📜 DEDICATÓRIA POÉTICA
Dedico este canto antigo,
Que atravessa o vento e a areia,
Aos Povos que antes do tempo
Semearam a vida na aldeia.
Dedico aos passos primeiros
Que ergueram o chão do Levante,
E aos meus ancestrais verdadeiros,
Cuja memória segue pulsante.
Dedico também ao leitor
Que caminha comigo na trilha,
Buscando no pó da História
O nascimento da Família.
Que este cordel seja ponte
Entre o ontem e o amanhã,
E que a ciência do mundo
Flua como um rio Irã.
Dedico aos que guardam saberes
No silêncio da tradição,
E aos mestres da arqueologia
Que unem fragmento e visão.
Que Nhanderu ilumine a jornada,
E que o passado, enfim revelado,
Mostre ao presente encantado
A força da alma sagrada.
📜 ÍNDICE POÉTICO
Abertura – O Chamado das Primeiras Aldeias
Prólogo Poético – A Voz que Surge da Pedra
Capítulo I – O Nome que Nasce do Vale Natuf
Capítulo II – O Levante: Terra Entre Mar e Deserto
Capítulo III – O Tempo das Transições Antigas
Capítulo IV – O Cotidiano da Aldeia Natufiana
Capítulo V – Ferramentas, Artes e Caçadas
Capítulo VI – Os Sepultos, os Ritos e o Sagrado
Capítulo VII – A Semente que Desperta a Agricultura
Capítulo VIII – O Primeiro Companheiro: O Cão
Capítulo IX – A Sedentarização e o Nascimento da Casa
Capítulo X – Heranças que Moldam Civilizações
Encerramento – O Legado que Ecoa no Tempo
Epílogo Poético – O Círculo que Nunca se Fecha
Nota de Fontes Rimada
Ficha Técnica
Epílogo Final
Quarta Capa Poética
Sobre o Autor
Sobre a Obra
📜 ABERTURA – O Chamado das Primeiras Aldeias
Nas trilhas do velho Levante,
Onde o sol molda o chão vermelho,
Uma voz desperta distante,
Feito canto nascido do tempo.
É o sopro da Era Antiga,
Que ressurge no vento a falar:
“Lembra o povo que ergueu sua vida
No dormir e no despertar.”
Do vale que guarda segredos,
Do monte que esconde sinais,
Ecoa um rumor de passado
Nos rastros dos ancestrais.
E quem ouve essa melodia,
Feita de pedra e poeira,
Sente a História abrir sua porta
Como uma luz verdadeira.
Nesse cordel, meu leitor,
Caminharemos devagarinho,
Pisando com reverência
No mais remoto caminho.
Pois cada grão de cereal,
Cada osso, cada ferramenta,
É verso que o tempo escreveu
Na arca da vida sedenta.
E assim começa esta jornada
Rumo ao berço da humanidade,
Onde os Natufianos teceram
O tear da ancestralidade.
Que Nhanderu nos acompanhe
Na busca do chão primeiro,
Pois a ciência que aqui se canta
É também canto verdadeiro.
📜 PRÓLOGO POÉTICO – A Voz que Surge da Pedra
Escuta, meu irmão da trilha,
Um murmúrio vindo do chão.
É a pedra que fala baixinho
As memórias da criação.
Sob montes e sob cavernas
Dormem mundos já esquecidos,
E quem consegue ouvi-los
Desperta povos antigos.
Entre o Mediterrâneo e o deserto,
Um corredor fértil se estende,
E nele a vida de outrora
Em sua beleza se prende.
Ali surgiram aldeias
Que ao tempo ousaram dizer:
“Ficaremos ao pé deste vale,
Aqui queremos viver.”
Foram homens, mulheres, crianças
De olhar atento e profundo,
Que moldaram com mãos pacientes
O destino sutil deste mundo.
E ao caçar a gazela ligeira
Ou colher o trigo selvagem,
Traçaram sem ver o futuro
Da agricultura a primeira imagem.
No silêncio dos funerais,
Nos ritos feitos com calma,
Guardaram os seus companheiros
E ofertaram o que lhes dava a alma.
Até o cão, fiel amigo,
Foi posto ao lado do dono,
Primeiro laço sagrado
Entre o homem e seu protetor.
Por isso, antes dos capítulos
Que este cordel irá contar,
Invoco a voz dos Natufianos
Para conosco caminhar.
Que o espírito dessas aldeias,
Erguidas no alvorecer do mundo,
Ilumine cada estrofe
Do meu canto mais profundo.
