entre o número e a mão humana.
Uma mão possui cinco dedos.
Por isso, o número 5 pode ser trabalhado concretamente com a mão do estudante.
Exemplo:
uma mão = cinco dedos = 5.
Essa relação permite aproximar o conhecimento matemático da experiência corporal.
4.6 Número 6 — mŷreprí bubihé misã saí
O número 6 é registrado como:
mŷreprí bubihé misã saí
O sentido registrado é:
“levar uma mão junto com um (dedo) para ele”.
A referência pedagógica pode ser compreendida como:
uma mão + um dedo = 6.
O estudante pode levantar uma mão completa e acrescentar um dedo da outra mão.
Assim, percebe concretamente a passagem de cinco para seis.
4.7 Número 7 — mŷreprí wacháni misã saí
O número 7 é registrado como:
mŷreprí wacháni misã saí
O sentido registrado é:
“levar uma mão junto com dois (dedos) para ele”.
A referência corporal pode ser representada como:
uma mão + dois dedos = 7.
O professor pode utilizar essa representação para demonstrar a formação da quantidade.
4.8 Número 8 — mŷreprí wachanidikié misã saí
O número 8 é registrado como:
mŷreprí wachanidikié misã saí
O sentido registrado é:
“levar uma mão junto com três (dedos) para ele”.
A representação pedagógica pode ser:
uma mão + três dedos = 8.
A criança pode visualizar a quantidade utilizando os dedos das próprias mãos.
4.9 Número 9 — mŷreprí sumarã orobae misã saí
O número 9 é registrado como:
mŷreprí sumarã orobae misã saí
O sentido registrado é:
“levar uma mão junto com quatro (dedos) para ele”.
A referência corporal pode ser apresentada como:
uma mão + quatro dedos = 9.
O estudante percebe que falta apenas um dedo para completar as duas mãos.
4.10 Número 10 — mŷcribae misã saí
O número 10 é registrado como:
mŷcribae misã saí
O sentido registrado é:
“levar todas as mãos para ele”.
A expressão estabelece uma referência às duas mãos.
Duas mãos possuem dez dedos.
Assim:
5 + 5 = 10.
O professor pode pedir aos estudantes que levantem as duas mãos e contem todos os dedos.
A atividade permite relacionar:
duas mãos → dez dedos → número 10 → expressão Kariri.
4.11 Número 11 — *(s/y)-â-wi-te
Para o número 11, encontra-se a sugestão de neologismo:
*(s/y)-â-wi-te
O sentido indicado é:
“ele, a coisa que vem na frente”.
Na língua Dzubukuá, encontra-se a forma yâwite. No Kipeá, aparecem as formas sẽwitè e senwitè.
Neste capítulo, a forma é apresentada como sugestão de neologismo, apoiada nas referências linguísticas mencionadas.
Matematicamente:
10 + 1 = 11.
Pedagogicamente, a criança pode representar dez unidades e acrescentar mais uma:
10 + 1 = 11.
4.12 Número 12 — *(lya)wi-po(po)
Para o número 12, encontra-se a sugestão de neologismo:
*(lya)wi-po(po)
O sentido indicado é:
“número irmão mais velho”.
Na língua Dzubukuá aparecem as formas wipo e wipopo. No Kipeá, aparecem wipò e wipopò.
Matematicamente:
10 + 2 = 12.
A criança pode representar a quantidade utilizando dez objetos e acrescentando duas unidades.
4.13 Número 13 — *i-de
Para o número 13, encontra-se a sugestão de neologismo:
*i-de
O sentido indicado é:
“ele está perto”.
Na língua Dzubukuá, registra-se ide. No Kipeá, encontra-se idè.
Matematicamente:
10 + 3 = 13.
A criança pode representar a quantidade com dez objetos e mais três unidades.
4.14 Número 14 — *s-u-ma
Para o número 14, encontra-se a sugestão de neologismo:
*s-u-ma
O sentido indicado é:
“ele é inimigo”.
Na língua Dzubukuá, registra-se uma. No Kipeá, encontra-se sumà.
Matematicamente:
10 + 4 = 14.
A criança pode representar a quantidade utilizando dez objetos e acrescentando quatro unidades.
