quarta-feira, 10 de junho de 2026

DA RUA DOS ÍNDIOS À FAZENDA MODELO: MEMÓRIAS DO POVO KARIRI-XOCÓ








FALSA FOLHA DE ROSTO


DA RUA DOS ÍNDIOS À FAZENDA MODELO: MEMÓRIAS DO POVO KARIRI-XOCÓ

Nhenety Kariri-Xocó

Porto Real do Colégio – Alagoas 2026





FOLHA DE ROSTO


DA RUA DOS ÍNDIOS À FAZENDA MODELO: MEMÓRIAS DO POVO KARIRI-XOCÓ

Nhenety Kariri-Xocó

Obra dedicada à preservação da memória histórica, territorial, cultural e espiritual do povo Kariri-Xocó, reunindo relatos da tradição oral, documentos históricos, pesquisas bibliográficas e vivências comunitárias.

Porto Real do Colégio – Alagoas 2026





VERSO DA FOLHA DE ROSTO


Copyright © 2026 – Nhenety Kariri-Xocó

Todos os direitos reservados.

ISBN (Simbólico): 978-65-0000-001-1

1ª Edição – 2026





FICHA CATALOGRÁFICA (Modelo)

Kariri-Xocó, Nhenety.

Da Rua dos Índios à Fazenda Modelo: memórias do povo Kariri-Xocó / Nhenety Kariri-Xocó. – Porto Real do Colégio, AL, 2026.

Povos Indígenas do Nordeste. 2. Kariri-Xocó. 3. História Indígena. 4. Memória Social. 5. Territorialidade Indígena. 6. Cultura Tradicional. I. Título.

CDD: 980.41 CDU: 94(81)




ISBN (SIMBÓLICO)


ISBN: 978-65-0000-001-1





PREFÁCIO OFICIAL DA COLEÇÃO


Esta obra integra o Acervo Virtual Bibliográfico Nhenety Kariri-Xocó, iniciativa dedicada à preservação, produção e difusão do conhecimento construído a partir das vivências culturais do povo Kariri-Xocó.

Fundamentado na memória, na ancestralidade e na experiência histórica, o Acervo orienta-se pela compreensão de que o saber se constrói por meio de encontros, trocas e transformações culturais ao longo do tempo.

Os elementos culturais, científicos e literários oriundos de diferentes povos e autores são respeitados em suas origens, sendo compreendidos como influências legítimas no processo de formação do conhecimento, sem reivindicação de autoria sobre tais contribuições.

Ao mesmo tempo, reconhece-se a existência de uma produção autoral própria, resultante da interpretação singular da realidade vivida.

Dessa forma, a presente obra se insere em uma continuidade cultural dinâmica, na qual tradição e criação se articulam, preservando identidades e projetando novos horizontes.





ESCLARECIMENTO DO AUTOR


A presente obra constitui, neste momento, um pré-projeto editorial em fase de estruturação acadêmica e organização bibliográfica.

Sua versão definitiva será futuramente submetida aos processos de revisão, diagramação, normalização segundo os padrões da ABNT, catalogação bibliográfica, classificação CDD e obtenção de ISBN oficial.

Enquanto perdurar esta etapa preparatória, parte das informações editoriais apresentadas possui caráter provisório e simbólico, destinando-se exclusivamente à identificação preliminar da obra.

O autor reafirma o compromisso com a preservação cultural, histórica e intelectual do acervo desenvolvido ao longo de suas pesquisas e produções literárias.


Nhenety Kariri-Xocó 








DEDICATÓRIA

Dedico esta obra aos meus antepassados Kariri, Xocó, Natú, Karapotó e demais ancestrais que caminharam pelas margens do Rio São Francisco, preservando a memória, a espiritualidade e a identidade de nosso povo. Dedico também aos anciões e anciãs que transmitiram seus conhecimentos através da palavra falada, aos meus pais, filhos, netos e às futuras gerações Kariri-Xocó, para que jamais esqueçam suas origens.





AGRADECIMENTOS

Agradeço, primeiramente, aos antepassados, aos ancestrais e aos guardiões espirituais do Ouricuri, cuja presença acompanha a caminhada de nosso povo.


Agradeço aos anciões Kariri-Xocó que compartilharam suas lembranças, histórias e ensinamentos, permitindo que parte desta memória fosse preservada por escrito.

Agradeço aos pesquisadores, antropólogos, historiadores e instituições que contribuíram para a documentação da história indígena do Baixo São Francisco.


Agradeço à minha família, que sempre incentivou meu trabalho como contador de histórias oral e escrita.

Por fim, agradeço aos leitores que reconhecem a importância da memória indígena como patrimônio da humanidade.





EPÍGRAFE

"Enquanto houver memória, haverá caminho. Enquanto houver território, haverá povo. Enquanto houver povo, os ancestrais continuarão vivos entre nós."
— Nhenety Kariri-Xocó






PREFÁCIO 

Esta obra não pretende ser apenas uma narrativa histórica. Ela representa um exercício de memória coletiva construído a partir das lembranças dos anciões, dos documentos preservados ao longo do tempo e da experiência vivida pelo próprio autor.

Ao percorrer os caminhos que vão da antiga Rua dos Índios à atual Aldeia Kariri-Xocó da Fazenda Modelo, o leitor encontrará séculos de permanência indígena, resistência cultural e reconstrução territorial. Mais do que contar fatos, este livro busca registrar experiências humanas que continuam presentes na vida cotidiana da comunidade.





RESUMO

Este livro apresenta uma reconstrução histórica da trajetória do povo Kariri-Xocó, desde a formação da Missão de Colégio no século XVII até a consolidação da Aldeia Kariri-Xocó na Fazenda Modelo. A obra aborda os processos de territorialização, resistência, reorganização social, reconhecimento oficial, transformações econômicas, espiritualidade e preservação cultural. Fundamentada em fontes bibliográficas, documentos históricos, entrevistas e memórias comunitárias, a pesquisa evidencia a continuidade histórica dos Kariri-Xocó e sua contribuição para a formação cultural do Baixo São Francisco.

Palavras-chave: Kariri-Xocó; memória indígena; território; história indígena; Ouricuri; Baixo São Francisco.





ABSTRACT

This book presents a historical reconstruction of the Kariri-Xocó people's trajectory, from the formation of the Colégio Mission in the seventeenth century to the consolidation of the Kariri-Xocó Village at Fazenda Modelo. The work discusses territorial processes, resistance, social reorganization, official recognition, economic transformations, spirituality and cultural preservation. Based on bibliographical sources, historical documents, interviews and community memories, the research highlights the historical continuity of the Kariri-Xocó people and their contribution to the cultural formation of the Lower São Francisco region.

Keywords: Kariri-Xocó; indigenous memory; territory; indigenous history; Ouricuri; Lower São Francisco.





APRESENTAÇÃO

A antiga Rua dos Índios constituiu um dos mais importantes espaços de permanência histórica do povo Kariri-Xocó em Porto Real do Colégio. Sua formação está associada ao processo de reorganização urbana ocorrido após a criação da Freguesia de Nossa Senhora da Conceição, em 1763, quando numerosas famílias indígenas passaram a concentrar suas moradias naquela área da povoação. Ao longo das gerações, a Rua dos Índios tornou-se um verdadeiro centro de convivência comunitária, onde foram preservados laços familiares, conhecimentos tradicionais, práticas culturais e a memória coletiva do povo.

Em 1948, a denominação oficial foi alterada para Rua São Vicente, mas a antiga referência permaneceu viva na lembrança dos moradores indígenas. Mesmo diante das transformações urbanas e sociais ocorridas ao longo do tempo, a rua continuou sendo um importante símbolo da presença Kariri-Xocó na cidade. Somente em 1978, com a ocupação da Fazenda Modelo e a transferência gradual de diversas famílias para a nova aldeia, iniciou-se uma nova etapa da história comunitária.

Considerando o período compreendido entre a formação da Rua dos Índios, após 1763, e a mudança para a Fazenda Modelo, em 1978, verifica-se uma permanência histórica superior a duzentos anos. Essa longa trajetória evidencia a continuidade da presença indígena em Porto Real do Colégio e demonstra a capacidade de resistência, adaptação e preservação identitária dos Kariri-Xocó ao longo das gerações.

Dessa forma, a passagem da Rua dos Índios para a Fazenda Modelo não representou uma ruptura, mas a continuidade de uma história iniciada ainda nos tempos da antiga Aldeia de Colégio. Os dois espaços permanecem unidos pela memória, pelo parentesco e pelo sentimento de pertencimento que atravessa séculos da trajetória do povo Kariri-Xocó.





NOTA DO AUTOR

Este livro resulta de décadas de observação, pesquisa e convivência com os guardiões da memória Kariri-Xocó. Muitos acontecimentos aqui descritos foram transmitidos por familiares, anciões e lideranças indígenas, sendo posteriormente confrontados com documentos históricos e estudos acadêmicos.





MEMÓRIA DO AUTOR

Nasci ouvindo histórias. Cresci entre as lembranças dos mais velhos, os relatos sobre a Rua dos Índios, o Ouricuri, a Colônia Indígena, a Fazenda Modelo e os tempos antigos do povo Kariri-Xocó. Ao longo dos anos, compreendi que cada narrativa guardava fragmentos importantes de nossa história coletiva.
Desde 2006, venho registrando parte dessas memórias em meios digitais, especialmente por meio do Blog Kxnhenety. Este livro representa a continuidade desse trabalho de preservação da memória oral e escrita de meu povo.




SUMÁRIO

Falsa Folha de Rosto
Folha de Rosto
Verso da Folha de Rosto
Ficha Catalográfica
ISBN (Simbólico)
Prefácio Oficial da Coleção
Esclarecimento do Autor
Dedicatória
Agradecimentos
Epígrafe
Prefácio do Volume
Resumo
Abstract
Apresentação
Nota do Autor
Memória do Autor
Apresentação
Introdução
Capítulo I – A Taba Original e a Formação da Missão Jesuítica (1661–1764)
Capítulo II – Da Missão ao Diretório: Transformações Territoriais e Administrativas (1759–1876)
Capítulo III – Resistência e Sobrevivência dos Kariri-Xocó (1876–1944)
Capítulo IV – O Reconhecimento Oficial dos Kariri-Xocó (1944–1967)
Capítulo V – Trabalho, Desenvolvimento e Novas Oportunidades (1968–1975)
Capítulo VI – FUNAI e a Nova Política Indigenista (1967–1974)
Capítulo VII – Da Rua São Vicente à Fazenda Modelo (1948–1978)
Capítulo VIII – Ouricuri: Centro Espiritual dos Kariri-Xocó
Capítulo IX – Memória, Território e Permanência
Considerações Finais
Referências Bibliográficas
Sobre o Autor







INTRODUÇÃO

A história do povo Kariri-Xocó atravessa mais de três séculos de transformações territoriais, políticas e culturais. Desde a formação da Missão de Colégio, em 1661, até a consolidação da Aldeia Kariri-Xocó contemporânea, diversas gerações enfrentaram deslocamentos, perdas territoriais, mudanças administrativas e desafios impostos pelas políticas indigenistas.

Apesar dessas transformações, a identidade coletiva permaneceu viva por meio da memória, da espiritualidade, dos vínculos familiares e da relação com o território ancestral. Esta obra busca reconstruir essa trajetória histórica em ordem cronológica, valorizando tanto os documentos escritos quanto as memórias preservadas pelos anciões.






CAPÍTULO I – A TABA ORIGINAL E A FORMAÇÃO DA MISSÃO JESUÍTICA (1661–1764)


A história do povo Kariri-Xocó no Baixo São Francisco está profundamente ligada ao processo de formação das missões indígenas organizadas pelos jesuítas durante o período colonial. A partir da segunda metade do século XVII, diferentes povos indígenas passaram a ser reunidos em aldeamentos missionários que buscavam promover a catequese, o controle territorial e a integração dos indígenas à sociedade colonial. Nesse contexto, a Missão de Colégio tornou-se um importante centro de convivência entre diversos grupos étnicos, constituindo as bases históricas, territoriais e culturais que contribuiriam para a formação do atual povo Kariri-Xocó. Este capítulo aborda a origem da antiga taba indígena, a instalação da missão jesuítica, a composição multiétnica da aldeia e os primeiros marcos da consolidação do território indígena.

Taba Original –  A Antiga Taba dos Kariri localizava-se no cimo da colina denominada Alto do Bode, às margens do Rio São Francisco, próxima à Lagoa Comprida. Em 1661, seus habitantes foram transferidos pelos missionários jesuítas para compor a recém-organizada Missão de Colégio.