📘 CAPÍTULO I – O Nome que Nasce do Vale Natuf
1
No coração da Cisjordânia,
Entre rochas do antigo chão,
Há um vale de nome Natuf,
Berço de uma revelação.
Foi dele que veio o chamado,
O som que a História guardou:
O povo que ali fez morada
Seu próprio nome ganhou.
2
Wadi en-Natuf é o leito
Que atravessa eras inteiras,
Testemunha de passos antigos
De mãos sábias e verdadeiras.
Por isso o nome ficou,
Ecoando feito oração,
Ligando a terra e o passado
Ao sopro da criação.
3
Foi Dorothy Garrod quem viu
O rastro no pó da memória,
Desvendando o primeiro sinal
Escrito nas pedras da História.
Em 1928, o mundo
Ouviu nova voz anunciar:
“Aqui viveu um povo antigo
Que merece o brilho do olhar.”
4
Com pincéis e com paciência
Foram surgindo os fragmentos:
Lâminas, ossos, sementes,
E restos de antigos instrumentos.
Cada achado era um verso
Que o tempo deixou por escrito,
E a arqueologia, artesã,
Traduzia seu antigo rito.
5
Outros sítios logo surgiram,
Ain Mallaha, El Wad, Hayonim,
Todos ligados ao nome
Que brota do vale sem fim.
E Jericó, a velha gigante,
Com muralhas que o vento guardou,
Também trazia em seu ventre
O legado que o povo deixou.
6
Por isso o nome Natufiano
Não é apenas denominação:
É ponte entre tempo e espaço,
É mapa da evolução.
É a voz das aldeias primeiras
Que decidiram permanecer,
Firmando no solo do vale
A vontade de ali viver.
7
E assim, do leito do vale,
Fluiu um nome ancestral,
Que marcou a vida humana
No seu ponto mais crucial.
Pois nomear é dar forma,
É reconhecer o que foi,
E quem conhece sua origem
Nunca se perde depois.
8
Cada sílaba dessa palavra
Carrega a força da Terra,
O silêncio das eras passadas
E o eco de antiga guerra.
Da caça à semente guardada,
Da pedra ao grão recolhido,
O nome Natufiano canta
O passado já vivido.
9
Assim nasce essa cultura,
Não de reis ou de soldados,
Mas de homens que ergueram a vida
Em pequenos cantos sagrados.
É do cotidiano simples
Que brota o gesto imortal,
E o nome gravado na História
Vence o tempo e o temporal.
10
Por isso, meu caro leitor,
Ao ouvir o nome Natuf,
Lembra que é mais que palavra,
É raiz, memória e fluxo.
É o sopro de um povo antigo
Que na pedra deixou seu sinal,
E cujo nome renasce vivo
Neste cordel ancestral.
📘 CAPÍTULO II – O Levante: Terra Entre Mar e Deserto
1
O Levante é uma porta aberta
Entre o mar e o sertão de areia,
Onde a vida desenha caminhos
E o vento da História passeia.
É uma terra de encontros antigos,
De culturas que se entrelaçaram,
Onde povos de mil trajetórias
Se encontraram e se transformaram.
2
Israel, Jordânia e Líbano,
Síria e Palestina também,
Formam esse corredor fértil
Onde tanta vida se tem.
Ali nascem fontes e vales,
Ali o verde insiste em brotar,
E mesmo o deserto ao lado
Não consegue tudo secar.
3
Esse chão, moldado pelo clima
E pela vontade do sol,
É ponte de três continentes
Que o tempo uniu em um só.
Caravanas, tribos, viajantes,
Todos por ali caminharam,
E cada passo deixado
Os caminhos da História traçaram.
4
Foi nesse sagrado cenário
Que os Natufianos surgiram,
Vivendo da terra fecunda
Que seus olhos logo sentiram.
Entre montes e rochas antigas,
Entre cavernas e fontes claras,
Fizeram dali seu refúgio
E sua aldeia mais rara.
5
O Levante é terra de ciclos,
De chuvas que chegam devagar,
De plantas que brotam ao ritmo
Do vento que vem do mar.
E o povo que ali se assentou
Soube ler o passo do clima,
Criando seu modo de vida
No compasso da sina íntima.
6
Ali encontraram sementes
Que o mundo ainda desconhecia,
Cevada, trigo selvagem,
Que o vale guardava algum dia.
E no gesto de colher e moer
Começa a grande mudança,
Pois o chão fértil do Levante
Despertou a primeira esperança.
