quinta-feira, 5 de março de 2026

UCHÉTÉ IWORÓ, O TEMPO GIRA AS COISAS VEM






1. FALSA FOLHA DE ROSTO


UCHÉTÉ IWORÓ

O TEMPO GIRA AS COISAS VEM

Contos do Povo Kariri-Xocó

Nhenety Kariri-Xocó





2. VERSO DA FALSA FOLHA DE ROSTO


Obra literária composta por contos de tradição oral e memória cultural do povo indígena Kariri-Xocó, organizada e escrita por Nhenety Kariri-Xocó, contador de histórias oral e escrita.

Os contos apresentados nesta obra foram originalmente publicados no blog do autor:

kxnhenety.blogspot.com

Esta obra reúne narrativas que dialogam com o tempo, a memória, a natureza, o alimento, o trabalho e a resistência do povo Kariri-Xocó do rio Opará.



3. FOLHA DE ROSTO (FRONTISPÍCIO)


UCHÉTÉ IWORÓ

O TEMPO GIRA AS COISAS VEM

Contos do povo Kariri-Xocó

Autor

Nhenety Kariri-Xocó

Brasil

2026





4. FICHA CATALOGRÁFICA (MODELO)


Ficha catalográfica simplificada (depois pode ser adaptada por bibliotecário).


N972u

Kariri-Xocó, Nhenety 

Uchété Iworó: o tempo gira as coisas vem : contos do povo Kariri-Xocó / Nhenety Kariri-Xocó. – Brasil, 2026.

Livro de contos que reúne narrativas sobre memória, natureza, alimentação tradicional, trabalho comunitário e resistência cultural do povo indígena Kariri-Xocó do baixo rio São Francisco.

Literatura indígena brasileira

Cultura Kariri-Xocó

Contos tradicionais

Memória cultural indígena

CDD: 869.93






PREFÁCIO OFICIAL DA COLEÇÃO


Esta obra integra o Acervo Virtual Bibliográfico Nhenety Kariri-Xocó, iniciativa dedicada à preservação, produção e difusão do conhecimento construído a partir das vivências culturais do povo Kariri-Xocó.

Fundamentado na memória, na ancestralidade e na experiência histórica, o Acervo orienta-se pela compreensão de que o saber se constrói por meio de encontros, trocas e transformações culturais ao longo do tempo.

Os elementos culturais, científicos e literários oriundos de diferentes povos e autores são respeitados em suas origens, sendo compreendidos como influências legítimas no processo de formação do conhecimento, sem reivindicação de autoria sobre tais contribuições.

Ao mesmo tempo, reconhece-se a existência de uma produção autoral própria, resultante da interpretação singular da realidade vivida.

Dessa forma, a presente obra se insere em uma continuidade cultural dinâmica, na qual tradição e criação se articulam, preservando identidades e projetando novos horizontes.





ESCLARECIMENTO DO AUTOR


A presente obra constitui, neste momento, um pré-projeto editorial em fase de estruturação acadêmica e organização bibliográfica.

Sua versão definitiva será futuramente submetida aos processos de revisão, diagramação, normalização segundo os padrões da ABNT, catalogação bibliográfica, classificação CDD e obtenção de ISBN oficial.

Enquanto perdurar esta etapa preparatória, parte das informações editoriais apresentadas possui caráter provisório e simbólico, destinando-se exclusivamente à identificação preliminar da obra.

O autor reafirma o compromisso com a preservação cultural, histórica e intelectual do acervo desenvolvido ao longo de suas pesquisas e produções literárias.



Nhenety Kariri-Xocó 





5. DEDICATÓRIA


Dedico este livro ao meu povo Kariri-Xocó, guardião do rio Opará, da terra e da memória.

Dedico também aos anciãos e anciãs, que ensinaram que a palavra é semente e que a história só vive quando é contada.

E às novas gerações, para que nunca esqueçam que o tempo gira, mas a memória permanece.





6. AGRADECIMENTOS


Agradeço primeiramente à Raddadé, a Mãe Terra, que sustenta a vida de todos os povos.

Aos anciãos e anciãs do povo Kariri-Xocó, que guardaram a memória e a transmitiram de geração em geração.

À minha comunidade, que mantém viva a tradição do Toré, da roça, da pesca, da cerâmica e da palavra contada ao redor da fogueira.

Aos leitores que se aproximam desta obra com respeito, buscando compreender a riqueza da cultura indígena.



7. EPÍGRAFE


"Enquanto houver quem conte e quem escute,

o tempo do nosso povo nunca será esquecido."

— Sabedoria Kariri-Xocó





8. SUMÁRIO 


Prefácio Oficial da Coleção 

Esclarecimento do Autor 

Dedicatória

Agradecimentos

Epígrafe

Sumário

Prefácio do Volume 

Apresentação

Introdução

Contos  ( 01 a 10 )

Conto 01 - Kayáuché Batti – O Tempo que Caminha com a Lua 

Conto 02 - Amiteá Uanhoá Tseho – O Saber da Comida Kariri 

Conto 03 - Uché Wongheré – O Tempo da Pobreza 

Conto 04 - Naté Bechiéá  – Trabalho na Roça

Conto 05 - Uché Uttihuá – O Tempo das Frutas

Conto 06 - Uché Amite Eicoré – Tempo do Alimento Escasso

Conto 07 - Woroy Eráye – A História da Casa Grande 

Conto 08 - Dipete Amiteá – A Doação de Alimentos

Conto 09 - Uanienaté – O Tempo e as Vocações do Povo

Conto 10 - Benheokli Benheye, O Telefone Orelhão

Glossário Kariri-Xocó

Apêndices

Referências Bibliográficas 

Sobre a Obra

Dados Biográficos do Autor

Referências culturais





9. PREFÁCIO DO VOLUME 


O livro “Uchété Iworó – O Tempo Gira as Coisas Vem” apresenta ao leitor um conjunto de contos profundamente enraizados na tradição cultural do povo indígena Kariri-Xocó, habitante das margens do rio Opará, no baixo São Francisco.

As narrativas reunidas por Nhenety Kariri-Xocó dialogam com uma tradição milenar de transmissão de conhecimento por meio da oralidade. Cada conto funciona como uma memória viva, na qual o tempo não é apenas uma medida cronológica, mas um ciclo ligado à natureza, à lua, às estações e à vida coletiva da aldeia.

Ao narrar histórias sobre o calendário lunar, a alimentação tradicional, o trabalho na roça, o tempo das frutas, a escassez e a resistência do povo, o autor preserva e compartilha saberes ancestrais que muitas vezes não estão registrados em livros.

Assim, esta obra não é apenas um livro de contos, mas também um registro cultural, histórico e simbólico da experiência indígena Kariri-Xocó.





10. APRESENTAÇÃO


Esta obra reúne dez contos de autoria de Nhenety Kariri-Xocó, originalmente publicados em seu blog.

As histórias são inspiradas nas memórias, ensinamentos e experiências culturais do povo Kariri-Xocó, que vive às margens do rio Opará, no estado de Alagoas.

Os contos apresentam personagens, situações e conhecimentos ligados à vida cotidiana da aldeia, como:

o calendário lunar indígena

o saber tradicional da alimentação

o trabalho coletivo na roça

os tempos de fartura e de escassez

a memória histórica do povo

Cada narrativa busca preservar a tradição da história contada ao redor da fogueira, prática fundamental na transmissão do conhecimento entre gerações.





11. INTRODUÇÃO


Na cultura indígena, o tempo não é apenas contado — ele é vivido, observado e sentido.

Entre o povo Kariri-Xocó, o tempo se manifesta no movimento da lua, na subida do rio, no amadurecimento das frutas e no trabalho coletivo da comunidade. Cada ciclo traz ensinamentos e memórias que orientam a vida do povo.

O título desta obra, “Uchété Iworó – O Tempo Gira as Coisas Vem”, expressa essa compreensão circular do tempo, em que passado, presente e futuro caminham juntos.

Os contos aqui reunidos são narrativas que nascem da tradição oral e da observação da vida cotidiana. Eles registram experiências de resistência cultural, sabedoria ancestral e relação sagrada com a natureza.

Ao reunir esses textos em forma de livro, o autor busca contribuir para a valorização da literatura indígena brasileira e para a preservação da memória cultural do povo Kariri-Xocó.





12. CONTOS  ( 01 a 10 )



01. KAYÁUCHÉ BATTI – O TEMPO QUE CAMINHA COM A LUA 





 


Inamarú aprendeu cedo que o tempo não se conta com números, mas com sinais. Foi Inamarú, o mais velho da aldeia, quem lhe ensinou a ouvir o céu e a terra, a perceber quando a lua fala e quando o rio responde. Sentados à beira do Opará, sob o canto distante das cigarras, o velho iniciou mais uma vez o ensinamento do Kayáuché Batti, o Calendário do Tempo Lunar do povo Kariri-Xocó.

— Escuta, Tanoãny, disse Inamarú, apontando para o céu ainda pálido. — Nosso Radda Uanie, o Mundo Indígena, não nasce dos meses do homem branco. Ele nasce da lua, do vento, da chuva e do alimento.

Na Matikay Kayaku, a Lua da Festa Ritual do Ouricuri, o povo se reúne. É tempo do Akryte, o caju maduro, e dos Tidzebæ, os relâmpagos que riscam o céu como mensagens dos antepassados. Inamarú lembrava-se das danças, do cheiro da mata e do silêncio respeitoso antes do ritual.

Quando chega a Mydzé Kayaku, a Lua dos Peixes, o rio se agita. É a piracema, a subida dos peixes, e também o tempo do Buruhúá, quando as mãos dos artesãos trabalham sem descanso. Inamarú sorria ao ver Tanoãny observando as redes sendo lançadas e os cestos sendo trançados.

Na Uanhí Kayaku, a Lua da Lavoura, a terra é aberta com cuidado. Planta-se Masiche, o milho, e Ghinhé, o feijão. Já na Içá Kayaku, a Lua das Tanajuras, as formigas alçam voo para formar novos mundos sob a terra, ensinando que recomeçar é parte da vida.

A Siné Kayaku, a Lua Escura, traz respeito e atenção. As cobras aparecem, e com elas o aviso de que mudanças caminham. Logo depois vem a Dzó Kayaku, a Lua da Chuva. O som das Dzóá cai sobre a aldeia, e o milho verde alimenta corpos e histórias.

Na Curuté Kayaku, Lua da Colheita, o milho e o feijão secaram. É tempo de colher, comer e trocar. A Cunhí Kayaku, Lua do Frio, cobre a terra de neblina e prepara o solo para descansar sob o sol que retorna.

Quando o calor chega com a Hiaidé Kayaku, a Lua do Sol, inicia-se o Naté Ruñohú, o trabalho cerâmico. As mãos moldam o barro, como os antigos ensinaram. Na Puruá Kayaku, Lua das Flores, os ventos correm livres e as Cattiá, as abelhas, fazem o mel entre as árvores em flor.

Na Bunhawí Kayaku, a Lua da Cerâmica, na Ubacródzu, a Canoa do Porto, os potes e panelas são queimados no fogo certo, prontos para ganhar o mundo. Por fim, chega a Pehó Kayaku, a Lua da Enxurrada. O Opará sobe, trazendo força e lembrança, fechando o ciclo do tempo.

Inamarú silenciou. Tanoãny olhou para o céu e compreendeu: o tempo não termina, apenas se transforma. Enquanto houver lua, rio e palavra, o Kayáuché Batti continuará caminhando com o povo Kariri-Xocó.

E assim, o ensinamento seguiu, de ouvido a ouvido, de geração a geração.





02. AMITEÁ UANHOÁ TSEHO – O SABER DA COMIDA KARIRI






Nas Natiá, as aldeias antigas dos Kariri do Opará e da Caatinga do sertão, o sol nascia sempre acompanhado do cheiro da terra aquecida e do canto dos pássaros. Ali vivia Suiara, mulher sábia, conhecedora dos Amiteá, os alimentos que sustentavam o corpo e o espírito de seu povo. Diziam que Suiara aprendia ouvindo a Antse, a Natureza, e que cada alimento lhe falava em silêncio.

Suas filhas, Nayane e Amany, já eram moças curiosas. Queriam aprender tudo o que a mãe sabia, pois entendiam que o saber da comida era também o saber da vida. Naquela manhã, sentaram-se ao redor da fogueira, enquanto Suiara preparava a Runhú, a panela de barro, e começou a ensinar.

— Antes dos Peró, os portugueses, — disse Suiara — nosso povo já conhecia os Uanhoá, os costumes que vinham da Retsé, da floresta, e dos Iwoá, os rios.

