quinta-feira, 10 de setembro de 2026

BECHIANTSE — A ROÇA É TUDO NA NATUREZA





1. FALSA FOLHA DE ROSTO


BECHIANTSE

A ROÇA É TUDO NA NATUREZA

Um conto de tradição oral Kariri-Xocó

Nhenety Kariri-Xocó






2. FOLHA DE ROSTO


BECHIANTSE — A ROÇA É TUDO NA NATUREZA

Um conto de tradição oral Kariri-Xocó

Autor:
Nhenety Kariri-Xocó

Obra de memória, cultura, natureza e saberes ancestrais do povo Kariri-Xocó.






3. VERSO DA FOLHA DE ROSTO


© 2026 — Nhenety Kariri-Xocó
Todos os direitos reservados.

Esta obra apresenta uma narrativa inspirada em saberes, memórias, valores e conhecimentos tradicionais associados ao universo cultural Kariri-Xocó.

A narrativa literária e seus personagens foram construídos como expressão artística da tradição oral, da memória ancestral e da relação entre o povo, a Terra, as águas, as plantas, os animais e os demais seres da Natureza.

Autor: Nhenety Kariri-Xocó

Título: Bechiantse — A Roça é Tudo na Natureza






4. FICHA CATALOGRÁFICA


KARIRI-XOCÓ, Nhenety.

Bechiantse — A Roça é Tudo na Natureza: um conto de tradição oral Kariri-Xocó / Nhenety Kariri-Xocó. — Porto Real do Colégio, AL: edição do autor, 2026.

Obra de literatura de tradição oral e memória cultural indígena.

Literatura indígena.

Tradição oral.

Cultura Kariri-Xocó.

Natureza.

Agricultura tradicional.

Memória ancestral.

Educação ambiental.

Cosmologia indígena.

CDD: 398.20981
CDU: 398(81)





5. ISBN — SIMBÓLICO


ISBN SIMBÓLICO
978-65-00000-00-0

Identificação simbólica destinada à organização interna da coleção. Não corresponde necessariamente a um ISBN oficial atribuído por agência registradora.






6. PREFÁCIO OFICIAL DA COLEÇÃO


Esta obra integra o Acervo Virtual Bibliográfico Nhenety Kariri-Xocó, iniciativa dedicada à preservação, produção e difusão do conhecimento construído a partir das vivências culturais do povo Kariri-Xocó.

Fundamentado na memória, na ancestralidade e na experiência histórica, o Acervo orienta-se pela compreensão de que o saber se constrói por meio de encontros, trocas e transformações culturais ao longo do tempo.

Os elementos culturais, científicos e literários oriundos de diferentes povos e autores são respeitados em suas origens, sendo compreendidos como influências legítimas no processo de formação do conhecimento, sem reivindicação de autoria sobre tais contribuições.

Ao mesmo tempo, reconhece-se a existência de uma produção autoral própria, resultante da interpretação singular da realidade vivida.

Dessa forma, a presente obra se insere em uma continuidade cultural dinâmica, na qual tradição e criação se articulam, preservando identidades e projetando novos horizontes.





7. ESCLARECIMENTO DO AUTOR


A presente obra constitui, neste momento, um pré-projeto editorial em fase de estruturação acadêmica e organização bibliográfica.

Sua versão definitiva será futuramente submetida aos processos de revisão, diagramação, normalização segundo os padrões da ABNT, catalogação bibliográfica, classificação CDD e obtenção de ISBN oficial.

Enquanto perdurar esta etapa preparatória, parte das informações editoriais apresentadas possui caráter provisório e simbólico, destinando-se exclusivamente à identificação preliminar da obra.

O autor reafirma o compromisso com a preservação cultural, histórica e intelectual do acervo desenvolvido ao longo de suas pesquisas e produções literárias.

Nhenety Kariri-Xocó 






8. DEDICATÓRIA


Dedico aos anciãos e anciãs que conservaram histórias que não foram escritas, mas permaneceram vivas na voz do povo.

Dedico às crianças e aos jovens de Porto Real do Colégio, para que possam conhecer, representar e transmitir às futuras gerações as memórias de sua terra.

Dedico também ao Opará, nosso grande Rio São Francisco, testemunha silenciosa de tantos caminhos, encontros, partidas e acontecimentos.






9. AGRADECIMENTOS


Agradeço primeiramente aos nossos antepassados, que deixaram no caminho sementes de conhecimento para que as novas gerações pudessem encontrá-las.

Agradeço aos anciãos e às anciãs Kariri-Xocó, guardiões da palavra, da memória, das práticas tradicionais e dos ensinamentos que atravessam o tempo.

Agradeço às crianças e aos jovens, que recebem essas histórias e têm a responsabilidade de fazê-las caminhar para o futuro.

Agradeço à Natureza, que alimenta, ensina, acolhe e oferece continuamente seus frutos, suas águas, suas plantas e seus mistérios.

Agradeço também ao Opará, nosso grande rio, presença viva nas histórias, nos caminhos e na memória do nosso povo.






10. EPÍGRAFE


“Bechiantse: Natureza é a Roça.
A Roça é o mundo.
O mundo é um círculo.
E o círculo é vida.”

— Ensinamento presente na narrativa de Nhenety Kariri-Xocó






11. PREFÁCIO DO VOLUME


Bechiantse — A Roça é Tudo na Natureza nasce como uma história de ensinamento. Seu ponto de partida é a roça, mas seu horizonte é muito maior: é a própria relação entre o ser humano e o mundo natural.

Na tradição oral, uma história nunca é somente uma história. Ela carrega advertências, ensinamentos, lembranças e caminhos para aqueles que vêm depois. Por isso, a caminhada de Yüri representa também a caminhada de uma nova geração diante dos conhecimentos recebidos dos mais velhos.

A presença da avó Jurema simboliza a sabedoria ancestral. Sua palavra orienta o menino a compreender que a Natureza não é apenas aquilo que existe ao redor da aldeia. Ela é o espaço inteiro da vida.

A narrativa apresenta ainda uma questão muito atual: o perigo de confundir fartura com excesso. Produzir mais, retirar mais e desejar sempre mais pode parecer progresso, mas pode também romper o equilíbrio necessário para que a vida continue.

Assim, Bechiantse nos convida a olhar novamente para a Terra e perguntar não somente “quanto podemos retirar?”, mas também “quanto precisamos cuidar?”






12. RESUMO


Bechiantse — A Roça é Tudo na Natureza é um conto de tradição oral inspirado em saberes e valores Kariri-Xocó.

A narrativa acompanha Yüri, um menino nascido às margens do Opará, que aprende com sua avó Jurema que a roça não é apenas o espaço destinado ao cultivo. Para ele, a verdadeira roça compreende a Natureza inteira: as águas, as matas, as plantas, os animais, o barro, os alimentos e os conhecimentos.

Quando um forasteiro chega à aldeia oferecendo sementes que prometem grande produção, parte da comunidade acredita na promessa de fartura. Entretanto, os sinais da Natureza começam a revelar as consequências de um cultivo sem equilíbrio.

Por meio do sonho de Yüri e dos ensinamentos dos anciãos, a comunidade redescobre que retirar da Terra exige responsabilidade, gratidão e respeito.

Palavras-chave: Kariri-Xocó; tradição oral; Natureza; roça; Opará; ancestralidade; sementes; equilíbrio.





13. ABSTRACT


Bechiantse — A Roça é Tudo na Natureza is an oral tradition story inspired by Kariri-Xocó knowledge and cultural values.

The narrative follows Yüri, a boy born on the banks of the Opará River, who learns from his grandmother Jurema that the roça is not merely a place for cultivating crops. The true roça encompasses Nature itself: waters, forests, plants, animals, clay, food and knowledge.

When a stranger arrives in the village offering seeds that promise abundant harvests, part of the community accepts his proposal. However, signs in Nature gradually reveal the consequences of cultivation without balance.

Through Yüri's dream and the teachings of the elders, the community rediscovers that receiving from the Earth requires responsibility, gratitude and respect.

Keywords: Kariri-Xocó; oral tradition; Nature; agriculture; Opará River; ancestry; seeds; balance.






14. APRESENTAÇÃO


Este livro apresenta uma narrativa construída a partir da tradição oral e dos conhecimentos relacionados à vida, à Natureza e à memória do povo Kariri-Xocó.

O título Bechiantse — A Roça é Tudo na Natureza expressa uma compreensão ampla da palavra “roça”. A roça não deve ser entendida somente como um pedaço de terra preparado para plantar. Ela representa uma rede de relações.

A água participa da roça. A mata participa da roça. As sementes participam da roça. Os animais participam da roça. O conhecimento participa da roça.

Por isso, quando uma dessas partes é prejudicada, todo o conjunto sente.

A história de Yüri procura transmitir esse entendimento às novas gerações por meio de uma narrativa simples, simbólica e educativa.






15. NOTA DO AUTOR


Este conto foi elaborado como uma obra de tradição oral literária, inspirada em conhecimentos, valores e concepções presentes no universo cultural Kariri-Xocó.

Os personagens Yüri, Jurema, Kauê, Muruibá e Seu Valdo integram a construção narrativa desta obra.

Os termos indígenas apresentados no conto são utilizados dentro do contexto literário e cultural da narrativa.

A intenção desta obra é contribuir para a preservação da memória, estimular o respeito à Natureza e fortalecer a transmissão de conhecimentos entre as gerações.






16. MEMÓRIA DO AUTOR


A trajetória de Nhenety Kariri-Xocó está ligada à preservação da memória, da oralidade, das histórias, da cultura e dos conhecimentos do seu povo.

Como contador de histórias, sua escrita procura estabelecer uma ponte entre a palavra ancestral e os meios contemporâneos de registro.

A literatura torna-se, assim, uma espécie de lugar de memória: aquilo que antes caminhava principalmente pela voz passa também a permanecer registrado em livros, imagens e arquivos digitais.

Em Bechiantse, essa trajetória encontra a Natureza como tema central.

A roça, as sementes, o rio, a mata e os ensinamentos dos mais velhos tornam-se personagens de uma memória coletiva que precisa continuar sendo transmitida.






17. APRESENTAÇÃO DA OBRA


A obra está organizada como uma caminhada de aprendizagem.

Yüri inicia sua jornada como criança curiosa e termina como jovem guardião de um ensinamento.

A trajetória possui quatro movimentos principais:

I — Aprender com a Natureza
Yüri conhece a floresta e seus ensinamentos.

II — Receber da Natureza
Ele compreende o significado de mipedda, aquilo que é retirado do mundo.

III — Reconhecer o perigo do excesso
As sementes do forasteiro trazem a promessa de fartura, mas também desequilibram a vida.

IV — Replantar a memória
A comunidade recupera seus conhecimentos e volta a cultivar em equilíbrio com a Natureza.






18. INTRODUÇÃO


Desde os tempos antigos, os povos indígenas desenvolveram formas próprias de compreender a relação entre humanidade e Natureza.

Nesse entendimento, o ser humano não está separado da Terra. Ele pertence a ela.