7
Entre o Mediterrâneo e o deserto
Há um equilíbrio divino,
Como se o Criador tivesse
Traçado ali o destino.
Onde falta a água do norte,
Sobra o vento quente do sul,
E nessa dança de contrastes
Se moldou o coração azul.
8
Foi nessa terra de encontros
Que nasceram aldeias primeiras,
Com casas feitas de pedra
E com lareiras guerreiras.
Cada rochedo guardava
Um segredo do tempo antigo,
E o Levante, em sua grandeza,
Era mapa, berço e abrigo.
9
Por isso é nessa região
Que a humanidade floresce,
Que a caça vira cultivo
E a vida deixar de ser prece.
O Levante é ventre do mundo,
É fonte da transformação,
E os Natufianos souberam
Escutar sua vibração.
10
Assim termina este canto
Sobre a terra entre sal e pó,
Onde o passado se ergue vivo
E o presente se torna avó.
Quem conhece o chão do Levante
Entende a origem do viver,
Pois ali germinou a semente
Que fez o homem florescer.
📘 CAPÍTULO III – O Tempo das Transições Antigas
1
O relógio do mundo desperta
No fim da Grande Era Glacial,
Quando a terra, antes tão fria,
Torna-se um chão ancestral.
Os ventos mudaram de rumo,
As chuvas voltaram a cair,
E o clima, em suave mudança,
Chamou o homem a florir.
2
Era o Epipaleolítico,
Fronteira de dois caminhos:
O velho tempo do nomadismo
E o novo de lares e ninhos.
Os Natufianos surgiram
Nesse instante tão delicado,
Quando o mundo mudava a face
E o futuro era desenhado.
3
O gelo recuava devagar,
Deixando vales e novas veredas,
Os rios enchiam de vida
As margens cheias de lendas.
E o povo que antes vagava
Percebeu com admiração
Que o ciclo das estações
Guiava a fome e o coração.
4
As gazelas corriam aos montes
Nos campos férteis do vale,
E os grãos que a terra ofertava
Chamavam o gesto que cale.
Foi aí que o homem percebeu
Que era possível ficar,
Pois a natureza dizia
Que ali valia morar.
5
Era tempo de transição
Entre flechas, sementes e sonhos,
Entre o correr de animais
E o gesto de torná-los parceiros.
O mundo pedia mudança,
E os Natufianos sentiram
Que o velho modo de vida
Aos poucos se desfazia.
6
Não foi mudança repentina,
Mas dança lenta da vida,
Onde cada estação ensinava
Uma lição não esquecida.
O inverno guardava alimentos,
O verão trazia o calor,
E o homem, atento ao ciclo,
Aprendia o ritmo do amor.
7
Assim nasceu a sedentarização,
Primeiro passo para o novo,
Onde o lar não era passagem,
Mas raiz profunda do povo.
A aldeia surgia pequena,
Com pedras ao rés do chão,
E ali o tempo ganhava
Seu primeiro coração.
8
As ferramentas mudavam,
Ficavam finas e precisas,
Como se o mundo exigisse
Mãos cada vez mais sabidas.
Lâminas feitas de sílex,
Moedores para o cereal,
Anunciavam que o homem
Vivia algo sem igual.
9
Essa fase entre eras antigas
Foi ponte para a criação,
Pois dela brotou o impulso
Que gerou a Revolução.
Sem os passos desses povos
Que souberam se transformar,
Nunca a humanidade teria
Aprendido a cultivar.
10
Por isso, meu caro leitor,
Honremos o tempo passado,
Onde cada mudança sutil
Fez do mundo um novo estado.
Pois o homem que hoje planta,
Constrói e deixa legado,
É fruto da transição antiga
Que o Natufiano tem dado.
📘 CAPÍTULO IV – O Cotidiano da Aldeia Natufiana
1
No coração das pequenas aldeias
A vida seguia tranquila,
Com gente moldando a rotina
Ao ritmo que o mundo tinha.
A casa era simples, de pedra,
Feita com amor e cuidado,
Pois o lar, mesmo tão rústico,
Era abrigo sagrado.
2
As cabanas tinham formato
Oval ou circular,
Com pisos firmes de pedra
Para o frio não penetrar.
Ali as famílias dormiam,
Guardavam poucos tesouros,
Mas cada objeto mantinha
O valor de mil ouro.
3
As mulheres moíam grãos
Com pedras sobre outras pedras,
Transformando em farinha leve
A colheita do campo que medra.
Era o som da vida diária,
Um canto vindo das mãos,
Que preparava alimentos
E fortalecia os irmãos.