Aldeia da Missão Jesuítica – O Surgimento da Missão de Colégio, iniciada com os Kariri provenientes da Aldeia Alto do Bode foram os primeiros indígenas incorporados à Missão de Colégio. A transferência, realizada em 1661, marcou o início da formação do aldeamento missionário na região.

Aldeia de Colégio – A missão constituiu um conglomerado étnico heterogêneo, reunindo diferentes grupos indígenas, entre eles os Natú, Chocó, Carapotó, Prakió e Nakonã, formando uma comunidade marcada pela convivência e interação cultural (PINTO, 1942, p. 172).

Primeira Migração Xocó – A Chegada dos Xocó à Missão, os registros históricos indicam que grupos Xocó provenientes da Aldeia Panema, localizada na região de Águas Belas, Pernambuco, iniciaram um processo migratório por volta de 1688. Em 1713, esses indígenas já eram encontrados na Missão de Colégio, fortalecendo a diversidade étnica do aldeamento.

Doação das Terras – A Concessão do Território Indígena, em 1º de janeiro de 1708, o governador da Capitania de Pernambuco, Sebastião de Castro Caldas, concedeu aos índios das missões de Colégio e São Brás uma légua de largura por duas léguas de comprimento, formalizando juridicamente parte do território indígena e assegurando a posse coletiva das terras aldeadas.

Expulsão dos Jesuítas – O Fim da Administração Missionária, em 1759, por determinação da Coroa Portuguesa durante as reformas do Marquês de Pombal, os jesuítas foram expulsos dos domínios portugueses. A medida encerrou a administração missionária da Aldeia de Colégio e inaugurou um novo período na história dos povos indígenas da região.

Leilão das Propriedades Jesuíticas – A Dispersão do Patrimônio Jesuítico, como consequência da expulsão dos religiosos, foram leiloadas em 1764 onze fazendas de gado pertencentes aos jesuítas da Missão de Colégio, alterando significativamente a estrutura econômica e fundiária construída ao longo do período missionário (LIMA, 2006, p. 16–17).

A formação da Missão de Colégio representou um momento decisivo na trajetória histórica dos povos indígenas do Baixo São Francisco. A reunião de diferentes grupos étnicos em um mesmo território, a atuação dos missionários jesuítas e a concessão oficial de terras criaram as bases de uma identidade coletiva que atravessaria os séculos. Embora a expulsão dos jesuítas tenha provocado profundas transformações na organização da aldeia, as memórias da antiga taba, da convivência entre os diversos povos indígenas e da luta pela preservação do território permaneceram vivas, constituindo parte fundamental da herança histórica e cultural do povo Kariri-Xocó.






CAPÍTULO II – DA MISSÃO AO DIRETÓRIO: TRANSFORMAÇÕES TERRITORIAIS E ADMINISTRATIVAS (1759–1876)


A segunda metade do século XVIII representou um período de profundas transformações para os povos indígenas do Baixo São Francisco. A expulsão dos jesuítas dos domínios portugueses, determinada pela política reformista do Marquês de Pombal, alterou significativamente a organização das antigas missões religiosas. Em seu lugar foi implantado o Diretório dos Índios, sistema administrativo que procurava integrar os indígenas à sociedade colonial portuguesa por meio de novas formas de controle político, econômico e territorial. Em Porto Real do Colégio, essas mudanças desencadearam um longo processo de reorganização urbana e administrativa que gradualmente reduziu os espaços ocupados pelos indígenas, transformando a antiga aldeia missionária em freguesia, vila e, posteriormente, cidade.

Aldeia do Diretório e as Diretorias dos Índios, após a expulsão dos jesuítas em 1759, a antiga Missão de Colégio passou a ser administrada por autoridades civis vinculadas às políticas do Diretório dos Índios, implantado na América Portuguesa a partir de 1757. Ao final do século XVIII, a aldeia encontrava-se sob a supervisão de diretores nomeados pelo governo, responsáveis pela administração da população indígena e de seus territórios. Esse modelo buscava substituir a influência missionária pelo controle estatal, promovendo a assimilação cultural dos indígenas e restringindo progressivamente sua autonomia tradicional. Ao longo do século XIX, a expansão da povoação e dos interesses econômicos locais contribuiu para a diminuição das terras indígenas, culminando na transformação da localidade em Vila de Porto Real do Colégio, em 1876.

Rua dos Índios, com o crescimento da povoação após a criação da Freguesia de Nossa Senhora da Conceição de Porto Real do Colégio, em 1763, ocorreu uma reorganização dos espaços urbanos. Muitos indígenas passaram a residir em áreas periféricas da vila, formando o núcleo que ficou conhecido como Rua dos Índios. Durante mais de um século, essa rua constituiu um importante espaço de convivência e preservação da identidade indígena dentro do ambiente urbano. O nome tradicional permaneceu até 1948, quando foi oficialmente alterado para Rua São Vicente. Apesar da mudança administrativa, a memória da antiga Rua dos Índios continuou viva entre os moradores, permanecendo como símbolo da presença histórica do povo Kariri-Xocó. Em 1978, diversas famílias indígenas transferiram-se para a Fazenda Modelo, onde foi consolidada uma nova etapa da ocupação territorial da comunidade.

Transformação da Aldeia em Vila, a história administrativa de Porto Real do Colégio reflete as sucessivas transformações ocorridas desde o período missionário. A fase da Aldeia-Missão do Colégio estendeu-se aproximadamente de 1661 até a criação da Freguesia de Nossa Senhora da Conceição, em 1763. Posteriormente, a localidade passou a integrar a estrutura das Diretorias dos Índios, vinculadas às reformas pombalinas. Em 1827, a freguesia foi reorganizada administrativamente, acompanhando as mudanças ocorridas durante o período imperial. Finalmente, em 1876, Porto Real do Colégio foi elevada à categoria de vila, consolidando sua condição de centro urbano regional. Décadas depois, em 1955, alcançaria a categoria de cidade.

Indígenas nas Ruas da Povoação, a formação urbana de Porto Real do Colégio ocorreu sobre o território da antiga aldeia indígena. Por essa razão, a presença dos indígenas não se restringia à Rua dos Índios. Famílias indígenas também habitavam diversas áreas da povoação, incluindo as ruas Clementino Dumont, Santa Cruz, da Aurora e do Cruzeiro. Com a criação do Posto Indígena, em 1944, muitas dessas famílias passaram a concentrar-se na Rua dos Índios, fortalecendo os laços comunitários e preservando práticas culturais e identitárias que resistiram às transformações urbanas e administrativas ocorridas ao longo dos séculos.

O período compreendido entre a expulsão dos jesuítas e a elevação de Porto Real do Colégio à condição de vila foi marcado por profundas mudanças na vida dos povos indígenas da região. A substituição da administração missionária pelo Diretório dos Índios introduziu novas formas de controle político e territorial, favorecendo a expansão da ocupação não indígena e reduzindo gradualmente os espaços tradicionalmente ocupados pelos Kariri-Xocó. Ao mesmo tempo em que a antiga aldeia se transformava em núcleo urbano, os indígenas eram deslocados para áreas cada vez mais periféricas, mantendo, contudo, sua identidade, memória e vínculos comunitários. A história desse período revela não apenas a formação da cidade, mas também a resistência contínua do povo Kariri-Xocó diante das transformações impostas pelo processo de urbanização e pelas políticas coloniais e imperiais que redefiniram o território ancestral.







CAPÍTULO III – RESISTÊNCIA E SOBREVIVÊNCIA DOS KARIRI-XOCÓ (1876–1944)

A extinção oficial dos aldeamentos indígenas em 1872 inaugurou um dos períodos mais difíceis da história dos Kariri-Xocó. Privados do reconhecimento legal de suas terras tradicionais e submetidos à expansão das propriedades rurais, os indígenas passaram a enfrentar profundas transformações sociais, econômicas e culturais. Entre 1876 e 1944, desenvolveram estratégias de resistência que garantiram sua sobrevivência coletiva, mantendo vínculos familiares, práticas culturais, conhecimentos tradicionais e a memória de pertencimento ao território ancestral. Mesmo diante da expropriação, da exploração do trabalho e da invisibilidade imposta pelo poder público, os Kariri-Xocó preservaram sua identidade, preparando o caminho para o futuro reconhecimento oficial de sua condição indígena.

Segunda Migração Xocó, nas décadas posteriores à extinção dos aldeamentos, ocorreu uma nova movimentação de famílias Xocó provenientes da Aldeia Ilha de São Pedro, localizada em Porto da Folha, Sergipe. Esse deslocamento consolidou a aproximação histórica entre Kariri e Xocó na antiga Aldeia de Colégio, já transformada na Vila de Porto Real do Colégio, em Alagoas. A chegada dessas famílias fortaleceu os laços de parentesco, ampliou a população indígena local e contribuiu para a preservação das tradições culturais compartilhadas pelos dois povos.

Trabalhadores de Alugado, com a perda das terras coletivas, muitos indígenas foram obrigados a sobreviver como trabalhadores alugados para fazendeiros da região. Entre 1876 e 1952, homens, mulheres e jovens exerceram diversas atividades rurais e serviços gerais em troca de baixos salários ou remuneração em produtos. Essa condição de dependência econômica representou uma das principais consequências da expropriação territorial, mas também revelou a capacidade de adaptação e resistência dos Kariri-Xocó diante das dificuldades impostas.

Gabriel Gonçalves de Oliveira, entre as figuras de destaque desse período encontra-se Gabriel Gonçalves de Oliveira (1853–1953), indígena reconhecido por seus conhecimentos tradicionais de cura e que alcançou posição de relativo destaque econômico na região. Tornando-se proprietário rural, utilizou sua influência para auxiliar e proteger diversas famílias Kariri e Xocó que enfrentavam condições de vulnerabilidade. Após o falecimento de sua primeira esposa, Luzia, uniu-se a Maria Matilde, que posteriormente daria continuidade à sua atuação de apoio aos indígenas.

Maria Matilde, após a morte de Gabriel Gonçalves, Maria Matilde permaneceu como importante referência para os Kariri-Xocó. Sua atuação foi marcada pela assistência às famílias indígenas e pela manutenção de relações de solidariedade em um período de grandes dificuldades. A memória de sua contribuição permaneceu viva entre os indígenas, especialmente durante os anos que antecederam a criação do Posto Indígena, em 1944, quando os Kariri-Xocó passaram a receber maior atenção das autoridades indigenistas.

Operários da Fábrica, a instalação de uma fábrica de beneficiamento de arroz na Rua dos Caboclos, em 1937, criou novas oportunidades de trabalho para a população indígena local. Muitos Kariri-Xocó passaram a atuar como operários na unidade industrial, desempenhando funções ligadas ao processamento e armazenamento da produção agrícola regional. A fábrica permaneceu em funcionamento até 1968, tornando-se uma importante fonte de renda para diversas famílias indígenas ao longo de várias décadas.

A Visita de Carlos Estevão, em 1935, o antropólogo e pesquisador Carlos Estevão de Oliveira visitou Porto Real do Colégio para realizar observações sobre a população indígena local. Durante sua permanência, conheceu a Rua dos Índios e a região da Rua do Ouricuri, então cercada por áreas de mata. Seus registros etnográficos documentaram a presença contínua dos descendentes dos antigos aldeamentos e contribuíram para fortalecer a compreensão sobre a permanência histórica dos Kariri-Xocó na região. Esses estudos tornaram-se importantes referências para os processos que culminariam no reconhecimento oficial dos indígenas e na instalação do Posto Indígena em 1944.

O período compreendido entre 1876 e 1944 representa uma fase de resistência silenciosa, porém decisiva, na trajetória dos Kariri-Xocó. Apesar da perda das terras tradicionais, da exploração do trabalho indígena e das tentativas de invisibilização de sua existência, o povo manteve vivas suas relações comunitárias, seus conhecimentos ancestrais e sua identidade cultural. A solidariedade de lideranças locais, a adaptação às novas formas de trabalho e os registros produzidos por pesquisadores como Carlos Estevão contribuíram para que a presença indígena permanecesse reconhecível. Assim, ao final desse ciclo histórico, os Kariri-Xocó demonstraram que a resistência não se expressa apenas por confrontos diretos, mas também pela capacidade de preservar a memória, a cultura e o sentimento de pertencimento ao longo das gerações, preparando o caminho para as conquistas territoriais e políticas das décadas seguintes.