A história de Yüri apresenta justamente essa perspectiva. O menino aprende que a Natureza não é um depósito de recursos disponíveis sem limite. Ela é uma comunidade de vida.

A expressão Bechiantse — A Roça é Tudo na Natureza sintetiza essa visão.

A roça é alimento, mas também é água.

É plantação, mas também é floresta.

É trabalho, mas também é conhecimento.

É território, mas também é memória.

É presente, mas também é responsabilidade com o futuro.






19. SUMÁRIO


1. Falsa Folha de Rosto
2. Folha de Rosto
3. Verso da Folha de Rosto
4. Ficha Catalográfica
5. ISBN Simbólico
6. Prefácio Oficial da Coleção
7. Esclarecimento do Autor
8. Dedicatória
9. Agradecimentos
10. Epígrafe
11. Prefácio do Volume
12. Resumo
13. Abstract
14. Apresentação
15. Nota do Autor
16. Memória do Autor
17. Apresentação da Obra
18. Introdução
19. A Narrativa Bechiantse — A Roça é Tudo na Natureza:
1 — O Círculo Sagrado da Vida
2 — Yüri, Filho do Caminho da Água
3 — A Escola da Floresta
4 — Os Ensinamentos das Plantas
5 — A Palavra Mipedda
6 — As Sementes do Forasteiro
7 — O Sonho de Yüri
8 — A Fartura que Escondia um Perigo
9 — Quando o Opará se Calou
10 — A Grande Gameleira
11 — O Pedido de Perdão à Natureza
12 — Replantando a Memória
13 — A Terra Volta a Sorrir
14 — A Canção do Equilíbrio
20. Considerações Finais
21. Glossário
22. Referências Bibliográficas
23. Sobre o Autor






20. A NARRATIVA: BECHIANTSE — A ROÇA É TUDO NA NATUREZA



1 — O CÍRCULO SAGRADO DA VIDA




Escutem bem, crianças, jovens e velhos, porque vou contar uma história antiga, daquelas que caminham de boca em boca e nunca devem se perder no vento. É uma história inspirada nos saberes do povo Kariri-Xocó, onde a palavra Bechiantse nos ensina que a Natureza é a Roça e que a Roça não é somente o lugar onde plantamos milho, feijão ou mandioca. Roça é o mundo inteiro que nos alimenta: são as águas do Opará, os ventos que atravessam as folhas, o barro que moldamos, as plantas que curam, os animais, os saberes e tudo aquilo que a natureza oferece em equilíbrio. Esta é a história de um menino chamado Yüri, que aprendeu com sua avó que viver é saber receber da Terra sem esquecer de cuidar dela.





2 — YÜRI, FILHO DO CAMINHO DA ÁGUA




Há muito tempo, quando os pássaros ainda cantavam como se conversassem diretamente com os seres humanos, existia uma aldeia Kariri-Xocó às margens do grande rio Opará. Ali nasceu Yüri, cujo nome significava Filho do Caminho da Água. Os anciãos diziam que aquele menino nascera com os olhos do rio, porque olhava tudo com profundidade e curiosidade. Sua avó, a sábia Jurema, era uma mulher de muita experiência e conhecia os ensinamentos antigos. Ao cair da noite, quando a aldeia se reunia perto do fogo, ela chamava o neto para perto e começava a ensinar aquilo que aprendera dos seus antepassados.





3 — A ESCOLA DA FLORESTA




— Wohotsé, meu neto — dizia Jurema —, nunca esqueça que toda a floresta é um ser vivo que nos alimenta. Nós fazemos parte dela e ela também faz parte de nós. Yüri escutava em silêncio, guardando cada palavra dentro do coração. Durante o dia, caminhava pela mata com seu amigo Kauê, menino alegre e ligeiro como o vento. Juntos observavam as árvores, os animais, os rios e as plantas, aprendendo que cada ser possuía seu lugar na grande roda da vida. Para aqueles dois meninos, a mata era como uma escola sem paredes, onde cada folha, cada bicho e cada correnteza ensinava alguma coisa.





4 — OS ENSINAMENTOS DAS PLANTAS




A mandioca ensinava que a terra só oferece bons frutos a quem sabe respeitá-la. O jenipapo mostrava que a beleza não estava apenas no corpo, mas também naquilo que se carregava dentro do espírito. O cipó-de-cobra lembrava que certas forças da natureza exigiam distância, cuidado e reverência. Yüri aprendia que nenhum conhecimento devia ser tomado com arrogância. Tudo tinha seu tempo, seu lugar e sua maneira de ser utilizado. Jurema dizia que quem conhece a natureza precisa primeiro aprender a escutá-la, porque a Terra fala através das águas, das plantas, dos animais, dos ventos e até do silêncio.





5 — A PALAVRA MIPEDDA




Certa noite, Jurema ensinou ao neto uma palavra muito antiga: mipedda. Ela explicou que mipedda era tudo aquilo que retiramos do mundo. Não era somente o alimento que saía da roça. Era também o barro retirado das margens do rio para fazer cerâmica, a madeira utilizada para construir uma casa, o peixe pescado no Opará e as folhas usadas para preparar remédios. Tudo aquilo que recebemos da natureza era mipedda. Mas a velha avó levantou o dedo e advertiu: — Cuidado, meu neto! Aquele que recebe da Terra precisa saber agradecer. Devemos retirar somente aquilo de que necessitamos, porque a natureza não foi feita para alimentar a ganância.




6 — AS SEMENTES DO FORASTEIRO




Yüri guardou aquela lição no peito. Mas um dia chegou à aldeia um homem vindo da cidade. Montado em um cavalo branco, chamava-se Seu Valdo e trazia consigo grandes sacos cheios de sementes douradas. Reuniu os moradores e falou com entusiasmo: — Com estas sementes, suas roças produzirão mais milho do que vocês jamais viram. Vocês terão fartura e eu comprarei tudo por um bom preço. Será o progresso para o seu povo! Muitos jovens ficaram encantados com a promessa de uma grande colheita. Porém, os anciãos, entre eles o cacique Muruibá e a própria Jurema, olharam uns para os outros com preocupação.






 7 — O SONHO DE YÜRI




Naquela mesma noite, Yüri teve um sonho diferente de todos os outros. Viu a floresta diminuindo, as árvores desaparecendo e o rio Opará perdendo suas águas. Os pássaros haviam partido e o silêncio tomava conta da mata. Yüri viu a própria floresta chorando e acordou assustado. Correu até sua avó e perguntou: — Avó, sonhei que a mata estava chorando. Será que fizemos alguma coisa errada? Jurema abraçou o neto e respondeu: — Teu espírito já está aprendendo a ouvir os sinais, meu filho. Lembra-te de outra palavra antiga: kenantse. É nossa criação na natureza. Devemos cultivar aquilo que realmente serve à vida e às nossas necessidades, e não alimentar um desejo que nunca termina.





 8 — A FARTURA QUE ESCONDIA UM PERIGO




Mesmo assim, parte da aldeia decidiu plantar as sementes trazidas pelo forasteiro. Grandes roçados foram abertos e, nos primeiros meses, tudo parecia maravilhoso. O milho cresceu alto e forte, ultrapassando a altura de um homem. Muitos acreditaram que Seu Valdo tinha razão e que aquela seria uma nova época de fartura. Porém, os anciãos continuavam observando em silêncio. Eles sabiam que nem tudo que cresce depressa traz benefício para a vida. E, pouco a pouco, começaram a aparecer sinais que ninguém podia mais ignorar.





9 — QUANDO O OPARÁ SE CALOU




Primeiro desapareceram as abelhas. Depois, as borboletas deixaram de visitar as flores. A terra começou a ficar dura, seca e cansada. As plantas já não pareciam tão alegres e os animais começaram a procurar outros lugares. Até o rio Opará, que antes era cheio de peixes e movimento, parecia ter ficado triste. Seu canto diminuiu e suas águas já não mostravam a mesma abundância. Então os moradores começaram a compreender que a fartura prometida não era apenas uma questão de colher muito. Era preciso perguntar o que estava acontecendo com todo o círculo da vida.






10 — A GRANDE GAMELEIRA




Diante daqueles sinais, os anciãos chamaram toda a aldeia para uma grande reunião sob a sombra da gameleira. Jurema levantou-se e falou com firmeza: — Filhos da aldeia, esquecemos aquilo que nossos antigos nos ensinaram. Bechiantse: Natureza é a Roça. A roça não termina onde começa a mata, nem onde acaba o campo. A roça é tudo que vive em harmonia. Quando ferimos uma parte desse círculo, todas as outras partes também sofrem. Yüri ouviu aquelas palavras e compreendeu que seu sonho não era apenas um sonho. Era um ensinamento que precisava ser ouvido por todos.





11 — O PEDIDO DE PERDÃO À NATUREZA




Então Yüri pediu a palavra diante dos anciãos e de toda a comunidade: — Vamos pedir perdão à floresta. Vamos replantar as sementes dos nossos ancestrais e cuidar novamente da terra. Vamos devolver à mata o espaço que tiramos dela e aprender outra vez a retirar somente aquilo de que precisamos. Os anciãos concordaram. A aldeia se preparou para um grande momento de reconexão com a natureza. Cantaram seus cantos antigos, agradeceram às águas, aos ventos, às árvores e aos seres que compartilhavam aquele território. Cada palavra era uma forma de lembrar que o ser humano não está acima da natureza: ele caminha dentro dela.





12 — REPLANTANDO A MEMÓRIA




Depois daquele momento, todos começaram a trabalhar juntos. Replantaram o milho nativo, o feijão e a mandioca. Voltaram a cuidar das plantas tradicionais e passaram a retirar o barro do rio com reverência. Deixaram espaços para a floresta respirar e para os animais encontrarem abrigo. Aprenderam novamente que uma boa roça não é aquela que ocupa toda a terra, mas aquela que convive com a mata, com a água, com os bichos e com os ventos. Yüri e Kauê passaram a ensinar às crianças menores aquilo que haviam aprendido com Jurema. Assim, o conhecimento começou novamente a caminhar de geração em geração.






13 — A TERRA VOLTA A SORRIR




O tempo passou, e a natureza começou a responder ao cuidado da aldeia. As primeiras abelhas voltaram. Depois chegaram as borboletas, visitando novamente as flores. Os peixes começaram a aparecer nas águas do Opará e a mata voltou a vestir-se de verde. A terra, antes cansada, recuperou sua força. Yüri cresceu e tornou-se um jovem respeitado por seu conhecimento e por sua capacidade de escutar os ensinamentos dos antigos. Sob a grande gameleira, passou a contar histórias para as crianças e sempre repetia: — Bechiantse: Natureza é a Roça. A Roça é o mundo. O mundo é um círculo. E o círculo é vida.





14 — A CANÇÃO DO EQUILÍBRIO




E assim termina esta história, mas o ensinamento continua caminhando. Dizem que, nas noites de lua cheia, quando o vento passa suavemente pelas trilhas da mata, ainda é possível ouvir a voz de Yüri ensinando uma nova geração: “Natureza é a Roça. Roça é o mundo. O mundo é um círculo. O círculo é vida.” Que ninguém tome da Terra mais do que necessita, que ninguém se esqueça de agradecer aquilo que recebe e que cada geração saiba entregar às próximas uma natureza viva e respeitada. Porque Bechiantse nos ensina que a Roça é tudo: é a água, a mata, o barro, o alimento, o conhecimento, o espírito e a própria vida. Que esta história permaneça guardada na memória e nunca se perca no vento.