4
Os homens caçavam gazelas,
Rápidas como o vento azul,
E voltavam ao entardecer
Trazendo carne do sul.
Mas caçavam também pequenos
Animais da região,
Pois a mesa da aldeia
Pedia sempre união.
5
As crianças corriam livres
Pelas margens do vale fértil,
Aprendendo desde cedo
Os segredos daquele éter.
Sabiam onde achar frutos,
Ouvir os sons do mato,
E pouco a pouco cresciam
No compasso do verde exato.
6
Também pescavam nos rios
Que cortavam a paisagem,
E a rede feita de fibras
Era tecida com coragem.
Da água vinham sustento
E histórias de pescador,
Que ao redor da fogueira
Faziam o povo sonhador.
7
No meio da aldeia havia
Um espaço para o comum,
Onde o fogo ardia constante
E a vida se partilhava em uníssono.
Ali conversavam à noite,
Relembrando feitos e glórias,
Guardando na voz e nos gestos
As raízes de suas histórias.
8
Os ornamentos eram muitos:
Conchas vindas do mar,
Ossos, sementes e pedras
Que serviam para enfeitar.
Cada colar tinha um sentido,
Cada bracelete um valor,
Pois carregar no corpo a beleza
Era honrar o Criador.
9
Havia ainda os rituais
Que uniam o povo ao sagrado,
Com oferendas simples
Ao espírito iluminado.
E cada gesto, por menor,
Tinha grande significado,
Pois o mundo da aldeia
Era sempre encantado.
10
Assim vivia esse povo,
Entre caça, pesca e grão,
Erguendo nas mãos do tempo
A primeira organização.
O cotidiano Natufiano
É canto firme e profundo,
Pois dentro das pequenas aldeias
Nascia o espelho do mundo.
📘 CAPÍTULO V – Ferramentas, Artes e Caçadas
1
O talento de um povo se vê
Na pedra moldada à mão,
Pois cada lasca retirada
É verso feito no chão.
Os Natufianos sabiam
Que o sílex tinha poder,
E dele criavam lâminas
Com precisão de tecer.
2
A arte do micrólito fino,
Pequena lâmina brilhante,
Mostrava que o pensamento
Já era muito avançante.
Com elas faziam facas,
Pontas de flecha e cutelos,
E o brilho das pedras dizia
Que eram mestres muito belos.
3
As pedras de moer também
Eram joias de invenção,
Onde as mulheres giravam
O grão num eterno baião.
O som das pedras em roda
Era canto de amanhecer,
Pois ali nascia o alimento
Que iria a aldeia valer.
4
Havia ainda raspadores
Que limpavam couro e pele,
E serviam para vestir
O corpo que o frio fere.
Cada ferramenta criada
Mostrava um novo universo,
Pois a arte estava no gesto
E no silêncio do verso.
5
Os ornamentos eram muitos,
Feitos de conchas do mar,
Que viajavam longas distâncias
Para no peito brilhar.
Eram colares sagrados
Com símbolos de proteção,
Mostrando que a estética antiga
Já vivia no coração.
6
Nas cavernas e nas rochas
Faziam arte discreta,
Linhas simples, porém fortes,
Ecoando como poeta.
A expressão daquele povo
Não buscava exibição,
Mas revelar o invisível
Que mora no coração.
7
Na caçada eram valentes,
Conheciam cada sinal,
Seguiam passos de gazelas
Com faro quase animal.
O arco era extensão do braço,
A flecha, sopro certeiro,
E o caçador retornava
Como filho do nevoeiro.
8
Caçavam também raposas,
Pássaros e outros menores,
Pois nada do campo era pouco,
Tudo tinha seus valores.
A partilha do alimento
Era regra da tradição,
Pois comer juntos unia
A alma da população.
9
O fogo era companheiro,
Guardião na escuridão,
E ao redor dele surgiam
Histórias que nunca morrão.
Falavam de grandes feitos,
De caçadas e perigos,
E cada palavra contada
Criava mundos antigos.
10
Assim viviam no artesanato,
Na pedra e no alimento,
Misturando força e beleza
No ritmo do firmamento.
Ferramentas, artes e caças
Mostram o brilho primordial
De um povo que sobreviveu
Com maestria sem igual.
📘 CAPÍTULO VI – Os Sepultos, os Ritos e o Sagrado
1
No silêncio da terra escura
O Natufiano falava,
Pois cada sepulto guardava
História que o tempo embalava.