4.15 Número 15 — *lya-dze(dze)
Para o número 15, encontra-se a sugestão de neologismo:
*lya-dze(dze)
O sentido indicado é:
“número irmã mais velha”.
Na língua Dzubukuá, registra-se lyadze. No Kipeá, encontra-se ryadzè.
Matematicamente:
10 + 5 = 15.
A representação corporal pode ser feita por:
5 + 5 + 5 = 15.
A criança pode utilizar as mãos para visualizar a formação da quantidade.
4.16 Número 16 — *dze-bi(gâ)
Para o número 16, encontra-se a sugestão de neologismo:
*dze-bi(gâ)
O sentido indicado é:
“quinze e um”.
Na língua Dzubukuá, registra-se dzebi. No Kipeá, encontra-se dzebì.
Matematicamente:
15 + 1 = 16.
A criança pode compreender que, depois de quinze, acrescenta-se uma unidade.
4.17 Número 17 — *dze-ca(n(e/i)
Para o número 17, encontra-se a sugestão de neologismo:
*dze-ca(n(e/i)
O sentido indicado é:
“quinze e dois”.
Na língua Dzubukuá, encontra-se dzeta. No Kipeá, registra-se dzechà.
Matematicamente:
15 + 2 = 17.
A atividade pode utilizar quinze objetos e acrescentar mais duas unidades.
4.18 Número 18 — *dze-(wVcan(e/i))(di)ke
Para o número 18, encontra-se a sugestão de neologismo:
*dze-(wVcan(e/i))(di)ke
O sentido indicado é:
“quinze e três”.
Na língua Dzubukuá, registra-se dzeke. No Kipeá, encontra-se dzekiè.
Matematicamente:
15 + 3 = 18.
O professor pode representar a quantidade com quinze objetos e acrescentar mais três.
4.19 Número 19 — *dze-so
Para o número 19, encontra-se a sugestão de neologismo:
*dze-so
O sentido indicado é:
“quinze e quatro”.
Na língua Dzubukuá, encontra-se dzeho. No Kipeá, registra-se dzesò.
Matematicamente:
15 + 4 = 19.
A criança pode representar a quantidade utilizando quinze objetos e acrescentando quatro unidades.
4.20 Número 20 — *pri
O número 20 apresenta uma atualização importante neste levantamento.
A sugestão de neologismo é:
*pri
O sentido indicado é:
“todos”.
Na língua Dzubukuá, o número 20 é registrado como pri. No Kipeá, como prì.
Esse registro complementa a compreensão da contagem relacionada ao corpo.
Anteriormente, a quantidade 20 havia sido apresentada por meio da expressão:
mŷcribae misã idehó ibŷ saí
com o sentido de:
“levar todas as mãos incluindo os seus pés para ele”.
Essa expressão continua sendo significativa como descrição da contagem corporal.
A nova sugestão apresenta:
*pri — todos.
Matematicamente:
20 = 5 + 5 + 5 + 5.
Ou seja:
duas mãos + dois pés = 20 dedos.
O professor pode pedir aos estudantes que contem os dedos das duas mãos e dos dois pés.
Assim, o corpo continua funcionando como um instrumento concreto para o ensino da matemática.
4.21 A sequência corporal dos numerais
Os registros apresentados permitem construir uma sequência pedagógica relacionada ao corpo:
1, 2, 3 e 4
Representam as primeiras quantidades.
5
Relaciona-se a uma mão.
6, 7, 8 e 9
Relacionam-se a uma mão acrescida de dedos.
10
Relaciona-se às duas mãos.
11 a 14
Podem ser trabalhados como dez unidades acrescidas de novas unidades.
15
Pode ser compreendido como três grupos de cinco.
16 a 19
São apresentados nas sugestões como quinze acrescido de uma, duas, três ou quatro unidades.
20
Relaciona-se à totalidade dos dedos das mãos e dos pés, encontrando-se a sugestão *pri, “todos”.
Dessa maneira, o corpo pode funcionar como um dos primeiros instrumentos de contagem.
4.22 Do corpo à escrita matemática
O ensino dos numerais pode seguir uma sequência progressiva:
OUVIR
A criança escuta a palavra Kariri.
↓
FALAR
A criança procura pronunciar a palavra.
