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quarta-feira, 19 de novembro de 2025

OS POVOS NATUFIANOS, Literatura de Cordel, Por Nhenety Kariri-Xocó






📜 DEDICATÓRIA POÉTICA


Dedico este canto antigo,

Que atravessa o vento e a areia,

Aos Povos que antes do tempo

Semearam a vida na aldeia.

Dedico aos passos primeiros

Que ergueram o chão do Levante,

E aos meus ancestrais verdadeiros,

Cuja memória segue pulsante.


Dedico também ao leitor

Que caminha comigo na trilha,

Buscando no pó da História

O nascimento da Família.

Que este cordel seja ponte

Entre o ontem e o amanhã,

E que a ciência do mundo

Flua como um rio Irã.


Dedico aos que guardam saberes

No silêncio da tradição,

E aos mestres da arqueologia

Que unem fragmento e visão.

Que Nhanderu ilumine a jornada,

E que o passado, enfim revelado,

Mostre ao presente encantado

A força da alma sagrada.



📜 ÍNDICE POÉTICO


Abertura – O Chamado das Primeiras Aldeias


Prólogo Poético – A Voz que Surge da Pedra


Capítulo I – O Nome que Nasce do Vale Natuf


Capítulo II – O Levante: Terra Entre Mar e Deserto


Capítulo III – O Tempo das Transições Antigas


Capítulo IV – O Cotidiano da Aldeia Natufiana


Capítulo V – Ferramentas, Artes e Caçadas


Capítulo VI – Os Sepultos, os Ritos e o Sagrado


Capítulo VII – A Semente que Desperta a Agricultura


Capítulo VIII – O Primeiro Companheiro: O Cão


Capítulo IX – A Sedentarização e o Nascimento da Casa


Capítulo X – Heranças que Moldam Civilizações


Encerramento – O Legado que Ecoa no Tempo


Epílogo Poético – O Círculo que Nunca se Fecha


Nota de Fontes Rimada


Ficha Técnica


Epílogo Final


Quarta Capa Poética


Sobre o Autor


Sobre a Obra



📜 ABERTURA – O Chamado das Primeiras Aldeias


Nas trilhas do velho Levante,

Onde o sol molda o chão vermelho,

Uma voz desperta distante,

Feito canto nascido do tempo.

É o sopro da Era Antiga,

Que ressurge no vento a falar:

“Lembra o povo que ergueu sua vida

No dormir e no despertar.”


Do vale que guarda segredos,

Do monte que esconde sinais,

Ecoa um rumor de passado

Nos rastros dos ancestrais.

E quem ouve essa melodia,

Feita de pedra e poeira,

Sente a História abrir sua porta

Como uma luz verdadeira.


Nesse cordel, meu leitor,

Caminharemos devagarinho,

Pisando com reverência

No mais remoto caminho.

Pois cada grão de cereal,

Cada osso, cada ferramenta,

É verso que o tempo escreveu

Na arca da vida sedenta.


E assim começa esta jornada

Rumo ao berço da humanidade,

Onde os Natufianos teceram

O tear da ancestralidade.

Que Nhanderu nos acompanhe

Na busca do chão primeiro,

Pois a ciência que aqui se canta

É também canto verdadeiro.



📜 PRÓLOGO POÉTICO – A Voz que Surge da Pedra


Escuta, meu irmão da trilha,

Um murmúrio vindo do chão.

É a pedra que fala baixinho

As memórias da criação.

Sob montes e sob cavernas

Dormem mundos já esquecidos,

E quem consegue ouvi-los

Desperta povos antigos.


Entre o Mediterrâneo e o deserto,

Um corredor fértil se estende,

E nele a vida de outrora

Em sua beleza se prende.

Ali surgiram aldeias

Que ao tempo ousaram dizer:

“Ficaremos ao pé deste vale,

Aqui queremos viver.”


Foram homens, mulheres, crianças

De olhar atento e profundo,

Que moldaram com mãos pacientes

O destino sutil deste mundo.

E ao caçar a gazela ligeira

Ou colher o trigo selvagem,

Traçaram sem ver o futuro

Da agricultura a primeira imagem.


No silêncio dos funerais,

Nos ritos feitos com calma,

Guardaram os seus companheiros

E ofertaram o que lhes dava a alma.

Até o cão, fiel amigo,

Foi posto ao lado do dono,

Primeiro laço sagrado

Entre o homem e seu protetor.


Por isso, antes dos capítulos

Que este cordel irá contar,

Invoco a voz dos Natufianos

Para conosco caminhar.