A morte não era abandono,
Mas retorno ao ventre-mãe,
E o povo sabia que a vida
No invisível sempre tem.
2
Os túmulos eram cavados
Ao lado da própria morada,
Pois o morto seguia presente
Na vida que estava assentada.
A aldeia vivia com ele,
Em respeito e comunhão,
Pois quem parte deixa raízes
Fundas no mesmo chão.
3
Os corpos eram deitados
Com cuidado e posição,
Às vezes adornados de conchas
Que guardavam devoção.
Cada objeto colocado
Tinha significado profundo,
Pois a morte era continuidade,
Nunca afastava do mundo.
4
Em certos sepultos havia
Cães ao lado de seus donos,
Primeiros companheiros fiéis
A dividir sonhos e tronos.
Esse gesto tão antigo
É poesia primordial,
Mostrando que o vínculo humano
Com o cão é ritual.
5
Os ritos eram silenciosos,
Feitos de gestos e olhar,
Onde o povo entendia a alma
Que começava a viajar.
Não havia templo erguido,
Nem altar para se ajoelhar,
Pois o sagrado vivia
No próprio ato de amar.
6
A morte era ensinamento,
Espelho do tempo e da dor,
E os Natufianos sabiam
Que tudo retorna ao Criador.
Enterrar com arte e respeito
Era honrar o ciclo divino,
Onde cada vida perdida
Continua seu destino.
7
O fogo, usado nos ritos,
Lembrava o sol do Levante,
Que nasce, morre e renasce
No seu ciclo incessante.
Assim o povo aprendia
Que a vida é também fogueira,
Que acende e se apaga ao vento,
Mas volta sempre inteira.
8
Tambores talvez ecoavam,
Ou apenas cantos suaves,
Pois a alma que segue a viagem
Não precisa de grandes claves.
O importante era a memória,
O gesto de acompanhar,
E a certeza de que o espírito
Nunca deixa de brilhar.
9
Cada sepulto guardava
Fragmentos de humanidade,
Eram cápsulas do tempo
Da mais antiga verdade.
O homem já compreendia
Que sua história ultrapassa
O limite do corpo humano
E o tempo que o abraça.
10
Por isso os ritos antigos
São janelas para o passado,
Revelam o senso profundo
Do ser humano sagrado.
Os Natufianos ensinaram
Que morrer é também viver,
Pois quem honra os ancestrais
Nunca deixa de renascer.
📘 CAPÍTULO VII – A Semente que Desperta a Agricultura
1
Na dobra do velho Levante,
Onde o vento sopra manso,
O trigo selvagem dança
No balanço do remanso.
O Natufiano, curioso,
Ouve da terra um chamado.
2
Não era ainda lavoura,
Nem sonho de semeadura,
Mas o gesto de recolher
Já moldava a vida futura.
A colheita se tornava
Um ato cheio de magia.
3
Nos montes de terra escura
Guardavam grãos com cuidado,
Pois sabiam que o alimento
Tinha espírito guardado.
E o gesto de conservar
Passou a ter grande valor.
4
Quando as chuvas retornavam
E a vida ao vale voltava,
Os grãos antes repousando
Rompendo a terra brotavam.
O Natufiano, atento,
Percebeu a lição sagrada.
5
A semente que renascia
Feito promessa do chão
Mostrava o ciclo do mundo
Na palma da própria mão.
E a terra, feiticeira,
Ofertava pão futuro.
6
Aos poucos, a breve coleta
Deixou de ser só passagem;
Tornou-se gesto consciente,
Rumo à primeira plantagem.
E o vale se iluminou
Com os campos a germinar.
7
Era o início do caminho
Que a humanidade tomaria:
Da caça ao cultivo paciente,
Do improviso à ousadia.
E no coração do Levante
Despertou a agricultura.
8
Assim, do grão escondido
Ao broto que se levanta,
Do cesto cheio de trigo
À mesa pequena e santa,
Os Natufianos guardaram
O segredo da criação.
📘 CAPÍTULO VIII – O Primeiro Companheiro: O Cão
1
No silêncio das madrugadas,
Quando o frio desce do monte,
Um ser de passos cautos
Aparece no horizonte.
Era o lobo aproximando
O fogo da aldeia humana.
2
Entre migalhas e restos,
Entre olhares desconfiados,
O lobo aprende o caminho
Dos fogos iluminados.
E o homem, vendo coragem,
Reconhece um destino partilhado.
3
As noites de longa espera
Juntavam dois caçadores:
Um de faro poderoso,
Outro de sonhos maiores.