↓
CONTAR
A criança relaciona a palavra à quantidade.
↓
OBSERVAR
A criança identifica a quantidade no corpo ou nos objetos.
↓
ESCREVER
A criança registra o numeral.
↓
CALCULAR
A criança utiliza a quantidade em operações matemáticas.
↓
APLICAR
A criança utiliza o conhecimento em situações do cotidiano.
Essa metodologia aproxima a alfabetização linguística do letramento matemático.
4.23 A pesquisa dos numerais e a memória linguística
A ampliação dos registros dos números 11 a 20 demonstra que a pesquisa sobre os numerais Kariri permanece em movimento.
Os registros encontrados apresentam não somente formas numéricas, mas também informações sobre a maneira como os números podem ser relacionados a conceitos, parentesco, posição, quantidade, corpo e totalidade.
É importante, entretanto, distinguir:
registro tradicional;
registro histórico;
forma comparativa de língua relacionada;
e sugestão de neologismo.
Essa distinção é fundamental para o trabalho pedagógico e para o respeito à pesquisa linguística.
O professor pode incentivar os estudantes a perguntar aos anciãos e conhecedores:
Como se contava depois de dez?
Quais palavras eram utilizadas?
Como eram pronunciadas?
Havia diferentes formas de contar?
Como esses números eram utilizados antigamente?
Quais palavras permanecem na memória dos mais velhos?
Dessa maneira, a própria pesquisa linguística pode tornar-se uma atividade de alfabetização.
O estudante aprende que o conhecimento não está somente no livro.
O conhecimento também está na memória das pessoas.
A escola pode tornar-se, assim, um espaço de encontro entre:
memória dos anciãos → conhecimento dos professores → curiosidade das crianças → pesquisa linguística → registro escrito.
4.24 Ampliando a sequência numérica
A pesquisa apresentada não se limita aos números de 1 a 20.
Também são indicadas sugestões para outros números, entre eles:
30 — *ca(n(e/i))-dze
Sentido indicado: “dois quinze”.
Dzubukuá: tadze.
Kipeá: chadzè.
40 — *ca(n(e/i))-pri
Sentido indicado: “dois vinte”.
Dzubukuá: tapri.
Kipeá: chaprì.
50 — *lya-pa
Sentido indicado: “número pai”.
Dzubukuá: lyapa.
Kipeá: ryapà.
60 — *so-ñe
Sentido indicado: “4-antes”, no sentido de quatro dezenas antes do número 100.
Dzubukuá: hoñe.
Kipeá: sonhè.
70 — *ke-ñe
Sentido indicado: “3-antes”, no sentido de três dezenas antes do número 100.
Dzubukuá: keñe.
Kipeá: kienhè.
80 — *ca(n(e/i))-ñe
Sentido indicado: “2-antes”, no sentido de duas dezenas antes do número 100.
Dzubukuá: tañe.
Kipeá: chanhè.
90 — *bi(gâ)-ñe
Sentido indicado: “1-antes”, no sentido de uma dezena antes do número 100.
Dzubukuá: biñe.
Kipeá: binhè.
100 — *lya-dyé
Sentido indicado:
“número mãe”.
Dzubukuá: lyadê.
Kipeá: ryadé.
Esses registros permitem perceber que a pesquisa dos numerais pode avançar para dezenas, centenas e números ainda maiores.
Para números como 200, 1.000 e outros valores, recomenda-se consultar a referência específica indicada ao final deste capítulo.
4.25 Consideração final
Os numerais Kariri apresentados neste capítulo constituem um ponto de partida para uma educação matemática ligada à língua, ao corpo, à cultura e à memória.
A criança pode contar sementes, frutos, animais, objetos, pessoas e elementos do território.
Pode contar com os dedos.
Pode medir.
Pode comparar.
Pode somar.
Pode retirar.
Pode agrupar.
E pode aprender a fazer tudo isso valorizando sua própria língua.
Assim, o número deixa de ser apenas um símbolo.
Ele torna-se palavra.
A palavra torna-se conhecimento.
E o conhecimento torna-se memória.
Contar é registrar.
Registrar é lembrar.
Lembrar é preservar.
Preservar é transmitir.