CAPÍTULO IV - O RECONHECIMENTO OFICIAL DOS KARIRI-XOCÓ (1944–1967)


A década de 1940 marcou uma profunda transformação na história do povo Kariri-Xocó. Após séculos de resistência, invisibilidade administrativa e sucessivas perdas territoriais, os indígenas de Porto Real do Colégio passaram a ser oficialmente reconhecidos pelo Estado brasileiro por meio das ações do Serviço de Proteção aos Índios (SPI). Esse reconhecimento inaugurou uma nova etapa de reorganização comunitária, caracterizada pela implantação de estruturas administrativas, educacionais e produtivas destinadas a integrar a comunidade indígena às políticas indigenistas da época. Entre 1944 e 1967, os Kariri-Xocó consolidaram importantes conquistas institucionais que fortaleceram sua permanência no território e contribuíram para a preservação de sua identidade coletiva.

Posto Indígena Padre Alfredo Dâmaso, em 1944, os indígenas de Porto Real do Colégio passaram a ser oficialmente assistidos pelo Serviço de Proteção aos Índios (SPI), por meio da criação do Posto Indígena Padre Alfredo Dâmaso, marco do reconhecimento oficial da comunidade indígena pelo Estado brasileiro.

Escola Padre Alfredo Dâmaso, fundada em 1944 juntamente com o Posto Indígena, a Escola Padre Alfredo Dâmaso constituiu o primeiro estabelecimento de ensino voltado à comunidade indígena local. Em 1985, a instituição foi transferida para a Aldeia Kariri-Xocó, situada na Fazenda Modelo.

Colônia Indígena, em 1947, o Ministério da Agricultura destinou aos indígenas de Porto Real do Colégio uma área de aproximadamente 54 hectares para atividades agrícolas. A área passou a ser conhecida como Colônia Indígena, denominação que permaneceu na memória coletiva da comunidade.

Reforma das Casas de Palha, a grande enchente do Rio São Francisco, ocorrida em 1949, atingiu Porto Real do Colégio e a comunidade Kariri-Xocó. Em decorrência dos danos causados, o Posto Indígena Padre Alfredo Dâmaso promoveu a recuperação e reforma das moradias tradicionais de palha afetadas pela inundação.

Casa de Farinha, por volta de 1960, foi implantada uma Casa de Farinha na Colônia Indígena para atender ao beneficiamento da mandioca produzida pelas famílias Kariri-Xocó, fortalecendo a economia comunitária e a produção de alimentos.

O período compreendido entre 1944 e 1967 representa um marco fundamental na trajetória histórica dos Kariri-Xocó. A criação do Posto Indígena Padre Alfredo Dâmaso, a instalação da escola, a formação da Colônia Indígena, as melhorias habitacionais após a enchente de 1949 e a construção da Casa de Farinha evidenciam a presença crescente do Estado na vida comunitária. Embora inseridas dentro da política indigenista vigente, essas iniciativas também foram apropriadas pelos próprios indígenas como instrumentos de fortalecimento social, econômico e cultural. Assim, o reconhecimento oficial conquistado nesse período não significou apenas uma medida administrativa, mas um importante passo na reafirmação da existência histórica do povo Kariri-Xocó, preparando o caminho para as futuras lutas pela recuperação territorial, valorização cultural e afirmação de seus direitos coletivos.






CAPÍTULO V – TRABALHO, DESENVOLVIMENTO E NOVAS OPORTUNIDADES (1968–1975)


A partir do final da década de 1960, a região do Baixo São Francisco passou por importantes transformações econômicas impulsionadas por obras de infraestrutura, expansão agrícola e projetos de desenvolvimento regional. Essas mudanças abriram novas possibilidades de trabalho para o povo Kariri-Xocó, que passou a integrar de forma mais intensa o mercado de trabalho regional, atuando em obras de construção civil, serviços de engenharia, atividades agrícolas e projetos de irrigação. Embora muitos indígenas continuassem vinculados às práticas tradicionais de subsistência, esse período marcou uma crescente participação da comunidade em atividades assalariadas, contribuindo para a geração de renda e para novas experiências de inserção social e econômica.

COENG S/A – Em 1968, a empresa de engenharia e terraplanagem COENG S/A instalou sua sede operacional em Porto Real do Colégio, utilizando o antigo prédio da fábrica de arroz desativada, localizado na Rua São Vicente. Contratada para atuar nas obras de implantação da Rodovia BR-101, a empresa empregou diversos trabalhadores indígenas Kariri-Xocó, proporcionando uma das mais significativas oportunidades de trabalho assalariado da época.

CONSTRUTORA GUTIERREZ – Em 1969, a Construtora Andrade Gutierrez estabeleceu sua base de apoio na cidade, também utilizando as instalações da antiga fábrica de arroz na Rua São Vicente. Responsável por serviços relacionados à pavimentação da BR-101 e às obras da ponte sobre o Rio São Francisco, a empresa contratou numerosos trabalhadores Kariri-Xocó, ampliando a participação indígena nos grandes empreendimentos de infraestrutura que transformavam a região.

Usinas de Cana-de-açúcar – Entre 1972 e 1975, a expansão da atividade sucroalcooleira no Sul de Alagoas criou novas frentes de trabalho para os Kariri-Xocó. Muitos indígenas passaram a atuar no cultivo da cana-de-açúcar, realizando atividades como abertura de sulcos para plantio, capina, limpeza e manutenção dos canaviais, integrando-se temporariamente ao ciclo produtivo das usinas da região.

Projeto Itiúba – Implantado na várzea do Rio Itiúba, o Projeto Itiúba representou uma importante iniciativa de irrigação agrícola voltada para a produção de arroz. O projeto beneficiou cerca de 300 parceleiros com lotes irrigados, entre os quais aproximadamente 40 famílias Kariri-Xocó receberam parcelas de terra para cultivo, fortalecendo a agricultura familiar indígena e ampliando as possibilidades de geração de renda por meio da produção agrícola irrigada.

As experiências vividas pelos Kariri-Xocó entre 1968 e 1975 revelam um período de ampliação das oportunidades de trabalho e de integração econômica regional. A participação em obras rodoviárias, empreendimentos da construção civil, atividades ligadas às usinas de cana-de-açúcar e projetos de irrigação permitiu à comunidade diversificar suas fontes de sustento, sem abandonar sua identidade cultural e seus vínculos históricos com o território. Esse processo contribuiu para a construção de novas perspectivas de desenvolvimento, preparando o caminho para as transformações sociais e econômicas que marcariam as décadas seguintes.






CAPÍTULO VI – FUNAI E A NOVA POLÍTICA INDIGENISTA (1967–1974)


A criação da Fundação Nacional do Índio (FUNAI), em 1967, marcou uma importante mudança na política indigenista brasileira. O novo órgão passou a substituir o Serviço de Proteção aos Índios (SPI), assumindo a administração dos postos indígenas e redefinindo as ações do Estado junto aos povos originários. Na Aldeia Kariri-Xocó, localizada em Porto Real do Colégio, essa transição trouxe transformações na infraestrutura comunitária, na educação, na assistência social e na capacitação profissional. Embora muitas dificuldades permanecessem, esse período foi marcado por investimentos que modificaram o espaço físico da aldeia e ampliaram as oportunidades de formação para as novas gerações indígenas.

FUNAI, a Fundação Nacional do Índio (FUNAI), órgão governamental criado em 1967 para substituir o Serviço de Proteção aos Índios (SPI), assumiu a administração do antigo Posto Indígena Padre Alfredo Dâmaso, inaugurando uma nova fase da política indigenista brasileira junto ao povo Kariri-Xocó.

Posto Indígena de Porto Real do Colégio, o antigo Posto Indígena Padre Alfredo Dâmaso passou a ser denominado Posto Indígena de Porto Real do Colégio em 1969, já sob a administração da FUNAI. A mudança representou o início de uma nova etapa administrativa e institucional para a Aldeia Kariri-Xocó.

Reforma das Casas de Alvenaria, na Rua São Vicente, principal núcleo da aldeia na época, a FUNAI promoveu, em 1972, a reforma das fachadas das casas dos indígenas Kariri-Xocó, substituindo estruturas antigas por frentes construídas em alvenaria de tijolos.

Reforma e Ampliação da Escola, entre 1972 e 1973, a FUNAI realizou a reforma e ampliação da Escola Indígena, construindo três novas salas de aula, banheiros, muro de proteção e uma enfermaria, melhorando as condições de ensino e atendimento à comunidade.

Casa das Professoras, em 1973, a FUNAI construiu a Casa das Professoras na Rua São Vicente. A residência destinava-se às docentes que vinham de outras regiões e aldeias do Nordeste para atuar na educação das crianças Kariri-Xocó, oferecendo-lhes melhores condições de permanência na comunidade.

Escola de Corte e Costura, também em 1973, a FUNAI implantou um curso de corte e costura voltado para as jovens da aldeia. Para ministrar as aulas, foi contratada a indígena Fulni-ô Maria Amélia, que transmitiu conhecimentos técnicos e artesanais importantes para a formação das alunas.

Casa da Cerâmica Torneada, o prédio foi construída em 1974, estava localizada na Rua São Vicente. O espaço destinava-se ao ensino e à produção de peças de barro utilizando o torno de oleiro. Os artesãos indígenas aprenderam a confeccionar diversos objetos, como jarros, quartinhas, moringas, pratos e outros utensílios cerâmicos, fortalecendo as atividades artesanais da comunidade.

O período compreendido entre 1967 e 1974 representou uma fase de transição institucional para o povo Kariri-Xocó, marcada pela substituição do SPI pela FUNAI e pela implementação de novas ações governamentais na aldeia. As reformas habitacionais, a ampliação da escola, a construção de residências para professores e a criação de cursos profissionalizantes demonstram a tentativa de integrar educação, assistência e qualificação profissional às políticas públicas voltadas aos povos indígenas. Embora ainda persistissem desafios relacionados à autonomia territorial e ao reconhecimento pleno dos direitos indígenas, essas iniciativas contribuíram para transformar o cotidiano da comunidade e prepararam o caminho para as mobilizações e conquistas que ocorreriam nas décadas seguintes.







CAPÍTULO VII – DA RUA SÃO VICENTE À FAZENDA MODELO (1948–1978)


Este capítulo aborda um dos momentos mais marcantes da história recente do povo Kariri-Xocó: a transição da antiga Rua dos Índios, local de residência de inúmeras gerações indígenas em Porto Real do Colégio, para a Fazenda Modelo, território que se tornaria a nova aldeia da comunidade. O período compreendido entre 1948 e 1978 representa a passagem entre dois espaços carregados de significados históricos e afetivos. De um lado, a Rua São Vicente, símbolo da permanência indígena no núcleo urbano da cidade; de outro, a Fazenda Modelo, que passou a representar a reconstrução territorial, cultural e comunitária dos Kariri-Xocó em sua luta pela reafirmação de sua identidade indígena.

Rua São Vicente – A antiga Rua dos Índios passou a ser denominada Rua São Vicente em 1948, recebendo o nome em referência à Usina São Vicente, importante empreendimento de beneficiamento de arroz da região. A mudança refletia o processo de modernização urbana e o fortalecimento das atividades econômicas ligadas ao desenvolvimento de Porto Real do Colégio.

Permanência dos Kariri-Xocó na Rua São Vicente – Mesmo após a mudança do nome da rua, muitas famílias Kariri-Xocó permaneceram vivendo no local onde seus antepassados residiam desde os primeiros tempos da formação de Porto Real do Colégio. O vínculo afetivo, histórico e cultural com a terra natal levou diversas famílias a continuarem na Rua São Vicente, mesmo quando começaram os movimentos de transferência para um novo território indígena.

Transferência para a Fazenda Modelo – Em 31 de outubro de 1978, os Kariri-Xocó ocuparam a Fazenda Modelo, marco fundamental da reorganização territorial da comunidade. A partir dessa data, teve início a mudança gradual das famílias da Rua São Vicente, situada na periferia urbana de Porto Real do Colégio, para a nova aldeia indígena, onde passaram a reconstruir suas moradias, fortalecer seus laços comunitários e reafirmar sua identidade étnica em um território próprio.

A passagem da Rua São Vicente para a Fazenda Modelo representou muito mais do que uma simples mudança de moradia. Esse processo simbolizou a retomada de um espaço coletivo capaz de assegurar melhores condições para a preservação da cultura, da memória e da organização social dos Kariri-Xocó. Embora a Rua São Vicente permanecesse como um lugar de profundas recordações e pertencimento, a ocupação da Fazenda Modelo marcou o início de uma nova etapa histórica, caracterizada pela reconstrução territorial e pelo fortalecimento da identidade indígena, consolidando as bases da atual Aldeia Kariri-Xocó.