Ela mostrou os Wãmyá, peixes pescados com respeito; os Uttihu, frutos colhidos no tempo certo; os Keritóá, animais de caça; os Tudjeá, legumes da roça; e o Kati, o mel doce oferecido pelas abelhas da mata.

Nayane observava enquanto a mãe colocava os ingredientes no fogo. Amany ajudava a preparar o Aribá, o prato de barro, e o Babasité, o espeto para assar a carne. Mais adiante, Suiara apontou o Badzuru, o moquém onde as carnes eram defumadas lentamente, e o Bubehó, o forno que guardava o calor da terra.

— Foi assim que aprendemos a fazer o Saredu, o bolo doce de mandioca; o Woudu, de massa simples; o Waraeró, o beijú assado; e a Sekiki, a farinha fina e seca — explicou com calma.

À noite, enquanto a lua subia, Suiara falou das bebidas. Contou sobre o Bydzu, licor doce misturado com frutas e mel; o Yeru, o vinho trazido pelos capuchinhos; e o Nhupy, vinho de milho fermentado naturalmente, preparado com paciência e respeito.

— Não é só comida, minhas filhas — disse ela — é memória.

Suiara ensinou também o Creyá, a técnica de assar sob a terra; o Madzó, milho verde nas brasas; o Waredú, bolo de mandioca adocicado com mel de uruçú. Falou do tempo em que chegaram os colonizadores, trazendo o gado e a Riné, a carne salgada, e o Crodzó, a carne de boi cozida ou assada.

Por fim, reuniu os alimentos que nunca faltaram: o Ghinhé, feijão companheiro de tudo; a Muicú, mandioca de muitas formas; a Bacobá, banana simples ou em mingau; e o Obó, fruto do umbu, que virava embuzada nos tempos de seca.

Nayane e Amany ouviram em silêncio. Sabiam que aquele aprendizado não estava apenas na palavra, mas no gesto, no fogo e no tempo. Ao final, abraçaram a mãe.

E Suiara sorriu, certa de que o saber dos Kariri continuaria vivo, passando de geração em geração, como o fogo que nunca se apaga.





03. UCHÉ WONGHERÉ – O TEMPO DA POBREZA






A fogueira ardia mansa no centro da aldeia. As chamas dançavam como espíritos antigos, lançando sombras nas paredes de barro das casas. As crianças se achegavam, os mais velhos sentavam em silêncio. Era tempo de escuta.

Neêperé, a anciã, ajeitou o manto sobre os ombros marcados pelos anos e chamou com a voz calma:

— Indaiá, venha mais perto, minha neta. Hoje vou falar do Uché Wongheré, o tempo da pobreza… para que você nunca esqueça.

Indaiá sentou-se aos pés da avó, os olhos atentos, enquanto o povo se aproximava. Quando Neêperé falava, era como se a própria terra respirasse.

— Houve um tempo — começou ela — em que os Uanieá, nosso povo indígena, viviam em harmonia com a Antse, a Natureza. A Radda, a Terra, nos dava sustento. Da Retsé, a Floresta, vinham os alimentos, os remédios, os ensinamentos. Havia fartura todos os dias, e o coração do povo era leve.

O fogo estalou, como se confirmasse aquelas palavras antigas.

— Mas então veio outro Uché, outro tempo… o tempo da chegada dos Caraí, os brancos. Vieram os Peró, os portugueses, junto com os missionários. Criaram a Natiwaré, a Aldeia dos Padres, reunindo indígenas sob regras que não eram as nossas.

Neêperé fez uma pausa. Seus olhos marejaram, mas a voz seguiu firme.

— Anos depois, aquela aldeia deixou de ser aldeia. A Woroby, a notícia, chegou dura: a Natiá havia se tornado Naticróraí, um povoado de brancos, uma cidade. Diziam que agora ali viviam os Uanaraí, caboclos, mistura de indígenas e brancos. Mas para nós… foi o começo da perda.

Indaiá apertou a mão da avó.

— Os Uanieá perderam seus Honéá, seus direitos sobre a Radda, a Terra. Foi uma grande Dzeyá, uma tristeza profunda. Começou nosso Unu, o sofrimento. A Ami, a fome, entrou na aldeia como um vento frio que não vai embora.

Algumas pessoas ao redor abaixaram a cabeça. Outras deixaram cair silenciosas Pocú, lágrimas antigas.

— Fomos empurrados para a Woderáehó Uanieá, a Rua dos Índios. Ali, muitos homens começaram a Wodó, a se embebedar, tentando calar a dor. O Tseho, o povo, adoeceu, caiu em Canghikié, estado de doença do corpo e da alma.

A anciã respirou fundo antes de continuar.

— Muitos partiram para o Naté Wanheré, trabalhar nas fazendas dos brancos. As Tetsiá, as mulheres, foram levadas para as Erácaraí, as casas dos brancos, como domésticas. Era Arancreru, vergonhoso. Vestíamos Roruréá, roupas velhas, e vivíamos na Wongheré, a pobreza.

O silêncio pesou, quebrado apenas pelo som do fogo.

Então Neêperé ergueu o olhar, firme como tronco antigo.

— Mas, minha neta, escute bem: mesmo na dor, nunca perdemos a Coram, a esperança. Depois de muitos anos de sofrimento, o povo entendeu que precisava Teudiokié Honéá, lutar pelos seus direitos.

Ela sorriu, suave.

— Essa é a nossa história. Foi assim quando a Natiá, a aldeia, virou Naticróraí, a cidade dos brancos. Mas também foi assim que aprendemos a resistir, a lembrar quem somos e a ensinar aos mais novos.

Neêperé acariciou os cabelos de Indaiá.

— Enquanto houver quem conte e quem escute, nosso tempo não será esquecido.

A fogueira continuou acesa. E a memória também.





04. NATÉ BECHIÉÁ – TRABALHO NA ROÇA






Naquela noite clara, sob o céu costurado de estrelas, a fogueira ardia no centro da Natiá, a Aldeia. O fogo estalava como se também quisesse contar histórias. Em roda, sentados sobre a terra firme, estavam os anrotseá, os anciãos, com seus olhos profundos voltados tanto para as chamas quanto para o passado.

O velho pajé Suíra passou a mão lenta pela barba branca e falou com voz mansa, mas firme. Era tempo de bechiéá, o trabalho na roça. A lua já anunciava o Uanhí Kayaku — a Lua da Lavoura, no mês de março. Irecê, atento ao céu e à terra, confirmou: era o período do tçate retsé, o cortar do mato, feito com a creyahé, a foice que abre caminho para o plantio.

Ynorá, sentada perto da fogueira, escutava em silêncio. Aprendia que, depois do mato cortado, vinha a coivara, o queimar do mato seco, para que a terra se tornasse uanhídda — terra boa para lavoura, viva e pronta para receber a semente.

Dias depois, a aldeia despertou com o som do mutirão. Homens, mulheres, jovens e velhos se reuniram para roçar o mato, arrancar tocos e preparar a coivara. Era o trabalho coletivo de entreajuda, onde ninguém ficava sozinho.

Na manhã seguinte, os anraná pegaram a tasí, a enxada, e começaram a cavar a terra. As tetsiá, com mãos sábias, plantaram masiche (milho), ghinhé (feijão), eremú (abóbora), muicú (mandioca) e endi (algodão). Nos arredores da Natiá, as mulheres também plantaram bacobá (banana), behedzí (melancia), propwi (melão-de-são-caetano) e tané (fumo). Cada semente lançada era um gesto de fé no futuro.

Quando o sol já se inclinava no céu, o Wontyrõ  "mutirão" chegou ao fim. Então foi servido o Amíuyõ, a comida coletiva de muitos. O alimento partilhado aquecia o corpo, e a presença reunida aquecia o espírito.

Foi nesse momento que o pajé Suíra se levantou. O silêncio se fez. Ele agradeceu a todos por manterem viva a tradição, mas sua voz carregava preocupação. Disse que, a cada batti — a cada ano — via menos gente nos mutirões. Falou das ibaranúá, as motos; do ibápohduá, o automóvel; e do tokliddaysã, o telefone celular, que aos poucos afastavam as pessoas da roça e da convivência.

— A agricultura é a base de nossa alimentação — disse ele. — Nossos produtos são puros, livres de contaminação. Eles trazem saúde para o corpo e para o espírito. Podemos usar a tecnologia, sim, mas nunca abandonar nossa tradição e nossa cultura.

As palavras do velho pajé tocaram fundo. Um a um, todos concordaram. Prometeram continuar o bechiéá, o trabalho na roça, como os antigos ensinaram.

Passado algum tempo, chegou a Curuté Kayaku — a Lua da Colheita, no mês de julho. A aldeia se reuniu novamente em grande mutirão. A terra respondeu generosa: colheram muito milho, feijão, abóbora e melancia. A fartura encheu os cestos e os corações.

À noite, a comunidade celebrou em um grande Toré. Os pés batiam a terra, os cantos subiam ao céu, e todos agradeceram à Raddadé, a Mãe Terra, pela abundância da grande roça comunitária. A fogueira, mais uma vez, iluminava rostos felizes — e a tradição seguia viva, passada de geração em geração.





05. UCHÉ UTTIHUÁ – O TEMPO DAS FRUTAS






Quando o sol começava a dourar as margens do Opará e a Pehó Kayaku, a Lua da Enxurrada, surgia no céu de dezembro, a Aldeia Kariri-Xocó despertava para o Uché Uttihuá, o Tempo das Frutas. Era um tempo antigo, vivido desde antes da chegada dos colonizadores, mas que aprendeu a conviver com as mudanças trazidas pelos séculos de contato.

Naquele amanhecer, Curiãny, mulher forte e de passos firmes, atravessava o caminho de terra com um grande Setuá Uttihu, o balaio de frutas, equilibrado na cabeça. Seu corpo conhecia o peso da fartura e o valor da colheita. No balaio, misturavam-se as Uttihuá Caraí, frutas trazidas pelos brancos — mangas maduras, laranjas perfumadas, uvas doces — com as Uttihuá Uanieá, frutas indígenas colhidas na mata e na várzea.

Curiãny vinha da Pohó Itiúba, a Várzea do Rio da Canoa, onde a terra negra e molhada oferecia abacaxis, goiabas, mamões e jabuticabas. Em seus pensamentos, ela lembrava que aquela terra havia alimentado gerações, muito antes das cidades nascerem às margens do rio.

Perto da aldeia, o cheiro do barro queimado anunciava o trabalho de Soyá, a ceramista. Sentada à sombra, ela alisava com cuidado um Ruño, o pote de barro, moldado com saber herdado dos antigos. O barro vinha do chão, a água do rio, e o fogo dava forma ao que serviria para guardar alimentos, água e histórias.

— Hoje é dia de troca — disse Soyá, ao ver Curiãny se aproximar.

— Dia de fartura — respondeu a mulher do balaio, sorrindo.

O Ruño passou das mãos de Soyá para as de Curiãny, e as frutas seguiram o caminho contrário. Assim era o costume: a cerâmica encontrava as frutas, e o trabalho encontrava o alimento, num equilíbrio que mantinha viva a aldeia.

Perto dali, as jovens Anary e Rayná observavam tudo com olhos atentos. Elas carregavam pequenos cestos e aprendiam, em silêncio, o valor daquele tempo. Anary admirava a força de Curiãny, enquanto Rayná se encantava com os desenhos simples gravados no barro de Soyá.

— É no Uché Uttihuá que o povo se fortalece — disse a mais velha da aldeia, aproximando-se. — É quando as frutas amadurecem e o espírito se prepara para a Matikay Kayaku, a Lua da Festa Ritual do Ouricuri.

As meninas sabiam que, naquele tempo, também chegavam as Uttihuá Retsé, as frutas silvestres: ubáia, maracujá-do-mato, quixaba, gobiraba, gravatá e gavadî. Frutas que não vinham das cidades, mas da mata que ainda resistia.

Às vezes, as frutas também chegavam pelas águas, trazidas das Naticróbeá, as cidades ribeirinhas. Vinham na Ubacródzu, a Canoa dos Portos, em longas viagens onde o povo trocava cerâmica por alimentos, mantendo laços antigos com o rio.

Quando a noite caiu, a aldeia se encheu de vozes, cantos e risos. O Tempo das Frutas não era apenas de comer, mas de lembrar, celebrar e agradecer. Entre balaios, potes de barro e luas que passavam, o povo Kariri-Xocó seguia mantendo vivo o que nunca se perdeu: a relação sagrada entre a terra, o rio e o saber ancestral.

E assim, enquanto as frutas amadureciam, amadurecia também a memória do povo.