21. CONSIDERAÇÕES FINAIS


A história de Yüri termina, mas seu ensinamento permanece.

A grande lição de Bechiantse é que a verdadeira fartura não pode ser medida somente pela quantidade de alimentos colhidos.

Fartura também é ter água limpa.

É ouvir os pássaros.

É encontrar abelhas nas flores.

É ver a mata verde.

É pescar sem destruir.

É plantar sem esgotar.

É retirar sem desperdiçar.

É receber sem esquecer de agradecer.

A Natureza oferece, mas também pede cuidado.

Quando a comunidade recupera suas sementes e seus conhecimentos, ela não está simplesmente voltando ao passado. Está recuperando uma forma de construir o futuro.

Bechiantse permanece como ensinamento: a Roça é tudo na Natureza, e cuidar da Natureza é cuidar da própria vida.






22. GLOSSÁRIO


Bechiantse — Palavra apresentada na narrativa com o sentido de que a Natureza é a Roça; expressão central do conto.

Mipedda — Tudo aquilo que retiramos do mundo natural, incluindo alimentos, barro, madeira, peixes, folhas e outros elementos necessários à vida.

Kenantse — Termo apresentado na narrativa relacionado à criação na Natureza e ao cultivo daquilo que serve à vida e às necessidades humanas.

Opará — Grande rio associado à região e à memória cultural Kariri-Xocó.

Roça — No contexto da narrativa, não apenas o terreno de cultivo, mas uma concepção ampliada do espaço de vida e das relações entre Natureza e comunidade.

Jurema — Avó de Yüri e personagem associada à sabedoria ancestral.

Yüri — Menino protagonista da narrativa, apresentado como “Filho do Caminho da Água”.

Kauê — Amigo de Yüri, companheiro de suas caminhadas pela floresta.

Muruibá — Cacique mencionado na narrativa e representante da liderança comunitária.

Ancestralidade — Continuidade dos conhecimentos, memórias e ensinamentos transmitidos entre gerações.

Natureza — Conjunto vivo de águas, matas, animais, plantas, terras, ventos e demais elementos com os quais a comunidade estabelece relações.






23. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 



KARIRI-XOCÓ, Nhenety. Bechiantse, Natureza é a Roça. Disponível em:

https://kxnhenety.blogspot.com/2025/06/bechiantse-natureza-e-roca.html?m=0  . Acesso em: 07 set. 2026. 

KARIRI-XOCÓ, Nhenety. Woroy História, Cosmologia Kariri-Xocó: Contos – Volume 1 (Coletânea). Disponível em:

https://kxnhenety.blogspot.com/2025/11/woroy-historia-cosmologia-kariri-xoco.html?m=0⁠  . Acesso em: 07 set. 2026. 







24. SOBRE O AUTOR


NHENETY KARIRI-XOCÓ

Nhenety Kariri-Xocó é contador de histórias, agricultor, escritor e guardião de memórias relacionadas à cultura e aos saberes do povo Kariri-Xocó.

Sua produção reúne narrativas, contos, cordéis, estudos culturais, registros históricos e criações voltadas à valorização da tradição oral, da ancestralidade, da língua, da cosmologia e da identidade indígena.

Em sua obra, a palavra escrita procura preservar aquilo que tradicionalmente vive na oralidade: histórias transmitidas pelos mais velhos, ensinamentos sobre a Natureza, memórias do território, nomes, famílias, costumes e conhecimentos ancestrais.

Bechiantse — A Roça é Tudo na Natureza integra esse caminho de preservação da memória, apresentando às novas gerações uma história em que a Terra não aparece apenas como lugar de cultivo, mas como uma grande comunidade de vida.

Nhenety Kariri-Xocó
Worobü Woroyá Toklikli — Contador de Histórias Oral





Autor: Nhenety Kariri-Xocó




domingo, 6 de setembro de 2026

SERIDSÃ, O ARCO DIGITAL CONTEMPORÂNEO





UM CONTO SOBRE A INTERNET

Autor: Nhenety Kariri-Xocó





1. FALSA FOLHA DE ROSTO


SERIDSÃ - O ARCO DIGITAL CONTEMPORÂNEO

Um Conto Sobre a Internet

Nhenety Kariri-Xocó






2. FOLHA DE ROSTO


SERIDSÃ, O ARCO DIGITAL CONTEMPORÂNEO
Um Conto Sobre a Internet

Uma narrativa sobre o encontro entre os conhecimentos ancestrais Kariri-Xocó e as novas tecnologias digitais, tendo como símbolo o Seridsã — o Arco Digital Contemporâneo.

Autor
Nhenety Kariri-Xocó

Porto Real do Colégio — Alagoas
Brasil





3. VERSO DA FOLHA DE ROSTO


© Nhenety Kariri-Xocó

Todos os direitos reservados.

Esta obra integra o conjunto de produções literárias, culturais, históricas e tecnológicas do autor, dedicado à preservação da memória, dos saberes ancestrais e da identidade do povo Kariri-Xocó.

Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida ou distribuída para fins comerciais sem autorização do autor, respeitados os direitos autorais e culturais envolvidos.

Título: Seridsã, O Arco Digital Contemporâneo
Subtítulo: Um Conto Sobre a Internet
Autor: Nhenety Kariri-Xocó
Local: Porto Real do Colégio, Alagoas, Brasil





4. FICHA CATALOGRÁFICA


KARIRI-XOCÓ, Nhenety.
Seridsã, o Arco Digital Contemporâneo: um conto sobre a Internet / Nhenety Kariri-Xocó. — Porto Real do Colégio, AL: edição do autor, 2026.

Obra literária sobre cultura indígena, memória, tecnologia digital, Internet, comunicação e identidade Kariri-Xocó.

1. Literatura indígena. 2. Povos indígenas. 3. Kariri-Xocó. 4. Tecnologia digital. 5. Internet. 6. Memória cultural. 7. Comunicação. I. Título.





5. ISBN — SIMBÓLICO

ISBN SIMBÓLICO

978-65-00000-00-0

Identificação simbólica destinada à organização interna da obra e ao acervo bibliográfico do autor. Não substitui um ISBN oficial emitido pela autoridade competente.





6. PREFÁCIO OFICIAL DA COLEÇÃO


Esta obra integra o Acervo Virtual Bibliográfico Nhenety Kariri-Xocó, iniciativa dedicada à preservação, produção e difusão do conhecimento construído a partir das vivências culturais do povo Kariri-Xocó.

Fundamentado na memória, na ancestralidade e na experiência histórica, o Acervo orienta-se pela compreensão de que o saber se constrói por meio de encontros, trocas e transformações culturais ao longo do tempo.

Os elementos culturais, científicos e literários oriundos de diferentes povos e autores são respeitados em suas origens, sendo compreendidos como influências legítimas no processo de formação do conhecimento, sem reivindicação de autoria sobre tais contribuições.

Ao mesmo tempo, reconhece-se a existência de uma produção autoral própria, resultante da interpretação singular da realidade vivida.

Dessa forma, a presente obra se insere em uma continuidade cultural dinâmica, na qual tradição e criação se articulam, preservando identidades e projetando novos horizontes.





7. ESCLARECIMENTO DO AUTOR


A presente obra constitui, neste momento, um pré-projeto editorial em fase de estruturação acadêmica e organização bibliográfica.

Sua versão definitiva será futuramente submetida aos processos de revisão, diagramação, normalização segundo os padrões da ABNT, catalogação bibliográfica, classificação CDD e obtenção de ISBN oficial.

Enquanto perdurar esta etapa preparatória, parte das informações editoriais apresentadas possui caráter provisório e simbólico, destinando-se exclusivamente à identificação preliminar da obra.

O autor reafirma o compromisso com a preservação cultural, histórica e intelectual do acervo desenvolvido ao longo de suas pesquisas e produções literárias.

Nhenety Kariri-Xocó 






8. DEDICATÓRIA


A dedicatória pode ser dirigida aos anciãos, jovens e futuras gerações Kariri-Xocó, especialmente àqueles que aprendem a caminhar entre tradição e tecnologia.






9. AGRADECIMENTOS


Agradecimento à comunidade Kariri-Xocó, aos ancestrais, aos colaboradores que participaram da caminhada tecnológica e, de maneira especial, a Sebastian Gerlic, citado na narrativa como parceiro na chegada do computador e da Internet à aldeia.





10. EPÍGRAFE


“O arco ancestral guarda a memória;
o arco digital lança a palavra.
Entre os dois, caminha o povo.”

Nhenety Kariri-Xocó





11. PREFÁCIO DO VOLUME


O prefácio apresentará o livro como uma obra que procura registrar um momento singular da história contemporânea Kariri-Xocó: o encontro entre os conhecimentos tradicionais e a tecnologia digital.

O Seridsã não será apresentado simplesmente como um computador ou como a Internet, mas como uma metáfora cultural criada a partir do modo indígena de interpretar uma ferramenta tecnológica.

O arco ancestral seredzé representa a ligação com a terra, a caça, a pesca, a proteção e os conhecimentos dos antepassados. O Seridsã representa a comunicação, a escrita, os projetos, a divulgação cultural e a possibilidade de fazer a voz da aldeia atravessar grandes distâncias.





12. RESUMO


Seridsã, O Arco Digital Contemporâneo é um conto inspirado na experiência do povo Kariri-Xocó diante da chegada das novas tecnologias digitais à aldeia.

A narrativa acompanha Nhenety Kariri-Xocó em seu contato com o computador e a Internet, mostrando como uma ferramenta inicialmente estranha pode ser reinterpretada a partir dos conhecimentos ancestrais.

Ao comparar o computador conectado à Internet com o arco e a flecha tradicional, Nhenety cria o conceito de Seridsã — o Arco Digital Contemporâneo. A flecha digital passa a simbolizar projetos, palavras, imagens, informações e conhecimentos lançados para além das fronteiras da aldeia.

A obra defende que a tecnologia pode ser apropriada de maneira consciente pelos povos indígenas sem significar abandono das tradições, da memória ou da identidade.

Palavras-chave: Kariri-Xocó; Internet; tecnologia; cultura indígena; memória; comunicação; Seridsã; seredzé.





13. ABSTRACT


SERIDSÃ, THE CONTEMPORARY DIGITAL BOW: A TALE ABOUT THE INTERNET

Seridsã, The Contemporary Digital Bow is a tale inspired by the experience of the Kariri-Xocó people in their encounter with new digital technologies.

The narrative follows Nhenety Kariri-Xocó as he discovers the computer and the Internet and interprets these technologies through ancestral knowledge.

By comparing the computer connected to the Internet with the traditional bow and arrow, Nhenety creates the concept of Seridsã — the Contemporary Digital Bow.

The digital arrow symbolizes projects, words, images, information and knowledge sent beyond the boundaries of the village.