CAPÍTULO VIII – OURICURI: CENTRO ESPIRITUAL DOS KARIRI-XOCÓ


Entre todos os espaços de referência da memória coletiva Kariri-Xocó, o Ouricuri ocupa lugar singular como território sagrado de espiritualidade, resistência e continuidade cultural. Muito mais que uma área de floresta preservada, o Ouricuri representa um elo permanente entre os vivos, os ancestrais e as forças da natureza presentes na cosmologia indígena. Ao longo dos séculos, mesmo diante das transformações políticas, territoriais e sociais ocorridas em Porto Real do Colégio, este espaço manteve-se como centro das práticas rituais, da transmissão dos conhecimentos tradicionais e da reafirmação da identidade étnica do povo Kariri-Xocó.

Aldeia Ouricuri, corresponde à antiga taba transferida do Alto do Bode em 1796, quando o Pajé Luduvico contava dezoito anos de idade. A mudança ocorreu em um contexto de expansão da ocupação colonial na região, após a elevação de Porto Real do Colégio à condição de Distrito em 1795. Com a aproximação dos núcleos urbanos e das atividades dos não indígenas, buscou-se um local mais afastado para garantir a continuidade dos rituais tradicionais e a preservação dos costumes ancestrais.

Rua do Ouricuri, após a transformação da Aldeia de Colégio em vila de Porto Real do Colégio, em 1876, diversas famílias indígenas passaram a residir nas proximidades da Floresta do Ouricuri, onde estabeleceram suas moradias e desenvolveram atividades agrícolas de subsistência. A localidade ficou conhecida como Rua do Ouricuri e permaneceu habitada por famílias Kariri-Xocó até 1952, quando muitas delas foram transferidas para a Colônia Indígena instalada pelo Serviço de Proteção aos Índios (SPI).

Os Rituais Tradicionais, na Floresta do Ouricuri realizam-se os rituais tradicionais que constituem uma das mais importantes expressões da cultura Kariri-Xocó. Essas cerimônias possuem dimensões espirituais, sociais e culturais, fortalecendo os vínculos entre as pessoas, a natureza, os ancestrais e os antepassados sagrados. Por meio dos cantos, danças, rezas, ensinamentos e práticas cerimoniais, os conhecimentos transmitidos pelas gerações anteriores permanecem vivos e atuantes na construção da identidade coletiva do povo.

A Preservação da Floresta Sagrada, a Floresta do Ouricuri constitui um patrimônio natural e cultural de valor inestimável para os Kariri-Xocó. Formada por remanescentes dos biomas Mata Atlântica e Caatinga, a área integra a Terra Indígena Kariri-Xocó e tem sido preservada por sucessivas gerações desde tempos anteriores ao contato com os missionários jesuítas, ocorrido em 1661. Além de sua importância espiritual, representa uma das últimas formações vegetais significativas existentes nos municípios de Porto Real do Colégio e São Brás, desempenhando papel fundamental na conservação da biodiversidade regional.

A história do Ouricuri revela a profunda relação entre território, espiritualidade e identidade do povo Kariri-Xocó. Ao longo dos séculos, a floresta sagrada permaneceu como espaço de resistência cultural, preservação ambiental e fortalecimento dos laços ancestrais. Mesmo diante das mudanças impostas pela colonização, pela expansão urbana e pelas políticas indigenistas, o Ouricuri continuou sendo o coração espiritual da comunidade. Sua existência simboliza a permanência dos saberes tradicionais, da memória coletiva e da conexão sagrada que une os Kariri-Xocó aos seus antepassados e à natureza, assegurando a continuidade de uma herança cultural transmitida de geração em geração.






CAPÍTULO IX - MEMÓRIA, TERRITÓRIO E PERMANÊNCIA


O presente capítulo encerra a trajetória histórica apresentada neste livro, reunindo elementos que expressam a permanência do povo Kariri-Xocó ao longo das gerações. Após séculos de transformações territoriais, deslocamentos, resistências e reconstruções comunitárias, a memória coletiva permanece viva nas famílias, nos lugares de pertencimento, nos saberes tradicionais e nas narrativas transmitidas pelos mais velhos. Mais do que registrar acontecimentos, este capítulo busca destacar a continuidade histórica de um povo que preserva sua identidade cultural mesmo diante das mudanças ocorridas ao longo do tempo, reafirmando a importância da memória e do território como fundamentos da existência coletiva Kariri-Xocó.

A Rua São Vicente na Atualidade, ainda abriga numerosas famílias Kariri-Xocó, desde o antigo prédio do Posto Indígena Padre Alfredo Dâmaso até diversos pontos ao longo da rua. Atualmente, os moradores indígenas convivem com famílias não indígenas, refletindo a dinâmica histórica de integração e convivência existente no município.

Descendentes Kariri-Xocó na Cidade, os descendentes indígenas encontram-se distribuídos por diversos bairros e ruas de Porto Real do Colégio. Em razão dos processos históricos de miscigenação e formação da população local, muitas famílias preservam vínculos ancestrais com os povos indígenas da região, constituindo parte importante da identidade cultural do município.

Formação da Aldeia Atual, o povo Kariri-Xocó foi constituído historicamente pela integração de diferentes grupos indígenas, entre eles Kariri, Natu, Xocó, Karapotó, Fulni-ô, Pankararu, Aconã, Tingui-Botó, Fulkaxó e Caxagó. Ao longo do tempo, parte desses grupos contribuiu para a formação de novas aldeias e comunidades indígenas em municípios de Alagoas e Sergipe, mantendo laços históricos e culturais entre si.

Patrimônio Histórico e Cultural, os espaços construídos ao longo da história, os lugares de memória, os conhecimentos tradicionais, as manifestações culturais e, sobretudo, os próprios anciões e detentores dos saberes constituem um patrimônio vivo que deve ser valorizado e preservado para as futuras gerações.

Memórias dos Anciões, os conhecimentos transmitidos pelos mais velhos representam uma das mais importantes fontes da história do povo Kariri-Xocó. Seus relatos, experiências e ensinamentos devem ser ouvidos, registrados e incorporados à educação escolar indígena, fortalecendo a preservação da história, da arte, da espiritualidade e da identidade cultural do povo.

Ao concluir esta obra, compreende-se que a história do povo Kariri-Xocó não se limita aos acontecimentos do passado, mas continua presente na vida cotidiana de suas famílias, em seus territórios, em suas tradições e em sua memória coletiva. Cada geração recebeu dos seus antepassados a responsabilidade de preservar conhecimentos, valores e formas próprias de compreender o mundo. Assim, a permanência do povo Kariri-Xocó constitui um testemunho de resistência, adaptação e continuidade cultural. Que estas páginas contribuam para fortalecer a valorização da história indígena, inspirando as futuras gerações a manter vivas as memórias, os saberes e os vínculos que unem o povo Kariri-Xocó à sua ancestralidade e ao seu território.







CONSIDERAÇÕES FINAIS

A caminhada apresentada neste livro demonstra que a história do povo Kariri-Xocó é marcada pela continuidade. Ao longo dos séculos, diferentes gerações preservaram conhecimentos, práticas culturais e formas próprias de compreender o mundo.

Da antiga taba do Alto do Bode à Fazenda Modelo, passando pela Missão de Colégio, pela Rua dos Índios, pela Colônia Indígena e pelo Ouricuri, os Kariri-Xocó construíram uma trajetória de resistência e permanência.

Que esta obra contribua para fortalecer a valorização da memória indígena, incentivar novas pesquisas e inspirar as futuras gerações a conhecer, preservar e transmitir os conhecimentos herdados de seus antepassados.







REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS



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PINTO, Carlos Estevão. O Ossuário da “Gruta-do-Padre”, em Itaparica e algumas notícias sobre remanescentes indígenas do Nordeste (1942). Boletim do Museu Nacional.

POMPEU SOBRINHO, Thomaz. Os Kariri-Xocó de Porto Real do Colégio. Maceió: Imprensa Oficial, diversas edições.

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SUÍRA, Júlio Queiroz. Entrevista concedida ao autor. Aldeia Kariri-Xocó, Porto Real do Colégio (AL), 16 fev. 1998.







SOBRE O AUTOR


Nhenety Kariri-Xocó é indígena do povo Kariri-Xocó, da Terra Indígena Kariri-Xocó, localizada em Porto Real do Colégio, Alagoas. Contador de histórias oral e escrita, dedica-se à pesquisa da memória indígena, da história regional e da preservação dos conhecimentos tradicionais de seu povo.
Desde 2006 desenvolve atividades de registro histórico e cultural por meio de publicações digitais e projetos de valorização da memória coletiva. É autor de diversos textos sobre a história, a cultura e as tradições dos povos indígenas do Baixo São Francisco, especialmente dos Kariri-Xocó.






Autor: Nhenety Kariri-Xocó




terça-feira, 9 de junho de 2026

DA SEMENTEIRA À ALDEIA KARIRI-XOCÓ







FALSA FOLHA DE ROSTO

DA SEMENTEIRA À ALDEIA KARIRI-XOCÓ
Patrimônio, Memória e Transformações do Território Indígena




FOLHA DE ROSTO

DA SEMENTEIRA À ALDEIA KARIRI-XOCÓ
Patrimônio, Memória e Transformações do Território Indígena
Nhenety Kariri-Xocó
Porto Real do Colégio – Alagoas
2026




VERSO DA FOLHA DE ROSTO

© 2026 – Nhenety Kariri-Xocó
Todos os direitos reservados.
Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida sem autorização do autor, exceto para fins acadêmicos, educacionais e de pesquisa, mediante citação da fonte.




FICHA CATALOGRÁFICA (MODELO)

Kariri-Xocó, Nhenety.
Da Sementeira à Aldeia Kariri-Xocó: patrimônio, memória e transformações do território indígena / Nhenety Kariri-Xocó. – Porto Real do Colégio, AL: Edição do Autor, 2026.
p. : il.
Inclui referências bibliográficas.
ISBN: 978-65-0000-000-0 (simbólico)
História indígena. 2. Kariri-Xocó. 3. Porto Real do Colégio. 4. Patrimônio cultural. 5. Memória coletiva. I. Título.
CDD: 981.35




ISBN (SIMBÓLICO)

ISBN: 978-65-0000-000-0




PREFÁCIO OFICIAL DA COLEÇÃO

Esta obra integra o Acervo Virtual Bibliográfico Nhenety Kariri-Xocó, iniciativa dedicada à preservação, produção e difusão do conhecimento construído a partir das vivências culturais do povo Kariri-Xocó.

Fundamentado na memória, na ancestralidade e na experiência histórica, o Acervo orienta-se pela compreensão de que o saber se constrói por meio de encontros, trocas e transformações culturais ao longo do tempo.

Os elementos culturais, científicos e literários oriundos de diferentes povos e autores são respeitados em suas origens, sendo compreendidos como influências legítimas no processo de formação do conhecimento, sem reivindicação de autoria sobre tais contribuições.

Ao mesmo tempo, reconhece-se a existência de uma produção autoral própria, resultante da interpretação singular da realidade vivida.

Dessa forma, a presente obra se insere em uma continuidade cultural dinâmica, na qual tradição e criação se articulam, preservando identidades e projetando novos horizontes.




ESCLARECIMENTO DO AUTOR


A presente obra constitui, neste momento, um pré-projeto editorial em fase de estruturação acadêmica e organização bibliográfica.

Sua versão definitiva será futuramente submetida aos processos de revisão, diagramação, normalização segundo os padrões da ABNT, catalogação bibliográfica, classificação CDD e obtenção de ISBN oficial.

Enquanto perdurar esta etapa preparatória, parte das informações editoriais apresentadas possui caráter provisório e simbólico, destinando-se exclusivamente à identificação preliminar da obra.

O autor reafirma o compromisso com a preservação cultural, histórica e intelectual do acervo desenvolvido ao longo de suas pesquisas e produções literárias.

Nhenety Kariri-Xocó 





DEDICATÓRIA

Dedico esta obra aos meus ancestrais Kariri e Xocó, guardiões da memória, da terra e da espiritualidade de nosso povo.
Dedico também aos anciãos, pajés, caciques, artesãos, agricultores, pescadores, mulheres, homens, jovens e crianças da Aldeia Kariri-Xocó, que mantiveram viva nossa história através da tradição oral e da resistência cultural.






AGRADECIMENTOS

Agradeço primeiramente ao Grande Criador pela vida, pela sabedoria e pela oportunidade de registrar a memória de meu povo.

Minha gratidão aos anciãos e lideranças Kariri-Xocó que compartilharam conhecimentos, histórias e experiências que contribuíram para a construção desta obra.

Agradeço igualmente aos pesquisadores, professores, amigos e familiares que incentivaram este trabalho de preservação histórica.

Por fim, agradeço a todos aqueles que acreditam na importância da memória indígena como patrimônio cultural do Brasil.






