sexta-feira, 9 de fevereiro de 2024

OS NOVOS ACHADOS DERAM LUZ AO MODO DE PENSAR TEREJÊ PARTE 2

 

Com as palavras descobertas e analisadas, podemos aos poucos inferir sobre alguns aspectos culturais, os pensamentos dos Terejê através de sua fala, como o mundo existia em seus olhos:


1) A Pikuâ 'mulher casada' é a que 'dá proteção, dá segurança'.


2) A Gandilia era uma 'casa móvel', ou seja, para os Xocó, talvez as casas pudessem ser mais temporárias.


3) A'álenda 'dança do mutum' dos Xocó indica uma reverência ao mutum como ave nobre.


4) Merékiá 'dinheiro' indica como os Terejê percebiam a introdução dessas pedras que os colonizadores davam tanto valor.


5) Sõse 'Deus' do Xocó e Sansé 'céu' do Wakonã indicam que os dois pareciam ser conceitos inseparáveis na percepção Terejê.


6) Sehôìdzé'a 'chuva' indica o período como um todo, sendo a 'chegada da água'.


7) Ikrâ 'machado', Iro 'estrela' e Inkó 'estrela', assim como Iñigo 'conserto', Ikrô 'flecha' indicam como substantivos eram criados ao conjugar verbos na terceira pessoa i- (ele, ela).


8) Ta'á 'água' para os Xocó, indica a importância da chuva como fonte de água, sendo mais mencionada tanto aqui quanto no próprio conceito de chuva.


9) Kraunan 'água' e Krananan 'água' talvez demonstre que os Natú davam mais importância para as águas dos rios, como demonstra o substantivo kra 'rio', com os verbos (h)u 'vir, chegar' e nan 'ir, caminhar, fluir'.


10) Adiciono uma palavra encontrada registrada no Kipeá, krì do Natú que significa 'casa' equivale ao Kariri erá/anra, uma casa coletiva, no qual uma aldeia média se dividia em quatro, sendo essas quatro a Maloca da Nossa Frente (Krì Waihusô), a Maloca das Nossas Costas (Krì Waiñaza), a Maloca do Nascer do Sol (Krì Krashulo Tuliu) e a Maloca do Pôr do Sol (Krì Krashulo Ñêmêliu).




Autor da matéria: Suã Ari Llusan 






SUBSTANTIVOS VERBAIS OU SUBSTANTIVOS IRO


 O português possui alguns verbos cujo equivalem diretamente com a conjugação da terceira pessoa do singular, por exemplo, luta é um substantivo se referindo ao ato de lutar e também significa ele/ela luta. O Peagaxinã não é diferente, além dessa estrutura ter sido preservada em documentos como o de Loukotka e Pompeu Sobrinho, também vemos que o Kipeá também preservou esse grupo, aqui compilo os que foram encontrados nas últimas pesquisas:


Natú:


1) I-RO 'ele(a) acende, ele queima' > 'estrela'


2) IN-KÓ 'ele(a) acende, ele queima' > 'estrela'


Kipeá


3) I-BA 'ele(a) é talhado' > 'carro'


4) I-BUÒ 'ele(a) é comer da roça' > 'sustento'  (Natú: bu 'roça' + (g)ó 'comer')


5) I-CU 'eles(as) comem (verbo plural)' > 'banquete'


6) I-PABÒ 'ele(a) limpa tudo' > 'confissão'


7) I-SINHÃ 'ele(a) continua' > 'sucessor(a)'


8) I-SÙ 'ele(a) queima' > 'fogo, lenha'




Autor da matéria: Suã Ari Llusan 






ETIMOLOGIA DE INIÓ 'CONSERTO DE FERRAMENTA, TORNAR A CONSERTAR' DO KIPEÁ


 O verbo parece derivar de uma raiz cognata do Xavante: nhi'oto 'voltar, mandar voltar' e do Xerente nĩkoto 'entortar', se referindo ao processo de martelar a ferramenta para entortá-la de volta para seu formato original, o verbo parece ter sido ñigo na época que era falada no Natú, o que possibilitou a lenição no Kipeá, com o enfraquecimento de -g- intervocálico e subsequente transformação para niò, marcado com o prefixo de terceira pessoa i-, que é uma das formas que o Natú dispõe para criar substantivos. Reconstruo como:


Kariri


Dzubukuá: inhinho

Kipeá: iniò

Sapuyá: iniggó

Kamurú: iniggò

Katembri: inió

Kariri-Xocó: inió, inhihó


Terejê *i-ñiko 'ele entorta, ele conserta, conserto'


Xocó: iñiko

Natú: iñigo

Wakonã: inhikô


Terejê *ñiko 'entortar, consertar'


Xocó: ñiko

Natú: ñigo

Wakonã: nhikô



FONTES


Romnhitsi'ubumro a'uwẽ mreme - waradzu mreme, Georg Lachnitt, 1987, p. 43

http://www.etnolinguistica.org/biblio:lachnitt-1987-dicionario


Dicionário Escolar Xerente / Português e Português / Xerente, Wanda Krieger e Guenther Krieger, 1994

http://www.uft.edu.br/neai/?p=388


Vocabulário Kariri, Aryon Rodrigues, 1943

http://www.etnolinguistica.org/biblio:rodrigues-1942-artigo





Autor da matéria: Suã Ari Llusan 






quinta-feira, 8 de fevereiro de 2024

ETIMOLOGIA DE ICÙ 'BANQUETE' DO KIPEÁ

 