06. UCHÉ AMITE EICORÉ – TEMPO DE ALIMENTO ESCASSO






Naquele tempo antigo, que os mais velhos chamam de Tudenhé, o Passado, a terra falava pouco e o céu se fechava. O Iwo Crocrá, o Rio Seco, estendia seu leito rachado como se fosse pele cansada, e as Dzurióá, as lagoas, guardavam apenas um resto de água, espelhando o sol forte do verão. As Dzóá, as chuvas, demoravam a chegar, e o Amite, o alimento, tornava-se raro.

Era nessas horas que o ancião Ibamurú, que conheceu muitos tempos difíceis, reunia as crianças e os jovens sob a sombra do ouricuri. Sua voz era baixa, mas firme, carregada de memória.

— Esse é o tempo do Uchê Amite Eicoré, dizia ele. Tempo de escassez, mas também de ensinamento.

Ao seu lado estava Marú, seu filho, já homem feito, atento a cada palavra do pai. E um pouco mais à frente, sentada sobre uma raiz grossa, estava Inauãny, sua sobrinha, olhos curiosos, aprendendo com o silêncio tanto quanto com a fala.

Ibamurú ensinava que, quando o alimento falta, o povo não se perde. Aprende a olhar de novo para a terra.

— Nas Dzurióá com pouca água, explicava ele, ainda vivem o Musũ, peixe alongado, a Piaba, o Sãmbá, o cágado paciente, e o Myghy, o caramujo que se esconde, mas não some.

Marú lembrava das vezes em que, com cuidado, pescavam apenas o necessário, respeitando o tempo da lagoa. Inauãny observava como cada gesto tinha medida, como nada era tirado além do que o corpo precisava.

Na Retsé, a floresta do Ouricuri, o povo buscava o que a terra oferecia em silêncio: o Kariru, planta que enche o cesto, o Majõgomy, o beldroegão que fortalece; o Igaboró, o inhame-bravo, que só quem conhece sabe preparar.

— A floresta ensina paciência, dizia Ibamurú. Ela testa quem anda nela.

No Merá, o campo aberto, surgia o Dupami, a frutinha vermelha chamada mata-fome, e o Umari, fruto do marizeiro. As amêndoas eram levadas ao fogo para Udé, cozinhar, e depois repartidas em Bohé, a coletividade, porque ninguém comia sozinho.

Na Sitó, a caça, vinham a Tijubina, lagarto bico-doce, e o Bani, o mocó ágil das pedras, o Cóaca "Caroço de Jaca" e a Jety "Batata-doce" que eram assadas na brasa tem um bom sabor. Sempre com respeito, sempre agradecendo.

Quando a noite chegava, Inauãny perguntava:

— Vovô Ibamurú, como nosso povo resistiu a tudo isso?

O ancião sorria, olhando o fogo dançar.

— Resistimos porque nunca esquecemos o Samy, nossa cultura, nem o Nhenetí, nossas tradições. A fome pode apertar o corpo, mas não pode vencer a memória.

Marú completava, olhando para a nova geração:

— Enquanto soubermos ouvir os mais velhos e respeitar a terra, o povo Kariri-Xocó nunca estará perdido.

E assim, no tempo do alimento escasso, o povo aprendeu que sobreviver não era apenas comer, mas lembrar quem se é.





07. WOROY ERÁYE – A HISTÓRIA DA CASA GRANDE






A Casa Grande sempre esteve ali, silenciosa e atenta, como se guardasse em suas paredes a respiração antiga da terra. Chamávamos de Eráye ou Picriá e ela não era apenas uma casa: era um marco, um sinal de mudança, um ponto de travessia na história do povo Kariri-Xocó.

A história da Fazenda Sementeira é muito antiga. Ao longo do tempo, aquela propriedade teve vários nomes e diferentes sedes administrativas, acompanhando os interesses dos brancos e do Estado. O prédio da Casa Grande, como sede principal, correspondeu apenas a uma das fases dessa longa história de ocupação e transformação do território indígena.

Quando, em 1978, retomamos a Fazenda Modelo — conhecida também como Sementeira — a Casa Grande deixou de ser sede de fazenda para tornar-se abrigo de muitas vidas. Funcionários da CODEVASF foram retirados, e nós, indígenas Kariri-Xocó, ocupamos as construções que ali existiam: casarões antigos, galpões, cocheiras, escola, casas de funcionários. Quem não encontrou teto, ergueu barracas. A terra nos recebia novamente.

A Casa Grande tornou-se lar de vinte e duas famílias. Cada porta, cada canto, cada alpendre guardava uma história. Ali viveram Alírio e Maria de Lourdes, Ivete e Antônio Cruz, Luiza Tenório e família, Arnaldo e Chica, Zé Brinquinho e Especília, Helena Tenório e Lucineide, Mané Galo e Ianí, Antônio Tenório e Landa, Gena e Zeire, Dinalva e Juarez, Zé Tenório e Givalda, Gergina e família, Gringo e Antônia, Maria Vermelha e Miguel Suíra, o cacique Cícero e Anália, Zé Gatinho e Eurides, Paulo Nunes e Maria Véia, Zé Taré e Antônia. Havia ainda Zefina, Vera, Roselita e Euda — famílias do coração, unidas pelos filhos e pela convivência.

Eu, Nhenety, morei ali com minha família. Por isso conto essa história.

A Casa Grande era cheia de vida. Os mais velhos contavam histórias ao cair da noite, enquanto os adultos saíam para pescar nas lagoas fartas. Nos fundos, o alpendre se enchia de fogos de lenha acesos, e tudo era repartido: comida, palavra, silêncio. À noite, redes armadas, lençóis no chão, esteiras e tapetes acolhiam corpos cansados, mas esperançosos.

Em 1979, veio a grande enchente. Ficamos ilhados. Os meninos saíam para colher mangas nas margens do Rio São Francisco, que parecia não ter fim. O alimento enviado pelo governo chegou e amenizou a fome por alguns dias, mas foi a união que nos sustentou.

Atrás da Casa Grande ficava a Dzurichi, a Lagoa Comprida. Ali pescávamos e plantávamos arroz. Suas águas banhavam o Hechi Wathõ, o Alto do Bode, morro sagrado onde antes existira a Natianie, a antiga aldeia indígena tradicional. A terra falava conosco, mesmo quando não percebíamos.


Outro fato importante sobre o local da Casa Grande me foi contado pela velha índia Mareinha. Um dia, ela me disse assim:


— Olha, Nhenety, esse lugar onde hoje fica a Casa Grande foi, no final do século XVIII, morada do Pajé Ludovico. A casinha do pajé era coberta com casca de jatobá. Depois que ele morreu, anos mais tarde, os brancos tomaram o local.

Essa palavra ficou guardada em mim como semente, mostrando que, antes das paredes de tijolo, ali já existia morada de saber, reza e cura.

Durante a enchente, os jovens que estudavam no Ginásio São Francisco, na cidade, pediram ao prefeito uma canoa para atravessar o rio e não perder as aulas. Eu estava entre eles. Ao voltar da escola, eu, Lenoir, Zé Birrinha e Dijalma fazíamos mingau de milho com leite em pó. Era nosso jantar, simples e compartilhado.

Quando as águas baixaram, surgiu uma superpopulação de preás nos arredores. Davi e meu irmão Antônio fizeram aratacas. Pegamos muitos. Nossas mães preparavam cozidos e carnes moqueadas — comida boa, lembrança viva até hoje.

Lembro também de 1980, quando Jaime trouxe um toca-discos. No alpendre da Casa Grande dançamos ao som da música popular brasileira. A alegria também fazia parte da luta.


Certo dia, perguntei a Miguel Suíra:


— Miguel, o senhor sabe quando essa Casa Grande foi construída?


Ele respondeu com calma:


— Sei sim, Nhenety. Trabalhei aqui como servente de pedreiro, fazendo a argamassa. Essa casa foi construída em 1960 para ser sede da Fazenda Escola. Funcionou até 1978 como Fazenda Modelo. Nós, Kariri-Xocó, fomos a mão de obra dessa fazenda por décadas.

Agradeci. A Casa Grande, então, ganhou mais uma camada de memória.

Quando a terra foi conquistada, fizemos um Toré na Casa Grande. Antônio Tinga puxou o canto. Gente de todas as casas chegou para celebrar. Foi um momento forte, daqueles que não se esquecem.

Em 1981, chegou o projeto das 110 casas. Cada família deveria fabricar dez mil tijolos, queimar, trabalhar na construção. O governo fornecia cimento, madeira e telhas. Assim nasceu a Nova Aldeia. Em 1982, as casas ficaram prontas. As famílias deixaram a Casa Grande, que passou a ser sede do Posto Indígena Kariri-Xocó até 2003.

Depois disso, outras famílias ali viveram: Esso e Rita, Vânio e Cil, Galego e esposa, Mudinha e esposa, Zé Van e esposa, Vânia de Zeire e esposo, Ara e filhos. A Casa Grande continuou acolhendo.

Hoje, a Eráye é a Creche Tia Marieta. Nela, crianças pequenas aprendem a dar os primeiros passos na vida. Onde antes houve luta, hoje há riso. Onde houve enchente, hoje há futuro.

A Casa Grande permanece.

Não como ruína, mas como memória viva, fazendo novas histórias nascerem todos os dias.





08. DIPETE AMITEÁ – A DOAÇÃO DE ALIMENTOS






No Uchécrá, o Tempo da Seca, quando a terra rachava e o vento levantava o pó fino das estradas, e também nas Pehóá, o Tempo das Enchentes, quando o Opará, o grande Rio São Francisco, crescia e cobria as margens, havia uma cena que se repetia como um ritual silencioso.

Desde cedo, ainda com o sol baixo, os Uanieá — os indígenas — formavam fila diante da escola, na Woderáehó Uanieá, a Rua dos Índios. Cada pessoa trazia consigo um Setu, o cesto, vazio por fora, mas cheio de esperança por dentro. Não havia pressa. Havia espera. E na espera, a dignidade.

O governo federal, tentando aliviar a Wongheré, a pobreza trazida pelas calamidades da natureza, realizava a Dipete Amiteá, a Doação de Alimentos. Não era fartura, mas era sustento. Não era escolha, mas era sobrevivência. A doação alcançava os indígenas e também as Naticróbeá, as cidades ribeirinhas, todas dependentes do humor do rio e do céu.

Os mais velhos lembravam bem das grandes cheias. Falavam dos anos como quem conta marcas no corpo da terra: 1979, 1985, 1992… depois 2007, 2020, 2022, 2023. Cada data trazia consigo histórias de água invadindo casas, de noites acordadas, de silêncio e medo. Mas já era outro tempo: os Kariri-Xocó estavam na Wanheré Uanhícó, a Fazenda Sementeira, terra de retomada, resistência e recomeço.

Era na Eráye, também chamada Picriá, a Casa Grande, que a fila se formava. Ali, onde antes mandava o poder do não indígena, agora se reunia o povo. Um a um, os Setu se enchiam: Dzurósa, o café; Takuare'êku'i, o açúcar; Ghinhé, o feijão; Sekiche, a farinha de milho; Riné, a carne salgada; Sekiki, a farinha de mandioca. Alimentos simples, mas carregados de valor.

As pessoas saíam dali com o peso do cesto nos braços e um alívio no peito. Havia sorrisos contidos, palavras baixas, olhares de gratidão. Aquela Dipete Amiteá garantia que os filhos comeriam, que a panela fumegaria ao menos por alguns dias, que a vida seguiria apesar das dificuldades.

E assim, entre a seca e a enchente, entre a espera e a partilha, o povo Kariri-Xocó seguia caminhando. Porque mais do que alimentos, aquela fila ensinava algo antigo: resistir juntos é também uma forma de viver.





09. UANIENATÉ – O TEMPO E AS VOCAÇÕES DO POVO






O sol já caminhava lento sobre a aldeia quando dois anciãos, Tanawã e Ibaná, sentaram-se à sombra generosa de uma velha árvore. O vento leve trazia o cheiro da terra e o som distante das crianças brincando. Ali, naquele instante simples, o Uché, o Tempo, parecia escutar atento.

Tanawã olhou ao redor, como quem conversa também com os espíritos antigos, e começou a falar. Sua voz carregava a memória dos povos indígenas e dos costumes que atravessaram gerações.

— Desde os tempos mais antigos — disse ele — nossos parentes vivem do que a terra, o rio e a mata oferecem. Caçamos, pescamos, fazemos artesanato, cuidamos da roça. As mulheres moldam a cerâmica com as mãos e com o coração, outros constroem ocas, canoas e utensílios. Assim sempre foi entre os Kariri-Xocó. Tudo nasce do Itse, a Pessoa, e do Naté, o Trabalho, que sustenta a família e fortalece a comunidade. Alguns se tornam Duboheri, Mestres do saber, e outras, Duboheridé, Mestras da tradição.