Assim, sem nenhuma palavra,
O pacto foi começando.
4
Não foi gesto de domínio,
Mas de respeito profundo;
Foram encontros silenciosos
Sob o teto largo do mundo.
O lobo virou companheiro
No coração do Levante.
5
Quando a caça se afastava
E o perigo rondava o lar,
O cão, já fiel amigo,
Era o primeiro a vigiar.
E o homem lhe ofertava
O que tinha de mais sincero.
6
Nos sepultos das aldeias
A prova ficou guardada:
Cão e dono lado a lado
Na mesma cova assentada.
Era o sinal mais antigo
Do vínculo sem quebranto.
7
O cão aprendeu o caminho
Da guarita e da proteção;
O homem ganhou companhia
Na jornada e na missão.
E juntos fizeram histórias
Nas trilhas do velho mundo.
8
Desde o primeiro olhar manso
Ao descanso eterno no chão,
O cão se tornou memória
No canto desta canção.
E o Natufiano ensinou
Que amizade nasce do espírito.
📘 CAPÍTULO IX – As Aldeias Permanentes e o Peso do Tempo
1
No vale que o vento acarinha
E o sol aquece devagar,
As tendas viraram moradas
Que deixaram de caminhar.
Ali nasceu a certeza:
“O tempo pode ficar.”
2
As pedras cortadas à mão
Ergueram muros primeiros,
Pequenos lares de barro
Tornaram-se ninhos certeiros.
E a aldeia crescia mansa
Com sonhos de dias inteiros.
3
Era o fim de longas andanças
Que marcavam o velho mundo;
Pois ali, junto à colheita,
O futuro erguia seu rumo.
E o Natufiano dizia:
“Nosso chão será profundo.”
4
As casas em meia-lua
Guardavam o pão, a vida,
Enquanto o fogo aceso
Mantinha a noite aquecida.
Cada pedra era lembrança
De uma história construída.
5
O peso do tempo descia
Feito bênção sobre o lar;
Pois viver em aldeia firme
Era aprender a esperar.
A semente, a caça, o clima,
Tudo tinha seu lugar.
6
Na teia das relações
Florescia o companheirismo:
Partilha, ritmo e trabalho
Evitavam o egoísmo.
A aldeia virava escola
Do humano e do altruísmo.
7
Com o tempo, o vale mudou:
A colheita virou dever,
Os dias criaram rotina
E o povo passou a entender
Que estabilidade é força
E também modo de crescer.
8
Assim nasceram raízes
No chão fértil do Levante,
Onde o homem descobriu
A riqueza do instante.
E o mundo nunca esqueceu
Da aldeia firme e constante.
📘 CAPÍTULO X – O Legado Natufiano no Mundo Antigo
1
Quem olha o mundo de hoje
E volta os olhos pra trás
Enxerga a trilha profunda
Que o Natufiano foi capaz
De lançar sobre a história
Como semente de paz.
2
Do gesto de moer trigo
Ao ato de guardar grão,
Do abrigo feito de pedra
Ao cão velando o chão,
Muito antes das grandes eras
Já havia civilização.
3
Foi ali, no vale antigo,
Que o mapa do mundo mudou:
O caçador virou aldeão,
O nômade se assentou.
E a vida, pela primeira vez,
Um novo rumo encontrou.
4
Daquelas pequenas vilas
Brota a raiz do futuro:
O artesão, o sepultado,
O canto simples e puro.
São memórias que atravessam
Todo o tempo mais obscuro.
5
O legado do Natufiano
Não está só na agricultura;
Está no modo de viver
Com respeito e com ternura.
Pois cultivar é também
Cuidar da alma e da cura.
6
Os traços que hoje se vêem
Em cada povo da região
Bebem na fonte primeira
De tão antiga lição:
Que o homem é parte da terra
E a terra parte do homem.
7
E quando a ciência vasculha
O silêncio do chão profundo,
Encontra marcas e passos
De um povo que fez o mundo:
Domou o fogo e o medo,
E refez o destino do humano.
8
Por isso, leitor querido,
Que este cordel te conduz,
O passado que aqui reluz
É chama que sempre seduz:
O Natufiano é o alvorecer,
E nós somos sua luz.
📘 CAPÍTULO XI – Caminhos para o Neolítico
1
O tempo seguia sua trilha
No coração do Levante,
E as aldeias firmes cresciam
Com trabalho perseverante.
O mundo antigo mudava
Num ritmo lento e constante.