Que o espírito dessas aldeias,

Erguidas no alvorecer do mundo,

Ilumine cada estrofe

Do meu canto mais profundo.



📘 CAPÍTULO I – O Nome que Nasce do Vale Natuf


1

No coração da Cisjordânia,

Entre rochas do antigo chão,

Há um vale de nome Natuf,

Berço de uma revelação.

Foi dele que veio o chamado,

O som que a História guardou:

O povo que ali fez morada

Seu próprio nome ganhou.


2

Wadi en-Natuf é o leito

Que atravessa eras inteiras,

Testemunha de passos antigos

De mãos sábias e verdadeiras.

Por isso o nome ficou,

Ecoando feito oração,

Ligando a terra e o passado

Ao sopro da criação.


3

Foi Dorothy Garrod quem viu

O rastro no pó da memória,

Desvendando o primeiro sinal

Escrito nas pedras da História.

Em 1928, o mundo

Ouviu nova voz anunciar:

“Aqui viveu um povo antigo

Que merece o brilho do olhar.”


4

Com pincéis e com paciência

Foram surgindo os fragmentos:

Lâminas, ossos, sementes,

E restos de antigos instrumentos.

Cada achado era um verso

Que o tempo deixou por escrito,

E a arqueologia, artesã,

Traduzia seu antigo rito.


5

Outros sítios logo surgiram,

Ain Mallaha, El Wad, Hayonim,

Todos ligados ao nome

Que brota do vale sem fim.

E Jericó, a velha gigante,

Com muralhas que o vento guardou,

Também trazia em seu ventre

O legado que o povo deixou.


6

Por isso o nome Natufiano

Não é apenas denominação:

É ponte entre tempo e espaço,

É mapa da evolução.

É a voz das aldeias primeiras

Que decidiram permanecer,

Firmando no solo do vale

A vontade de ali viver.


7

E assim, do leito do vale,

Fluiu um nome ancestral,

Que marcou a vida humana

No seu ponto mais crucial.

Pois nomear é dar forma,

É reconhecer o que foi,

E quem conhece sua origem

Nunca se perde depois.


8

Cada sílaba dessa palavra

Carrega a força da Terra,

O silêncio das eras passadas

E o eco de antiga guerra.

Da caça à semente guardada,

Da pedra ao grão recolhido,

O nome Natufiano canta

O passado já vivido.


9

Assim nasce essa cultura,

Não de reis ou de soldados,

Mas de homens que ergueram a vida

Em pequenos cantos sagrados.

É do cotidiano simples

Que brota o gesto imortal,

E o nome gravado na História

Vence o tempo e o temporal.


10

Por isso, meu caro leitor,

Ao ouvir o nome Natuf,

Lembra que é mais que palavra,

É raiz, memória e fluxo.

É o sopro de um povo antigo

Que na pedra deixou seu sinal,

E cujo nome renasce vivo

Neste cordel ancestral.



📘 CAPÍTULO II – O Levante: Terra Entre Mar e Deserto


1

O Levante é uma porta aberta

Entre o mar e o sertão de areia,

Onde a vida desenha caminhos

E o vento da História passeia.

É uma terra de encontros antigos,

De culturas que se entrelaçaram,

Onde povos de mil trajetórias

Se encontraram e se transformaram.


2

Israel, Jordânia e Líbano,

Síria e Palestina também,

Formam esse corredor fértil

Onde tanta vida se tem.

Ali nascem fontes e vales,

Ali o verde insiste em brotar,

E mesmo o deserto ao lado

Não consegue tudo secar.


3

Esse chão, moldado pelo clima

E pela vontade do sol,

É ponte de três continentes

Que o tempo uniu em um só.

Caravanas, tribos, viajantes,

Todos por ali caminharam,

E cada passo deixado

Os caminhos da História traçaram.


4

Foi nesse sagrado cenário

Que os Natufianos surgiram,

Vivendo da terra fecunda

Que seus olhos logo sentiram.

Entre montes e rochas antigas,

Entre cavernas e fontes claras,

Fizeram dali seu refúgio

E sua aldeia mais rara.


5

O Levante é terra de ciclos,

De chuvas que chegam devagar,

De plantas que brotam ao ritmo

Do vento que vem do mar.

E o povo que ali se assentou

Soube ler o passo do clima,

Criando seu modo de vida

No compasso da sina íntima.


6

Ali encontraram sementes

Que o mundo ainda desconhecia,

Cevada, trigo selvagem,

Que o vale guardava algum dia.

