Kanawí caminhava devagar, como quem escuta a terra antes de pisá-la. Seus pés conheciam cada curva da Radda, cada cheiro trazido pelo vento que vinha do Iwo Opará. Para ele, a terra não era apenas chão: era corpo vivo, memória antiga, voz dos Tokenhé, antepassados.
Naquela manhã, Kanawí não caminhava sozinho.
Ao seu lado vinham George, biólogo de olhos atentos, sempre com um caderno nas mãos, e Clarice, antropóloga silenciosa, que preferia ouvir antes de perguntar. Ambos eram pesquisadores brancos, vindos de longe, atraídos pelo que os livros não conseguiam explicar.
— Aqui é Undéá Aiby Radda — disse Kanawí, quebrando o silêncio. — Os Lugares da Terra.
George levantou os olhos do caderno. Clarice sorriu com respeito.
— Nosso Tseho, povo vive aqui desde os Tokenhé, antepassados — continuou Kanawí —, com Natiá, aldeias espalhadas ao longo do Iwo Opará, que vocês chamam de Rio São Francisco.
Eles caminharam até um ponto mais alto.
Kanawí estendeu o braço, desenhando os limites invisíveis no ar.
— A leste, o Boêdo Dzurió Tasí, o Morro da Lagoa da Enxada. A oeste, o próprio rio. Ao norte, o Iwo Tibirí, Rio da Formiga. Ao sul, a Pohó Itiúba, a Várzea do Rio da Canoa.
Clarice anotava, mas o que mais a impressionava não eram os nomes, e sim a maneira como Kanawí falava deles — como se cada palavra fosse um parente.
— Esses lugares aparecem nas Woroyá, as histórias dos antepassados — disse ele, enquanto os conduzia em direção à serra da Maraba. — É daqui que tiramos a Tabatinga, a argila branca. Ela vira Ruñohú, nossa cerâmica. Cada peça guarda um pedaço da serra.
George ajoelhou-se, tocando a terra clara com cuidado.
— A composição mineral disso é impressionante — murmurou.
Kanawí sorriu.
— A terra ensina antes da ciência.
Mais adiante, apontou para outra serra.
— Ali é a Apreaca. Dela tiramos o caroá, que vira corda. Nada se perde. Tudo retorna.
Quando chegaram às Dzurióá, as lagoas, Kanawí parou em silêncio. Clarice sentiu que aquele não era um lugar comum.
— Aqui estão as Ebebunhá — explicou ele em voz baixa. — Fontes de barro. Daqui vem o Tauá, a argila amarela, e a Ebebunháhe, a vermelha. Cada cor tem um tempo, um uso, um respeito.
O vento passou suave sobre a água. George fechou o caderno. Clarice baixou a cabeça.
Por fim, Kanawí os conduziu à Retsé, a floresta.
— Aqui fica a Natianie, nossa aldeia tradicional — disse. — E mais adiante, perto da cidade, a Natierácró, a aldeia urbana. Dois mundos, uma só raiz.
Clarice respirou fundo.
— Kanawí… — disse ela — o que você quer que levemos conosco quando formos embora?
O indígena olhou para a terra, depois para o rio, depois para o céu.
— Levem o entendimento de que a Radda não é lugar vazio. Ela tem nome, memória e espírito. E quem aprende a ver, Ubí, nunca mais pisa sem cuidado.
O sol começava a se pôr sobre o Iwo Opará. Naquele instante, George e Clarice compreenderam: não estavam apenas pesquisando um território — estavam sendo apresentados a um modo de existir.
Autor: Nhenety Kariri-Xocó