EPÍGRAFE

"Enquanto houver quem conte a história dos antigos, a memória do povo continuará caminhando entre as novas gerações."
— Sabedoria tradicional Kariri-Xocó





PREFÁCIO DO VOLUME

Texto destinado a um convidado, liderança indígena, pesquisador ou autoridade cultural que apresente a relevância histórica e documental da obra.





RESUMO

Esta obra apresenta a trajetória histórica do território atualmente ocupado pela Aldeia Kariri-Xocó, em Porto Real do Colégio, Alagoas, desde as construções ancestrais existentes no século XVIII até os processos contemporâneos de fortalecimento cultural e preservação da memória coletiva. Por meio de registros orais, documentos históricos, fotografias, entrevistas e observações da comunidade, o livro reúne informações sobre edificações, espaços produtivos, instituições públicas e iniciativas comunitárias que marcaram diferentes períodos da história local. A narrativa evidencia as transformações ocorridas entre a implantação de projetos agrícolas governamentais, a retomada territorial indígena e a consolidação da atual aldeia Kariri-Xocó. O estudo contribui para a valorização do patrimônio histórico, cultural e territorial do povo Kariri-Xocó e para a preservação de sua memória coletiva.

Palavras-chave: Kariri-Xocó; memória coletiva; patrimônio cultural; território indígena; Porto Real do Colégio.





ABSTRACT

This book presents the historical trajectory of the territory currently occupied by the Kariri-Xocó Village, in Porto Real do Colégio, Alagoas, Brazil, from the ancestral constructions of the eighteenth century to contemporary processes of cultural strengthening and preservation of collective memory. Through oral records, historical documents, photographs, interviews and community observations, the work gathers information about buildings, productive spaces, public institutions and community initiatives that marked different periods of local history. The narrative highlights the transformations resulting from governmental agricultural projects, the indigenous territorial recovery process and the consolidation of the present-day Kariri-Xocó Village. The study contributes to the appreciation of the historical, cultural and territorial heritage of the Kariri-Xocó people and to the preservation of their collective memory.

Keywords: Kariri-Xocó; collective memory; cultural heritage; indigenous territory; Porto Real do Colégio.





APRESENTAÇÃO

A história de um povo não se encontra apenas nos documentos oficiais. Ela também vive nas lembranças dos mais velhos, nos caminhos percorridos pelos ancestrais, nas construções erguidas ao longo do tempo e nos lugares que guardam significados profundos para a comunidade.

Esta obra reúne parte dessa memória histórica do povo Kariri-Xocó, registrando espaços, edificações e acontecimentos que contribuíram para a formação da atual Aldeia Kariri-Xocó. Ao documentar essas referências, busca-se preservar um patrimônio coletivo que pertence não apenas à comunidade indígena, mas também à história do Baixo São Francisco e do Brasil.





NOTA DO AUTOR

Os relatos e informações aqui apresentados resultam de décadas de pesquisa, observação, entrevistas e registros realizados junto à comunidade Kariri-Xocó.

Sempre que possível, os dados foram confrontados com documentos históricos, fotografias, mapas, registros institucionais e depoimentos orais. Algumas datas e acontecimentos refletem a memória coletiva preservada pelos anciãos e lideranças da comunidade.





MEMÓRIA DO AUTOR

Sou Nhenety Kariri-Xocó, indígena do povo Kariri-Xocó de Porto Real do Colégio, Alagoas.

Desde a infância ouvi histórias contadas pelos mais velhos sobre os antigos tempos da aldeia, da Sementeira, da Fazenda Modelo e das lutas pela terra. Essas narrativas despertaram em mim o desejo de registrar aquilo que poderia se perder com o passar dos anos.

Este livro nasce desse compromisso com a memória de meu povo. Cada capítulo representa uma tentativa de reunir fragmentos da história coletiva dos Kariri-Xocó para que as futuras gerações possam conhecer suas origens, compreender suas conquistas e fortalecer sua identidade cultural.





INTRODUÇÃO

A história da Aldeia Kariri-Xocó está profundamente ligada às transformações ocorridas no território situado entre Porto Real do Colégio e São Brás, no Baixo São Francisco alagoano.

Ao longo de mais de dois séculos, essa região testemunhou diferentes formas de ocupação, desde os antigos marcos territoriais indígenas até a implantação de projetos agrícolas governamentais, passando pela retomada da Fazenda Modelo e pela consolidação da atual aldeia.

O presente livro tem como objetivo registrar cronologicamente essas transformações, destacando construções, espaços comunitários, instituições e iniciativas que contribuíram para a formação do território contemporâneo Kariri-Xocó.





SUMÁRIO

Falsa Folha de Rosto
Folha de Rosto
Verso da Folha de Rosto
Ficha Catalográfica
ISBN (Simbólico)
Prefácio Oficial da Coleção
Esclarecimento do Autor
Dedicatória
Agradecimentos
Epígrafe
Prefácio do Volume
Resumo
Abstract
Apresentação
Nota do Autor
Memória do Autor
Apresentação
Introdução
Capítulo I – As Construções Ancestrais do Território Kariri-Xocó (1797–1914)
Capítulo II – O Centro Agrícola e o Campo Experimental das Sementes (1923–1940)
Capítulo III – A Consolidação do Fomento Agrícola e da CVSF (1941–1949)
Capítulo IV – O Posto Agropecuário Federal e a Modernização Rural (1950–1957)
Capítulo V – A Fazenda Modelo e os Projetos Agropecuários (1964–1975)
Capítulo VI – A Retomada da Sementeira e os Primeiros Tempos da Aldeia (1978–1980)
Capítulo VII – A Formação da Infraestrutura Comunitária Kariri-Xocó (1981–1986)
Capítulo VIII – Habitação e Desenvolvimento Econômico da Aldeia (1988–1997)
Capítulo IX – Educação, Cultura e Inclusão Digital (1999–2011)
Capítulo X – A Expansão Urbana da Aldeia Kariri-Xocó (2010–2014)
Capítulo XI – Os Novos Espaços de Cultura e Desenvolvimento (2015–2023)
Capítulo XII – Patrimônio Material e Memória Coletiva dos Kariri-Xocó
Considerações Finais
Referências Bibliográficas





CAPÍTULO I – AS CONSTRUÇÕES ANCESTRAIS DO TERRITÓRIO KARIRI-XOCÓ (1797–1914)

A história territorial do povo Kariri-Xocó encontra-se preservada não apenas na memória oral de seus ancestrais, mas também em antigos marcos geográficos, construções tradicionais e documentos administrativos que testemunham a ocupação indígena ao longo dos séculos. Entre o final do século XVIII e o início do século XX, diferentes referências materiais e territoriais evidenciaram a permanência dos indígenas na região de Porto Real do Colégio, demonstrando a continuidade de seus vínculos culturais, espirituais e econômicos com a terra. Os vestígios apresentados neste capítulo revelam aspectos importantes da organização territorial tradicional e das transformações ocorridas no período que antecedeu a implantação de projetos estatais sobre áreas historicamente ocupadas pelos Kariri-Xocó.

Antigo Marco da Terra, os antigos marcos territoriais da aldeia eram constituídos por referências naturais e tradicionais que delimitavam as terras indígenas reconhecidas pelo governo colonial. Entre esses marcos destacavam-se o Marco do Ouricuri, a Pedra da Mesa, a Pedra do Casto, o Morro de São Caetano e o Morro da Lagoa da Enxada. Esses limites estavam associados à concessão territorial destinada aos indígenas das Aldeias de Porto Real do Colégio e de São Brás pelo governador da Capitania de Pernambuco, em 1708, servindo como referências de ocupação e pertencimento coletivo ao longo das gerações.

Casa de Telha em Casca de Jatobá do Pajé Luduvico, construída em 1797, localizava-se na porção sul do Alto do Bode, área que, séculos mais tarde, passou a ser conhecida como Sementeira, em Porto Real do Colégio, Alagoas. A construção representava um importante exemplo da arquitetura tradicional indígena, adaptada aos recursos disponíveis na região, além de simbolizar a presença das lideranças espirituais e familiares na organização da vida comunitária do povo Kariri-Xocó.

Marco de Divisão da Terra, em 1914, o engenheiro Roberto Pereira Reis, a serviço do Estado de Alagoas, visitou Porto Real do Colégio para realizar o levantamento dos limites da antiga aldeia indígena. O trabalho tinha como objetivo subsidiar a criação do Centro Agrícola, iniciativa governamental que promoveu a redefinição administrativa de áreas historicamente ocupadas pelos indígenas. Esse levantamento constituiu um dos registros formais mais importantes sobre os limites territoriais da antiga aldeia no início do século XX.

Os vestígios materiais e territoriais apresentados neste capítulo demonstram a continuidade histórica da ocupação indígena Kariri-Xocó em Porto Real do Colégio. Os antigos marcos de terra, a residência do Pajé Luduvico e os levantamentos territoriais realizados pelo Estado constituem evidências da profunda relação entre o povo indígena e seu território ancestral. Mais do que simples referências geográficas ou construções isoladas, esses elementos representam a memória coletiva de uma comunidade que preservou sua identidade ao longo das gerações. Assim, as construções ancestrais e os marcos territoriais tornam-se importantes testemunhos históricos da permanência, resistência e pertencimento do povo Kariri-Xocó às terras tradicionalmente ocupadas por seus antepassados.





CAPÍTULO II - O CENTRO AGRÍCOLA E O CAMPO EXPERIMENTAL DAS SEMENTES (1923–1940)


A década de 1920 marcou uma nova fase na ocupação e utilização das terras indígenas situadas entre Porto Real do Colégio e São Brás. Nesse período, o Governo Federal implantou uma série de iniciativas voltadas ao desenvolvimento agrícola da região, criando órgãos de assistência técnica, experimentação e fomento à produção rural. Essas medidas integravam a política nacional de modernização da agricultura, tendo como principal objetivo estimular o cultivo do algodão e promover pesquisas agrícolas. Contudo, a implantação dessa estrutura ocorreu sobre áreas pertencentes ao antigo patrimônio territorial dos indígenas Kariri-Xocó, contribuindo para a consolidação da ocupação não indígena das chamadas "Duas Léguas de Terras".

Serviço de Algodão – Criado em 1923 pelo Governo Federal com a finalidade de orientar os agricultores da região e incentivar a produção algodoeira. A instituição integrou o processo de ocupação agrícola das terras situadas no antigo território indígena de Porto Real do Colégio, promovendo a distribuição e a venda de lotes destinados ao estabelecimento de agricultores e posseiros.

Centro Agrícola – Em 1924, o Serviço de Algodão passou a denominar-se Centro Agrícola. A instituição administrava aproximadamente 6.000 hectares de terras localizadas nos municípios de Colégio e São Brás, abrangendo parte das chamadas "Duas Léguas de Terras", tradicionalmente pertencentes aos indígenas da região.

Casa do Vapor de Algodão – Construída em 1924, localizava-se no Campo Experimental das Sementes, em Porto Real do Colégio-AL. A estrutura era utilizada no beneficiamento e processamento do algodão produzido nas áreas experimentais e agrícolas da região.

Casa da Vigilância – Construída em 1925, localizava-se no Campo Experimental das Sementes, em Porto Real do Colégio-AL. Destinava-se ao apoio administrativo e à fiscalização das atividades desenvolvidas na área experimental.

Porta d'Água da Lagoa Comprida – Construída em 1934, localizava-se no Campo Experimental das Sementes, em Porto Real do Colégio-AL. A obra contribuiu para o controle hídrico da lagoa e para o abastecimento das atividades agrícolas desenvolvidas no local.

Escola do Fomento Agrícola – Construída em 1940, localizava-se no Fomento Agrícola, anteriormente denominado Campo Experimental das Sementes, em Porto Real do Colégio-AL. A instituição tinha como finalidade a difusão de conhecimentos agrícolas e a capacitação de trabalhadores rurais, fortalecendo as ações de assistência técnica e desenvolvimento agrícola na região.

A implantação do Centro Agrícola e do Campo Experimental das Sementes entre 1923 e 1940 consolidou a presença da estrutura agrícola federal no Baixo São Francisco alagoano. Além de incentivar a produção agrícola e introduzir novas técnicas de cultivo, essas iniciativas transformaram a paisagem regional por meio da construção de prédios, sistemas de apoio e instituições de ensino rural. Ao mesmo tempo, esse processo ocorreu sobre parcelas significativas do antigo território indígena, evidenciando as profundas mudanças territoriais e sociais que marcaram a história de Porto Real do Colégio durante a primeira metade do século XX.