Essa palavras traz novamente a tona o uso de pluracionalidade, o morfema CÙ de I-CÙ deriva de um verbo Terejê que indica a ação de comer no plural, isto é, o pronome I- de terceira pessoa está sendo conjugado na terceira pessoal do plural, portanto I-CÙ 'eles(as) comem', portanto 'banquete'. Outro aspecto que essa palavra traz consigo é que a evolução dessa palavra não foi idêntica ao Akuwẽ, que transformou esse verbo de kur para huri, o que indica que estes dois grupos linguísticos já havia se separado um do outro quando a evolução de k > h ocorreu. Reconstruo como:


Kariri


Dzubukuá: iku

Kipeá: icù

Sapuyá: ingkkú

Kamurú: ingkkù

Katembri: iku

Kariri-Xocó: ikú


Terejê *i-ku 'eles(as) comem, banquete, refeição, boda, festim'


Xocó: ikú

Natú: iku, igu

Wakonã: ikú




Fonte: Andrey Nikulin, 2020, p. 469

http://www.etnolinguistica.org/tese:nikulin-2020


Autor da matéria: Suã Ari Llusan 






FAIXA ETÁRIA PEAGAXINÃ


Senanatì - Criança de 0 a 9 meses ou 1 ano quando começa a andar. (se-nana-tì 'é criança que anda')

a) Dentro do grupo Senanatì, separam-se o Sementì 'menino' e a Sepikuâtì 'menina'.


Ñakrówatô - Menino ou menina entra na puberdade 10 a 14 anos. (ñakró-watô 'começa a gerar filho')

b) Dentro do grupo Ñakrówatô, separam-se o Ikramentì 'rapaz adolescente' e Ikrapikuâtì 'moça adolescente'


Pridì - Adulto a partir de 19 quando casa. (pri-dì 'é adulto, é alto, é amadurecido')

c) Dentro do grupo Pridì, separam-se o Menzikîô 'homem casado' e a Pikuâ 'mulher casada'


Natu - Anciãos a partir de 60 anos quando começa os cabelos brancos (n-atu 'é grande')

d) Dentro do grupo Natu, separam-se o Mankra 'pai velho' e a Ñakra 'mãe velha'


Obs 1.: O verbo nana que compõe o primeiro grupo tem dois significados, o primeiro é o de "ir, caminhar" e o segundo por extensão é "fluir", se significa "criança", derivado de sementia "menino" e seokó (Xocó) "filho". Nana também pode se referir à menstruação do grupo Ñakrówatô.


 A lista tem com o objetivo de aos poucos revitalizar a organização do povo Peagaxinã, alguns detalhes serão trabalhados para serem mais especificados com o tempo, este é o primeiro formato derivado da organização que Nhenety me passou e servirá como base para qualquer futura adição.



Autor da matéria: Suã Ari Llusan 






CORREÇÃO DA ETIMOLOGIA DE OLOFO 'SOLDADO' DA LÍNGUA XOCÓ

 

A palavra ao que parece, tem dois verbos que indicam a ação de bradar e fazer barulho:


(H)OLO-FO 'bradar-bater', cognatos de:


Xavante: hörö 'bradar, gritar, berrar'

Xerente: hârâ 'gritar'


Kipeá: po 'bater, ser espancado'


Reconstruo como:


Terejê *hôrô 'gritar'


Xocó: olô

Natú: hôrô, hôlô

Wakonã: hôrô, hôlô


Terejê *po 'bater, espancar'


Xocó: fo

Natú: ho

Wakonã: fo


Terejê *hôrô-po 'soldado, guerreiro'


Xocó: olôfo

Natú: hôrôho, hôlôho

Wakonã: ôrôfo, ôlôfo




Autor da matéria: Suã Ari Llusan 






ETIMOLOGIA DE AMBÉ/HABBE DO KARIRI

 

A palavra Kipeá ambé e a palavra Dzubukuá habbe ambas significam 'pagamento, recompensa, julgamento', ambas derivam de um substantivo Terejê:


a-bé 'coisa de repartir, repartição, corte, pagamento', cognato de:


Xavante: ba 'cortar, repartir, diminuir, parte, corte'

a- 'prefixo nominalizador', visto no Xocó a-tsá 'fogo', sinônimo de tsá 'fogo' que não possui o prefixo. Reconstruo como:


Kariri


Dzubukuá: habbe

Kipeá: ambè

Sapuyá: ampái

Kamurú: abbài

Katembri: ambé

Kariri-Xocó: habbé, ambé


Terejê *a-ba(ka) 'corte, parte, pagamento, julgamento, recompensa'


Xocó: abá, abé, abá'a, abé'a

Natú: abà, abàka, abàk

Wakonã: ambé, ambéka



Autor da matéria: Suã Ari Llusan