The work demonstrates that technology can be appropriated by Indigenous peoples without abandoning their traditions, memory and cultural identity.

Keywords: Kariri-Xocó; Internet; technology; Indigenous culture; memory; communication; Seridsã; ancestral knowledge.





14. APRESENTAÇÃO


Nesta parte será apresentada a obra ao leitor.

O ponto central será explicar que o livro nasceu de uma experiência vivida e transformada em narrativa: a chegada da Internet à aldeia e sua interpretação a partir do universo cultural Kariri-Xocó.

O leitor será convidado a compreender que o Seridsã não é somente uma palavra nova, mas uma forma de pensar a tecnologia a partir da própria cultura.



15. NOTA DO AUTOR


Aqui Nhenety poderá explicar, em primeira pessoa, a origem da história e a razão pela qual escolheu o símbolo do arco.

A Nota do Autor também poderá esclarecer que a narrativa utiliza elementos de memória, experiência, oralidade e elaboração literária.





16. MEMÓRIA DO AUTOR


Esta seção será especialmente importante.

Nela poderá ser registrada a trajetória de Nhenety na utilização da tecnologia digital, desde o primeiro contato com o computador e a Internet até a utilização dessas ferramentas para:

escrever projetos;

divulgar a cultura Kariri-Xocó;

estabelecer comunicação com pessoas distantes;

pesquisar;

produzir textos;

registrar histórias;

divulgar conhecimentos;

buscar oportunidades para a comunidade;

ampliar a voz indígena através dos meios digitais.

A seção poderá funcionar como uma memória tecnológica e cultural da caminhada do autor.





17. APRESENTAÇÃO — O SERIDSÃ COMO SÍMBOLO


Uma segunda apresentação, de caráter conceitual, poderá explicar o significado do termo:

Seridsã — o Arco Digital Contemporâneo.

Aqui serão apresentados os dois símbolos:


SEREDZÉ


Arco ancestral, ligado à terra, à caça, à pesca, à proteção, à memória e aos ensinamentos dos antepassados.


SERIDSÃ


Arco digital, ligado à Internet, à comunicação, aos projetos, à informação, à produção de conhecimento e à divulgação da cultura.

A ideia fundamental será:

Dois arcos, uma só caminhada.






18. INTRODUÇÃO


A introdução preparará o leitor para a narrativa.

Poderá apresentar o contexto histórico e cultural da chegada da tecnologia digital à aldeia e estabelecer a principal questão do livro:

Como um povo pode utilizar uma tecnologia contemporânea sem perder suas raízes ancestrais?

A resposta encontrada pela narrativa será justamente o Seridsã.





19. SUMÁRIO


1. Falsa Folha de Rosto
2. Folha de Rosto
3. Verso da Folha de Rosto
4. Ficha Catalográfica
5. ISBN — Simbólico
6. Prefácio Oficial da Coleção
7. Esclarecimento do Autor
8. Dedicatória
9. Agradecimentos
10. Epígrafe
11. Prefácio do Volume
12. Resumo
13. Abstract
14. Apresentação
15. Nota do Autor
16. Memória do Autor
17. Apresentação — O Seridsã como Símbolo
18. Introdução
19. Sumário
20. O Conto — Seridsã, O Arco Digital Contemporâneo
Capítulo I — O Sopro dos Novos Tempos
Capítulo II — A Chegada do Objeto Estranho
Capítulo III — Os Primeiros Toques no Mundo Digital
Capítulo IV — A Flecha do Projeto
Capítulo V — A Estrada Invisível dos Projetos
Capítulo VI — O Seridsã Nasce da Palavra
Capítulo VII — O Lançamento da Flecha Digital
Capítulo VIII — A Caçada Bem-Sucedida
Capítulo IX — A Tecnologia a Serviço da Cultura
Capítulo X — Dois Arcos, Uma Só Caminhada
Capítulo XI — A Raiz que Não se Apaga
Capítulo XII — A Flecha do Futuro
Capítulo XIII — A Voz do Povo Viaja pelo Mundo
Capítulo XIV — Do Opará para o Futuro
21. Considerações Finais
22. Glossário
23. Referências Bibliográficas
24. Sobre o Autor





20. O CONTO — SERIDSÃ, O ARCO DIGITAL CONTEMPORÂNEO

Um Conto Sobre a Internet




CAPÍTULO I — O SOPRO DOS NOVOS TEMPOS




Esta é uma história que nasceu da própria caminhada do povo Kariri-Xocó no encontro com os novos tempos. Às margens do Opará, onde os ensinamentos dos ancestrais continuam vivos, chegou uma tecnologia que parecia pertencer a outro mundo: o computador ligado à Internet. Mas, para quem conhece a força da cultura, nenhuma novidade precisa apagar a memória. Foi assim que Nhenety, olhando para aquela máquina com os olhos de quem conhece o arco, a flecha, a terra e o rio, encontrou uma maneira própria de compreender aquele novo instrumento. Do encontro entre o saber ancestral e o conhecimento digital nasceu o Seridsã — o Arco Digital Contemporâneo.




CAPÍTULO II — A CHEGADA DO OBJETO ESTRANHO




Conta-se que, certa manhã, quando o primeiro clarão do sol começou a dourar as águas do Opará, a aldeia Kariri-Xocó despertava lentamente. Os pássaros cantavam entre as árvores, o vento passava pelas folhas e o grande rio seguia seu caminho, carregando histórias de muitos tempos. Era uma aldeia onde os antigos ensinavam que o conhecimento não morre: ele caminha, muda de forma e encontra novos caminhos para continuar servindo ao povo. Foi então que, naquele tempo, um novo espírito começou a soprar sobre a comunidade — invisível aos olhos, mas veloz como o vento: era a Internet.




CAPÍTULO III — OS PRIMEIROS TOQUES NO MUNDO DIGITAL




No ano de 2004, chegou à aldeia um objeto diferente de tudo aquilo que os antigos conheciam. Trazia fios, tela, teclado e muitos mistérios. Alguns olhavam para aquela máquina sem saber para que poderia servir. Mas Nhenety percebeu que ali havia uma nova ferramenta de conhecimento. Com o apoio de seu amigo Sebastian Gerlic, presidente da ONG Thydêwá, o equipamento foi instalado numa pequena sala, entre paredes simples e os saberes antigos da comunidade. E assim, quase sem fazer barulho, começava uma nova caminhada: a tecnologia entrava na aldeia sem expulsar a tradição.




CAPÍTULO IV — A FLECHA DO PROJETO




Nhenety foi um dos primeiros a experimentar aquele novo instrumento. Seus dedos, acostumados ao trabalho da terra, ao arco de madeira e às coisas do cotidiano da aldeia, passaram a conhecer o teclado e o mouse. Aos poucos, aprendeu a navegar pela Internet como quem conhece as correntezas do Opará. Descobriu que podia atravessar distâncias sem sair da aldeia, conversar com pessoas de lugares distantes, apresentar a cultura Kariri-Xocó e procurar oportunidades para fortalecer sua comunidade. A máquina, que para alguns parecia apenas um aparelho, começava a se transformar em instrumento de luta, comunicação e memória.




CAPÍTULO V — A ESTRADA INVISÍVEL DOS PROJETOS




Nhenety passou então a utilizar aquele novo caminho para escrever projetos e buscar possibilidades de subsistência para seu povo. Se havia uma necessidade na aldeia, ele procurava uma maneira de transformá-la em projeto. Se era criação de galinhas, criação de peixes, plantação ou outra atividade comunitária, lá estava ele diante da tela, escrevendo, pesquisando e enviando suas ideias para o mundo. Era como se tivesse encontrado uma nova estrada, uma estrada invisível que atravessava rios, cidades e governos, levando a voz da aldeia para lugares muito distantes.





CAPÍTULO VI — O SERIDSÃ NASCE DA PALAVRA




Certo dia, depois de algum tempo de convivência com aquela novidade, Nhenety estava sentado à sombra de um umbuzeiro, contemplando o movimento das águas. Ao seu lado estava Sebastian Gerlic, que conhecia sua curiosidade e seu jeito de transformar as coisas novas em conhecimento para o povo. Sebastian olhou para o amigo e perguntou: — E aí, meu amigo Nhenety Kariri-Xocó, depois de todo esse tempo, o que você achou desse computador com Internet? Nhenety sorriu, ficou um instante em silêncio e olhou para o rio, como se buscasse uma resposta nas águas.





CAPÍTULO VII — O LANÇAMENTO DA FLECHA DIGITAL




Então falou com a tranquilidade de quem escuta os ensinamentos dos antigos: — Meu amigo Sebastian, esse computador com Internet me parece muito com o nosso arco e flecha. Desde os tempos dos nossos ancestrais, usamos o arco, que chamamos seredzé, para caçar, pescar e proteger nosso povo. Agora conheci outro tipo de arco. Ele não é feito de madeira, não recebe corda e não lança flecha de palha ou de madeira. Esse novo arco trabalha com palavras, imagens, conhecimentos e informações. Por isso, eu o chamo de Seridsã, o Arco Digital.




CAPÍTULO VIII — A CAÇADA BEM-SUCEDIDA




Sebastian ficou atento, enquanto Nhenety continuava explicando sua maneira de enxergar aquela tecnologia. — Com o seredzé, o caçador prepara a flecha, aponta com cuidado e espera o momento certo para lançá-la. Com o Seridsã acontece algo parecido. Quando escrevemos um projeto, estamos preparando nossa flecha. Colocamos ali nossas necessidades, nossas ideias, nossos conhecimentos e nossos sonhos. Depois, quando apertamos o botão e enviamos aquele projeto pela Internet, é como se lançássemos uma flecha digital para muito longe, atravessando caminhos que os nossos olhos não conseguem enxergar.




CAPÍTULO IX — A TECNOLOGIA A SERVIÇO DA CULTURA




E Nhenety ainda explicou: — Essa flecha digital pode chegar a uma secretaria, a um ministério, a uma instituição ou a qualquer lugar onde exista uma possibilidade de apoio para a comunidade. Se ela alcançar o seu destino e o projeto for aprovado, então aquilo que estava escrito na tela começa a ganhar vida na aldeia. Pode nascer uma criação de galinhas, um projeto de peixes, uma plantação ou qualquer outra ação que ajude nosso povo. É como uma caçada bem-sucedida: primeiro existe o conhecimento, depois vem a preparação, em seguida lançamos a flecha e, quando conseguimos o que buscamos, todos celebram juntos.





CAPÍTULO X — DOIS ARCOS, UMA SÓ CAMINHADA




Sebastian ouviu aquelas palavras e compreendeu que Nhenety não estava simplesmente falando de computador. Estava falando de cultura. Estava mostrando que uma ferramenta criada em outro mundo também poderia ser apropriada pelo povo indígena e transformada conforme suas próprias necessidades. O computador não precisava apagar o arco ancestral. A Internet não precisava levar embora a memória. Pelo contrário, quando usada com consciência, poderia ajudar a contar as histórias, fortalecer os projetos, divulgar a cultura e fazer a voz dos antigos viajar para além das margens do Opará.