CAPÍTULO III – A CONSOLIDAÇÃO DO FOMENTO AGRÍCOLA E DA CVSF (1941–1949)


A década de 1940 representou um período de consolidação das iniciativas governamentais voltadas ao desenvolvimento agrícola do Baixo São Francisco. Em Porto Real do Colégio, os investimentos realizados pelo Fomento Agrícola e, posteriormente, pela Comissão do Vale do São Francisco (CVSF), contribuíram para a ampliação da produção rural, o aperfeiçoamento das atividades pecuárias e a melhoria da infraestrutura necessária ao aproveitamento dos recursos naturais da região. A construção de instalações de beneficiamento, residências administrativas, reservatórios de água e estruturas de apoio à criação animal evidenciou a crescente presença do Estado na organização e modernização das atividades agropecuárias locais.

Galpão da Fábrica de Arroz, construído em 1941, localizava-se no Fomento Agrícola, S/N, em Porto Real do Colégio–AL. A unidade destinava-se ao beneficiamento e armazenamento da produção arrozeira regional, contribuindo para o fortalecimento da economia agrícola local.

Residência do Administrador do Fomento Agrícola, construída em 1942, localizava-se no Fomento Agrícola, S/N, em Porto Real do Colégio–AL. A edificação servia como moradia oficial do responsável pela administração das atividades agrícolas desenvolvidas na área experimental e produtiva.

Açude da CVSF, construído em 1948 pela Comissão do Vale do São Francisco, localizava-se na Sementeira, no município de Porto Real do Colégio–AL. A obra foi implantada com o objetivo de garantir o abastecimento hídrico das atividades agrícolas e pecuárias, representando um importante investimento em infraestrutura rural.

Antiga Baia e Curral, construídos em 1949, localizavam-se no Posto Agropecuário Federal da Sementeira, em Porto Real do Colégio–AL. Essas instalações destinavam-se ao manejo, abrigo e melhoramento do rebanho utilizado nas experiências e atividades pecuárias desenvolvidas pelo posto.

A construção dessas estruturas entre 1941 e 1949 demonstra o fortalecimento das políticas de desenvolvimento rural implementadas na região do Baixo São Francisco. O conjunto formado pela fábrica de arroz, residência administrativa, açude e instalações pecuárias revela a integração entre produção agrícola, criação animal e gestão dos recursos hídricos. Essas obras constituíram importantes marcos da modernização do campo em Porto Real do Colégio, contribuindo para a expansão econômica regional e consolidando a presença do poder público no incentivo à agricultura e à pecuária durante a década de 1940.





CAPÍTULO IV – O POSTO AGROPECUÁRIO FEDERAL E A MODERNIZAÇÃO RURAL (1950–1957)


A década de 1950 representou um período de profundas transformações para a agricultura brasileira, marcado pela ampliação das políticas de modernização do campo, pela mecanização das atividades agropecuárias e pela valorização da formação técnica dos trabalhadores rurais. Em Porto Real do Colégio, Alagoas, o Posto Agropecuário Federal da Sementeira consolidou-se como um importante centro de experimentação, assistência técnica e capacitação profissional, reunindo instalações voltadas tanto à administração e ao apoio das atividades produtivas quanto ao treinamento de agricultores, vaqueiros, tratoristas e extensionistas rurais. As edificações erguidas nesse período refletem o esforço governamental para introduzir novas tecnologias e difundir conhecimentos capazes de aumentar a produtividade agrícola e melhorar as condições de vida no meio rural.

Fachada do Portão de Entrada da Sementeira, construída em 1950, a Fachada do Portão de Entrada da Sementeira localizava-se no acesso principal do Posto Agropecuário Federal da Sementeira, em Porto Real do Colégio–AL. Além de sua função prática de controle e recepção, tornou-se um marco arquitetônico do complexo agrícola, simbolizando a presença das instituições federais voltadas ao desenvolvimento agropecuário da região.

Casa do Mirante do Alto do Bode, construída em 1952, a Casa do Mirante do Alto do Bode localizava-se em uma das áreas elevadas do Posto Agropecuário Federal da Sementeira, em Porto Real do Colégio–AL. Sua posição privilegiada permitia a observação das áreas de cultivo, pastagens e instalações do campo experimental, auxiliando no acompanhamento das atividades agropecuárias desenvolvidas no local.

Casa do Vaqueiro João de Ana, construída em 1953, no conjunto denominado Oco do Urubu, a Casa do Vaqueiro João de Ana localizava-se no Posto Agropecuário Federal da Sementeira, em Porto Real do Colégio–AL. A residência estava associada às atividades de manejo dos rebanhos e demonstra a importância da pecuária dentro do programa de desenvolvimento rural promovido pela instituição.

Casa do Feitor, construída em 1954, a Casa do Feitor localizava-se no Posto Agropecuário Federal da Sementeira, em Porto Real do Colégio–AL. Destinada ao responsável pela supervisão dos serviços agrícolas e pecuários, a edificação integrava a estrutura administrativa necessária para coordenar os trabalhos desenvolvidos nas áreas de produção e experimentação.

Galpão da Oficina Mecânica e Centro de Treinamento para Tratoristas, construído em 1955, o Galpão da Oficina Mecânica localizava-se no Centro de Treinamento para Tratoristas da Sementeira, em Porto Real do Colégio–AL. O espaço era destinado à manutenção de máquinas e equipamentos agrícolas, desempenhando papel fundamental na introdução da mecanização rural e na formação de operadores capacitados para o uso de tratores e implementos modernos.

Galpão Garagem da Maquinaria, também construído em 1955, o Galpão Garagem da Maquinaria localizava-se no Centro de Treinamento para Tratoristas da Sementeira, em Porto Real do Colégio–AL. A estrutura servia para abrigar tratores, implementos agrícolas e demais equipamentos utilizados nas atividades de ensino prático e nos serviços agropecuários do posto, contribuindo para a preservação e organização do patrimônio mecânico da instituição.

Escola de Extensão Rural e Economia Doméstica, construída em 1956, a Escola de Extensão Rural e Economia Doméstica localizava-se na Sementeira, em Porto Real do Colégio–AL. A instituição destinava-se à formação de agricultores, agricultoras e famílias rurais, difundindo conhecimentos sobre produção agrícola, criação de animais, alimentação, higiene, administração doméstica e melhoria das condições de vida no campo. Sua atuação refletia os programas nacionais de extensão rural implementados durante o período.

Alojamento Masculino da Escola de Extensão Rural, construído em 1957, o Alojamento Masculino da Escola de Extensão Rural localizava-se na Sementeira, em Porto Real do Colégio–AL. A edificação permitia hospedar alunos oriundos de diferentes localidades, ampliando o alcance das ações educativas promovidas pelo Posto Agropecuário Federal e fortalecendo a formação profissional voltada ao desenvolvimento rural da região.

Entre 1950 e 1957, o Posto Agropecuário Federal da Sementeira consolidou-se como um importante núcleo de modernização agrícola no Baixo São Francisco alagoano. A construção de instalações administrativas, residenciais, educacionais e técnicas evidencia o esforço de integrar mecanização, pesquisa aplicada, extensão rural e qualificação profissional em um mesmo espaço. Mais do que um centro de produção agropecuária, a Sementeira tornou-se um ambiente de difusão de conhecimentos e tecnologias que contribuíram para a transformação das práticas agrícolas regionais. As edificações desse período constituem testemunhos materiais de uma fase marcada pela busca do progresso rural e pela formação de trabalhadores preparados para os desafios da agricultura moderna.





CAPÍTULO V – A FAZENDA MODELO E OS PROJETOS AGROPECUÁRIOS (1964–1975)


Entre 1964 e 1975, a antiga Sementeira de Porto Real do Colégio alcançou uma de suas fases mais significativas, consolidando-se como um importante centro de experimentação agropecuária do Baixo São Francisco. Nesse período, a implantação da Fazenda Modelo ampliou os trabalhos anteriormente desenvolvidos pelo Campo Experimental de Sementes, incorporando novas estruturas voltadas à pecuária leiteira, ao abastecimento hídrico e à piscicultura. As iniciativas buscavam demonstrar técnicas modernas de produção rural, incentivar a diversificação econômica e servir como referência para agricultores, criadores e estudantes da região.

Casa Grande da Fazenda Modelo – Construída em 1964, localizava-se na Fazenda Modelo da antiga Sementeira, em Porto Real do Colégio–AL. Servia como centro administrativo e de apoio às atividades agropecuárias desenvolvidas na propriedade.

Nova Baia para Gado Holandês – Construída em 1965, localizava-se na Fazenda Modelo da antiga Sementeira, em Porto Real do Colégio–AL. Destinava-se ao manejo e à criação de bovinos da raça Holandesa, utilizados nos projetos de melhoramento da produção leiteira.

Maternidade da Vaca Leiteira – Construída em 1966, localizava-se na Fazenda Modelo da antiga Sementeira, em Porto Real do Colégio–AL. A estrutura foi planejada para oferecer condições adequadas ao nascimento e aos primeiros cuidados dos bezerros, contribuindo para o aprimoramento da pecuária leiteira local.

Caixa d’Água da Suvale – Construída em 1967, localizava-se nas proximidades da Escola de Extensão Rural, na antiga Sementeira, em Porto Real do Colégio–AL. Integrava o sistema de abastecimento hídrico destinado às atividades agrícolas, pecuárias e educacionais desenvolvidas na área.

Casa do Motor-Bomba d’Água – Construída em 1967, localizava-se próxima à Escola de Extensão Rural, na antiga Sementeira, em Porto Real do Colégio–AL. Abrigava os equipamentos responsáveis pela captação e distribuição de água para os diversos setores da Fazenda Modelo.

Centro Reprodutivo da Piscicultura – Implantado em 1975, com a construção dos tanques destinados à criação e reprodução de peixes, localizava-se na Fazenda Modelo da antiga Sementeira, em Porto Real do Colégio–AL. O projeto representou a ampliação das experiências agropecuárias para a área aquícola, buscando diversificar a produção e fortalecer o aproveitamento dos recursos hídricos da região.

O período compreendido entre 1964 e 1975 marcou o auge da Fazenda Modelo da antiga Sementeira, caracterizado pela expansão da infraestrutura rural e pela diversificação das experiências produtivas. As instalações voltadas à pecuária leiteira, ao abastecimento de água e à piscicultura demonstram o esforço institucional para introduzir técnicas modernas de produção e estimular o desenvolvimento agropecuário regional. Mais do que simples edificações, essas estruturas constituíram instrumentos de pesquisa, demonstração e formação rural, deixando um importante legado para a história agrícola de Porto Real do Colégio e do Baixo São Francisco.





CAPÍTULO VI – A RETOMADA DA SEMENTEIRA E OS PRIMEIROS TEMPOS DA ALDEIA (1978–1980)

A ocupação da Fazenda Modelo pelos Kariri-Xocó, em 1978, marcou um dos momentos mais importantes da história recente do povo indígena de Porto Real do Colégio. Após décadas de luta pela permanência em seu território tradicional, as famílias indígenas passaram a reorganizar sua vida comunitária em uma área que anteriormente servira a projetos agropecuários do governo estadual. A transformação daquele espaço em aldeia representou não apenas a conquista de moradia e trabalho, mas também a reafirmação da identidade cultural, das tradições ancestrais e do direito coletivo à terra. Nos primeiros anos da ocupação, diversos espaços comunitários foram criados para atender às necessidades imediatas da população e fortalecer a organização social da nova aldeia.

Prédios da Fazenda Modelo – A Casa Grande, a Casa de Vigilância, os Galpões e demais edificações da Fazenda Modelo foram ocupados pelos Kariri-Xocó em 1978. A partir desse momento, o complexo passou a representar não apenas um antigo centro de desenvolvimento agropecuário regional, mas também um símbolo da luta indígena por moradia, território e reorganização social das famílias que ali se estabeleceram.

Palhoça do Toré – Construída em 1978, no dia da ocupação da Fazenda Modelo pelos Kariri-Xocó, servia como espaço de preparação para os rituais e apresentações culturais realizadas diante de autoridades, visitantes e representantes da imprensa. Localizava-se ao lado da Casa Grande, na atual Aldeia Kariri-Xocó, em Porto Real do Colégio–AL.

Barracas de Plástico – Erguidas em 1979, abrigaram temporariamente as famílias indígenas que não conseguiram ocupar os antigos prédios da Fazenda Modelo durante o processo de transferência para a nova área da aldeia. Essas moradias provisórias constituíram uma das primeiras formas de adaptação ao novo território.

Campo de Futebol – Implantado em 1980, nas proximidades da Lagoa Grande, tornou-se um importante espaço de lazer, convivência comunitária e realização de eventos esportivos para os moradores da Aldeia Kariri-Xocó, em Porto Real do Colégio–AL.