Que os números sejam caminhos de conhecimento e que a língua Kariri continue caminhando entre as gerações.
5. O CORPO COMO PRIMEIRO INSTRUMENTO DE CONTAGEM
O corpo humano constitui uma referência inicial para a compreensão das quantidades.
A criança pode começar contando os próprios dedos e posteriormente utilizar objetos externos.
Essa passagem do corpo para o objeto permite construir uma compreensão progressiva da quantidade.
A metodologia pode trabalhar:
corpo → quantidade → palavra → numeral → escrita → operação.
A contagem deixa de ser apenas memorização e passa a ser uma experiência.
6. VOCABULÁRIO MATEMÁTICO E REFERÊNCIAS CULTURAIS KARIRI
O vocabulário apresentado neste capítulo reúne palavras e expressões da língua Kariri que podem contribuir para o ensino da matemática, juntamente com referências culturais que permitem trabalhar números, quantidades, medidas, capacidades, distâncias, tempo, valores e outras grandezas.
Nem todas as palavras apresentadas são termos matemáticos em sentido estrito. Algumas designam pessoas, objetos, animais, transportes, adornos ou elementos da vida cotidiana. Entretanto, esses elementos podem constituir importantes referências pedagógicas para a construção de situações de aprendizagem.
Dessa maneira, a proposta parte de uma compreensão ampla do letramento matemático: aprender matemática também significa observar, comparar, contar, medir, calcular e interpretar situações presentes na vida cultural.
6.1 Número, quantidade e operações
An — significa “nada” e pode ser relacionado à ideia de ausência de quantidade e ao conceito matemático de zero.
Worobu — significa “contar” e constitui uma palavra fundamental para as atividades de contagem e enumeração.
Maehae — significa “mais” ou “somar”, podendo ser relacionada às ideias de acrescentar, juntar e aumentar uma quantidade.
Apage — significa “tirar”, “diminuir” ou “subtrair”, podendo ser utilizada em situações de retirada e diminuição de quantidades.
Buieui — significa “elevar” ou “multiplicar”, podendo ser relacionada às atividades de multiplicação, agrupamento e aumento de quantidades.
Uohoie — significa “tudo”, podendo ser utilizada em atividades relacionadas à totalidade, conjunto e quantidade total.
Duboherí Worobü — expressão registrada como “Mestre que ensina os números como caminhos”. Pode ser utilizada pedagogicamente para representar aquele que transmite o conhecimento da contagem e dos números às novas gerações.
6.2 Corpo, pessoa e grandezas
Atse — pessoa. Pode ser utilizada como referência concreta para atividades envolvendo idade, peso, altura, comparação de medidas e outras características mensuráveis.
O uso pedagógico de uma pessoa como referência permite trabalhar situações como:
Quem é mais alto?
Quem é mais baixo?
Qual é a diferença de idade entre duas pessoas?
Qual é o peso aproximado?
Quantos anos possui cada pessoa?
Quantas pessoas formam determinado grupo?
Nesse caso, a pessoa não constitui uma “unidade matemática”, mas uma referência concreta para a aprendizagem de diferentes grandezas.
By — pé. Neste registro, corresponde a uma unidade de medida de 30,48 centímetros, equivalente a 12 polegadas. Pode ser utilizada em atividades de comprimento, distância e conversão de medidas.
A partir de By, o professor pode trabalhar relações entre pé, polegada, centímetro e metro.
6.3 Medidas tradicionais e referências de comprimento
Bóyentá — braça ou vara utilizada como referência para medir terra ou superfície, registrada com medida aproximada de 2,20 metros.
Pode ser utilizada em atividades envolvendo comprimento, distância, comparação e medição de terrenos.
Seriarú — arco e flecha. Pode constituir referência para atividades envolvendo distância, considerando-se, neste registro, um alcance médio de aproximadamente 70 metros.
A atividade pode trabalhar estimativas, comparação de distâncias e conversão entre diferentes unidades de medida.
6.4 Capacidade, quantidade e objetos
Cramenu — caixa de madeira utilizada como referência de capacidade, registrada com capacidade aproximada de 10 litros de farinha.
Setú — balaio médio utilizado como referência de quantidade, registrado como comportando aproximadamente 60 mangas.