CAPÍTULO XI — A RAIZ QUE NÃO SE APAGA




Então Nhenety levantou os olhos e disse com firmeza: — Mas uma coisa precisa ficar clara: nós nunca vamos abandonar o nosso arco de madeira. O seredzé pertence ao nosso espírito, ao nosso chão e à nossa história. Ele carrega a memória dos nossos ancestrais. O Seridsã chegou como uma nova ferramenta, mas não veio para substituir aquilo que somos. Um representa a tecnologia que aponta para o futuro; o outro representa a raiz que nos sustenta no passado. Os dois podem caminhar juntos, desde que o povo nunca esqueça de onde veio.






CAPÍTULO XII — A FLECHA DO FUTURO




E assim ficou aquela lição contada de geração em geração: Nhenety seguia caminhando pela aldeia carregando simbolicamente dois arcos. Um era feito de madeira, ligado à terra, à caça, à pesca e aos ensinamentos ancestrais. O outro era invisível, feito de conhecimento, comunicação e luz, capaz de lançar palavras para lugares distantes. O primeiro guardava a memória; o segundo abria caminhos. E entre os dois estava o próprio povo, aprendendo a caminhar no seu tempo sem abandonar suas raízes.






CAPÍTULO XIII — A VOZ DO POVO VIAJA PELO MUNDO




Desde então, quando alguém pergunta o que é o Seridsã, os mais velhos podem contar esta história e dizer: é o Arco Digital que nasceu do encontro entre a tradição e a tecnologia. É uma flecha de futuro lançada pelas mãos de quem conhece a força do passado. Porque, para os Kariri-Xocó, tecnologia não precisa significar esquecimento. Pode significar também resistência, comunicação, conhecimento e continuidade. E enquanto o seredzé permanecer vivo na memória do povo, o Seridsã poderá continuar lançando suas flechas digitais pelo mundo, levando consigo a dignidade, a cultura e a voz do povo do Opará.





CAPÍTULO XIV — DO OPARÁ PARA O FUTURO




E esta história permanece como uma lição para os novos tempos: o povo que conhece suas raízes pode caminhar por qualquer estrada sem perder sua identidade. O seredzé continua sendo o arco da ancestralidade, enquanto o Seridsã representa o arco do conhecimento digital. Um nasce da madeira e da terra; o outro, da tecnologia e da comunicação. Mas ambos podem servir ao mesmo propósito quando colocados nas mãos de quem ama seu povo. Assim, a flecha ancestral e a flecha digital seguem seus caminhos, levando para o mundo a voz Kariri-Xocó, porque preservar a memória também é aprender a lançar novas flechas em direção ao futuro.

Autor: Nhenety Kariri-Xocó




21. CONSIDERAÇÕES FINAIS


As considerações finais retomarão a principal mensagem da obra:

O avanço tecnológico não precisa representar o desaparecimento da tradição.

O povo Kariri-Xocó pode utilizar computadores, Internet e outras tecnologias contemporâneas sem abandonar o conhecimento transmitido pelos ancestrais.

O seredzé permanece como símbolo da ancestralidade.

O Seridsã torna-se símbolo do conhecimento digital.

Assim, a cultura não fica parada no passado: ela continua caminhando.





22. GLOSSÁRIO


Uma seção muito importante para o livro.

SEREDZÉ

Arco ancestral utilizado como referência simbólica na narrativa.

SERIDSÃ

“Arco Digital Contemporâneo”, conceito criado na narrativa para representar o computador conectado à Internet como instrumento de conhecimento, comunicação e ação.

OPARÁ

Nome utilizado pelo povo para se referir ao Rio São Francisco.

KARIRI-XOCÓ

Povo indígena ao qual pertence o autor e no qual se situa o universo cultural da narrativa.

ALDEIA

Espaço comunitário de vida, cultura, memória e organização do povo.

ANCESTRAIS

Antepassados que permanecem presentes através da memória, dos ensinamentos e da continuidade cultural.

FLECHA DIGITAL

Metáfora utilizada para representar o envio de informações, projetos, palavras e conhecimentos pela Internet.

CAÇADA BEM-SUCEDIDA

Metáfora para representar a realização de um objetivo alcançado através do conhecimento, planejamento, envio de projetos e obtenção de resultados.






23. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS


KARIRI-XOCÓ, Nhenety. Seridsã, O Arco Digital. Disponível em:

 https://kxnhenety.blogspot.com/2025/05/seredsa-o-arco-digital.html?m=0. Acesso em: 6 dez. 2025.

KARIRI-XOCÓ, Nhenety. Woroy História – Kariri-Xocó, Tecnologia Digital e Inteligente, Contos – Volume 20 – Coletânea. Disponível em:

 https://kxnhenety.blogspot.com/2025/12/woroy-historia-kariri-xoco-tecnologia.html?m=0. Acesso em: 25 ago. 2026.





24. SOBRE O AUTOR


NHENETY KARIRI-XOCÓ

Nhenety Kariri-Xocó é escritor, agricultor, 

contador de histórias orais, pesquisador da memória e produtor cultural indígena.

Sua produção está voltada à preservação e valorização dos conhecimentos, histórias, palavras, costumes, espiritualidade, identidade e memória do povo Kariri-Xocó.

Por meio de contos, fábulas, cordéis, artigos, narrativas históricas e produções digitais, desenvolve uma literatura comprometida com a transmissão dos saberes entre gerações.

Em Seridsã, O Arco Digital Contemporâneo, o autor registra uma experiência simbólica de encontro entre ancestralidade e tecnologia, demonstrando que o conhecimento tradicional pode dialogar com os instrumentos do mundo contemporâneo.





Autor: Nhenety Kariri-Xocó






segunda-feira, 24 de agosto de 2026

PEÇA TEATRAL, CHEGADA DE D. PEDRO II EM PORTO REAL DO COLÉGIO






Peça Teatral Histórico-Cultural em Memória dos Kariri

Autor:
Nhenety Kariri-Xocó





1. FALSA FOLHA DE ROSTO

PEÇA TEATRAL CHEGADA DE D. PEDRO II EM PORTO REAL DO COLÉGIO

Peça Teatral Histórico-Cultural em Memória dos Kariri

Nhenety Kariri-Xocó

Porto Real do Colégio — Alagoas
Brasil
2026




2. FOLHA DE ROSTO

PEÇA TEATRAL CHEGADA DE D. PEDRO II EM PORTO REAL DO COLÉGIO

Peça Teatral Histórico-Cultural em Memória dos Kariri

Autor: Nhenety Kariri-Xocó

Obra dramatúrgica de caráter histórico-cultural dedicada à preservação da memória indígena de Porto Real do Colégio, às margens do Opará — Rio São Francisco.

Porto Real do Colégio — Alagoas
2026




3. VERSO DA FOLHA DE ROSTO

© 2026 — Nhenety Kariri-Xocó

Todos os direitos reservados.

Esta obra integra a produção literária, histórica e cultural de Nhenety Kariri-Xocó e foi concebida como registro dramatúrgico de memória, tradição oral e identidade cultural.

É permitida a utilização da obra para fins educativos, culturais e comunitários, desde que preservados a autoria, o título da obra e o devido reconhecimento ao autor.

A representação pública da peça deverá respeitar os elementos culturais Kariri-Xocó nela apresentados, especialmente aqueles relacionados ao Toré, aos maracás, à memória dos antepassados e aos conhecimentos tradicionais.

Autor: Nhenety Kariri-Xocó
Título: Peça Teatral Chegada de D. Pedro II em Porto Real do Colégio
Natureza: Peça teatral histórico-cultural
Ano: 2026
Local de referência: Porto Real do Colégio — Alagoas — Brasil




4. FICHA CATALOGRÁFICA

Nhenety Kariri-Xocó

Peça teatral chegada de D. Pedro II em Porto Real do Colégio: peça teatral histórico-cultural em memória dos Kariri / Nhenety Kariri-Xocó. — Porto Real do Colégio, AL: Edição do Autor, 2026.

Obra teatral histórico-cultural.

Teatro histórico.

História indígena.

Kariri-Xocó.

Porto Real do Colégio.

Rio São Francisco — Opará.

Memória e tradição oral.

D. Pedro II.

Cultura indígena.

Dramaturgia.

CDD: 869.2
CDU: 82-2

Ficha catalográfica em caráter editorial simbólico, destinada à organização desta edição.




5. ISBN — SIMBÓLICO

ISBN: 978-65-00000-00-0

ISBN simbólico utilizado exclusivamente para composição editorial e organização preliminar desta obra. Não representa registro oficial de ISBN.




6. PREFÁCIO OFICIAL DA COLEÇÃO

Esta obra integra o Acervo Virtual Bibliográfico Nhenety Kariri-Xocó, iniciativa dedicada à preservação, produção e difusão do conhecimento construído a partir das vivências culturais do povo Kariri-Xocó.

Fundamentado na memória, na ancestralidade e na experiência histórica, o Acervo orienta-se pela compreensão de que o saber se constrói por meio de encontros, trocas e transformações culturais ao longo do tempo.

Os elementos culturais, científicos e literários oriundos de diferentes povos e autores são respeitados em suas origens, sendo compreendidos como influências legítimas no processo de formação do conhecimento, sem reivindicação de autoria sobre tais contribuições.

Ao mesmo tempo, reconhece-se a existência de uma produção autoral própria, resultante da interpretação singular da realidade vivida.

Dessa forma, a presente obra se insere em uma continuidade cultural dinâmica, na qual tradição e criação se articulam, preservando identidades e projetando novos horizontes.




7. ESCLARECIMENTO DO AUTOR

A presente obra constitui, neste momento, um pré-projeto editorial em fase de estruturação acadêmica e organização bibliográfica.

Sua versão definitiva será futuramente submetida aos processos de revisão, diagramação, normalização segundo os padrões da ABNT, catalogação bibliográfica, classificação CDD e obtenção de ISBN oficial.

Enquanto perdurar esta etapa preparatória, parte das informações editoriais apresentadas possui caráter provisório e simbólico, destinando-se exclusivamente à identificação preliminar da obra.

O autor reafirma o compromisso com a preservação cultural, histórica e intelectual do acervo desenvolvido ao longo de suas pesquisas e produções literárias.

Nhenety Kariri-Xocó 




8. DEDICATÓRIA

Dedico esta peça teatral aos meus antepassados Kariri-Xocó, guardiões da palavra, da memória, da cultura e da vida às margens do Opará.

Dedico aos anciãos e anciãs que conservaram histórias que não foram escritas, mas permaneceram vivas na voz do povo.

Dedico às crianças e aos jovens de Porto Real do Colégio, para que possam conhecer, representar e transmitir às futuras gerações as memórias de sua terra.

Dedico também ao Opará, nosso grande Rio São Francisco, testemunha silenciosa de tantos caminhos, encontros, partidas e acontecimentos.

Que esta obra seja mais uma canoa de memória navegando pelas águas do tempo.

Nhenety Kariri-Xocó





9. AGRADECIMENTOS

Agradeço primeiramente aos meus antepassados, cuja presença permanece viva na memória, na palavra, na cultura e na identidade do povo Kariri-Xocó.