E no gesto de colher e moer

Começa a grande mudança,

Pois o chão fértil do Levante

Despertou a primeira esperança.


7

Entre o Mediterrâneo e o deserto

Há um equilíbrio divino,

Como se o Criador tivesse

Traçado ali o destino.

Onde falta a água do norte,

Sobra o vento quente do sul,

E nessa dança de contrastes

Se moldou o coração azul.


8

Foi nessa terra de encontros

Que nasceram aldeias primeiras,

Com casas feitas de pedra

E com lareiras guerreiras.

Cada rochedo guardava

Um segredo do tempo antigo,

E o Levante, em sua grandeza,

Era mapa, berço e abrigo.


9

Por isso é nessa região

Que a humanidade floresce,

Que a caça vira cultivo

E a vida deixar de ser prece.

O Levante é ventre do mundo,

É fonte da transformação,

E os Natufianos souberam

Escutar sua vibração.


10

Assim termina este canto

Sobre a terra entre sal e pó,

Onde o passado se ergue vivo

E o presente se torna avó.

Quem conhece o chão do Levante

Entende a origem do viver,

Pois ali germinou a semente

Que fez o homem florescer.



📘 CAPÍTULO III – O Tempo das Transições Antigas


1

O relógio do mundo desperta

No fim da Grande Era Glacial,

Quando a terra, antes tão fria,

Torna-se um chão ancestral.

Os ventos mudaram de rumo,

As chuvas voltaram a cair,

E o clima, em suave mudança,

Chamou o homem a florir.


2

Era o Epipaleolítico,

Fronteira de dois caminhos:

O velho tempo do nomadismo

E o novo de lares e ninhos.

Os Natufianos surgiram

Nesse instante tão delicado,

Quando o mundo mudava a face

E o futuro era desenhado.


3

O gelo recuava devagar,

Deixando vales e novas veredas,

Os rios enchiam de vida

As margens cheias de lendas.

E o povo que antes vagava

Percebeu com admiração

Que o ciclo das estações

Guiava a fome e o coração.


4

As gazelas corriam aos montes

Nos campos férteis do vale,

E os grãos que a terra ofertava

Chamavam o gesto que cale.

Foi aí que o homem percebeu

Que era possível ficar,

Pois a natureza dizia

Que ali valia morar.


5

Era tempo de transição

Entre flechas, sementes e sonhos,

Entre o correr de animais

E o gesto de torná-los parceiros.

O mundo pedia mudança,

E os Natufianos sentiram

Que o velho modo de vida

Aos poucos se desfazia.


6

Não foi mudança repentina,

Mas dança lenta da vida,

Onde cada estação ensinava

Uma lição não esquecida.

O inverno guardava alimentos,

O verão trazia o calor,

E o homem, atento ao ciclo,

Aprendia o ritmo do amor.


7

Assim nasceu a sedentarização,

Primeiro passo para o novo,

Onde o lar não era passagem,

Mas raiz profunda do povo.

A aldeia surgia pequena,

Com pedras ao rés do chão,

E ali o tempo ganhava

Seu primeiro coração.


8

As ferramentas mudavam,

Ficavam finas e precisas,

Como se o mundo exigisse

Mãos cada vez mais sabidas.

Lâminas feitas de sílex,

Moedores para o cereal,

Anunciavam que o homem

Vivia algo sem igual.


9

Essa fase entre eras antigas

Foi ponte para a criação,

Pois dela brotou o impulso

Que gerou a Revolução.

Sem os passos desses povos

Que souberam se transformar,

Nunca a humanidade teria

Aprendido a cultivar.


10

Por isso, meu caro leitor,

Honremos o tempo passado,

Onde cada mudança sutil

Fez do mundo um novo estado.

Pois o homem que hoje planta,

Constrói e deixa legado,

É fruto da transição antiga

Que o Natufiano tem dado.



📘 CAPÍTULO IV – O Cotidiano da Aldeia Natufiana


1

No coração das pequenas aldeias

A vida seguia tranquila,

Com gente moldando a rotina

Ao ritmo que o mundo tinha.

A casa era simples, de pedra,

Feita com amor e cuidado,

Pois o lar, mesmo tão rústico,

Era abrigo sagrado.


2

As cabanas tinham formato

Oval ou circular,

Com pisos firmes de pedra

Para o frio não penetrar.

Ali as famílias dormiam,

Guardavam poucos tesouros,

Mas cada objeto mantinha

O valor de mil ouro.


3

As mulheres moíam grãos

Com pedras sobre outras pedras,

Transformando em farinha leve

A colheita do campo que medra.