Ruño — pote médio de barro utilizado como referência de capacidade, registrado com aproximadamente 15 litros de água.
Runhú — panela de barro média, registrada com capacidade aproximada entre 2 e 4 litros.
Bubehó — forno cerâmico. Neste registro, pode comportar aproximadamente 120 potes de barro ou 250 panelas grandes de argila durante a queima.
Essas referências permitem desenvolver atividades sobre:
capacidade;
quantidade;
comparação;
estimativa;
agrupamento;
divisão;
multiplicação;
organização de objetos.
Por exemplo:
Se um forno comporta 120 potes e são colocados 60 potes, qual é a metade da capacidade registrada?
Se um balaio comporta aproximadamente 60 mangas e existem 120 mangas, quantos balaios seriam necessários nessa referência?
6.5 Transporte, carga e matemática
Canindé — maior canoa do Opará, registrada neste vocabulário com capacidade de carga de aproximadamente 1.200 sacos de 60 kg.
A referência permite desenvolver atividades matemáticas envolvendo:
peso;
capacidade de carga;
multiplicação;
toneladas;
comparação;
transporte;
divisão de cargas.
Se cada saco possui 60 kg e a carga registrada é de 1.200 sacos, o professor pode trabalhar a multiplicação:
1.200 × 60 kg = 72.000 kg
ou:
72 toneladas.
A atividade pode mostrar ao estudante como uma situação cultural pode transformar-se em problema matemático.
6.6 Automóvel e situações matemáticas
Ibápohdu — automóvel.
O automóvel pode ser utilizado como referência pedagógica para trabalhar diferentes conceitos matemáticos, como:
velocidade;
distância;
tempo;
capacidade de passageiros;
consumo;
preço;
dinheiro;
comparação de valores.
O professor pode criar problemas contextualizados, por exemplo:
Um automóvel percorre determinada distância em determinado tempo. Qual é a velocidade média?
Quantas pessoas podem viajar no veículo?
Quanto seria gasto em determinada quantidade de viagens?
Assim, um elemento contemporâneo também pode participar do ensino matemático em língua Kariri.
6.7 Adornos e contagem
Daklone — colar, adorno utilizado no pescoço.
Dakloysã — pulseira, adorno utilizado na mão, registrada com uma fileira contendo aproximadamente 36 a 46 sementes.
Esses objetos podem ser utilizados em atividades de contagem, agrupamento, comparação e sequência.
O professor pode perguntar:
Quantas sementes existem em três pulseiras?
Qual é a diferença entre uma pulseira com 36 sementes e outra com 46?
Quantas sementes seriam necessárias para produzir cinco pulseiras com a mesma quantidade?
Dessa maneira, o objeto cultural transforma-se em recurso concreto para a aprendizagem.
6.8 Tempo, Lua e ciclos
Uché — tempo.
Batti — ano, relacionado a um período de aproximadamente 365 dias.
Kaya — Lua.
Kayaku — Lua, mês ou lunar, permitindo trabalhar relações entre Lua, mês e ciclos temporais.
Esses termos podem contribuir para atividades envolvendo:
dias;
semanas;
meses;
anos;
ciclos lunares;
calendários;
passagem do tempo;
comparação entre períodos.
O ensino pode estabelecer diálogo entre os ciclos naturais observados pela comunidade e o calendário utilizado oficialmente.
6.9 Dinheiro e valores
Tayu — dinheiro.
Neste registro, as cédulas são representadas por nomes de animais, formando uma referência cultural para o trabalho com valores monetários:
Yeendeçó — garça — R$ 5,00;
Yeendéar — arara-vermelha — R$ 10,00;
Dzicuá — mico-dourado — R$ 20,00;
Homomocleclé — onça-pintada — R$ 50,00;
Mydzé — peixe — R$ 100,00;
Bucuté — lobo-guará — R$ 200,00.
Essas referências possibilitam trabalhar reconhecimento de valores, composição de quantias, adição, subtração, troco, comparação e planejamento de compras.
Por exemplo:
Uma pessoa possui uma cédula Mydzé, de R$ 100,00, e compra um objeto por R$ 35,00. Quanto receberá de troco?