2
Os grãos guardados da terra
Já não eram simples comida:
Tornaram-se ponte secreta
Para a mudança da vida.
O povo, ao plantar o sonho,
Semeava nova partida.
3
De gesto em gesto surgiu
A prática da domesticação;
O trigo cedeu seu vigor,
A cevada trouxe expansão.
E a aldeia transformou-se
Em centro de produção.
4
As pedras viraram pilões,
As mãos ganharam memória;
O saber dos ancestrais
Virou força dentro da história.
O Natufiano ensinava
E o Neolítico já aflora.
5
As paredes mais bem erguidas,
Os silos cheios de grão,
A presença do cão fiel
Guardando cada porção,
Faziam da velha aldeia
Um presságio de revolução.
6
O nômade, outrora livre
Nos desertos de amplo véu,
Agora firmava raízes
Sob a proteção do céu.
Era o mundo se reinventando
Em um ciclo belo e fiel.
7
E os ritos, antes tão simples,
Ganharam corpo e grandeza;
A vida passou a ser vista
Como dança da natureza.
A morte virou lembrança
E a lembrança virou certeza.
8
Assim, as trilhas antigas
Se encheram de novo sentido:
O Neolítico despontava
Do esforço bem construído.
E o vale Natufiano
Deu ao futuro o seu tecido.
📘 CAPÍTULO XII – O Canto Final das Primeiras Aldeias
1
Quando o tempo adiantou
Seu passo firme e profundo,
As primeiras aldeias olharam
O horizonte amplo do mundo.
Sabiam que sua história
Já tocava o coração do tempo.
2
O trigo brotava certeiro,
A caçada ainda existia;
Mas o povo compreendia
Que outra era a melodia.
O vento do Levante dizia:
“Nova era se anuncia.”
3
As casas circulares, mansas,
Guardavam o eco ancestral;
Ali dormiam memórias
De um passado sem igual.
Cada pedra era um recado
Para o homem universal.
4
O cão, guardião eterno,
Vigiava o amanhecer;
E a aldeia inteira falava
Daquilo que tinha a dizer:
Que a vida vem da coragem
De plantar, guardar, viver.
5
Os ritos, as despedidas,
Os grãos secos nos seus cestos,
As pinturas e as ferramentas,
Os caminhos sempre honestos,
Mostravam que aquele povo
Respirava o sagrado gesto.
6
E quando o Neolítico chega
Com sua força transformante,
As aldeias compreendem
O passo firme e marcante.
O mundo antigo se fecha,
O novo surge adiante.
7
Mas nada se perde na terra
Que acolhe o homem com amor:
O Natufiano permanece
No gesto simples do agricultor,
No cão que dorme ao lado,
No lar que guarda calor.
8
Por isso este canto termina
Sem perder sua emoção:
Pois o fim das primeiras aldeias
É só nova inspiração.
O legado Natufiano vive
No pulsar da criação.
📜 ENCERRAMENTO – O Legado que Ecoa no Tempo
Assim termina, leitor amigo,
O canto das aldeias primeiras,
Que deixaram no chão do mundo
Marcas profundas e verdadeiras.
O Natufiano, mesmo antigo,
Ainda se ergue nas fileiras.
Pois sem ele não haveria
A casa, o pão, o cultivo;
Nem o cão ao pé da porta,
Nem o campo fértil e vivo.
O gesto que hoje é comum
Ele trouxe intuitivo.
Que o Levante, com suas pedras,
Com seus vales e sua luz,
Continue sempre contando
O que o passado traduz.
Pois ouvir a voz do tempo
É escutar o que nos conduz.
📜 EPÍLOGO POÉTICO – O Círculo que Nunca se Fecha
O ciclo da humanidade
Gira como a roda do vento;
Do Natufiano ao presente
Tudo é fio do mesmo tempo.
E quem busca entender o ontem
Encontra o hoje num só momento.
A aldeia que parecia simples
É raiz da nossa morada.
A semente que ele plantou
Virou ceifa abençoada.
E a pedra que ele moldou
Nos tornou gente lapidada.
Por isso este canto retorna
Ao ponto onde começou:
Ao povo que, com poucos meios,
Tanta grandeza deixou.
Honrar quem veio primeiro
É honrar quem nos criou.
📜 NOTA DE FONTES RIMADA
Para que este cordel siga firme
No trilho da boa ciência,
Trago aqui, em verso e rima,
As fontes de minha existência.
Pois poesia sem verdade
É barco sem resistência.
Bar-Yosef foi o primeiro
A falar com precisão
Da cultura Natufiana
E sua nobre contribuição.