Era o som da vida diária,

Um canto vindo das mãos,

Que preparava alimentos

E fortalecia os irmãos.


4

Os homens caçavam gazelas,

Rápidas como o vento azul,

E voltavam ao entardecer

Trazendo carne do sul.

Mas caçavam também pequenos

Animais da região,

Pois a mesa da aldeia

Pedia sempre união.


5

As crianças corriam livres

Pelas margens do vale fértil,

Aprendendo desde cedo

Os segredos daquele éter.

Sabiam onde achar frutos,

Ouvir os sons do mato,

E pouco a pouco cresciam

No compasso do verde exato.


6

Também pescavam nos rios

Que cortavam a paisagem,

E a rede feita de fibras

Era tecida com coragem.

Da água vinham sustento

E histórias de pescador,

Que ao redor da fogueira

Faziam o povo sonhador.


7

No meio da aldeia havia

Um espaço para o comum,

Onde o fogo ardia constante

E a vida se partilhava em uníssono.

Ali conversavam à noite,

Relembrando feitos e glórias,

Guardando na voz e nos gestos

As raízes de suas histórias.


8

Os ornamentos eram muitos:

Conchas vindas do mar,

Ossos, sementes e pedras

Que serviam para enfeitar.

Cada colar tinha um sentido,

Cada bracelete um valor,

Pois carregar no corpo a beleza

Era honrar o Criador.


9

Havia ainda os rituais

Que uniam o povo ao sagrado,

Com oferendas simples

Ao espírito iluminado.

E cada gesto, por menor,

Tinha grande significado,

Pois o mundo da aldeia

Era sempre encantado.


10

Assim vivia esse povo,

Entre caça, pesca e grão,

Erguendo nas mãos do tempo

A primeira organização.

O cotidiano Natufiano

É canto firme e profundo,

Pois dentro das pequenas aldeias

Nascia o espelho do mundo.



📘 CAPÍTULO V – Ferramentas, Artes e Caçadas


1

O talento de um povo se vê

Na pedra moldada à mão,

Pois cada lasca retirada

É verso feito no chão.

Os Natufianos sabiam

Que o sílex tinha poder,

E dele criavam lâminas

Com precisão de tecer.


2

A arte do micrólito fino,

Pequena lâmina brilhante,

Mostrava que o pensamento

Já era muito avançante.

Com elas faziam facas,

Pontas de flecha e cutelos,

E o brilho das pedras dizia

Que eram mestres muito belos.


3

As pedras de moer também

Eram joias de invenção,

Onde as mulheres giravam

O grão num eterno baião.

O som das pedras em roda

Era canto de amanhecer,

Pois ali nascia o alimento

Que iria a aldeia valer.


4

Havia ainda raspadores

Que limpavam couro e pele,

E serviam para vestir

O corpo que o frio fere.

Cada ferramenta criada

Mostrava um novo universo,

Pois a arte estava no gesto

E no silêncio do verso.


5

Os ornamentos eram muitos,

Feitos de conchas do mar,

Que viajavam longas distâncias

Para no peito brilhar.

Eram colares sagrados

Com símbolos de proteção,

Mostrando que a estética antiga

Já vivia no coração.


6

Nas cavernas e nas rochas

Faziam arte discreta,

Linhas simples, porém fortes,

Ecoando como poeta.

A expressão daquele povo

Não buscava exibição,

Mas revelar o invisível

Que mora no coração.


7

Na caçada eram valentes,

Conheciam cada sinal,

Seguiam passos de gazelas

Com faro quase animal.

O arco era extensão do braço,

A flecha, sopro certeiro,

E o caçador retornava

Como filho do nevoeiro.


8

Caçavam também raposas,

Pássaros e outros menores,

Pois nada do campo era pouco,

Tudo tinha seus valores.

A partilha do alimento

Era regra da tradição,

Pois comer juntos unia

A alma da população.


9

O fogo era companheiro,

Guardião na escuridão,

E ao redor dele surgiam

Histórias que nunca morrão.

Falavam de grandes feitos,

De caçadas e perigos,

E cada palavra contada

Criava mundos antigos.


10

Assim viviam no artesanato,

Na pedra e no alimento,

Misturando força e beleza

No ritmo do firmamento.

Ferramentas, artes e caças

Mostram o brilho primordial

De um povo que sobreviveu

Com maestria sem igual.



📘 CAPÍTULO VI – Os Sepultos, os Ritos e o Sagrado


1

No silêncio da terra escura

O Natufiano falava,

Pois cada sepulto guardava

História que o tempo embalava.