Ou:
Quantas cédulas Yeendeçó, de R$ 5,00, são necessárias para formar R$ 50,00?
A atividade aproxima o conhecimento matemático das situações cotidianas.
6.10 A matemática presente na cultura
O conjunto apresentado demonstra que a matemática pode estar presente em diferentes dimensões da vida cultural.
Ela aparece:
no corpo, quando contamos dedos, pés, altura e peso;
nos objetos, quando contamos sementes, potes, panelas e recipientes;
nas medidas, quando observamos comprimento, distância e capacidade;
no transporte, quando calculamos carga e quantidade;
no tempo, quando observamos dias, anos, Lua e ciclos;
no território, quando medimos espaços e distâncias;
nos adornos, quando contamos sementes;
no dinheiro, quando reconhecemos valores e realizamos operações.
Assim, o ensino da matemática pode partir daquilo que o estudante conhece e vivencia.
A palavra Kariri, o objeto cultural, o corpo, o território e a situação cotidiana podem tornar-se caminhos para chegar ao conhecimento matemático.
A matemática, nesse sentido, não aparece separada da vida.
Ela pode ser encontrada na própria experiência de viver, contar, medir, comparar, organizar e transmitir conhecimentos.
Por isso, este vocabulário deve ser compreendido como um conjunto de referências linguísticas e culturais para a construção de práticas de letramento matemático em língua Kariri.
7. AS MEDIDAS E O COTIDIANO
As medidas tradicionais podem constituir importantes recursos pedagógicos.
O estudante pode aprender distância, comprimento, capacidade e quantidade utilizando referências conhecidas na comunidade.
A partir de Bóyentá, por exemplo, pode-se trabalhar comprimento e distância.
A partir de Cramenu, Setú, Ruño e Runhú, podem ser trabalhadas capacidades e comparações.
O professor pode desenvolver situações como:
Qual recipiente comporta mais?
Qual comporta menos?
Quantas vezes uma quantidade menor cabe em uma maior?
Qual objeto é mais comprido?
Qual distância é maior?
Essas perguntas aproximam a matemática do cotidiano.
8. A MATEMÁTICA DO TEMPO
O tempo também constitui um campo de conhecimento matemático.
O termo Uché permite introduzir a ideia de tempo.
Batti pode ser relacionado ao ano.
Kaya pode ser utilizada como referência para conversar sobre a Lua e seus ciclos.
O estudante pode observar os ciclos naturais e relacioná-los ao calendário.
A proposta não pretende substituir o calendário oficial, mas apresentar a possibilidade de diálogo entre diferentes formas de organização do tempo.
9. AS OPERAÇÕES MATEMÁTICAS
9.1 Soma
A ideia de acrescentar pode ser relacionada a Maehae, registrada com o sentido de “mais” ou “somar”.
O professor pode utilizar objetos concretos para demonstrar a operação.
9.2 Subtração
A ideia de retirar ou diminuir pode ser relacionada a Apage.
A criança observa uma quantidade inicial, retira parte dela e identifica o que permaneceu.
9.3 Multiplicação
A ideia de multiplicar pode ser relacionada a Buieui, registrada com o sentido de “elevar” ou “multiplicar”.
A atividade pode começar com agrupamentos concretos.
9.4 Contagem
Worobu significa “contar” e constitui uma das bases para o desenvolvimento das demais operações.
10. DUBOHERÍ WOROBÜ: O MESTRE DOS CAMINHOS DOS NÚMEROS
A expressão Duboherí Worobü, registrada como “Mestre que ensina os números como caminhos”, oferece uma possibilidade simbólica e pedagógica muito significativa.
O conhecimento não caminha sozinho.
Ele é transmitido de uma pessoa para outra.
O ancião ensina o professor.
O professor ensina a criança.
A criança aprende e posteriormente transmite às novas gerações.
Assim, o conhecimento dos números também pode ser compreendido como um caminho entre gerações.
11. METODOLOGIA DAS ATIVIDADES
As atividades podem ser desenvolvidas em cinco momentos principais.
Primeiro: escutar.
O estudante escuta a palavra Kariri.
Segundo: observar.
Observa a quantidade representada.
Terceiro: falar.
Pronuncia a palavra.
Quarto: registrar.
Escreve a palavra e o numeral.