Com ele aprendi o início
Da agrícola expansão.
Garrard com Coleman mostram,
Com estudo e claridade,
Os caçadores que no Levante
Criaram comunidade.
Sua obra ilumina as trilhas
Da antiga humanidade.
Henry, em livro profundo,
Mostra a transição inteira
Do forrageiro ao agricultor
No fim da Era derradeira.
Retrata o Levante antigo
Como uma ponte primeira.
Kuhn e a mestra Stiner
Debatem com reflexão
O papel das mãos humanas
Na divisão e na ação.
São vozes da Antropologia
Ecoando na compreensão.
Rollefson fecha o quadro
Com pesquisa reveladora:
Mostra a Revolução Neolítica
Como etapa transformadora.
Cada obra aqui citada
É trilha iluminadora.
E assim fica registrada
A base do meu cantar,
Pois ciência e poesia juntas
Fazem o mundo caminhar.
Da verdade nasce o verso,
Que é luz a nos guiar.
📜 FICHA TÉCNICA
Título: OS POVOS NATUFIANOS – Literatura de Cordel
Autor: Nhenety Kariri-Xocó
Gênero: Cordel histórico-poético
Tema Central: Origem e desenvolvimento da cultura Natufiana
Formato: Livro completo em versos rimados
Estudos preliminares: Nhenety Kariri-Xocó e Google Gemini
Pré-projeto: Nhenety Kariri-Xocó e ChatGPT ( OpenAI )
Revisão e Curadoria: Nhenety Kariri-Xocó
Produção Editorial: KXNHENETY.BLOGSPOT.COM
Local e Ano: Porto Real do Colégio – AL, Brasil, 2025
📜 EPÍLOGO FINAL
Chegamos ao fim, meu leitor,
Mas o canto não terminou.
Pois quem conhece o passado
Melhor futuro sonhou.
A história é ponte viva
Que o espírito atravessou.
Guarde bem este cordel,
Como quem guarda um tesouro;
Pois nele vive um povo antigo,
Feito de pedra e de ouro.
E ao narrar seus caminhos,
Eu também honrei meu couro.
Que Nhanderu te acompanhe
E ilumine tua estrada,
Pois quem carrega sabedoria
Nunca caminha sem nada.
O saber é flecha antiga
Que sempre volta encantada.
📜 QUARTA CÁPÁ POÉTICA
Aqui termina o cordel
Mas começa a reflexão:
O Natufiano é raiz
De toda civilização.
Se hoje há campo e colheita,
Foi ele quem plantou o chão.
Que esta obra te conduza
Aos primeiros habitantes,
Aos vales do antigo Levante,
Aos ritos emocionantes.
Pois o passado só vive
Quando ecoa nos caminhantes.
E se o presente floresce,
É porque a história se fez.
Que tua leitura, leitor,
Te inspire a cada vez.
Pois o mundo que hoje temos
Começou com gente talvez.
📜 SOBRE O AUTOR
Nhenety Kariri-Xocó
Filho do povo Kariri-Xocó de Porto Real do Colégio (AL), guardião da memória ancestral e contador de histórias orais e escritas.
Cultiva há anos a arte do cordel, da poesia e do conhecimento tradicional, unindo saberes indígenas, filosóficos e científicos.
Seu trabalho dialoga com o sagrado, com a terra e com as raízes mais profundas da humanidade. Autor de obras que ecoam espiritualidade, ancestralidade e consciência histórica, mantém vivo o canto dos antigos e transforma pesquisa em poesia.
📜 SOBRE A OBRA
Os Povos Natufianos – Literatura de Cordel
é um encontro entre ciência e encantamento.
Reconta, em versos firmes, a jornada dos primeiros aldeões do Levante, pioneiros da agricultura, da sedentarização e das bases da vida comunitária.
Este cordel honra a arqueologia, valoriza o conhecimento e reconecta o leitor às fundações mais remotas da humanidade — sempre guiado por um olhar indígena, sensível e ancestral.
É uma ponte entre mundos: do passado profundo ao presente que respira.
Esta obra foi inspirada e fundamentada no artigo publicado no blog “KXNHENETY.BLOGSPOT.COM", disponível em:
https://kxnhenety.blogspot.com/2025/05/os-povos-natufianos.html?m=0 , seguindo uma estrutura acadêmica nos moldes da ABNT e respaldada em referenciais históricos e culturais que unem a tradição oral ao conhecimento erudito.
Autor: Nhenety Kariri-Xocó


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