Ibaná, que escutava atento, balançou a cabeça em concordância e tomou a palavra, como quem organiza os fios da memória.

— Pelo que conheço — disse ele — as profissões, os Uanienatéá, dos nossos parentes indígenas, na vida tradicional, o Nhenety, são muitas e cheias de significado. Há o Itsemydzé, o pescador e a pescadora; o Itsesitó, o caçador; o Itsenatédda, agricultor da terra sagrada; o Itsebekati, aquele que coleta o mel; o Duboruhú, mestre do artesanato; a Duboheridé Ruñohú, mestra da cerâmica; o Duboerá, mestre da oca; o Duboherubá, mestre da canoa; e o Itseandri, a pessoa do remédio, guardião da cura.

Enquanto falava, Ibaná percebeu que Madysã, sentado ali por perto, ouvia tudo em silêncio respeitoso. Então se virou para ele e perguntou:

— E você, Madysã, que hoje trabalha como farmacêutico no Posto de Saúde da aldeia, o que pensa de tudo isso?

Madysã respirou fundo antes de responder. Seus olhos traziam o brilho de quem caminha entre dois mundos.

— É verdade, meus parentes — disse ele com calma. — O mundo está mudando. Algumas profissões tradicionais tomaram novas formas, porque muitos de nós estão estudando. A profissionalização chegou às aldeias, mas não levou embora nossa essência.


Ele continuou, com a voz firme:


— Os Duboheriá, os Mestres de antes, hoje também são professores que estudaram, mas continuam ensinando com o espírito do povo. Eu mesmo estudei para ser farmacêutico e continuo sendo Itseandri, Pessoa do Remédio. No Posto de Saúde da Aldeia Kariri-Xocó, trabalham indígenas como dentistas, enfermeiras, agentes de saúde, motoristas. São novos caminhos, mas todos nascem do mesmo tronco.

O silêncio voltou a ocupar o espaço entre eles. O vento passou outra vez pelas folhas da árvore, como se aprovasse aquelas palavras. Tanawã sorriu, Ibaná fechou os olhos por um instante, e Madysã sentiu que o Tempo, o Uché, seguia seu curso — levando adiante as tradições, agora caminhando junto com os novos saberes.

E assim, entre passado e presente, o povo Kariri-Xocó continuou tecendo suas vocações, mantendo viva a memória e abrindo caminhos para o futuro.





10. BENHEOKLI BENHEYE, O TELEFONE ORELHÃO






No começo da década de 1970, quando o tempo ainda caminhava devagar pelas ruas de Colégio, chegou uma voz diferente à cidade. Não era canto de pássaro nem chamado de feira. Era fio, era campainha, era novidade. A TELESA, telefonia de Alagoas, instalou sua Eraibáme — a estação — na Rua da Aurora. Ali, pela primeira vez, o som distante atravessava o espaço e chegava inteiro ao ouvido.

Foi nesse tempo que os Kariri-Xocó conheceram o telefone, ainda vivendo na Woderáehó Uanieá, a Rua dos Índios. O aparelho parecia coisa de outro mundo: falava sem corpo, viajava sem pés. A voz saía de longe e pousava ali, dentro da sala, como se fosse visita invisível.

Os anos correram como o rio Opará. O povo Kariri-Xocó já vivia na Wanheré Uanhícó, a Fazenda Sementeira, quando, duas décadas depois, uma nova transformação chegou. Em 2002, a Telemar Norte Leste S.A. fincou nas aldeias um objeto redondo, pesado e resistente: o Benheokli Benheye — o telefone orelhão.

Não era mais preciso entrar em prédio nem pedir licença. O telefone agora morava na rua, sob o sol e a chuva, esperando quem tivesse algo a dizer. Para falar, usava-se um cartão, passado com cuidado, quase como um ritual. Cada ligação era pensada, medida, respeitada.

O Benheye virou marco. Por ele se chamava ajuda para a saúde, se resolvia viagem, se avisava chegada, se buscava remédio, se matava saudade. A aldeia passou a conversar com outras aldeias, com cidades distantes, com o mundo que antes parecia longe demais.

Havia orelhões espalhados pelos caminhos da comunidade: na Escola Estadual Indígena, no Posto Indígena Kariri-Xocó, na Associação Indígena Comunitária Kariri-Xocó. Os números eram decorados como nomes de parentes. E quando alguém precisava ligar, formava-se fila. Gente esperando, gente ouvindo pedaços de conversa, gente respeitando o tempo do outro.

Todo mundo queria usar a novidade. Falar com quem estava longe. Resolver coisa de trabalho, de estudo, de vida. O orelhão virou ponto de encontro, de expectativa, de silêncio atento.

Hoje, o Benheokli Benheye quase não se vê mais. Mas permanece vivo na memória da comunidade, como símbolo de um tempo em que a tecnologia chegou devagar, foi aprendida coletivamente e serviu, acima de tudo, para aproximar pessoas.

E assim, entre fios, cartões e vozes distantes, o telefone orelhão entrou para a história do povo Kariri-Xocó — não como objeto, mas como lembrança partilhada.




Autor dos Contos: Nhenety Kariri-Xocó 



13. APÊNDICES


Antes da escrita existir entre nós, já existiam as histórias.


Os mais velhos se reuniam ao redor das casas, nas margens do rio ou nas noites iluminadas pela lua, e contavam acontecimentos do passado para que os mais jovens conhecessem o caminho de seus ancestrais.


Assim, cada história era também um ensinamento.


As histórias falavam da terra, do rio, das dificuldades enfrentadas pelo povo, das alegrias da comunidade e das mudanças trazidas pelo tempo.


Hoje, essas narrativas continuam vivas.


Neste livro, as histórias caminham da tradição oral para a escrita, mantendo viva a memória do povo Kariri-Xocó.


Porque o tempo gira.


E quando o tempo gira, as histórias voltam.



14. GLOSSÁRIO 



Este glossário reúne algumas palavras da língua e do universo cultural Kariri-Xocó presentes nos contos do livro, permitindo ao leitor compreender melhor os significados culturais e simbólicos dessas expressões.


Amite – alimento, comida.

Benheokli Benheye – telefone orelhão.

Bohé – coletividade, partilha entre as pessoas da comunidade.

Dzóá – chuvas.

Dzurióá – lagoas.

Dzurichi – lagoa comprida.

Eráye / Picriá – Casa Grande.

Ibámeraipu – trem.

Itse – pessoa.

Naté – trabalho.

Natiá – Aldeia.

Nhenetí – tradições culturais do povo.

Opará – rio São Francisco.

Pehóá – tempo das enchentes.

Raddadé – Mãe Terra.

Samy – cultura.

Setu – cesto utilizado para carregar alimentos.

Sitó – caça.

Toré – Ritual sagrado de dança e canto indígena.

Tudenhé – tempo passado, tempos antigos.

Uanéá / Uanieá – indígena, pessoa indígena.

Uché – tempo.

Uchécrá – tempo da seca.

Wanheré Uanhícó – Fazenda Sementeira.

Woderáehó Uanieá – Rua dos Índios.

Wontyrõ – Mutirão comunitário.




15. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 






KARIRI-XOCÓ, Nhenety. Kayáuché Batti – O Tempo que Caminha com a Lua. Disponível em: 

https://kxnhenety.blogspot.com/2025/12/kayauche-batti-o-tempo-que-caminha-com.html?m=0  . Acesso em: 5 mar. 2026.  


KARIRI-XOCÓ, Nhenety. Amiteá Uanhoá Tseho – O Saber da Comida Kariri. Disponível em: 

https://kxnhenety.blogspot.com/2026/01/amitea-uanhoa-tseho-o-saber-da-comida.html?m=0  . Acesso em: 5 mar. 2026.  


KARIRI-XOCÓ, Nhenety. Uché Wongheré – O Tempo da Pobreza. Disponível em: 

https://kxnhenety.blogspot.com/2026/01/uche-wonghere-o-tempo-da-pobreza.html?m=0  . Acesso em: 5 mar. 2026.  


KARIRI-XOCÓ, Nhenety. Naté Bechiéá  – Trabalho na Roça. Disponível em: 

https://kxnhenety.blogspot.com/2025/12/nate-bechiea-trabalho-na-roca.html?m=0  . Acesso em: 5 mar. 2026.  


KARIRI-XOCÓ, Nhenety. Uché Uttihuá – O Tempo das Frutas. Disponível em: 

https://kxnhenety.blogspot.com/2026/01/uche-uttihua-o-tempo-das-frutas.html?m=0  . Acesso em: 5 mar. 2026.  


KARIRI-XOCÓ, Nhenety. Uché Amite Eicoré – Tempo do Alimento Escasso. Disponível em: 

https://kxnhenety.blogspot.com/2026/01/uche-amite-eicore-tempo-de-alimento.html?m=0  . Acesso em: 5 mar. 2026.  


KARIRI-XOCÓ, Nhenety. Woroy Eráye – A História da Casa Grande. Disponível em: 

https://kxnhenety.blogspot.com/2025/12/woroy-eraye-historia-da-casa-grande.html?m=0  . Acesso em: 5 mar. 2026.  


KARIRI-XOCÓ, Nhenety. Dipete Amiteá – A Doação de Alimentos. Disponível em: 

https://kxnhenety.blogspot.com/2026/01/dipete-amitea-doacao-de-alimentos.html?m=0  . Acesso em: 5 mar. 2026.  


KARIRI-XOCÓ, Nhenety. Uanienaté – O Tempo e as Vocações do Povo. Disponível em: 

https://kxnhenety.blogspot.com/2025/12/uanienate-o-tempo-e-as-vocacoes-do-povo.html?m=0  . Acesso em: 5 mar. 2026.  


KARIRI-XOCÓ, Nhenety. Benheokli Benheye, O Telefone Orelhão. Disponível em: 

https://kxnhenety.blogspot.com/2026/02/benheokli-benheye-o-telefone-orelhao.html?m=0  . Acesso em: 5 mar. 2026.  






16. DADOS BIOGRÁFICOS DO AUTOR



Nhenety Kariri-Xocó é indígena do povo Kariri-Xocó, originário de Porto Real do Colégio, no estado de Alagoas, às margens do rio Opará (São Francisco).

Contador de histórias oral e escrita, dedica-se à preservação e divulgação da memória cultural de seu povo por meio da literatura, da pesquisa cultural e da produção de textos publicados em seu blog.

Suas narrativas abordam temas como tradição indígena, alimentação ancestral, calendário lunar, agricultura tradicional e resistência cultural.

Blog do autor:

kxnhenety.blogspot.com



17. SOBRE A OBRA



“Uchété Iworó – O Tempo Gira as Coisas Vem” é uma coletânea de contos inspirados na tradição oral e na experiência cultural do povo Kariri-Xocó.

A obra apresenta histórias que retratam diferentes tempos vividos pela comunidade: tempos de fartura, de escassez, de trabalho, de celebração e de memória.

Cada conto revela aspectos da relação do povo com a natureza, com a terra e com o rio Opará, mantendo viva a herança cultural transmitida pelos anciãos.



18. ORELHA DO LIVRO


Nas margens do rio Opará, o tempo não é contado apenas pelos relógios. Ele se revela no nascer da lua, na colheita da roça, no amadurecimento das frutas e nas histórias contadas ao redor da fogueira.

Em “Uchété Iworó – O Tempo Gira as Coisas Vem”, o escritor indígena Nhenety Kariri-Xocó reúne contos que preservam a memória e os saberes de seu povo.

As narrativas conduzem o leitor por diferentes momentos da vida na aldeia, revelando ensinamentos sobre natureza, alimento, trabalho coletivo e resistência cultural.

Mais do que histórias, este livro é um convite para ouvir a voz de um povo que mantém viva sua tradição por meio da palavra.


“Enquanto o tempo gira, as histórias continuam caminhando com o povo.”






Autor: Nhenety Kariri-Xocó 




quarta-feira, 4 de março de 2026

NATIÁ BUYÕ DZÉÁ — ALDEIA DE MUITOS NOMES






1. FALSA FOLHA DE ROSTO


NATIÁ BUYÕ DZÉÁ

Aldeia de Muitos Nomes

Nhenety Kariri-Xocó



2. VERSO DA FALSA FOLHA DE ROSTO


Obra literária composta por contos históricos e culturais baseados na memória coletiva do povo Kariri-Xocó.

Texto e concepção: Nhenety Kariri-Xocó

Ano da edição: 2026

Local: Aldeia Kariri-Xocó – Porto Real do Colégio – AL

Todos os direitos reservados ao autor.