Quinto: aplicar.
Utiliza o conhecimento em uma situação matemática.
A sequência pode ser ampliada para:
OUVIR → FALAR → CONTAR → ESCREVER → CALCULAR → APLICAR.
12. O PAPEL DOS ANCIÃOS E DOS CONHECEDORES
Os anciãos e conhecedores da língua possuem papel fundamental na preservação dos conhecimentos tradicionais.
Sempre que possível, novas palavras, pronúncias, significados e formas de utilização devem ser pesquisados junto às pessoas que possuem conhecimento da língua e da cultura.
A escola pode criar momentos de encontro entre estudantes, professores e anciãos.
Nesses encontros, os estudantes podem perguntar:
Como se contava antigamente?
Como eram medidas as terras?
Como eram organizados os ciclos do tempo?
Quais palavras eram utilizadas?
Como essas palavras eram pronunciadas?
Dessa forma, a pesquisa torna-se parte do processo de alfabetização.
13. A LÍNGUA KARIRI COMO LÍNGUA DE CONHECIMENTO
A língua Kariri não é apenas objeto de estudo.
Ela pode ser instrumento de estudo.
Pode ser utilizada para falar sobre números, medidas, natureza, território, tempo, corpo, objetos, histórias e conhecimentos tradicionais.
Essa mudança de perspectiva é importante.
A língua deixa de ocupar somente um espaço simbólico e passa a ocupar também um espaço pedagógico.
14. LETRAMENTO MATEMÁTICO E CULTURA
O letramento matemático permite que o estudante compreenda e utilize conhecimentos matemáticos em situações da vida.
No contexto Kariri-Xocó, essas situações podem estar relacionadas à vida comunitária, ao território, à natureza, aos objetos, às atividades tradicionais e ao cotidiano.
Assim, aprender matemática também pode significar aprender a interpretar o próprio mundo.
15. PROPOSTA DE ATIVIDADES PEDAGÓGICAS
As atividades podem ser organizadas em diferentes níveis.
Atividade 1 — Meu corpo conta
Os estudantes utilizam os dedos para representar quantidades.
Atividade 2 — Palavra e número
O professor apresenta um numeral e sua forma registrada em Kariri.
Atividade 3 — Contagem de objetos
Os estudantes contam sementes, frutos, pedras ou outros objetos.
Atividade 4 — Mais e menos
Utilizando Maehae e Apage, os estudantes trabalham adição e subtração.
Atividade 5 — Agrupamentos
Os estudantes formam grupos de objetos para compreender a multiplicação.
Atividade 6 — Medidas
Utilizando referências como Bóyentá, os estudantes podem observar comprimentos e distâncias.
Atividade 7 — Capacidades
Os estudantes podem comparar recipientes e trabalhar os conceitos relacionados a Cramenu, Setú, Ruño e Runhú.
Atividade 8 — O tempo
Os estudantes observam o calendário, os dias, os meses, o ano e os ciclos da Lua.
Atividade 9 — Pesquisa com os mais velhos
Os estudantes entrevistam pessoas conhecedoras da língua para descobrir outras palavras relacionadas aos números e às medidas.
Atividade 10 — Meu pequeno dicionário matemático
Cada estudante registra novas palavras aprendidas e seus significados.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A alfabetização e o letramento matemático em língua Kariri constituem uma possibilidade de aproximar escola, língua, cultura, memória e conhecimento.
Os numerais registrados neste livro representam um ponto de partida.
A partir deles, podem ser desenvolvidos novos materiais sobre operações matemáticas, medidas, geometria, calendário, jogos, situações-problema e outros conhecimentos.
O mais importante é compreender que a matemática não precisa ser ensinada separadamente da cultura.
Ela pode estar presente na contagem dos dedos, na medida da terra, na capacidade dos recipientes, na organização do tempo, na observação da Lua e nas atividades cotidianas.
Quando uma criança aprende um número em sua língua, aprende também que sua língua possui capacidade de nomear e organizar conhecimentos.
Por isso, este trabalho é também uma ação de memória.
Contar é registrar.
Registrar é lembrar.
Lembrar é preservar.
Preservar é transmitir.
Que os números sejam caminhos de conhecimento.