Agradeço aos anciãos, mestres da tradição, contadores de histórias, mulheres, homens, crianças e jovens que mantêm viva a cultura indígena de Porto Real do Colégio.

Agradeço à comunidade Kariri-Xocó, espaço de pertencimento e fonte permanente de inspiração para esta obra.

Agradeço ao Opará — Rio São Francisco —, presença fundamental na história e na vida dos povos que habitam suas margens.

Agradeço a todos aqueles que, por meio da oralidade, da pesquisa, da literatura, da memória familiar e da convivência comunitária, contribuem para que acontecimentos do passado continuem sendo conhecidos pelas novas gerações.

Agradeço especialmente aos leitores, educadores, estudantes, artistas e grupos culturais que possam levar esta peça aos palcos e aos espaços de aprendizagem.

Que cada apresentação seja também um ato de preservação da memória.




10. EPÍGRAFE

“O rio leva as águas para o mar;
o povo leva a memória para o futuro.”

Nhenety Kariri-Xocó





11. PREFÁCIO DO VOLUME

Uma peça teatral pode nascer para o palco, mas algumas histórias pedem para permanecer também nas páginas de um livro.

Esta obra nasce desse desejo de preservar uma memória histórica e cultural relacionada à chegada de D. Pedro II a Porto Real do Colégio, em 16 de outubro de 1859.

O acontecimento é aqui apresentado por meio da linguagem teatral, permitindo que personagens históricos, indígenas, moradores, autoridades e o próprio Opará dialoguem diante do leitor e, posteriormente, diante do público.

A dramaturgia transforma a memória em presença.

O que aconteceu no passado deixa de ser apenas uma data distante e passa a possuir voz, movimento, silêncio, música, personagens e cena.

Nesta peça, o Opará assume uma função simbólica especial. Ele é rio e testemunha; caminho e memória; paisagem e personagem.

Suas águas atravessam o tempo e permitem estabelecer uma ligação entre o acontecimento histórico e as gerações que continuam contando essa história.

A obra também procura valorizar a presença indígena na narrativa, colocando em destaque personagens como Pedro Lolaço, Manoel Baltazar e seu filho Manoel Paulo, além das crianças Martinha e João Pereira Pirigipe e dos demais nomes preservados pela tradição oral.

Assim, este volume não pretende ser apenas um texto teatral.

Pretende ser também um instrumento de memória.

Um livro que possa ser lido, estudado, encenado e transmitido.

Um livro que possa chegar às escolas, às comunidades, aos espaços culturais e aos lugares onde a memória de um povo continua sendo contada.





12. RESUMO

Peça Teatral Chegada de D. Pedro II em Porto Real do Colégio é uma obra dramatúrgica histórico-cultural de Nhenety Kariri-Xocó que apresenta, em linguagem teatral, a chegada do Imperador D. Pedro II a Porto Real do Colégio, às margens do Opará — Rio São Francisco —, em 16 de outubro de 1859.

A narrativa acompanha os preparativos da comunidade para a recepção da comitiva imperial, a chegada de D. Pedro II e da Imperatriz Dona Teresa Cristina, a participação das autoridades locais, a visita à Igreja de Nossa Senhora da Conceição, a demonstração de arco e flecha realizada por Manoel Baltazar e a apresentação do Toré pelos indígenas.

A peça também procura preservar os nomes associados à memória daquele acontecimento e destaca a importância da tradição oral como instrumento de transmissão histórica.

O Opará é apresentado como personagem simbólico e guardião da memória, acompanhando o desenvolvimento da narrativa desde o prólogo até o epílogo.

A obra articula história, dramaturgia, oralidade, identidade indígena e memória coletiva, propondo que a representação teatral seja também uma forma de preservar e transmitir conhecimentos às novas gerações.

Palavras-chave: Teatro histórico; Kariri-Xocó; Porto Real do Colégio; Opará; Rio São Francisco; memória indígena; tradição oral; D. Pedro II; cultura indígena.





13. ABSTRACT

The Play The Arrival of D. Pedro II in Porto Real do Colégio is a historical-cultural theatrical work by Nhenety Kariri-Xocó that presents, through dramatic language, the arrival of Emperor D. Pedro II in Porto Real do Colégio, on the banks of the Opará — São Francisco River — on October 16, 1859.

The narrative follows the preparations of the community for the reception of the imperial delegation, the arrival of Emperor D. Pedro II and Empress Teresa Cristina, the participation of local authorities, the visit to the Church of Our Lady of the Conception, the bow-and-arrow demonstration by Manoel Baltazar, and the Toré performed by the Indigenous people.

The play also seeks to preserve the names associated with the memory of that event and emphasizes oral tradition as an important means of historical transmission.

The Opará is presented as a symbolic character and guardian of memory, accompanying the narrative from the prologue to the epilogue.

The work brings together history, drama, oral tradition, Indigenous identity and collective memory, proposing theatrical performance as another means of preserving and transmitting knowledge to future generations.

Keywords: Historical theater; Kariri-Xocó; Porto Real do Colégio; Opará; São Francisco River; Indigenous memory; oral tradition; D. Pedro II; Indigenous culture.






14. APRESENTAÇÃO

Este livro apresenta uma peça teatral construída a partir da memória histórica e cultural relacionada à chegada de D. Pedro II a Porto Real do Colégio.

A escolha da linguagem teatral não é casual.

O teatro permite que a memória seja vista, ouvida e vivenciada.

Uma data pode ser lida.

Uma história pode ser contada.

Mas uma história representada no palco ganha corpo.

Os personagens caminham, conversam, lembram, recebem visitantes, celebram, partem e deixam para trás uma memória que poderá ser novamente apresentada pelas novas gerações.

Nesta obra, o passado é conduzido pelo Narrador e acompanhado pelo Opará, personagem simbólico que representa o grande Rio São Francisco e sua capacidade de testemunhar a passagem do tempo.

A presença indígena ocupa lugar central na narrativa.

A recepção do Imperador não é apresentada somente como acontecimento da história política do Brasil, mas como acontecimento vivido em uma comunidade indígena situada às margens do Opará.

O arco e a flecha, o Toré, os maracás, os nomes dos participantes e a memória transmitida oralmente tornam-se elementos fundamentais da dramaturgia.

Dessa maneira, a peça procura estabelecer uma ponte entre o passado e o presente.

Entre os que viveram.

Os que lembraram.

Os que contaram.

E os que hoje continuam contando.





15. NOTA DO AUTOR

Escrever esta peça é também uma forma de caminhar pela memória.

A história de um povo não está somente nos documentos oficiais.

Ela está nas histórias contadas pelos mais velhos, nos nomes preservados pelas famílias, nas lembranças transmitidas entre gerações e nos lugares que continuam testemunhando a passagem do tempo.

Porto Real do Colégio possui uma relação profunda com o Opará.

O rio está presente na paisagem, na vida, na história e na memória de seu povo.

Por isso, nesta peça, o Opará recebe voz.

Ele representa a continuidade.

Enquanto pessoas passam, gerações mudam e acontecimentos se tornam antigos, o rio permanece correndo.

Assim também acontece com a memória.

Quando alguém conta uma história, ela continua vivendo.

Esta peça foi concebida para que a chegada de D. Pedro II possa ser apresentada não somente como acontecimento histórico, mas como narrativa cultural.

O palco torna-se, portanto, um espaço de encontro entre passado e presente.




16. MEMÓRIA DO AUTOR

Minha trajetória como contador de histórias está ligada à memória do meu povo.

Desde as histórias transmitidas pela oralidade até as experiências de pesquisa, escrita e produção cultural, compreendi que contar uma história também é uma maneira de proteger aquilo que não queremos esquecer.

O nome Nhenety está ligado a essa caminhada de contar, registrar e compartilhar histórias.

A literatura tornou-se uma ferramenta para transformar a memória oral em palavra escrita sem deixar de reconhecer que a oralidade continua sendo uma das grandes guardiãs dos conhecimentos tradicionais.

Esta peça nasce dentro dessa perspectiva.

Ela procura aproximar o teatro da memória indígena e da história de Porto Real do Colégio.

Ao colocar no palco personagens históricos e personagens simbólicos, busco criar uma narrativa que possa ser apresentada por diferentes gerações.

O teatro pode ser realizado por jovens.

Pode ser apresentado pelos mais velhos.

Pode reunir crianças, estudantes, artistas, professores e integrantes da comunidade.

E, sobretudo, pode fazer com que uma história seja novamente ouvida.

É nesse sentido que esta obra participa da minha caminhada como contador de histórias e guardião da memória cultural.





17. INTRODUÇÃO

No ano de 1859, uma visita imperial marcou a história de Porto Real do Colégio.

Em 16 de outubro daquele ano, D. Pedro II chegou à povoação acompanhado de sua comitiva, incluindo a Imperatriz Dona Teresa Cristina.

A visita ocorreu no contexto da viagem realizada pelo Imperador pelas regiões banhadas pelo Rio São Francisco.

Para a comunidade de Colégio, aquele acontecimento passou a integrar uma memória que atravessou gerações.

A presente peça procura transformar essa memória em dramaturgia.

Seu ponto de partida é a chegada.

Mas seu tema maior é a memória.

Por isso, o espetáculo começa com o Opará falando.

O rio não é apenas o lugar onde a história acontece.

Ele é apresentado como testemunha do acontecimento.

A partir do anúncio da chegada, a narrativa acompanha os preparativos realizados pela comunidade, a participação das autoridades locais, a chegada da comitiva imperial, a passagem pela Igreja de Nossa Senhora da Conceição, a demonstração de arco e flecha de Manoel Baltazar e o Toré iniciado por seu filho Manoel Paulo.

O texto também recupera nomes preservados na tradição oral, incluindo Manoel Paulo, João Xavier Botó, Vicente Ferreira Botó, Manoel Roberto Poité, Rosa Ferreira Botó, Luzia de Oliveira, Maria Pirigipe e Maria Tomazia.

Duas crianças aparecem de maneira especial: Martinha, apresentada como menina de onze anos, e João Pereira Pirigipe, menino de doze anos.

A presença dessas crianças possui significado simbólico.

Elas representam a continuidade.

São personagens que permitem imaginar como a memória de um grande acontecimento poderia atravessar gerações.

A peça chega finalmente à despedida.

O vapor Humaitá segue pelo Opará.

A comitiva parte.

Mas a memória permanece.

O rio continua correndo.

E a história continua sendo contada.

É nesse ponto que a dramaturgia encontra sua finalidade maior:

preservar a memória por meio da palavra, da cena e da transmissão entre gerações.