3. FOLHA DE ROSTO (FRONTISPÍCIO)


NATIÁ BUYÕ DZÉÁ — ALDEIA DE MUITOS NOMES

Contos de memória, território e identidade do povo Kariri-Xocó

Autor: Nhenety Kariri-Xocó




4. FICHA CATALOGRÁFICA (Modelo)


(Para registro oficial, recomenda-se bibliotecário habilitado, mas segue modelo técnico.)


Kariri-Xocó, Nhenety.

Natiá Buyõ Dzéá: Aldeia de Muitos Nomes / Nhenety Kariri-Xocó. — Porto Real do Colégio, AL: Edição do Autor, 2026.

Inclui glossário bilíngue Kariri-Xocó/Português.

ISBN: (inserir quando registrar)

Literatura indígena brasileira.

Memória histórica – Kariri-Xocó.

Territorialidade indígena – Baixo São Francisco.

Contos indígenas contemporâneos.

CDD: 869.899





PREFÁCIO OFICIAL DA COLEÇÃO


Esta obra integra o Acervo Virtual Bibliográfico Nhenety Kariri-Xocó, iniciativa dedicada à preservação, produção e difusão do conhecimento construído a partir das vivências culturais do povo Kariri-Xocó.

Fundamentado na memória, na ancestralidade e na experiência histórica, o Acervo orienta-se pela compreensão de que o saber se constrói por meio de encontros, trocas e transformações culturais ao longo do tempo.

Os elementos culturais, científicos e literários oriundos de diferentes povos e autores são respeitados em suas origens, sendo compreendidos como influências legítimas no processo de formação do conhecimento, sem reivindicação de autoria sobre tais contribuições.

Ao mesmo tempo, reconhece-se a existência de uma produção autoral própria, resultante da interpretação singular da realidade vivida.

Dessa forma, a presente obra se insere em uma continuidade cultural dinâmica, na qual tradição e criação se articulam, preservando identidades e projetando novos horizontes.





ESCLARECIMENTO DO AUTOR


A presente obra constitui, neste momento, um pré-projeto editorial em fase de estruturação acadêmica e organização bibliográfica.

Sua versão definitiva será futuramente submetida aos processos de revisão, diagramação, normalização segundo os padrões da ABNT, catalogação bibliográfica, classificação CDD e obtenção de ISBN oficial.

Enquanto perdurar esta etapa preparatória, parte das informações editoriais apresentadas possui caráter provisório e simbólico, destinando-se exclusivamente à identificação preliminar da obra.

O autor reafirma o compromisso com a preservação cultural, histórica e intelectual do acervo desenvolvido ao longo de suas pesquisas e produções literárias.



Nhenety Kariri-Xocó 






5. DEDICATÓRIA


Dedico este livro aos Tokenhé, nossos antepassados,

que caminham invisíveis ao nosso lado.

Ao povo Kariri-Xocó,

que nunca deixou a memória morrer.

E às crianças da aldeia,

que herdarão não apenas a terra,

mas os nomes verdadeiros dela.




6. AGRADECIMENTOS


Ao povo Kariri-Xocó, guardião da palavra viva.

Aos anciãos e anciãs, que mantêm o fio da memória.

Aos jovens aprendizes, que transformam escuta em continuidade.

Aos amigos indígenas e não indígenas que respeitam a história e ajudam a preservá-la.

E à própria terra da Sementeira, que ensinou resistência pelo silêncio.




7. EPÍGRAFE


“A terra pode receber muitos nomes,

mas só responde àqueles que a escutam.”

— Sabedoria Kariri-Xocó




8. SUMÁRIO


Prefácio Oficial da Coleção 

Esclarecimento do Autor 

Dedicatória 

Agradecimentos 

Epígrafe 

Prefácio do Volume 

Apresentação 

Introdução 

Contos ( 01 a 11 )

Conto 01 - Natiádé Oparámü – A Aldeia Mãe do Baixo São Francisco

Conto 02 -  Natiá Dzurichi – A Aldeia da Lagoa Comprida

Conto 03 - Natianie Beiné Naticróraí – Quando a Aldeia Virou Cidade

Conto 04 - Natiuani Erácró – A Aldeia Indígena Urbana

Conto 05 - Hietçãde Baretsé – Nossa Vida na Floresta

Conto 06 - Undéá Aiby Radda – Os Lugares da Terra

Conto 07 - Batsomyá Bohé Woderáehó – A Vida Cultural e Social na Rua

Conto 08 -  Eisdembé Woderáehó – A Feira na Rua

Conto 09 - Wohoerá Natiá – O Quintal de Indaiá e Namoâny

Conto 10 - Dzéá Wanherécó – Os Muitos Nomes da Fazenda Sementeira 

Conto 11 - Canghíá Uchété – Quando os Bons Tempos Chegaram

Apêndice I – Linha do Tempo Histórica

Apêndice II – Glossário Kariri-Xocó

Referências Biográficas 

Dados Biográficos do Autor




9. PREFÁCIO


(Sugestão de texto — pode ser assinado por liderança, pesquisador ou pelo próprio autor)

Este livro não é apenas literatura. É território escrito.

Cada conto é uma retomada simbólica. Cada nome indígena recuperado é uma forma de devolver à terra aquilo que dela nunca deveria ter sido retirado: sua identidade.

"Natiá Buyõ Dzéá" revela que a história oficial registra documentos, mas a memória indígena registra pertencimento.

Aqui, a aldeia não é passado — é permanência.





10. APRESENTAÇÃO


Esta obra reúne onze contos que narram a trajetória territorial, cultural e espiritual do povo Kariri-Xocó, desde a formação das aldeias às margens do Opará até a retomada da Fazenda Sementeira em 1978.

Cada narrativa foi construída a partir da oralidade ancestral, combinando memória histórica e literatura contemporânea indígena.

Os contos estão interligados como partes de uma única aldeia que atravessou muitos nomes, mas jamais perdeu sua essência.





11. INTRODUÇÃO


A expressão Natiá Buyõ Dzéá significa “Aldeia de Muitos Nomes”.

Ao longo dos séculos, o território do povo Kariri-Xocó recebeu diversas denominações oficiais: missão, vila, colônia, campo experimental, fazenda modelo. Cada nome representou uma tentativa de reorganizar o espaço segundo interesses externos.

Entretanto, a identidade indígena nunca foi apagada.

Este livro reconstrói, por meio do conto literário, a trajetória histórica da aldeia — da Lagoa Comprida à retomada da Sementeira — mostrando que território é mais que chão: é memória coletiva.





12. CONTOS  ( 01 a 11 )



01. NATIÁDÉ OPARÁMÜ – A ALDEIA MÃE DO BAIXO SÃO FRANCISCO





O sol descia lento sobre as águas largas do rio quando Anawany, sentada à sombra de um velho juazeiro, quebrou o silêncio da tarde. Seus olhos acompanhavam o caminho do Opará, que seguia firme, como quem conhece todos os destinos.

— Tia Maiara, — perguntou a menina, com a curiosidade própria de quem começa a escutar os chamados da memória — por que sempre dizem que aqui é Natiádé Oparámü, a Aldeia Mãe do São Francisco?

A anciã respirou fundo. Seus olhos, marcados pelo tempo, pareciam atravessar séculos. Tocou a terra com a mão aberta, como quem pede licença aos espíritos antigos, e começou a falar.

— Antes de qualquer bandeira, antes das cruzes e dos nomes estrangeiros, este rio já se chamava Opará. Ele era — e ainda é — caminho, ventre e palavra. Foi às margens dele que muitos povos viveram livres: Kariri, Karapotó, Aconãs, Tupinambás, Chocó, Natu, Caxagó, Progê… Cada um com sua língua, seu canto e sua maneira de existir.

Maiara apontou para o rio, que refletia o céu avermelhado.

— Quando os colonizadores chegaram, trouxeram a divisão. Aldearam nossos povos em missões: Colégio, Jaciobá, São Brás, Pacatuba, Ilha de São Pedro. Diziam que era proteção, mas era controle. Mesmo assim, nossos parentes resistiram, guardando o saber como semente enterrada.

A  voz da anciã ficou mais grave.

— No tempo em que Portugal transformava aldeias em vilas, muitas missões foram apagadas. Aqui, em Colégio, tentaram fazer o mesmo. Em 1876, nos chamaram de Vila de Porto Real do Colégio. Mas a terra lembrava quem éramos. E ajudou o fato de termos, por um tempo, um indígena na administração: Alferes Firmino José dos Santos. Foi assim que muitos parentes de outras missões vieram buscar abrigo aqui.

Anawany escutava atenta, como quem recebe um presente invisível.

— Vieram Natu, Xocó, Prakiô, Caxagó, Carnijó, Pankararu, Romari, Xucuru… Cada chegada reforçava o espírito acolhedor da aldeia. Por isso ela se tornou mãe.

O vento passou entre as folhas, como se confirmasse a palavra.

— Alguns seguiram novos caminhos — continuou Maiara. — Em 1912, parentes fundaram o Tingui-Botó. Em 1944, o Posto Indígena Padre Alfredo Dâmaso trouxe assistência, mas também vigilância. Em 1966, os Xocó daqui se reencontraram com os Xokó da Ilha de São Pedro, e em 1979 veio a retomada. Mais tarde, surgiram os Karapotó de Terra Nova, os Fulkaxó, os Aconãs, os Caxagó, os Pankariri…

A  anciã sorriu, com ternura.

— Todos partiram, mas todos levaram um pouco daqui. E agora muitos retornam às suas terras antigas, formando novas aldeias. É o ciclo do Opará: ir, voltar, renascer.

Anawany olhou novamente o rio. Pela primeira vez, entendeu que ele não apenas corria — ele lembrava.

— Então, tia… — disse a menina, em voz baixa — a Aldeia Mãe nunca deixa de ser mãe.

Maiara assentiu.

— Natiádé Oparámü não é só um lugar. É um espírito. E enquanto houver memória, ele continuará vivo, correndo junto com o São Francisco.

O rio seguiu seu curso. E a história, mais uma vez, foi contada.




02. NATIÁ DZURICHI – A ALDEIA DA LAGOA COMPRIDA





O sol já caminhava devagar rumo ao poente quando o menino Marã, sentado à sombra de um juazeiro antigo, quebrou o silêncio da tarde. Seus olhos curiosos acompanhavam o movimento do vento sobre a lagoa distante, enquanto sua voz buscava respostas no tempo.

— Vovô Akanauá — perguntou com respeito —, nós moramos aqui nessa Natiwaré, a Aldeia dos Padres. Mas onde era nossa morada antigamente?

O velho Akanauá respirou fundo. Seus olhos, marcados pelo tempo, pareciam atravessar gerações. Olhou para o horizonte, como quem conversa com os espíritos antigos, e então respondeu:

— Olha, Marã, antes de estarmos aqui, nosso povo vivia na Natiá Dzurichi, a Aldeia da Lagoa Comprida. Ela ficava ao norte da igreja dessa Missão do Colégio. Era ali que nossos passos eram livres, onde a água conversava com a terra e onde os cantos dos antigos ecoavam.

Marã escutava atento, como quem recolhe sementes para o futuro.

— Os padres, os waré, chegaram — continuou o avô — e trouxeram a mudança. Nos levaram para cá. Junto conosco vieram outros parentes, aldeados também: Karapotó, Aconãs, Tupinambás. Povos diferentes, histórias diferentes, todos reunidos num mesmo destino.

O menino ficou em silêncio por alguns instantes. Depois, com a curiosidade ardendo no peito, fez outra pergunta:

— Vovô… por que aquela colina onde ficava a Natiá Dzurichi é chamada de Hechi Wathõ, o Alto do Bode?

Akanauá sorriu de leve, como quem sabe que cada nome guarda uma história.

— Meu neto — disse com calma —, quando os Carai chegaram por essas terras, trouxeram muito Cradzó, o gado. Vieram também muitos Wathõá, os bodes. Depois que fomos retirados da nossa aldeia, aquela colina ficou abandonada. E foi ali que as cabras passaram a ficar, porque havia boas pastagens. Assim, o lugar recebeu o nome que carrega até hoje.

O vento soprou mais forte naquele momento, como se confirmasse a palavra do ancião. Marã permaneceu em silêncio, guardando no coração o que havia escutado. Sabia que aquelas histórias não eram apenas lembranças, mas caminhos para que a memória do povo Kariri-Xocó continuasse viva.

E enquanto a tarde se despedia, a Natiá Dzurichi seguia existindo — não apenas na terra, mas na palavra transmitida de avô para neto.





03. NATIANIE BEINÉ NATICRÓRAÍ, QUANDO A ALDEIA VIROU CIDADE DE BRANCOS






Na casa simples, feita de silêncio e memória, o velho Nhenety recebia todos os dias visitantes de muitos caminhos. Vinham estudantes indígenas e não indígenas, crianças curiosas, jovens inquietos e até adultos carregados de dúvidas. Sentavam-se no chão, escutavam atentos e aprendiam que a história não mora apenas nos livros, mas vive na palavra de quem lembra.