Que a língua seja caminho de memória.
E que a memória continue caminhando entre as gerações Kariri-Xocó.
GLOSSÁRIO
Alfabetização: processo de aprendizagem da leitura e da escrita.
Letramento: uso social da leitura, da escrita e dos conhecimentos em diferentes situações.
Letramento matemático: capacidade de compreender e utilizar conhecimentos matemáticos em situações da vida.
Numeral: representação escrita de um número.
Número: conceito utilizado para representar quantidade, ordem ou medida.
Contagem: processo de determinar quantidades por meio da sequência dos números.
Medida: comparação de uma grandeza com uma referência determinada.
Quantidade: aquilo que pode ser contado ou medido.
Soma: operação matemática de adicionar ou juntar quantidades.
Subtração: operação matemática relacionada à retirada ou diminuição de uma quantidade.
Multiplicação: operação baseada na formação de grupos iguais e na adição repetida.
Zero: representação da ausência de quantidade; neste trabalho, relacionada ao registro An.
Worobu: contar.
Maehae: mais, somar.
Apage: tirar, diminuir, subtrair.
Buieui: elevar, multiplicar.
Uché: tempo.
Duboherí Worobü: mestre que ensina os números como caminhos.
Bóyentá: braça ou vara utilizada como referência para medir terra ou superfície.
Cramenu: caixa de madeira utilizada como referência de capacidade.
Setú: balaio médio utilizado como referência de quantidade e capacidade.
Ruño: pote médio de barro utilizado como referência de capacidade.
Runhú: panela de barro média utilizada como referência de capacidade.
Batti: ano.
Kaya: Lua.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
KARIRI-XOCÓ, Nhenety. Calendário Kariri-Xocó. Disponível em:
https://kxnhenety.blogspot.com/2018/11/calendario-kariri-xoco.html?m=0. Acesso em: 5 out. 2026.
KARIRI-XOCÓ, Nhenety. Calendário Indígena, na Ordem do Ano Gregoriano. Disponível em:
https://kxnhenety.blogspot.com/2018/11/calendario-indigena.html?m=0. Acesso em: 5 out. 2026.
KARIRI-XOCÓ, Nhenety. Dias da Semana na Língua Kariri. Disponível em:
https://kxnhenety.blogspot.com/2018/11/dias-da-semana-na-lingua-kariri.html?m=0. Acesso em: 5 out. 2026.
KARIRI-XOCÓ, Nhenety. Sugestões de Números Um até Um Bilhão. Disponível em:
https://kxnhenety.blogspot.com/2023/04/sugestoes-de-numeros-um-ate-um-bilhao_26.html?m=0. Acesso em: 6 out. 2026.
RODRIGUES, Aryon Dall'Igna. O artigo definido e os numerais na língua Kiriri: Vocabulários Português-Kiriri e Kiriri-Português. Revista Brasileira de Linguística Antropológica, Brasília, v. 4, n. 2, dez. 2012.
SOBRE O AUTOR
NHENETY KARIRI-XOCÓ
Nhenety Kariri-Xocó é contador de histórias, escritor, pesquisador da memória cultural e autor de trabalhos relacionados à história, à língua, à cultura, à espiritualidade e aos conhecimentos tradicionais do povo Kariri-Xocó.
Sua produção reúne contos, fábulas, cordéis, artigos, livros e registros voltados à preservação da memória e à transmissão de conhecimentos para as novas gerações.
Ao longo de sua trajetória, dedica-se a transformar experiências da tradição oral em registros escritos e visuais, buscando construir pontes entre os conhecimentos dos antepassados, a educação e as novas tecnologias.
Seu trabalho valoriza a memória do povo Kariri-Xocó, o território, o Opará, os anciãos, as crianças, a língua e as manifestações culturais.
Para Nhenety, escrever é também uma forma de guardar a palavra.
E guardar a palavra é contribuir para que ela continue viva.
“Somos guardiões da memória do Opará.”
FIM
ALFABETIZAÇÃO E LETRAMENTO MATEMÁTICO NA LÍNGUA KARIRI
Números, Medidas, Tempo e Saberes Culturais
AUTOR:
Nhenety Kariri-Xocó
2026
Iewóá. Inatekié.


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