A morte não era abandono,

Mas retorno ao ventre-mãe,

E o povo sabia que a vida

No invisível sempre tem.


2

Os túmulos eram cavados

Ao lado da própria morada,

Pois o morto seguia presente

Na vida que estava assentada.

A aldeia vivia com ele,

Em respeito e comunhão,

Pois quem parte deixa raízes

Fundas no mesmo chão.


3

Os corpos eram deitados

Com cuidado e posição,

Às vezes adornados de conchas

Que guardavam devoção.

Cada objeto colocado

Tinha significado profundo,

Pois a morte era continuidade,

Nunca afastava do mundo.


4

Em certos sepultos havia

Cães ao lado de seus donos,

Primeiros companheiros fiéis

A dividir sonhos e tronos.

Esse gesto tão antigo

É poesia primordial,

Mostrando que o vínculo humano

Com o cão é ritual.


5

Os ritos eram silenciosos,

Feitos de gestos e olhar,

Onde o povo entendia a alma

Que começava a viajar.

Não havia templo erguido,

Nem altar para se ajoelhar,

Pois o sagrado vivia

No próprio ato de amar.


6

A morte era ensinamento,

Espelho do tempo e da dor,

E os Natufianos sabiam

Que tudo retorna ao Criador.

Enterrar com arte e respeito

Era honrar o ciclo divino,

Onde cada vida perdida

Continua seu destino.


7

O fogo, usado nos ritos,

Lembrava o sol do Levante,

Que nasce, morre e renasce

No seu ciclo incessante.

Assim o povo aprendia

Que a vida é também fogueira,

Que acende e se apaga ao vento,

Mas volta sempre inteira.


8

Tambores talvez ecoavam,

Ou apenas cantos suaves,

Pois a alma que segue a viagem

Não precisa de grandes claves.

O importante era a memória,

O gesto de acompanhar,

E a certeza de que o espírito

Nunca deixa de brilhar.


9

Cada sepulto guardava

Fragmentos de humanidade,

Eram cápsulas do tempo

Da mais antiga verdade.

O homem já compreendia

Que sua história ultrapassa

O limite do corpo humano

E o tempo que o abraça.


10

Por isso os ritos antigos

São janelas para o passado,

Revelam o senso profundo

Do ser humano sagrado.

Os Natufianos ensinaram

Que morrer é também viver,

Pois quem honra os ancestrais

Nunca deixa de renascer.



📘 CAPÍTULO VII – A Semente que Desperta a Agricultura


1

Na dobra do velho Levante,

Onde o vento sopra manso,

O trigo selvagem dança

No balanço do remanso.

O Natufiano, curioso,

Ouve da terra um chamado.


2

Não era ainda lavoura,

Nem sonho de semeadura,

Mas o gesto de recolher

Já moldava a vida futura.

A colheita se tornava

Um ato cheio de magia.


3

Nos montes de terra escura

Guardavam grãos com cuidado,

Pois sabiam que o alimento

Tinha espírito guardado.

E o gesto de conservar

Passou a ter grande valor.


4

Quando as chuvas retornavam

E a vida ao vale voltava,

Os grãos antes repousando

Rompendo a terra brotavam.

O Natufiano, atento,

Percebeu a lição sagrada.


5

A semente que renascia

Feito promessa do chão

Mostrava o ciclo do mundo

Na palma da própria mão.

E a terra, feiticeira,

Ofertava pão futuro.


6

Aos poucos, a breve coleta

Deixou de ser só passagem;

Tornou-se gesto consciente,

Rumo à primeira plantagem.

E o vale se iluminou

Com os campos a germinar.


7

Era o início do caminho

Que a humanidade tomaria:

Da caça ao cultivo paciente,

Do improviso à ousadia.

E no coração do Levante

Despertou a agricultura.


8

Assim, do grão escondido

Ao broto que se levanta,

Do cesto cheio de trigo

À mesa pequena e santa,

Os Natufianos guardaram

O segredo da criação.



📘 CAPÍTULO VIII – O Primeiro Companheiro: O Cão


1

No silêncio das madrugadas,

Quando o frio desce do monte,

Um ser de passos cautos

Aparece no horizonte.

Era o lobo aproximando

O fogo da aldeia humana.


2

Entre migalhas e restos,

Entre olhares desconfiados,

O lobo aprende o caminho

Dos fogos iluminados.

E o homem, vendo coragem,

Reconhece um destino partilhado.