Olaria dos Tijolos – Estruturada em 1980, destinava-se à fabricação artesanal de tijolos utilizados na construção das primeiras casas da aldeia. Além de atender às necessidades habitacionais da comunidade, a olaria também contribuiu para o comércio regional de produtos cerâmicos no Baixo São Francisco. Localizava-se às margens da Lagoa Comprida, na Aldeia Kariri-Xocó.

Barreiro das Louceiras – Organizado em 1980, consistia na principal área de extração de argila utilizada pelas artesãs indígenas na produção de potes, panelas e outros utensílios cerâmicos tradicionais. Situava-se às margens da Lagoa Comprida, constituindo importante fonte de matéria-prima para a manutenção dos saberes artesanais da comunidade.

Área Agropecuária – Em 1980 foram distribuídas áreas de cultivo destinadas às famílias indígenas, geralmente compostas por lotes entre três e cinco tarefas. Paralelamente, foram estabelecidos cercados para a criação de bovinos, ovinos, caprinos e equinos, garantindo condições básicas para a subsistência e fortalecimento da economia comunitária dos Kariri-Xocó.

A ocupação da Fazenda Modelo inaugurou uma nova etapa na história do povo Kariri-Xocó. Entre 1978 e 1980, a adaptação dos antigos prédios, a construção de moradias, a implantação de áreas produtivas e a criação de espaços culturais e comunitários lançaram as bases da atual aldeia. Mais do que estruturas físicas, esses locais simbolizaram a reconstrução coletiva de um território indígena recuperado, onde trabalho, cultura, espiritualidade e resistência passaram a caminhar juntos no fortalecimento da identidade Kariri-Xocó às margens do rio São Francisco.






CAPÍTULO VII – A FORMAÇÃO DA INFRAESTRUTURA COMUNITÁRIA KARIRI-XOCÓ (1981–1986)

A primeira metade da década de 1980 representou um período de significativa transformação para o povo Kariri-Xocó. Após a ocupação da antiga Fazenda Modelo e a consolidação da permanência indígena no território, iniciou-se uma fase voltada para a construção de estruturas comunitárias essenciais à moradia, educação, produção agrícola, esporte e convivência social. Esse conjunto de realizações fortaleceu a organização interna da comunidade, ampliou a qualidade de vida das famílias e contribuiu para a reafirmação da presença Kariri-Xocó em seu território tradicional às margens do Rio São Francisco.

Conjunto das 110 Casas – Construído em 1981 na Aldeia Kariri-Xocó, antiga Fazenda Modelo, por meio de recursos financiados pela Embaixada do Canadá. Os tijolos utilizados nas construções foram produzidos pelos próprios indígenas na olaria comunitária, simbolizando o esforço coletivo e a participação direta da comunidade na formação de sua nova estrutura habitacional.

Casa do Cacique Cícero Irêçê – Edificada em 1981, durante o período de construção das 110 casas, no local onde anteriormente funcionava a Palhoça do Toré da época da ocupação. Localizada na Rua do Posto, s/n, Aldeia Kariri-Xocó, Porto Real do Colégio–AL, tornou-se uma referência histórica e simbólica da liderança indígena no processo de reorganização comunitária.

Chafariz Comunitário – Construído em 1982, próximo à caixa d’água da aldeia, contribuiu para o abastecimento de água das famílias residentes e representou uma importante melhoria nas condições de vida da comunidade.

Maquinário Agrícola – Em 1982, a FUNAI adquiriu um trator, carroção, grade aradora, arado e uma caminhonete destinados ao atendimento dos agricultores da Aldeia Kariri-Xocó. Esses equipamentos fortaleceram a produção agrícola local e ampliaram as condições de trabalho nas áreas cultivadas pela comunidade.

Sede do Guarani Esporte Clube – Construída em 1983 na Rua do Primeiro Portão, Aldeia Kariri-Xocó, Porto Real do Colégio–AL. O espaço tornou-se importante ponto de encontro para atividades esportivas, recreativas e sociais, fortalecendo a integração entre jovens e adultos da comunidade.

Reserva Indígena Kariri-Xocó – Em 18 de setembro de 1984, foi desenvolvido o projeto de ampliação da Reserva Indígena Kariri-Xocó para 699 hectares, sob coordenação do Grupo de Trabalho liderado pela antropóloga Lígia Terezinha Lopes Simonian. A iniciativa representou um importante avanço no processo de reconhecimento e consolidação territorial do povo Kariri-Xocó.

Escola Gilberto Pinto Figueiredo Costa – Em 1984, a escola foi instalada em um dos prédios remanescentes da antiga Fazenda Modelo, nas proximidades da caixa d’água da antiga SUVALE, na Aldeia Kariri-Xocó. A instituição passou a desempenhar papel fundamental na educação das crianças e jovens indígenas, contribuindo para a formação escolar da comunidade.

Quadrinha de Futebol – Construída em 1985 na margem do Rio São Francisco, tornou-se um dos principais espaços de lazer e prática esportiva da aldeia, fortalecendo a convivência comunitária e incentivando a participação da juventude em atividades recreativas.

Boteco de Antônio Tinga – Construído em 1986 ao lado da Quadrinha de Futebol, em frente ao portão da Aldeia Kariri-Xocó. Além de estabelecimento comercial, tornou-se um espaço de encontro e convivência social, frequentado por moradores e visitantes da comunidade.

Entre 1981 e 1986, a Aldeia Kariri-Xocó vivenciou uma etapa decisiva de consolidação de sua infraestrutura comunitária. A construção de moradias, a implantação de equipamentos de abastecimento de água, a aquisição de máquinas agrícolas, a ampliação das áreas destinadas ao território indígena, a instalação de espaços educacionais e esportivos e o surgimento de novos pontos de convivência demonstram o esforço coletivo empreendido pela comunidade para reconstruir sua vida social após a ocupação da Fazenda Modelo. Esse período marcou a transição de uma fase de resistência territorial para uma etapa de organização estrutural, fortalecendo as bases materiais, culturais e sociais que sustentam a continuidade histórica do povo Kariri-Xocó até os dias atuais.






CAPÍTULO VIII – HABITAÇÃO E DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO DA ALDEIA (1988–1997)

A partir do final da década de 1980, a Aldeia Kariri-Xocó passou por uma importante fase de transformação estrutural, marcada pela ampliação das moradias, pela implementação de melhorias na infraestrutura comunitária e pelo fortalecimento das atividades produtivas tradicionais. Esse período representou um avanço significativo na qualidade de vida da população indígena, resultado das lutas pela garantia dos direitos constitucionais conquistados após a promulgação da Constituição Federal de 1988. As iniciativas voltadas para habitação, geração de trabalho e assistência à saúde contribuíram para consolidar as bases do desenvolvimento social e econômico da comunidade, acompanhando o crescimento populacional e as novas demandas da aldeia.

Casa Geminada para Duas Famílias – Construção do Conjunto das 18 Casas, localizado na Rua do Primeiro Portão, no ano de 1988, na Aldeia Kariri-Xocó, município de Porto Real do Colégio, Alagoas. As residências foram destinadas a famílias indígenas que necessitavam de melhores condições de moradia, contribuindo para reduzir o déficit habitacional existente na comunidade.

Galpão da Olaria – Construído em 1989, nas proximidades da Lagoa Comprida, na Aldeia Kariri-Xocó. O espaço foi utilizado para apoiar a produção artesanal de tijolos, telhas e outros artefatos cerâmicos, fortalecendo uma atividade tradicional que gerava trabalho e renda para diversas famílias indígenas.

Conjunto das 45 Casas – Construído em 1991 na Aldeia Kariri-Xocó, com recursos do Governo Federal, destinado a atender famílias em situação de vulnerabilidade social e acompanhar o crescimento da população indígena. A obra representou um dos maiores investimentos habitacionais realizados na comunidade até então.

Antigo Polo Base Kariri-Xocó – Construído em 1994, localizado na Rua do Posto, na Aldeia Kariri-Xocó. A unidade passou a servir como referência para o atendimento básico de saúde indígena, ampliando o acesso da população aos serviços de acompanhamento médico, vacinação e ações preventivas.

Rede Hidráulica – Implantada em 1997 por meio de parceria entre o Governo Federal e a Prefeitura Municipal de Porto Real do Colégio. A instalação da rede de abastecimento de água tratada representou um marco para a saúde pública da aldeia, reduzindo riscos sanitários e proporcionando melhores condições de higiene e bem-estar para as famílias indígenas.

A construção de novas moradias, a valorização das atividades produtivas tradicionais, a ampliação da assistência à saúde e a implantação da rede de abastecimento de água demonstram que o período entre 1988 e 1997 foi marcado por importantes conquistas sociais para o povo Kariri-Xocó. Essas realizações fortaleceram a permanência das famílias em seu território, melhoraram as condições de vida da comunidade e contribuíram para a consolidação de um processo de desenvolvimento baseado na dignidade, no trabalho coletivo e na afirmação dos direitos indígenas. Os avanços alcançados nesse período constituem um legado fundamental para as gerações seguintes e representam uma etapa decisiva na construção da história contemporânea da Aldeia Kariri-Xocó.






CAPÍTULO IX – EDUCAÇÃO, CULTURA E INCLUSÃO DIGITAL (1999–2011)

O período compreendido entre 1999 e 2011 representa uma fase de importantes transformações na Aldeia Kariri-Xocó, marcada pela ampliação dos serviços essenciais, pelo fortalecimento da educação escolar indígena, pelo acesso às tecnologias da informação e pela valorização das expressões culturais tradicionais. Nesse contexto, a comunidade consolidou conquistas históricas relacionadas ao abastecimento de água, à saúde, à educação e à inclusão digital, ao mesmo tempo em que fortaleceu sua identidade étnica e seus conhecimentos ancestrais. Essas iniciativas contribuíram para a construção de novas oportunidades para as gerações mais jovens, sem romper os vínculos com a memória, a tradição oral e os modos de vida do povo Kariri-Xocó.

A 1ª Estação de Abastecimento e Tratamento d'Água foi construída em 1999, localizada na Rua do 2º Portão, Aldeia Kariri-Xocó, Porto Real do Colégio – AL. A obra representou um importante avanço para a saúde pública e para a qualidade de vida da comunidade, garantindo melhores condições de acesso à água tratada.

O Posto de Saúde foi construído em 2001 pelo Distrito Sanitário Especial Indígena (DSEI), na Aldeia Kariri-Xocó. A unidade passou a contar com equipe multidisciplinar composta por médico, enfermeira, dentista e auxiliares de enfermagem, ampliando o atendimento à população indígena e fortalecendo as ações de prevenção e promoção da saúde.

A Escola Indígena Pajé Francisco Queiroz Suíra foi construída em 2002, localizada na Rua do Campo, s/n, Aldeia Kariri-Xocó, Porto Real do Colégio – AL. A instituição tornou-se um importante espaço para o desenvolvimento da educação intercultural, promovendo a articulação entre os conhecimentos acadêmicos e os saberes tradicionais da comunidade.

O Cyber Oca Índios Online foi implantado em 2006, localizado na Rua da Caixa d'Água, s/n, Aldeia Kariri-Xocó, Porto Real do Colégio – AL. O espaço possibilitou o acesso da juventude indígena às tecnologias digitais e à internet, contribuindo para a inclusão digital, a comunicação intercultural e a divulgação da cultura indígena em âmbito nacional e internacional.

O Ponto de Cultura Horizonte Circular passou por adequação estrutural em 2009, localizado na Ladeira do Posto, s/n, Aldeia Kariri-Xocó, Porto Real do Colégio – AL. O espaço consolidou-se como centro de atividades culturais, artísticas e educativas, promovendo oficinas, encontros, pesquisas e ações voltadas à preservação da memória e das tradições do povo Kariri-Xocó.

A Casa de Alpendre Francisco Sampaio da Silva foi construída em 2010, dando origem ao núcleo habitacional Sítio Alegre Aracaré Parrancó, na Aldeia Kariri-Xocó, Porto Real do Colégio – AL. A iniciativa marcou a expansão do espaço comunitário e o fortalecimento da ocupação territorial da aldeia.

A Rede Elétrica da Aldeia Kariri-Xocó, que desde 1966 era abastecida pela infraestrutura herdada da antiga Fazenda Modelo, passou por reforma e ampliação em 2011 por meio do Programa Luz para Todos, do Governo Federal. A melhoria ampliou o acesso à energia elétrica e favoreceu o funcionamento de equipamentos educacionais, culturais, tecnológicos e residenciais da comunidade.