Certo dia, entre tantos rostos atentos, Tawanã — criança de seu próprio povo — ergueu a voz com respeito e curiosidade:

— Tio Nhenety, é verdade que essa cidade ao lado já foi nossa aldeia?


O ancião respirou fundo. Seus olhos caminharam longe, atravessando o tempo, como quem pisa devagar nas pegadas dos antigos. Então respondeu:


— É verdade, sim, Tawanã. Antes de ser cidade, tudo aquilo foi aldeia. Nossa aldeia se chamava Natianie.


Nhenety começou a contar.

Disse que a Natianie ficava na Dzurichi, na Lagoa Comprida, no território sagrado do Hechi Wathõ, conhecido hoje como Alto do Bode. Ali, os antigos viviam em harmonia com a terra, com a água e com o tempo, o Uché, que não corre, apenas ensina.

Mas um dia chegaram os Waré, os padres jesuítas. Eles reuniram os povos indígenas e criaram a Natiwaré, a Aldeia dos Padres. No início, parecia apenas mais uma mudança imposta pelo vento do mundo. Depois, vieram muitos Caraí, os brancos.

Pouco a pouco, a paisagem foi se transformando. Onde havia chão batido, ergueram Eracró, casas de pedra. Onde ecoavam cantos antigos, levantaram a Erantoá, a igreja. Onde os velhos ensinavam pela palavra, surgiu o Erátekié, o colégio dos padres.

O tempo passou, e a Natianie deixou de ser aldeia como antes. Tornou-se beiné, outra coisa. Uma Natiá diferente, distante do modo antigo de viver. Os padres foram expulsos, mas os brancos ficaram. A aldeia virou freguesia, depois distrito, e por fim cidade.


Então Nhenety concluiu, com voz firme e triste:


— Assim nasceu a Naticróraí, a aldeia de pedra dos brancos. Mas lembra, Tawanã: mesmo coberta de pedra, a terra ainda guarda nossos passos.

O menino silenciou. Aprendeu que cidades podem crescer, nomes podem mudar, mas a memória indígena permanece viva enquanto alguém se lembra e conta.

E naquela casa simples, mais uma vez, a história voltou a respirar.





04. NATIUANI ERÁCRÓ – A ALDEIA INDÍGENA URBANA






A aldeia sempre esteve ali, mesmo quando a cidade cresceu ao seu redor. Antes de Porto Real do Colégio ter nome de rei e pedra, já havia chão, rio, passos e memória Kariri-Xocó. Foi desse ventre antigo que nasceu a cidade, moldada pelo tempo, pelo contato e pelas mudanças que o mundo impôs.

Com os anos, vieram outros costumes, outras formas de viver. Os Kariri-Xocó aprenderam a conviver com a civilização europeia, absorvendo hábitos, tecnologias e palavras novas. Mas, no fim da década de 1970, chegou o tempo da retomada. Saíram da cidade e fundaram novamente sua aldeia — não distante do mundo moderno, mas enraizada na identidade ancestral. Assim nasceu uma aldeia diferente: indígena e urbana ao mesmo tempo.

Era comum, nas tardes tranquilas da comunidade, que as crianças cercassem os mais velhos com perguntas. Queriam entender por que a aldeia tinha ruas, postes, casas de pedra e aparelhos que falavam sozinhos. Foi numa dessas tardes que o jovem Itauaçú, curioso como todo aprendiz da vida, aproximou-se de sua avó Anemy, guardiã das palavras e dos sentidos.

— Vovó, o que é uma Aldeia Indígena Urbana? — perguntou ele, sentando-se ao seu lado.

Anemy sorriu com a calma de quem já ouviu muitas perguntas e conhece muitas respostas.

— Meu neto, Aldeia Indígena Urbana é Natiuani Erácró.

Natiá é Aldeia.

Uanie é Indígena.

Erá é Casa.

Cró é Pedra.

Ela fez uma pausa, olhando ao redor.

— Então, somos uma Aldeia Indígena de Casas de Pedra, mas com espírito antigo e coração vivo.

Itauaçú abriu um sorriso largo.

— Agora eu entendi, vovó.

Anemy continuou, apontando com o olhar para os caminhos da aldeia.

— Aqui temos Woderáehó, que são as ruas por onde caminhamos. Vieram também os Iabaerá, os conjuntos residenciais. Temos o Hinebakró, a luz que nasce do tronco de pedra, os postes que levam energia à noite. E ali, onde as crianças correm e os jovens sonham, fica o Bypeddá, o campo de Byghitó, o futebol.

Depois, falou das casas.


— Dentro das Erá, nossas casas, convivem o antigo e o novo:


o Crameokli, o rádio que leva vozes distantes;

a Cramenunhí, a geladeira que guarda o alimento;

o Crameupudu, o fogão a gás que aquece a comida;

e o Warudókli, a televisão que mostra o mundo.


Anemy lembrou também dos caminhos e dos meios de ir e vir:


— Ainda usamos a Ibákabaru, a carroça de burro, mas também a Ibaranú, a moto; o Ibápohdu, o automóvel; e a Ibaworóbi, a bicicleta que desliza leve pelas ruas.

Por fim, sua voz ficou mais firme, como quem ensina algo importante.

— Temos nossas casas de cuidado e aprendizado: a Subatekerá, a escola; o Pidékanerá, o posto de saúde; a Inghérá, a creche; e o Erádzu, a casa da água, onde nasce a água encanada que corre pelas torneiras.

Itauaçú ouviu tudo em silêncio, entendendo que viver numa Aldeia Indígena Urbana não era deixar de ser quem se é, mas aprender a caminhar entre mundos sem perder as raízes.

E assim, em Natiuani Erácró, a modernidade não apagou a ancestralidade — apenas passou a morar com ela.





05. HIETÇÃDE BARETSÉ – NOSSA VIDA NA FLORESTA






Nas Radaá Hechi, as Terras Altas que se afastam da Naticróraí, a cidade de Porto Real do Colégio, estende-se a Retsé, nossa floresta viva. Ali repousa a Natianie, a Aldeia Indígena Tradicional do povo Kariri-Xocó, onde o tempo não corre apressado e cada passo respeita a respiração da Antse, a Natureza.

Foi ali que o velho cacique Nidé sentou-se à sombra de um angico antigo, com o olhar voltado para o Boêdo Dzurió Tasí, o Morro da Lagoa da Enxada, no lado Leste da floresta. Seus cabelos brancos lembravam a névoa que, ao amanhecer, cobre as folhas quando o Ukie, o Sol, desperta a terra, e a Kaiaku, a Lua, se recolhe lentamente rumo ao Opará, o Rio São Francisco, onde se põe ao Oeste.

Ao seu lado estava Nhamuãny, a jovem de olhos atentos e pensamento inquieto. Ela aprendia tanto com os livros da escola quanto com as palavras silenciosas da floresta. Naquele dia, trouxe consigo Mariana, uma moça branca da cidade, sua colega de estudos, curiosa e respeitosa, que caminhava com cuidado, como quem pisa num chão sagrado.

— Aqui tudo escuta, disse Nidé, com voz baixa e firme. — A floresta ouve antes de falar.

Mariana observava, admirada. Via os Keríá Retsé, os animais silvestres, surgirem como ensinamentos vivos: o Ibozoim, sonhim gritava oculto; a Kati, abelha zumbia entre as flores; o Munim, Grilo  marcava o ritmo do chão; enquanto o Nieɲi, cobra deslizava silencioso entre as folhas. Mais adiante, o Klimi, lontra surgia à beira d’água, e o Hamo, bicho deixava suas marcas na terra fofa.

Nhamuãny explicou, com orgulho sereno, que aquela diversidade não era apenas vida — era parentesco. O Tatú, o Jabuti, o Jacaré, o Coelho, o Veado do Mato, todos tinham seu lugar no equilíbrio antigo ensinado pelos Tokenhé, os antepassados.

Os Ieendeá, os pássaros, cruzavam o Aranke, o céu aberto: o Gongá, sabiá cantava como se chamasse lembranças; o Xáj, picapau batia o bico nos troncos; o Tute, pombo e o Xõn, urubu circulavam no alto, guardiões do invisível.

Quando a Kayá, a noite, caiu sobre a floresta, o céu se fez Battiá, coalhado de estrelas. A Kaiaku, lua iluminou os caminhos, e o lamento do Urutau ecoou como uma história antiga sendo recontada.

Mariana sentiu, pela primeira vez, que aprender não estava apenas nos cadernos. Estava ali, na coletividade, no Tseho Bohé, no modo como o povo vivia seus Matkaí, rituais que mantêm a floresta viva porque mantêm viva a memória.

— Nossa vida é aqui, concluiu Nidé. — Enquanto houver respeito, a Retsé continuará falando.

Nhamuãny sorriu. Mariana silenciou. E a floresta, satisfeita, continuconsiderou cada uma delas parte de sua própria história.





06. UNDÉÁ AIBY RADDA – OS LUGARES DA TERRA






Kanawí caminhava devagar, como quem escuta a terra antes de pisá-la. Seus pés conheciam cada curva da Radda, cada cheiro trazido pelo vento que vinha do Iwo Opará. Para ele, a terra não era apenas chão: era corpo vivo, memória antiga, voz dos Tokenhé, antepassados. 

Naquela manhã, Kanawí não caminhava sozinho.

Ao seu lado vinham George, biólogo de olhos atentos, sempre com um caderno nas mãos, e Clarice, antropóloga silenciosa, que preferia ouvir antes de perguntar. Ambos eram pesquisadores brancos, vindos de longe, atraídos pelo que os livros não conseguiam explicar.

— Aqui é Undéá Aiby Radda — disse Kanawí, quebrando o silêncio. — Os Lugares da Terra.

George levantou os olhos do caderno. Clarice sorriu com respeito.

— Nosso Tseho, povo vive aqui desde os Tokenhé, antepassados — continuou Kanawí —, com Natiá, aldeias espalhadas ao longo do Iwo Opará, que vocês chamam de Rio São Francisco.

Eles caminharam até um ponto mais alto.

Kanawí estendeu o braço, desenhando os limites invisíveis no ar.

— A leste, o Boêdo Dzurió Tasí, o Morro da Lagoa da Enxada. A oeste, o próprio rio. Ao norte, o Iwo Tibirí, Rio da Formiga. Ao sul, a Pohó Itiúba, a Várzea do Rio da Canoa.

Clarice anotava, mas o que mais a impressionava não eram os nomes, e sim a maneira como Kanawí falava deles — como se cada palavra fosse um parente.

— Esses lugares aparecem nas Woroyá, as histórias dos antepassados — disse ele, enquanto os conduzia em direção à serra da Maraba. — É daqui que tiramos a Tabatinga, a argila branca. Ela vira Ruñohú, nossa cerâmica. Cada peça guarda um pedaço da serra.

George ajoelhou-se, tocando a terra clara com cuidado.

— A composição mineral disso é impressionante — murmurou.

Kanawí sorriu.

— A terra ensina antes da ciência.

Mais adiante, apontou para outra serra.

— Ali é a Apreaca. Dela tiramos o caroá, que vira corda. Nada se perde. Tudo retorna.

Quando chegaram às Dzurióá, as lagoas, Kanawí parou em silêncio. Clarice sentiu que aquele não era um lugar comum.

— Aqui estão as Ebebunhá — explicou ele em voz baixa. — Fontes de barro. Daqui vem o Tauá, a argila amarela, e a Ebebunháhe, a vermelha. Cada cor tem um tempo, um uso, um respeito.

O vento passou suave sobre a água. George fechou o caderno. Clarice baixou a cabeça.

Por fim, Kanawí os conduziu à Retsé, a floresta.

— Aqui fica a Natianie, nossa aldeia tradicional — disse. — E mais adiante, perto da cidade, a Natierácró, a aldeia urbana. Dois mundos, uma só raiz.

Clarice respirou fundo.

— Kanawí… — disse ela — o que você quer que levemos conosco quando formos embora?

O indígena olhou para a terra, depois para o rio, depois para o céu.

— Levem o entendimento de que a Radda não é lugar vazio. Ela tem nome, memória e espírito. E quem aprende a ver, Ubí, nunca mais pisa sem cuidado.

O sol começava a se pôr sobre o Iwo Opará. Naquele instante, George e Clarice compreenderam: não estavam apenas pesquisando um território — estavam sendo apresentados a um modo de existir.