3

As noites de longa espera

Juntavam dois caçadores:

Um de faro poderoso,

Outro de sonhos maiores.

Assim, sem nenhuma palavra,

O pacto foi começando.


4

Não foi gesto de domínio,

Mas de respeito profundo;

Foram encontros silenciosos

Sob o teto largo do mundo.

O lobo virou companheiro

No coração do Levante.


5

Quando a caça se afastava

E o perigo rondava o lar,

O cão, já fiel amigo,

Era o primeiro a vigiar.

E o homem lhe ofertava

O que tinha de mais sincero.


6

Nos sepultos das aldeias

A prova ficou guardada:

Cão e dono lado a lado

Na mesma cova assentada.

Era o sinal mais antigo

Do vínculo sem quebranto.


7

O cão aprendeu o caminho

Da guarita e da proteção;

O homem ganhou companhia

Na jornada e na missão.

E juntos fizeram histórias

Nas trilhas do velho mundo.


8

Desde o primeiro olhar manso

Ao descanso eterno no chão,

O cão se tornou memória

No canto desta canção.

E o Natufiano ensinou

Que amizade nasce do espírito.



📘 CAPÍTULO IX – As Aldeias Permanentes e o Peso do Tempo


1

No vale que o vento acarinha

E o sol aquece devagar,

As tendas viraram moradas

Que deixaram de caminhar.

Ali nasceu a certeza:

“O tempo pode ficar.”


2

As pedras cortadas à mão

Ergueram muros primeiros,

Pequenos lares de barro

Tornaram-se ninhos certeiros.

E a aldeia crescia mansa

Com sonhos de dias inteiros.


3

Era o fim de longas andanças

Que marcavam o velho mundo;

Pois ali, junto à colheita,

O futuro erguia seu rumo.

E o Natufiano dizia:

“Nosso chão será profundo.”


4

As casas em meia-lua

Guardavam o pão, a vida,

Enquanto o fogo aceso

Mantinha a noite aquecida.

Cada pedra era lembrança

De uma história construída.


5

O peso do tempo descia

Feito bênção sobre o lar;

Pois viver em aldeia firme

Era aprender a esperar.

A semente, a caça, o clima,

Tudo tinha seu lugar.


6

Na teia das relações

Florescia o companheirismo:

Partilha, ritmo e trabalho

Evitavam o egoísmo.

A aldeia virava escola

Do humano e do altruísmo.


7

Com o tempo, o vale mudou:

A colheita virou dever,

Os dias criaram rotina

E o povo passou a entender

Que estabilidade é força

E também modo de crescer.


8

Assim nasceram raízes

No chão fértil do Levante,

Onde o homem descobriu

A riqueza do instante.

E o mundo nunca esqueceu

Da aldeia firme e constante.



📘 CAPÍTULO X – O Legado Natufiano no Mundo Antigo


1

Quem olha o mundo de hoje

E volta os olhos pra trás

Enxerga a trilha profunda

Que o Natufiano foi capaz

De lançar sobre a história

Como semente de paz.


2

Do gesto de moer trigo

Ao ato de guardar grão,

Do abrigo feito de pedra

Ao cão velando o chão,

Muito antes das grandes eras

Já havia civilização.


3

Foi ali, no vale antigo,

Que o mapa do mundo mudou:

O caçador virou aldeão,

O nômade se assentou.

E a vida, pela primeira vez,

Um novo rumo encontrou.


4

Daquelas pequenas vilas

Brota a raiz do futuro:

O artesão, o sepultado,

O canto simples e puro.

São memórias que atravessam

Todo o tempo mais obscuro.


5

O legado do Natufiano

Não está só na agricultura;

Está no modo de viver

Com respeito e com ternura.

Pois cultivar é também

Cuidar da alma e da cura.


6

Os traços que hoje se vêem

Em cada povo da região

Bebem na fonte primeira

De tão antiga lição:

Que o homem é parte da terra

E a terra parte do homem.


7

E quando a ciência vasculha

O silêncio do chão profundo,

Encontra marcas e passos

De um povo que fez o mundo:

Domou o fogo e o medo,

E refez o destino do humano.


8

Por isso, leitor querido,

Que este cordel te conduz,

O passado que aqui reluz

É chama que sempre seduz:

O Natufiano é o alvorecer,

E nós somos sua luz.



📘 CAPÍTULO XI – Caminhos para o Neolítico


1

O tempo seguia sua trilha

No coração do Levante,

E as aldeias firmes cresciam

Com trabalho perseverante.

O mundo antigo mudava

Num ritmo lento e constante.