O conjunto dessas realizações demonstra que o desenvolvimento da Aldeia Kariri-Xocó, entre o final do século XX e o início do século XXI, esteve fundamentado na busca por melhores condições de vida, sem abrir mão da preservação da identidade indígena. A expansão dos serviços de saúde, educação, abastecimento de água, energia elétrica e inclusão digital fortaleceu a autonomia comunitária e criou novas possibilidades para as futuras gerações. Ao integrar tradição e modernidade, os Kariri-Xocó reafirmaram sua capacidade de adaptação, resistência e valorização cultural, transformando a educação intercultural e o acesso à tecnologia em instrumentos de fortalecimento de sua história, memória e permanência no território ancestral.
Tema central: Educação intercultural, tecnologia e valorização cultural.






CAPÍTULO X – A EXPANSÃO URBANA DA ALDEIA KARIRI-XOCÓ (2010–2014)

A primeira metade da década de 2010 foi marcada por uma significativa transformação no espaço físico da Aldeia Kariri-Xocó. O crescimento populacional das famílias indígenas, aliado ao acesso a programas habitacionais federais e aos investimentos em infraestrutura comunitária, impulsionou a expansão urbana da Terra Indígena. Novos conjuntos habitacionais surgiram em diferentes áreas da aldeia, ampliando as condições de moradia, fortalecendo a permanência das famílias em seu território tradicional e contribuindo para a melhoria da qualidade de vida da comunidade. Paralelamente, equipamentos públicos foram implantados ou ampliados, acompanhando as novas demandas sociais e sanitárias da população indígena.

Conjunto Habitacional das 100 Casas – Construído em 2010 por meio do Programa Minha Casa Minha Vida, com financiamento da Caixa Econômica Federal, destinou-se às famílias da Aldeia Kariri-Xocó. O empreendimento representou uma das maiores iniciativas habitacionais já realizadas na comunidade, contribuindo para a redução do déficit de moradias e para a melhoria das condições de habitação das famílias indígenas.

Conjunto Habitacional das 200 Casas – Construído em 2012 através do Programa Minha Casa Minha Vida, com financiamento da Caixa Econômica Federal. O conjunto ampliou significativamente a área urbanizada da aldeia, atendendo à crescente demanda habitacional decorrente do aumento populacional e da formação de novos núcleos familiares.

Núcleo Habitacional dos Taré – Implantado em 2012, deu origem à atual Rua da Família Taré, na Aldeia Kariri-Xocó. O novo núcleo consolidou um espaço de convivência familiar e comunitária, fortalecendo os laços de parentesco e a ocupação tradicional do território indígena.

Conjunto Habitacional das 50 Casas – Construído em 2013 na região do Cercado Grande, dentro da Terra Indígena Kariri-Xocó, com financiamento da Caixa Econômica Federal. O conjunto foi destinado principalmente às famílias de pescadores, ampliando as oportunidades de acesso à moradia digna para um importante segmento da comunidade ligado às atividades pesqueiras do rio São Francisco.

Novo Polo Base Kariri-Xocó – Construído em 2014, localizado na Rua da Escola Indígena, Aldeia Kariri-Xocó, Porto Real do Colégio-AL. A nova estrutura fortaleceu os serviços de atenção à saúde indígena, ampliando o espaço de atendimento e o quadro de profissionais, incluindo agentes indígenas de saúde, técnicos e equipes multidisciplinares responsáveis pela assistência à comunidade.

Entre 2010 e 2014, a Aldeia Kariri-Xocó vivenciou uma das mais expressivas fases de expansão urbana de sua história recente. A construção de novos conjuntos habitacionais e a implantação de equipamentos públicos demonstraram a capacidade da comunidade de articular políticas públicas voltadas à habitação, saúde e bem-estar coletivo. Mais do que a ampliação física da aldeia, esse período representou o fortalecimento da permanência indígena em seu território ancestral, assegurando melhores condições de vida às famílias e preparando a comunidade para os desafios das gerações futuras. As novas moradias, ruas e estruturas de atendimento consolidaram um importante marco no processo de desenvolvimento social e territorial do povo Kariri-Xocó, sem romper os vínculos com sua identidade cultural, memória histórica e tradições ancestrais.






CAPÍTULO XI - OS NOVOS ESPAÇOS DE CULTURA E DESENVOLVIMENTO (2015–2023)

A partir de 2015, a Terra Indígena Kariri-Xocó passou a vivenciar uma nova etapa de fortalecimento comunitário, marcada pela criação de espaços voltados à preservação da memória, à valorização dos saberes tradicionais e à melhoria das condições de vida da população. Esse período representa a consolidação de iniciativas que unem cultura, educação, turismo de base comunitária e infraestrutura, demonstrando a capacidade do povo Kariri-Xocó de construir caminhos de desenvolvimento alinhados à sua identidade ancestral. Os novos equipamentos comunitários implantados entre 2015 e 2023 tornaram-se referências para a promoção da cultura indígena e para o fortalecimento da autonomia local.

Centro Cultural Sabucá – Construído em 2015, localizado no Cercado Grande, Terra Indígena Kariri-Xocó, município de Porto Real do Colégio–AL. O espaço foi criado com a finalidade de promover atividades culturais, educativas e comunitárias, contribuindo para a preservação da memória histórica, das tradições indígenas e da transmissão dos conhecimentos ancestrais às novas gerações.

Aldeia Cultural Opará – Construída em 2019, localizada no Cercado Grande, Terra Indígena Kariri-Xocó, município de Porto Real do Colégio–AL. Idealizada como espaço de valorização cultural e recepção de visitantes, a Aldeia Cultural Opará fortaleceu o turismo de base comunitária, ampliando as oportunidades de intercâmbio cultural e divulgação das tradições, da arte, da espiritualidade e dos modos de vida do povo Kariri-Xocó.

Nova Estação de Abastecimento e Tratamento de Água – Construída em 2023, localizada no Conjunto das 200 Casas, Aldeia Kariri-Xocó, município de Porto Real do Colégio–AL. A obra representou um importante avanço na infraestrutura comunitária, ampliando o acesso à água tratada e contribuindo para a melhoria das condições sanitárias, da saúde pública e da qualidade de vida das famílias indígenas.

Os anos de 2015 a 2023 simbolizam um período de renovação e fortalecimento da Terra Indígena Kariri-Xocó, marcado pela integração entre tradição e desenvolvimento. A implantação do Centro Cultural Sabucá, da Aldeia Cultural Opará e da Nova Estação de Abastecimento e Tratamento de Água demonstra que a valorização da identidade cultural pode caminhar lado a lado com a melhoria da infraestrutura e do bem-estar coletivo. Esses espaços consolidaram-se como importantes patrimônios da comunidade, contribuindo para a preservação da memória ancestral, para o fortalecimento do turismo de base comunitária e para a construção de um futuro mais sustentável para as atuais e futuras gerações do povo Kariri-Xocó.





CAPÍTULO XII - PATRIMÔNIO MATERIAL E MEMÓRIA COLETIVA DOS KARIRI-XOCÓ

A história do povo Kariri-Xocó não se limita aos acontecimentos políticos, econômicos e sociais registrados ao longo do tempo. Ela também está presente nos lugares, nas construções, nas paisagens, nos objetos e, sobretudo, na memória coletiva transmitida entre as gerações. A preservação desse patrimônio material e imaterial constitui um dos maiores desafios e, ao mesmo tempo, uma das mais importantes formas de fortalecimento da identidade indígena, garantindo que as experiências do passado permaneçam vivas para orientar o presente e inspirar o futuro.

A antiga Fazenda Modelo Agropecuária, implantada em terras tradicionalmente ocupadas pelos Kariri-Xocó, foi gradualmente recuperada pela comunidade após o movimento de retomada iniciado em 1978. Com a regularização e demarcação do território indígena nas décadas seguintes, a área passou a ser oficialmente reconhecida como Terra Indígena (TI), assegurando à comunidade o direito de usufruto coletivo de suas terras ancestrais. Nesse espaço consolidou-se a nova unidade sociocultural e habitacional da etnia, conhecida simplesmente como Aldeia Kariri-Xocó.

A permanência da memória ancestral no território manifesta-se especialmente em locais históricos como o Alto Bode, área associada às antigas ocupações dos antepassados Kariri e Xocó. Até o final do século XVIII, diversas famílias indígenas habitavam essas terras às margens do rio São Francisco. A partir de 1923, parte desse território foi incorporada a projetos governamentais vinculados ao Centro Agrícola e à Fazenda Modelo, situação que perdurou até a recuperação gradual das terras pela comunidade a partir de 1978.

Ao longo do tempo, muitas construções erguidas durante o período da Fazenda Modelo desapareceram ou foram profundamente modificadas. Antigos alojamentos, galpões, baias, residências de funcionários e prédios administrativos deram lugar a novas estruturas comunitárias ou foram adaptados para atender às necessidades habitacionais das famílias indígenas. Embora parte desse patrimônio físico tenha sido transformada, sua memória permanece preservada nos relatos dos moradores e na história da comunidade.

Entre os principais desafios para a preservação do patrimônio histórico indígena está a valorização da tradição oral, transmitida através das conversas familiares, dos encontros comunitários e das fogueiras das histórias, onde os mais velhos compartilham conhecimentos, experiências e ensinamentos. Paralelamente, cresce a importância da escrita e da publicação de obras produzidas por autores indígenas, contribuindo para registrar e difundir a história, a cultura e a visão de mundo dos Kariri-Xocó para as novas gerações.

As narrativas dos anciãos e as fontes orais constituem um patrimônio de valor inestimável. O registro dessas memórias por meio de entrevistas, gravações, fotografias, documentos e publicações possibilita a construção de acervos físicos e virtuais voltados à preservação da história coletiva da comunidade. Esses registros fortalecem a identidade cultural, promovem a valorização dos saberes tradicionais e garantem que o legado dos antepassados permaneça acessível às gerações futuras.

Conclui-se que o patrimônio material e a memória coletiva dos Kariri-Xocó representam muito mais do que vestígios do passado. São elementos vivos que conectam território, identidade, cultura e pertencimento. Preservar a memória da Aldeia, dos antigos espaços ocupados, das lutas pela terra e das narrativas transmitidas pelos anciãos significa assegurar a continuidade histórica do povo Kariri-Xocó. Dessa forma, cada relato, documento, fotografia, construção remanescente ou obra produzida pela comunidade transforma-se em testemunho permanente de sua resistência, reafirmando seu papel como patrimônio histórico, cultural e humano do Baixo São Francisco e do Brasil.





CONSIDERAÇÕES FINAIS

A trajetória apresentada nesta obra demonstra que a história da Aldeia Kariri-Xocó é resultado de um longo processo de permanência, transformação e resistência. Dos antigos marcos territoriais às atuais iniciativas culturais e comunitárias, cada geração contribuiu para a construção de um patrimônio coletivo que ultrapassa os limites físicos do território e se manifesta na memória, na identidade e nos saberes tradicionais do povo.

As construções, instituições, espaços produtivos e equipamentos comunitários descritos ao longo dos capítulos representam diferentes momentos históricos que moldaram a realidade contemporânea da aldeia. Ao mesmo tempo, revelam a capacidade dos Kariri-Xocó de adaptar-se às mudanças sem abandonar os valores culturais herdados de seus ancestrais.

Este livro busca contribuir para a preservação da memória histórica da comunidade, valorizando as narrativas dos anciãos, os registros documentais e as experiências vividas pelas famílias indígenas ao longo de mais de duzentos anos. Que estas páginas sirvam como fonte de conhecimento, reflexão e inspiração para pesquisadores, estudantes, lideranças e, principalmente, para as futuras gerações Kariri-Xocó.

Preservar a memória é preservar a própria existência. E enquanto a história continuar sendo contada, a identidade do povo Kariri-Xocó continuará viva, fortalecendo sua ligação com a terra, com seus ancestrais e com o futuro.
Nhenety Kariri-Xocó
Porto Real do Colégio – Alagoas
2026






REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 



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MILITÃO, José Eudes. Entrevista de um Ancião Kariri-Xocó: Aldeia Kariri-Xocó, Porto Real do Colégio-AL, 14 abr. 2021.






SOBRE O AUTOR


Nhenety Kariri-Xocó é pesquisador independente, contador de histórias oral e escrita, memorialista indígena e integrante do povo Kariri-Xocó de Porto Real do Colégio, Alagoas.

Dedica-se à preservação da memória ancestral dos povos indígenas do Nordeste brasileiro, especialmente das tradições históricas e culturais do Baixo São Francisco.

É autor de pesquisas, registros genealógicos e estudos etno-históricos publicados em plataformas digitais e projetos culturais relacionados à memória indígena nordestina.






Autor: Nhenety Kariri-Xocó