18. SUMÁRIO

1. Falsa Folha de Rosto
2. Folha de Rosto
3. Verso da Folha de Rosto
4. Ficha Catalográfica
5. ISBN – Simbólico
6. Prefácio Oficial da Coleção
7. Esclarecimento do Autor
8. Dedicatória
9. Agradecimentos
10. Epígrafe
11. Prefácio do Volume
12. Resumo
13. Abstract
14. Apresentação
15. Nota do Autor
16. Memória do Autor
17. Apresentação da Peça
18. Introdução
19. Peça Teatral
20. Personagens
21. Prólogo – O Opará Guarda a Memória
Ato I – A Notícia da Chegada
Ato II – O Aviso a Baltazar
Ato III – A Comitiva Imperial
Ato IV – A Igreja de Nossa Senhora da Conceição
Ato V – A Flecha de Baltazar
Ato VI – O Toré
Ato VII – Os Nomes que Ficaram
Ato VIII – A Despedida 
Ato IX – A Memória de 16 de Outubro
22. Epílogo – O Rio Continua
23. Nota de Encenação
24. Frase Final para o Programa
25. Considerações Finais
26. Fonte da Narrativa
27. Sobre o Autor: Nhenety Kariri-Xocó



19. PEÇA TEATRAL CHEGADA DE D. PEDRO II EM PORTO REAL DO COLÉGIO

CHEGADA DE D. PEDRO II EM PORTO REAL DO COLÉGIO

PEÇA TEATRAL HISTÓRICO-CULTURAL EM MEMÓRIA DOS KARIRI

Autor: Nhenety Kariri-Xocó

20. PERSONAGENS

NARRADOR(A) — apresenta os acontecimentos e conduz a história.

OPARÁ — representa simbolicamente o Rio São Francisco e a memória das águas.

D. PEDRO II — Imperador do Brasil.

DONA TERESA CRISTINA — Imperatriz.

MANUEL PINTO DE SOUZA DANTAS — Presidente da Província de Alagoas.

JOÃO VIEIRA DA SILVA DANTAS — Diretor Parcial do Aldeamento de Colégio.

PEDRO LOLAÇO — capitão indígena.

MANOEL BALTAZAR — chefe indígena.

PADRE MANOEL PIRES DE CARVALHO — vigário da Paróquia de Nossa Senhora da Conceição.

MANOEL PAULO — FILHO DE BALTAZAR — indígena adulto que inicia o Toré.

MARTINHA — menina indígena de 11 anos.

JOÃO PEREIRA PIRIGIPE — menino indígena de 12 anos.

CORO — indígenas, moradores, autoridades e integrantes da comitiva.

21. PRÓLOGO

O Opará Guarda a Memória

[Palco em meia-luz. Ouve-se suavemente o som das águas do Rio São Francisco. O CORO permanece ao fundo.]


NARRADOR(A):

Estamos em Porto Real do Colégio.

É o ano de 1859.

Às margens do grande Rio São Francisco, o Opará, vivia o povo indígena de Colégio.

Naquele tempo, o Aldeamento de Colégio havia um Diretor Parcial.

E naquele ano chegou uma notícia que movimentou toda a povoação.


[O OPARÁ entra lentamente.]

OPARÁ:

Eu sou o Opará.

Rio de muitas histórias.

Por minhas águas passam embarcações, pessoas e acontecimentos.

E há dias que o tempo não consegue apagar.

Um desses dias foi 16 de outubro de 1859.

Naquele dia...

o Imperador do Brasil chegou a Porto Real do Colégio.

[Som suave de águas.]


NARRADOR(A):

E assim começou uma visita que seria lembrada por muitas gerações.




ATO I — A NOTÍCIA DA CHEGADA




[ JOÃO VIEIRA DA SILVA DANTAS: O DIRETOR PARCIAL entra acompanhado de alguns integrantes do CORO.]

NARRADOR(A):

O Diretor Parcial do Aldeamento de Colégio recebeu a notícia:

D. Pedro II havia chegado a Penedo, em Alagoas.

O Imperador visitaria cidades, povoados e aldeias às margens do Opará.

JOÃO VIEIRA DA SILVA DANTAS:

O Imperador está vindo para Porto Real do Colégio.

Precisamos preparar a recepção.

Chamem o capitão Pedro Lolaço.

[Entra PEDRO LOLAÇO.]

PEDRO LOLAÇO:

Senhor Diretor.

JOÃO VIEIRA DA SILVA DANTAS:

Pedro Lolaço, vá até a Rua dos Índios.

Avise ao chefe indígena Baltazar que o Imperador está chegando.

Ele deverá participar da comitiva de recepção.

PEDRO LOLAÇO:

Sim, senhor.

Vou imediatamente.

[PEDRO LOLAÇO sai.]

OPARÁ:

A notícia correu pela aldeia.

E logo todos começaram a esperar a chegada.




ATO II — O AVISO A BALTAZAR




[Cena representando a Rua dos Índios. MANOEL BALTAZAR está com alguns indígenas.]

[Entra PEDRO LOLAÇO.]

PEDRO LOLAÇO:

Baltazar!

MANOEL BALTAZAR:

O que aconteceu, Pedro Lolaço?

PEDRO LOLAÇO:

O Diretor mandou avisar:

D. Pedro II está vindo para Porto Real do Colégio.

MANOEL BALTAZAR:

O Imperador?

PEDRO LOLAÇO:

Sim.

Ele virá com sua comitiva.

MANOEL BALTAZAR:

Então devemos receber a todos com respeito.

Vamos preparar o povo.

CORO:

O Imperador está chegando!

MANOEL BALTAZAR:

Nossa gente estará presente.

OPARÁ:

E eu também.

Porque uma grande visita estava chegando pelas minhas águas.




ATO III — A COMITIVA IMPERIAL




[Som de vapor e máquina. O CORO representa a população reunida.]

NARRADOR(A):

A comitiva imperial chegou.

Com D. Pedro II estavam a Imperatriz Dona Teresa Cristina, o Presidente da Província de Alagoas, Manuel Pinto de Souza Dantas, e outras autoridades do Império.

[Entram D. PEDRO II, DONA TERESA CRISTINA, MANUEL PINTO DE SOUZA DANTAS e integrantes da COMITIVA.]

[ JOÃO VIEIRA DA SILVA DANTAS  aproxima-se.]

JOÃO VIEIRA DA SILVA DANTAS:

Sejam bem-vindos a Porto Real do Colégio!

Sejam bem-vindos, Majestade, Imperatriz e membros da comitiva imperial.

D. PEDRO II:

Agradeço a recepção.

É uma satisfação chegar a Porto Real do Colégio.

DONA TERESA CRISTINA:

É uma bela terra às margens do São Francisco.

MANUEL PINTO DE SOUZA DANTAS:

Uma recepção calorosa.

CORO:

Sejam bem-vindos!

OPARÁ:

A comitiva chegou.

E o povo estava pronto para receber seus visitantes.




ATO IV — A IGREJA DE NOSSA SENHORA DA CONCEIÇÃO



[Todos se dirigem para o espaço que representa a igreja.]

NARRADOR(A):

Logo após a chegada, a comitiva imperial dirigiu-se à Igreja de Nossa Senhora da Conceição.

Ali seria celebrada a missa.

[Entra PADRE MANOEL PIRES DE CARVALHO.]

PADRE MANOEL PIRES DE CARVALHO:

Sejam todos bem-vindos.

Que este momento seja celebrado com respeito e fé.

[D. PEDRO II e DONA TERESA CRISTINA permanecem em posição de oração.]

NARRADOR(A):

O Padre Manoel Pires de Carvalho, vigário da Paróquia de Nossa Senhora da Conceição, ministrou a missa.

[Breve pausa.]

OPARÁ:

Depois da oração...

a comitiva voltou para o espaço da praça.

E ali aconteceria um momento que ficaria na memória.




ATO V — A FLECHA DE BALTAZAR




[Espaço aberto representando a praça. Um mourão ou alvo cenográfico é colocado.]

NARRADOR(A):

No meio da praça, D. Pedro II chamou o chefe indígena Baltazar.

D. PEDRO II:

Baltazar.

Gostaria de ver sua habilidade com o arco e a flecha.

MANOEL BALTAZAR:

Sim, Majestade.

D. PEDRO II:

Então demonstre sua habilidade.

[MANOEL BALTAZAR prepara o arco.]

NARRADOR(A):

Baltazar preparou seu arco.

A praça ficou em silêncio.

Todos olharam para o alvo.

[Breve silêncio.]

NARRADOR(A):

Baltazar lançou a flecha.

[Efeito teatral seguro. A flecha cenográfica atinge o mourão.]

CORO:

Ah!

[Reação de alegria.]

D. PEDRO II:

Muito bem!

MANOEL BALTAZAR:

Obrigado, Majestade.

[D. PEDRO II volta-se para o povo.]

D. PEDRO II:

Viva os Índios de Porto Real do Colégio!

CORO E POVO:

Viva!

D. PEDRO II:

Viva!

CORO E POVO:

Viva!

TODOS:

VIVA OS ÍNDIOS DE PORTO REAL DO COLÉGIO!

[Maracás.]

OPARÁ:

E aquele grito ficou guardado nas minhas águas.




ATO VI — O TORÉ





[MANOEL BALTAZAR chama seu filho Manoel Paulo.]

MANOEL BALTAZAR:

Meu filho, Manoel Paulo!

Venha. É hora de iniciar o Toré.

Entra MANOEL PAULO, FILHO DE BALTAZAR.]

MANOEL PAULO:

Sim, meu pai.

[Os indígenas se organizam.]

NARRADOR(A):

Baltazar ordenou a seu filho Manoel Paulo, já adulto, que iniciasse o Toré com os indígenas.

Os maracás começaram a soar.

[O Toré é iniciado conforme orientação dos mestres e detentores da tradição Kariri-Xocó.]

CORO:

O Toré começou.

O povo se reuniu.

A memória se levantou.

[A dança continua brevemente.]

DONA TERESA CRISTINA:

Que bela manifestação!

D. PEDRO II:

É uma recepção muito especial.

OPARÁ:

Aquele momento também seria lembrado.

Porque os nomes daqueles que cantaram e dançaram ficaram guardados na tradição oral.





ATO VII — OS NOMES QUE FICARAM




[O Toré diminui lentamente. O NARRADOR fica à frente.]

NARRADOR(A):

Os mais velhos ainda preservam os nomes daqueles que participaram daquele dia memorável.

[Cada nome pode ser chamado por um integrante do CORO.]

CORO:

Manoel Paulo!

João Xavier Botó!

Vicente Ferreira Botó!

Manoel Roberto Poité!

Rosa Ferreira Botó!

Luzia de Oliveira!

Maria Pirigipe!

Maria Tomazia!

NARRADOR(A):

E havia também crianças.

MARTINHA:

Meu nome era Martinha.

Eu tinha apenas onze anos.

JOÃO PEREIRA PIRIGIPE:

Eu era João Pereira Pirigipe.

Tinha doze anos.

CORO:

Onze anos.

Doze anos.

Crianças que também ficaram na memória.

NARRADOR(A):

Seus nomes atravessaram o tempo.

De geração em geração.

OPARÁ:

Porque aquilo que um povo guarda...

não desaparece facilmente.






ATO VIII — A DESPEDIDA




[Som do vapor.]

NARRADOR(A):

A comitiva imperial ficou feliz com a recepção calorosa dos indígenas de Porto Real do Colégio e de toda a população.

Mas a viagem precisava continuar.

O vapor Humaitá aguardava.

D. PEDRO II:

Agradeço a todos pela recepção.

DONA TERESA CRISTINA:

Levarei comigo a lembrança deste lugar.