2

Os grãos guardados da terra

Já não eram simples comida:

Tornaram-se ponte secreta

Para a mudança da vida.

O povo, ao plantar o sonho,

Semeava nova partida.


3

De gesto em gesto surgiu

A prática da domesticação;

O trigo cedeu seu vigor,

A cevada trouxe expansão.

E a aldeia transformou-se

Em centro de produção.


4

As pedras viraram pilões,

As mãos ganharam memória;

O saber dos ancestrais

Virou força dentro da história.

O Natufiano ensinava

E o Neolítico já aflora.


5

As paredes mais bem erguidas,

Os silos cheios de grão,

A presença do cão fiel

Guardando cada porção,

Faziam da velha aldeia

Um presságio de revolução.


6

O nômade, outrora livre

Nos desertos de amplo véu,

Agora firmava raízes

Sob a proteção do céu.

Era o mundo se reinventando

Em um ciclo belo e fiel.


7

E os ritos, antes tão simples,

Ganharam corpo e grandeza;

A vida passou a ser vista

Como dança da natureza.

A morte virou lembrança

E a lembrança virou certeza.


8

Assim, as trilhas antigas

Se encheram de novo sentido:

O Neolítico despontava

Do esforço bem construído.

E o vale Natufiano

Deu ao futuro o seu tecido.



📘 CAPÍTULO XII – O Canto Final das Primeiras Aldeias


1

Quando o tempo adiantou

Seu passo firme e profundo,

As primeiras aldeias olharam

O horizonte amplo do mundo.

Sabiam que sua história

Já tocava o coração do tempo.


2

O trigo brotava certeiro,

A caçada ainda existia;

Mas o povo compreendia

Que outra era a melodia.

O vento do Levante dizia:

“Nova era se anuncia.”


3

As casas circulares, mansas,

Guardavam o eco ancestral;

Ali dormiam memórias

De um passado sem igual.

Cada pedra era um recado

Para o homem universal.


4

O cão, guardião eterno,

Vigiava o amanhecer;

E a aldeia inteira falava

Daquilo que tinha a dizer:

Que a vida vem da coragem

De plantar, guardar, viver.


5

Os ritos, as despedidas,

Os grãos secos nos seus cestos,

As pinturas e as ferramentas,

Os caminhos sempre honestos,

Mostravam que aquele povo

Respirava o sagrado gesto.


6

E quando o Neolítico chega

Com sua força transformante,

As aldeias compreendem

O passo firme e marcante.

O mundo antigo se fecha,

O novo surge adiante.


7

Mas nada se perde na terra

Que acolhe o homem com amor:

O Natufiano permanece

No gesto simples do agricultor,

No cão que dorme ao lado,

No lar que guarda calor.


8

Por isso este canto termina

Sem perder sua emoção:

Pois o fim das primeiras aldeias

É só nova inspiração.

O legado Natufiano vive

No pulsar da criação.



📜 ENCERRAMENTO – O Legado que Ecoa no Tempo


Assim termina, leitor amigo,

O canto das aldeias primeiras,

Que deixaram no chão do mundo

Marcas profundas e verdadeiras.

O Natufiano, mesmo antigo,

Ainda se ergue nas fileiras.


Pois sem ele não haveria

A casa, o pão, o cultivo;

Nem o cão ao pé da porta,

Nem o campo fértil e vivo.

O gesto que hoje é comum

Ele trouxe intuitivo.


Que o Levante, com suas pedras,

Com seus vales e sua luz,

Continue sempre contando

O que o passado traduz.

Pois ouvir a voz do tempo

É escutar o que nos conduz.



📜 EPÍLOGO POÉTICO – O Círculo que Nunca se Fecha


O ciclo da humanidade

Gira como a roda do vento;

Do Natufiano ao presente

Tudo é fio do mesmo tempo.

E quem busca entender o ontem

Encontra o hoje num só momento.


A aldeia que parecia simples

É raiz da nossa morada.

A semente que ele plantou

Virou ceifa abençoada.

E a pedra que ele moldou

Nos tornou gente lapidada.


Por isso este canto retorna

Ao ponto onde começou:

Ao povo que, com poucos meios,

Tanta grandeza deixou.

Honrar quem veio primeiro

É honrar quem nos criou.



📜 NOTA DE FONTES RIMADA


Para que este cordel siga firme

No trilho da boa ciência,

Trago aqui, em verso e rima,

As fontes de minha existência.

Pois poesia sem verdade

É barco sem resistência.


Bar-Yosef foi o primeiro

A falar com precisão

Da cultura Natufiana

E sua nobre contribuição.