07. BATSOMYÁ BOHÉ WODERÁEHÓ, A VIDA CULTURAL E SOCIAL NA RUA






A antiga Natiá, a Aldeia dos Uanieá Kariri-Xocó, acordava todos os dias com o mesmo sopro da terra, ainda que seus olhos agora vissem mudanças. Onde antes só havia caminhos de barro e casas de palha, surgiram as Erácró, casas de pedra e alvenaria. Vieram também os Hinebakró, postes de luz elétrica, iluminando a noite e alterando o silêncio antigo. Assim, pouco a pouco, a aldeia virou Natierácró, uma cidade.

Mesmo com as transformações, o coração do povo não se afastou de suas raízes. Ao norte da cidade, os anciãos decidiram erguer uma nova Natianie, uma aldeia indígena que guardasse os Kenhéá, os costumes tradicionais, ainda que misturados aos elementos do mundo dos brancos. Ali, o passado e o presente aprenderam a caminhar juntos.

O Tseho, o povo, cresceu. As famílias aumentaram, novas casas surgiram, e foi preciso organizar as Woderáehó, as ruas da aldeia. Essas ruas não eram apenas caminhos: eram lugares de encontro, de troca, de vida cultural e social, onde a Batsomyá, vida cultural pulsava em cada gesto coletivo.

Em uma dessas ruas vivia Samany, ceramista de mãos firmes e olhar atento.

Desde cedo aprendera com as mais velhas a conversar com o barro. Na Ruñohú,  cerâmica ela moldava potes, panelas e figuras que carregavam histórias. Ao seu lado, sempre atentos, estavam os jovens Rayane e Tanauá, aprendizes curiosos, que observavam cada movimento, cada silêncio, cada ensinamento que não precisava de palavra.

Mais adiante, sob a sombra de um juazeiro antigo, trabalhava Akinoã, artesão respeitado. Seu Buruhúá, artesanatos nascia da madeira, da palha e da fibra retirada com cuidado da natureza. Ele ensinava que o artesanato não era só trabalho, mas respeito: à terra, aos espíritos e aos que viriam depois. Rayane e Tanauá também passavam horas ali, aprendendo a ouvir antes de fazer.

Durante o dia e à noite, o povo se reunia nas Okenerá, as portas das casas. Ali se conversava, se ria e se contavam Woroyá, histórias antigas que atravessavam gerações. As Inghéá, crianças da aldeia, enchiam as ruas com suas Benhekié, brincadeiras que misturavam Kaiworaí, cantigas de roda dos brancos, com as Kauanieá, cantigas indígenas que ecoavam como reza e alegria.

Entre uma casa e outra, os Keríerá, animais domésticos caminhavam livres: o Curé, porco; o Igaborou, cavalo; o Cradzó, boi; o Wathõ, bode; a Erintuca, ovelha; o Irerê, pato; e o Sabucá, galo. Eles faziam parte da aldeia tanto quanto as pessoas, cruzando as ruas sem pressa, como se também conhecessem o valor daquele lugar.

As mudanças traziam novos sons e imagens. Passavam pela aldeia a Ibákabaru, a carroça de burro; a Ibaworóbi, bicicleta; o Ibápohdu, automóvel; e a Ibaranú, moto. Eram sinais claros de que o mundo dos brancos estava cada vez mais próximo. Ainda assim, nas Woderáehó, permanecia viva a imagem das pessoas trabalhando, criando, ensinando.

Samany dizia aos aprendizes que o barro guarda memória. Akinoã ensinava que a madeira sente quando é respeitada. Rayane e Tanauá aprendiam que viver na rua da aldeia era mais do que ocupar espaço: era pertencer, cuidar e continuar.

E assim, entre luz elétrica e cantiga antiga, entre carro e carroça, entre cidade e aldeia, o povo Kariri-Xocó seguia vivendo. Porque enquanto houver rua com história, mãos que criam e jovens que aprendem, a Batsomyá Bohé Woderáehó — a vida cultural e social no Rua — jamais deixará de existir.





08. EISDEMBÉ WODERÁEHÓ – A FEIRA NA RUA






Quando o sol ainda espreguiçava seus primeiros raios sobre o Opará, Parú já estava de pé. Ajustava com cuidado os colares de sementes, os arcos pequenos e as pulseiras de fibra que ele mesmo fazia desde menino. Parú era Buruhúá, artesão da aldeia, e toda Myreprí bubyhé, a sexta-feira, armava sua pucá, banca no mesmo undé, lugar bem no começo da rua onde a feira nascia como um rio de gente.

Dizia-se entre os mais velhos que, muito antes dos Caraí chegarem, os povos indígenas já sabiam trocar saberes, alimentos e objetos. A feira, para Parú, não era invenção nova; era continuação da vida. Mas foi quando a antiga Natiá virou Naticróraí, a povoação de Colégio, que o povo passou a chamar aquele encontro de Eisdembé Woderáehó, a Feira na Rua.

Logo ao lado da banca de Parú, Amélia ajeitava suas formas de bolo. Era branca, filha de ribeirinhos, mas já falava algumas palavras da língua local e gostava de ouvir as histórias dos anciãos. Seus saredu, bolos de mandioca, perfumavam o ar, misturados ao cheiro do waraeró, o beijú quente que ela assava ali mesmo, em fogo manso.

— Bom dia, Parú — disse ela, sorrindo.

— Bom dia, Amélia. Que seu saredu venda bem hoje — respondeu ele, com respeito.

Mais adiante, dona Yandé cuidava de sua banca de ubudzoá, plantas medicinais.

Sabia qual folha curava febre, qual raiz acalmava o espírito e qual chá fortalecia o corpo. Gente vinha de longe só para ouvir seus conselhos. Perto dela, seu Paulo que vendia Rocruté pendurava roupas simples de pano, enquanto gritava os preços com voz alegre.

A feira crescia. Havia uanhí, grãos e cereais; tdjeá, verduras frescas; ghinhé, feijão recém-colhido; abati-uaupé, arroz; utuá, frutas de toda cor: bacobá, banana madura; behedzí, melancia aberta no meio, vermelha como o coração da terra.

Crianças se juntavam em volta da banca de benhekié bunhá, brinquedos de barro moldados por mãos pacientes. Um pouco mais adiante, tocava um rádio velho vendendo craiwonpiwon, CD e craiwopewa, DVD enquanto um cordelista recitava versos dos torãpisetí, contando histórias de heróis, encantos e do próprio Opará.

Havia também os keríerá, animais domésticos para vender; os wãmyá, peixes no balaio ainda brilhando de rio; as natéretá, ferramentas; e a pucá tané, banca do fumo. Todos eram atsemiucan, vendedores ambulantes, cada qual trazendo um pedaço da sua vida para aquele chão.

Parú observava tudo com olhos atentos. Para ele, a feira era mais que compra e venda: era a samy, a cultura viva pulsando.

Ali se encontravam os povos dos povoados, das cidades ribeirinhas, das margens do Opará. Ali se trocavam moedas, palavras, sorrisos e memórias.

Quando o sol já ia alto, Amélia levou um pedaço de bolo até Parú. Ele, em troca, lhe deu um colar simples, feito de sementes da mata.

Assim seguia a Eisdembé Woderáehó: antiga como o povo, nova a cada sexta-feira, rua que virava história, feira que ensinava que viver é partilhar.





09. WOHOERÁ NATIÁ – O QUINTAL DE INDAIÁ E NAMOÂNY






Na antiga Woderáehó Uanie, a Rua dos Índios, em Porto Real do Colégio, havia uma Erá, uma casa simples, mas viva, porque atrás dela pulsava o Wohoerá Natiá, o quintal na aldeia onde as mulheres conversavam com a terra.

Ali moravam Indaiá, mulher de mãos firmes e olhar sereno, e sua filha Namoâny, ainda jovem, mas já atenta aos sinais da natureza. Todas as manhãs, antes que o sol se erguesse por completo, as duas caminhavam descalças pelo quintal, sentindo o frescor da terra acordando.

— A terra fala cedo, Namoâny — dizia Indaiá. — Quem aprende a ouvir, cura.

O Wohoerá era amplo e bem cuidado. Perto da casa, as Ubudzoá, plantas medicinais, cresciam em canteiros organizados pelas mãos de Indaiá. Ela ensinava à filha os nomes e os usos, não apenas como remédio, mas como respeito.

— Esta é a Ainpeân, arruda, protege a casa e o espírito.

— A Jpâkuaçû, erva-cidreira, acalma o sono inquieto.

— A Caacica, mastruz, fortalece o peito e devolve o fôlego.

Namoâny aprendia observando. Sabia que não se colhe uma folha sem pedir licença, nem se prepara um chá sem intenção boa.

Entre os canteiros, passeavam os Keríerá, animais domésticos criados com cuidado feminino. O Bucuté, cão fiel, seguia Indaiá por todo o quintal; o Poió, gato atento, dormia à sombra da Bacobá; o Sabucá, galo altivo, anunciava o amanhecer; e o Kaplan, jabuti antigo, caminhava devagar, como quem guarda histórias mais velhas que a própria aldeia.

— Cada Keríerá tem um espírito — dizia Indaiá. — Eles cuidam da casa tanto quanto nós cuidamos deles.

Mais adiante estavam as Sutuá Uttihu, árvores frutíferas plantadas por gerações de mulheres. O Bucrenké, urucu, oferecia a cor do corpo e do ritual; o Mé, jenipapo, guardava o preto da pintura ancestral; o Akryte, caju, alimentava os dias de partilha; e o Obó, imbu, resistia aos tempos difíceis, ensinando paciência e força.

No fundo do quintal ficava a Uanhí Tdjeá, a lavoura. Indaiá mostrava a Namoâny como plantar o Madiki, a mandioca, com tempo e silêncio; o Ghinhé, feijão, que cresce em conjunto; e o Masiche, milho, que une famílias em colheita e festa.

— Mulher é raiz, filha — dizia Indaiá, enquanto cobria as sementes com a terra. — Quando cuidamos do Wohoerá, cuidamos do povo inteiro.

Namoâny guardou aquelas palavras como se guarda um colar antigo. Com o passar dos anos, ela entendeu que o quintal não era apenas espaço atrás da casa, mas um lugar de memória, cura e continuidade.

E assim, enquanto existirem mulheres como Indaiá e Namoâny, o Wohoerá Natiá continuará vivo — ensinando, curando e sustentando o povo Kariri-Xocó, em silêncio, junto à terra.





10. DZÉÁ WANHERÉCÓ — OS MUITOS NOMES DA FAZENDA SEMENTEIRA 






O sol se punha manso sobre as águas do São Francisco quando Ynorá, ainda menina, sentou-se aos pés do velho cacique Irecê. O vento passava entre os coqueiros como se soprasse lembranças antigas, e a terra, silenciosa, parecia ouvir.

— Vovô Irecê, — perguntou ela, com a curiosidade limpa dos que ainda aprendem a escutar — essa terra onde vivemos, a Aldeia Kariri-Xocó, sempre teve esse nome?

O cacique respirou fundo. Seus olhos, marcados pelo tempo, atravessaram o rio, como se enxergassem não apenas a outra margem, mas também outros tempos.

— Não, minha neta, — respondeu com voz baixa e firme — essa terra teve muitos nomes, porque muitos foram os que tentaram apagar o nosso. Cada nome foi uma tentativa de nos arrancar da raiz. Mas a terra nunca nos esqueceu.

Irecê então começou a contar.

Disse que depois da suspensão dos aldeamentos em Alagoas, em 1873, o povo Kariri foi empurrado para fora de suas próprias moradas. Em 1876, o governo deu outro nome à terra ancestral: Vila de Porto Real do Colégio. O nome novo veio como cerca invisível, marcando no papel aquilo que já tinha dono desde o tempo dos antigos.

Pouco depois, em 1878, a Província de Alagoas criou ali a Colônia São Francisco, dizendo que era para acolher os flagelados da grande seca de 1877. Mas, enquanto acolhiam uns, continuavam afastando outros — os verdadeiros filhos da terra.

O tempo passou, e a terra ganhou mais um nome estranho: Aprendizado Agrícola e Campo de Demonstração, criado em 1º de agosto de 1912. Diziam que era para ensinar a trabalhar a terra, como se a terra não tivesse sido trabalhada, cuidada e respeitada pelos Kariri muito antes de qualquer escola chegar.

Mas o golpe mais duro, contou o cacique, veio entre 1923 e 1924, com a criação do Serviço do Algodão de Plantas Têxteis. A terra passou a ser medida, loteada, vendida. Quem quisesse ficar precisava pagar pelo chão onde seus ancestrais haviam sido enterrados. Cinco anos de prestações, juros sobre o próprio sangue. Preferência aos posseiros, diziam — mas os Kariri nunca foram vistos como posseiros, e sim como incômodo.