JOÃO VIEIRA DA SILVA DANTAS:

Porto Real do Colégio agradece a presença de Vossas Majestades.

MANOEL BALTAZAR:

Que tenham uma boa viagem.

PEDRO LOLAÇO:

Que o caminho pelo Opará seja tranquilo.

CORO:

Boa viagem!

OPARÁ:

O vapor Humaitá subiu novamente pelo Rio São Francisco.

A comitiva seguiria para outras povoações e aldeias do Opará.

[Som de vapor aumentando.]






ATO IX — A MEMÓRIA DE 16 DE OUTUBRO




[O palco fica mais silencioso.]

NARRADOR(A):

O Imperador partiu.

O vapor seguiu pelo rio.

Mas a história ficou.

Na tradição oral de Porto Real do Colégio, permaneceu a lembrança daquele dia:

16 de outubro de 1859.

MANOEL BALTAZAR:

A flecha ficou na memória.

MARTINHA:

Os nomes ficaram na memória.

JOÃO PEREIRA PIRIGIPE:

O Toré ficou na memória.

PEDRO LOLAÇO:

A chegada ficou na memória.

JOÃO VIEIRA DA SILVA DANTAS:

A recepção ficou na memória.

OPARÁ:

E eu continuei correndo.

Levando as águas...

e guardando as histórias.

EPÍLOGO

O RIO CONTINUA

[Todos os personagens retornam ao palco.]

NARRADOR(A):

Passaram-se os anos.

Passaram-se as gerações.

Mas a visita de D. Pedro II continuou sendo contada.

CORO:

De geração em geração!

NARRADOR(A):

Porque a memória de um povo não vive somente nos livros.

Vive também na palavra.

Na lembrança.

Na tradição.

Na voz dos mais velhos.

E na escuta dos jovens.

MARTINHA:

Eu tinha onze anos.

JOÃO PEREIRA PIRIGIPE:

Eu tinha doze.

MANOEL BALTAZAR:

E naquele dia a flecha acertou o mourão.

CORO:

E o Imperador gritou:

D. PEDRO II:

VIVA OS ÍNDIOS DE PORTO REAL DO COLÉGIO!

TODOS:

VIVA!

VIVA!

VIVA!

[Maracás.]

OPARÁ:

Eu sou o Opará.

Eu vi a chegada.

Eu vi a recepção.

Eu ouvi o Toré.

Eu ouvi o grito.

E continuo correndo...

levando comigo a memória daquele dia.

NARRADOR(A):

16 de outubro de 1859.

Uma data guardada pela tradição oral de Porto Real do Colégio.

Uma história que atravessou gerações.

CORO:

Enquanto houver quem conte...

a memória continuará viva!

TODOS:

ENQUANTO O OPARÁ CORRER...

A MEMÓRIA CONTINUARÁ VIVA!

[Maracás.]

[Breve momento final de Toré, conforme orientação dos mestres e detentores da tradição.]

[As luzes diminuem lentamente.]


FIM



22. NOTA DE ENCENAÇÃO

Esta versão foi construída a partir da narrativa histórica simplificada de Nhenety Kariri-Xocó, privilegiando a sequência dos acontecimentos e facilitando sua apresentação por jovens e integrantes da comunidade.

O OPARÁ pode ser representado por um único jovem ou por um pequeno grupo, utilizando tecidos azuis, movimentos corporais e iluminação para sugerir as águas do Rio São Francisco.

A chegada do vapor Humaitá não necessita de uma embarcação cenográfica. Pode ser representada por som de máquina a vapor, iluminação, movimento dos atores e efeitos sonoros.

A cena do arco e flecha de Manoel Baltazar deve utilizar exclusivamente recursos teatrais seguros: flecha cenográfica, alvo preparado e efeito sonoro ou luminoso.

O Toré deve ser conduzido pelos próprios mestres, anciãos e detentores da tradição Kariri-Xocó, respeitando os cantos, maracás, movimentos e demais elementos culturais apropriados para apresentação pública.

Os integrantes do CORO podem representar simultaneamente indígenas da aldeia, moradores de Porto Real do Colégio, integrantes da comitiva imperial e outras pessoas presentes na recepção.

A duração pode variar aproximadamente entre 25 e 35 minutos, dependendo do tempo destinado ao Toré, à missa representada cenicamente e às transições.



23. FRASE FINAL PARA O PROGRAMA

“O rio leva as águas para o mar; o povo leva a memória para o futuro.”

Nhenety Kariri-Xocó




24. FONTE DA NARRATIVA

KARIRI-XOCÓ, Nhenety. O Imperador e o Opará: D. Pedro II Entre os Kariri de Porto Real do Colégio. Disponível em: 

https://kxnhenety.blogspot.com/2026/07/o-imperador-e-o-opara-d-pedro-ii-entre.html?m=0 . 




25. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Chegamos ao final desta peça, mas não ao final da história.

A chegada de D. Pedro II a Porto Real do Colégio, em 16 de outubro de 1859, pertence a um tempo distante. Entretanto, os acontecimentos do passado continuam encontrando caminhos para chegar ao presente. Um desses caminhos é a memória.

Nesta obra, a memória encontrou o teatro.

As personagens caminharam pela cena, as autoridades chegaram, a comunidade se preparou, o Imperador e a Imperatriz foram recebidos, a Igreja de Nossa Senhora da Conceição foi visitada, o arco e a flecha de Manoel Baltazar foram apresentados e o Toré marcou a presença indígena naquele momento histórico.

Mas, acima de tudo, a peça procurou mostrar que a história não é formada somente por grandes autoridades ou acontecimentos registrados em documentos.

Ela também é construída pelas pessoas que estavam ali.

Pelos homens e mulheres da comunidade.

Pelos indígenas que participaram daquele encontro.

Pelas crianças que representam a continuidade das gerações.

Pelos nomes que permaneceram guardados na memória.

Pelas vozes dos que contaram aquilo que ouviram de seus antepassados.

Por isso, esta dramaturgia procura estabelecer uma conversa entre a história documentada e a memória cultural.

O Opará ocupa, nesse percurso, um lugar especial.

Suas águas testemunharam a passagem da comitiva imperial, mas também testemunharam muitas outras histórias antes e depois daquele acontecimento. O rio permanece enquanto as gerações passam.

Ele representa, portanto, a continuidade.

Quando o vapor Humaitá parte e a comitiva desaparece no horizonte, a história não termina.

O rio continua.

A comunidade continua.

A cultura continua.

A memória continua.

É justamente nessa continuidade que o teatro encontra sua força.

Uma peça pode ser apresentada hoje e novamente daqui a muitos anos. Cada geração poderá assumir os personagens, interpretar suas falas e reconstruir, por meio da cena, uma passagem da história de Porto Real do Colégio.

Assim, esta obra pode servir como instrumento de leitura, pesquisa, educação, representação artística e transmissão cultural.

Que crianças e jovens possam encontrar nestas páginas uma porta para conhecer o passado.

Que educadores possam utilizar o teatro como instrumento de aprendizagem.

Que artistas possam transformar estas palavras em presença no palco.

Que os mais velhos possam reconhecer nelas o valor da memória.

E que a comunidade possa continuar contando sua própria história.

A memória não pertence somente ao passado.

Ela pertence também ao futuro.

Quando uma geração conta uma história para outra, estabelece-se uma ponte entre os tempos.

Esta peça pretende ser uma dessas pontes.

Uma ponte entre o acontecimento de 1859 e o presente.

Entre a história escrita e a tradição oral.

Entre o palco e a comunidade.

Entre os antepassados e as novas gerações.

E, sobretudo, entre o povo e sua memória.

Que o Opará continue correndo.

Que os maracás continuem anunciando a presença da cultura.

Que o Toré continue sendo expressão de identidade e pertencimento.

Que os nomes dos antepassados continuem sendo lembrados.

E que esta obra possa contribuir, ainda que modestamente, para que a história de Porto Real do Colégio e a memória dos povos indígenas que vivem às margens do Opará permaneçam vivas.

Porque enquanto houver alguém para contar,

a história continuará caminhando.

E enquanto o povo guardar sua memória,

nenhuma história verdadeiramente desaparecerá.

Nhenety Kariri-Xocó





26. SOBRE O AUTOR

NHENETY KARIRI-XOCÓ

Nhenety Kariri-Xocó é contador de histórias, escritor e produtor cultural ligado à memória, à cultura e aos saberes do povo Kariri-Xocó.

Sua trajetória literária nasce da oralidade e do compromisso com a preservação das histórias transmitidas entre gerações.

Em seu trabalho, a palavra escrita dialoga com a memória dos antepassados, com a tradição oral, com a cultura indígena e com a paisagem histórica de Porto Real do Colégio, às margens do Opará — Rio São Francisco.

Como contador de histórias, Nhenety compreende a narrativa como instrumento de preservação cultural.

Contar uma história significa, para ele, manter viva uma memória e possibilitar que aquilo que foi recebido dos mais velhos possa alcançar as novas gerações.

Sua produção reúne diferentes formas literárias e culturais, incluindo contos, fábulas, cordéis, narrativas históricas, textos sobre cultura indígena e obras voltadas à valorização da memória Kariri-Xocó.

Em sua escrita, nomes de pessoas, lugares, acontecimentos, costumes, conhecimentos tradicionais e lembranças familiares tornam-se elementos de uma literatura comprometida com a identidade e com a continuidade cultural.

A presente obra representa mais uma etapa dessa caminhada.

Ao transformar a chegada de D. Pedro II a Porto Real do Colégio em uma peça teatral, Nhenety aproxima a história do palco e possibilita que uma memória do século XIX seja novamente apresentada às gerações do presente.

Sua dramaturgia procura unir pesquisa, oralidade, imaginação cênica e memória cultural, sem perder de vista a importância dos conhecimentos transmitidos pelos antepassados.

O Opará — Rio São Francisco — aparece frequentemente como elemento fundamental de sua visão narrativa.

Para além de sua dimensão geográfica, o rio representa caminho, testemunho, vida, território e continuidade.

É nesse espaço de memória que sua escrita encontra parte importante de sua inspiração.

Como autor e contador de histórias, Nhenety também acredita na importância de registrar as narrativas para que elas possam circular entre escolas, comunidades, leitores, pesquisadores, artistas e novas gerações.

Sua produção literária constitui, assim, uma forma de documentação cultural e de valorização da memória indígena.

Seu trabalho procura afirmar que os povos indígenas não são apenas personagens da história: são também narradores, autores, guardiões e produtores de suas próprias memórias.

Nesta peça teatral, essa perspectiva encontra expressão por meio da cena.

Os personagens históricos dialogam com personagens simbólicos; o passado conversa com o presente; e o Opará transforma-se em testemunha da passagem do tempo.

A obra de Nhenety Kariri-Xocó permanece, dessa maneira, vinculada a uma missão maior:

contar para preservar, escrever para lembrar e transmitir para que a memória continue viva.

Nhenety Kariri-Xocó

Contador de Histórias — Escritor — Guardião da Memória Cultural

Porto Real do Colégio — Alagoas — Brasil





Autor: Nhenety Kariri-Xocó