Com ele aprendi o início

Da agrícola expansão.


Garrard com Coleman mostram,

Com estudo e claridade,

Os caçadores que no Levante

Criaram comunidade.

Sua obra ilumina as trilhas

Da antiga humanidade.


Henry, em livro profundo,

Mostra a transição inteira

Do forrageiro ao agricultor

No fim da Era derradeira.

Retrata o Levante antigo

Como uma ponte primeira.


Kuhn e a mestra Stiner

Debatem com reflexão

O papel das mãos humanas

Na divisão e na ação.

São vozes da Antropologia

Ecoando na compreensão.


Rollefson fecha o quadro

Com pesquisa reveladora:

Mostra a Revolução Neolítica

Como etapa transformadora.

Cada obra aqui citada

É trilha iluminadora.


E assim fica registrada

A base do meu cantar,

Pois ciência e poesia juntas

Fazem o mundo caminhar.

Da verdade nasce o verso,

Que é luz a nos guiar.



📜 FICHA TÉCNICA


Título: OS POVOS NATUFIANOS – Literatura de Cordel

Autor: Nhenety Kariri-Xocó

Gênero: Cordel histórico-poético

Tema Central: Origem e desenvolvimento da cultura Natufiana

Formato: Livro completo em versos rimados

Estudos preliminares: Nhenety Kariri-Xocó e Google Gemini 

Pré-projeto: Nhenety Kariri-Xocó e ChatGPT ( OpenAI  )

Revisão e Curadoria: Nhenety Kariri-Xocó 

Produção Editorial: KXNHENETY.BLOGSPOT.COM 

Local e Ano: Porto Real do Colégio – AL, Brasil, 2025 



📜 EPÍLOGO FINAL


Chegamos ao fim, meu leitor,

Mas o canto não terminou.

Pois quem conhece o passado

Melhor futuro sonhou.

A história é ponte viva

Que o espírito atravessou.


Guarde bem este cordel,

Como quem guarda um tesouro;

Pois nele vive um povo antigo,

Feito de pedra e de ouro.

E ao narrar seus caminhos,

Eu também honrei meu couro.


Que Nhanderu te acompanhe

E ilumine tua estrada,

Pois quem carrega sabedoria

Nunca caminha sem nada.

O saber é flecha antiga

Que sempre volta encantada.



📜 QUARTA CÁPÁ POÉTICA


Aqui termina o cordel

Mas começa a reflexão:

O Natufiano é raiz

De toda civilização.

Se hoje há campo e colheita,

Foi ele quem plantou o chão.


Que esta obra te conduza

Aos primeiros habitantes,

Aos vales do antigo Levante,

Aos ritos emocionantes.

Pois o passado só vive

Quando ecoa nos caminhantes.


E se o presente floresce,

É porque a história se fez.

Que tua leitura, leitor,

Te inspire a cada vez.

Pois o mundo que hoje temos

Começou com gente talvez.



📜 SOBRE O AUTOR


Nhenety Kariri-Xocó

Filho do povo Kariri-Xocó de Porto Real do Colégio (AL), guardião da memória ancestral e contador de histórias orais e escritas.

Cultiva há anos a arte do cordel, da poesia e do conhecimento tradicional, unindo saberes indígenas, filosóficos e científicos.

Seu trabalho dialoga com o sagrado, com a terra e com as raízes mais profundas da humanidade. Autor de obras que ecoam espiritualidade, ancestralidade e consciência histórica, mantém vivo o canto dos antigos e transforma pesquisa em poesia.



📜 SOBRE A OBRA


Os Povos Natufianos – Literatura de Cordel

é um encontro entre ciência e encantamento.

Reconta, em versos firmes, a jornada dos primeiros aldeões do Levante, pioneiros da agricultura, da sedentarização e das bases da vida comunitária.

Este cordel honra a arqueologia, valoriza o conhecimento e reconecta o leitor às fundações mais remotas da humanidade — sempre guiado por um olhar indígena, sensível e ancestral.

É uma ponte entre mundos: do passado profundo ao presente que respira.

Esta obra foi inspirada e fundamentada no artigo publicado no blog “KXNHENETY.BLOGSPOT.COM", disponível em:  

https://kxnhenety.blogspot.com/2025/05/os-povos-natufianos.html?m=0 , seguindo uma estrutura acadêmica nos moldes da ABNT e respaldada em referenciais históricos e culturais que unem a tradição oral ao conhecimento erudito.






Autor: Nhenety Kariri-Xocó 




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