Em 1940, a terra mudou novamente de mãos e passou ao Fomento Agrícola, por acordo entre o governo estadual e a União. No ano seguinte, em 25 de agosto de 1941, ganhou mais um nome: Campo Experimental das Sementes. Sementes plantadas ali, mas não as sementes do povo.

Foi só em 1944 que o Estado voltou o olhar para os Kariri, criando o Posto Indígena Padre Alfredo Dâmaso, pelo Serviço de Proteção aos Índios. Não devolveu a terra, mas reconheceu a presença.

Em 1947, cinquenta hectares do Campo Experimental foram oficialmente doados aos índios de Colégio. Chamaram esse pedaço de Colônia Indígena. Pequeno território para um povo grande em história.

Vieram ainda o Posto Agropecuário Federal, em 1949; o Centro de Treinamento para Operadores Tratoristas, em 1955; a Fazenda Escola, em 1960, com cursos para rapazes e moças, todos em regime de internato. Depois, a terra passou à Companhia do Vale do São Francisco, que manteve apenas o curso de Economia Doméstica.

Em 1964, chamaram a terra de Fazenda Modelo, criando gado holandês puro, enquanto o povo originário seguia esperando justiça.

Em 1975, cessaram as atividades da fazenda. O gado foi levado, os projetos encerrados. A terra ficou em silêncio outra vez, como se aguardasse.

Então o cacique sorriu, e sua voz ganhou força.

— Em 1978, minha neta, — disse Irecê — nós voltamos. O povo Kariri-Xocó ocupou a Sementeira e retomou 225 hectares. Saímos da Rua dos Índios e fundamos nossa nova morada: a Aldeia Kariri-Xocó.

Ynorá olhou ao redor. A terra parecia respirar.

— Então, vovô, quantos nomes essa terra teve?

— Muitos, — respondeu ele — mas o verdadeiro nome nunca se perdeu. A terra sabe quem somos. E enquanto houver memória, canto e luta, nenhum papel será mais forte que nossos passos.

O vento voltou a soprar. E a terra, agora chamada Aldeia, permaneceu viva — guardando em silêncio todos os nomes que tentou esquecer, mas jamais conseguiu.





11. CANGHÍÁ UCHÉTÉ – QUANDO OS BONS TEMPOS CHEGARAM






Na memória dos mais velhos, ainda ecoa o tempo em que a Natiá, a Aldeia, repousava na Woderáehó Uanieá, a antiga Rua dos Índios, apertada entre os caminhos da Naticróraí, a Cidade de Porto Real do Colégio, em Dzurióá, Alagoas. Ali vivíamos, mas não era ali que a alma dos Tokenhé, os Antepassados, repousava inteira.

Faltava espaço para o sonho, para o canto, para a roça crescer sem medo.

Então veio 1978. Ano marcado como Canchetéá — bons tempos. A mudança para a Wanheré Uanhícó, a Fazenda Sementeira, não foi apenas uma travessia de casas, mas um retorno do espírito à terra antiga. Quando o povo atravessou o Okenaye, o Grande Portão, algo invisível se abriu junto com ele: o direito de nomear. Ali escrevemos, com madeira, barro e coragem, o nome Aldeia Kariri-Xocó, selando o Canghíá Uchété — os bons tempos chegaram.

A terra nos reconheceu. Das Dzurióá, as lagoas, brotou a argila que virou Ruñonhú, cerâmica moldada pelas mãos que herdaram o saber do fogo. Das águas vieram os Wãmyá, peixes, alimento e celebração. As Erá, casas, nasceram com Wohoerá, quintais vivos, e as Bechiéá, roças, se estenderam como promessa de fartura. Cada passo no chão parecia reencontrar um rastro antigo.

Com o tempo, a aldeia foi se erguendo por inteiro. Surgiu o Erádékan, Polo Base de Saúde, cuidando dos corpos; a Erátekié, Escola, guardando a palavra; a Erantoá, Igreja, acolhendo a fé; o Bypeddá, Campo de Futebol, onde o riso corre solto; e a Erákemydzu, Estação de Tratamento d’Água, levando vida às casas. Tudo crescia em harmonia, como se a terra soubesse o lugar exato de cada coisa.

Os bons tempos trouxeram ainda mais. As Natisamyá, Aldeias Culturais, reacenderam o toré, fazendo o chão pulsar sob os pés. A Bypecró, Quadra de Futsal, virou ponto de encontro das gerações. Os Iabaerá, Conjuntos Residenciais, acolheram novas famílias. A Hinebakró, Energia Elétrica, iluminou as noites sem apagar as estrelas.

Assim, o Canghíá Uchété não foi apenas um tempo que chegou — foi um tempo que se assentou. Ficou na terra, no canto, na memória e no futuro. Porque quando um povo retorna ao chão dos seus antepassados, não constrói apenas moradas: reconstrói o próprio tempo.




Autor dos Contos: Nhenety Kariri-Xocó 




13. APÊNDICE I – LINHA DO TEMPO HISTÓRICA


Período pré-colonial – Aldeias às margens do Opará

Século XVIII – Missões jesuíticas

1873 – Suspensão dos aldeamentos

1876 – Vila de Porto Real do Colégio

1912 – Aprendizado Agrícola

1923–1924 – Serviço do Algodão

1944 – Posto Indígena Padre Alfredo Dâmaso

1978 – Retomada da Fazenda Sementeira

13. APÊNDICE II – GLOSSÁRIO (Exemplo de Estrutura)

Natiá – Aldeia

Opará – Rio São Francisco

Tokenhé – Antepassados

Radda – Terra

Ruñohú – Cerâmica

Wohoerá – Quintal

Woderáehó – Rua

Buruhúá – Artesão

(O glossário completo pode ser organizado alfabeticamente ao final.)



14. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 




KARIRI-XOCÓ, Nhenety. Natiádé Oparámü – A Aldeia Mãe do Baixo São Francisco. Disponível em:

https://kxnhenety.blogspot.com/2025/12/natiade-oparamu-aldeia-mae-do-baixo-sao.html?m=0  . Acesso em: 4 mar. 2026. 


KARIRI-XOCÓ, Nhenety. Natiá Dzurichi – A Aldeia da Lagoa Comprida. Disponível em: 

https://kxnhenety.blogspot.com/2025/12/natia-dzurichi-aldeia-da-lagoa-comprida.html?m=0  . Acesso em: 4 mar. 2026. 


KARIRI-XOCÓ, Nhenety. Natianie Beiné Naticróraí – Quando a Aldeia Virou Cidade. Disponível em: 

https://kxnhenety.blogspot.com/2025/12/natianie-beine-naticrorai-quando-aldeia.html?m=0  . Acesso em: 4 mar. 2026. 


KARIRI-XOCÓ, Nhenety. Natiuani Erácró – A Aldeia Indígena Urbana. Disponível em: 

https://kxnhenety.blogspot.com/2025/12/natiuani-eracro-aldeia-indigena-urbana.html?m=0  . Acesso em: 4 mar. 2026. 


KARIRI-XOCÓ, Nhenety. Hietçãde Baretsé – Nossa Vida na Floresta. Disponível em: 

https://kxnhenety.blogspot.com/2026/01/hietcade-baretse-nossa-vida-na-floresta.html?m=0  . Acesso em: 4 mar. 2026. 


KARIRI-XOCÓ, Nhenety. Undéá Aiby Radda – Os Lugares da Terra. Disponível em: 

https://kxnhenety.blogspot.com/2026/01/undea-aiby-radda-os-lugares-da-terra.html?m=0  . Acesso em: 4 mar. 2026. 


KARIRI-XOCÓ, Nhenety. Batsomyá Bohé Woderáehó – A Vida Cultural e Social na Rua. Disponível em: 

https://kxnhenety.blogspot.com/2026/01/batsomya-bohe-woderaeho-vida-cultural-e.html?m=0  . Acesso em: 4 mar. 2026. 


KARIRI-XOCÓ, Nhenety. Eisdembé Woderáehó – A Feira na Rua. Disponível em: 

https://kxnhenety.blogspot.com/2026/01/eisdembe-woderaeho-feira-na-rua.html?m=0  . Acesso em: 4 mar. 2026. 


KARIRI-XOCÓ, Nhenety. Wohoerá Natiá – O Quintal de Indaiá e Namoâny. Disponível em: 

https://kxnhenety.blogspot.com/2025/12/wohoera-natia-o-quintal-de-indaia-e.html?m=0  . Acesso em: 4 mar. 2026. 


KARIRI-XOCÓ, Nhenety. Dzéá Wanherécó – Os Muitos Nomes da Fazenda Sementeira. Disponível em: 

https://kxnhenety.blogspot.com/2025/12/dzea-wanhereco-os-muitos-nomes-da.html?m=0  . Acesso em: 4 mar. 2026. 


KARIRI-XOCÓ, Nhenety. Canghíá Uchété – Quando os Bons Tempos Chegaram. Disponível em: 

https://kxnhenety.blogspot.com/2026/01/canghia-uchete-quando-os-bons-tempos.html?m=0  . Acesso em: 4 mar. 2026. 






15. DADOS BIOGRÁFICOS DO AUTOR


Nhenety Kariri-Xocó é indígena do povo Kariri-Xocó, da Aldeia Kariri-Xocó, em Porto Real do Colégio, Alagoas. Contador de histórias oral e escrita, pesquisador da memória territorial de seu povo e defensor da valorização da língua e cultura indígena.

Autor de contos publicados no blog kxnhenety.blogspot.com, dedica-se ao registro literário das narrativas históricas do Baixo São Francisco.



16. ORELHA DO LIVRO (Texto Promocional)


Uma aldeia pode ter muitos nomes.

Mas a terra reconhece apenas os passos de quem a pertence.

Em "Natiá Buyõ Dzéá", Nhenety Kariri-Xocó transforma memória em literatura e território em narrativa viva.

Entre rio, floresta, feira, quintal e retomada, o autor revela que resistir é continuar nomeando o mundo a partir da própria língua.

Este não é apenas um livro de contos.

É uma cartografia indígena do Baixo São Francisco.





Autor: Nhenety Kariri-Xocó 





segunda-feira, 2 de março de 2026

KAIE PITÉIBÁ — O DIÁRIO NA REDE EM BORDO






Nas margens do sagrado Opará, o velho rio que os não indígenas chamam de São Francisco, a água não corre apenas — ela conversa.


O Opará lembra.


Ele viu passar gerações Kariri-Xocó. Viu crianças se tornarem anciãos. Viu histórias nascerem ao redor da fogueira. E foi ele quem primeiro ouviu a voz de Nhenety.


Na Aldeia Kariri-Xocó, em Porto Real do Colégio, Alagoas, vivia o Worobü Woroyá Toklikli — o Contador de Histórias Oral. Seu nome era Nhenety, que significa tradição, ser lembrado.


Desde cedo, os mais velhos diziam: — Esse menino carrega memória nos olhos.

Quando Nhenety narrava as histórias dos antigos, o vento parecia diminuir para escutar. As crianças sentavam ao seu redor. Jovens, pesquisadores e estudantes vinham de longe para ouvir sobre os Kariri-Xocó e os povos do Baixo São Francisco.


Mas um dia o próprio Opará percebeu algo diferente no ar.


No ano de 2004, chegaram à aldeia fios invisíveis. Chamavam-se Pité Uanieá Piteiatekié — Rede Índios On-Line. Junto veio a Piteiatekié — Internet — e o Crametekié — Computador.


Alguns temeram que a máquina silenciasse a palavra.


Mas naquela noite, sentado à beira do rio, Nhenety escutou o sussurro das águas:

— A tradição não morre quando muda de forma. Ela apenas encontra novos caminhos.


Foi então que, em 2007, ele deu nome ao novo tempo: Seridsã — o Arco Digital.

Se antes o arco lançava flechas, agora lançaria palavras.


Se antes a canoa deslizava pelas águas do Opará, agora navegaria pelas águas invisíveis da rede.


Nasceu o Kaie Pitéibá — o Diário na Rede em Bordo.


Cada texto publicado era como uma oferenda ao rio. Cada conto era uma reza escrita. Cada cordel era uma flecha lançada para além das fronteiras.

O blog KX Nhenety tornou-se canoa digital.

KX de Kariri-Xocó.


Nhenety, o guardião da memória.

E o Opará sorriu.


Porque entendeu que agora as histórias não viajariam apenas pelo vento, mas também pela luz.


E assim, tradição e tecnologia passaram a caminhar juntas, como dois pés na mesma trilha.


Enquanto o rio correr, enquanto houver palavra, o Kaie Pitéibá continuará navegando.




Autor: Nhenety Kariri-Xocó