quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

HIETÃDÉ UIHOIE OPARÁ, NÓS TODOS SOMOS O RIO SÃO FRANCISCO






Na Aldeia Kariri-Xocó, quando o Ukie, o Sol, começa a se deitar no lado Oeste, a luz dourada repousa sobre o Opará. O grande rio segue seu caminho antigo, correndo do Norte ao Sul, até encontrar o Aindzu, o Mar. Assim ele atravessa os Undéá, os Lugares do mundo, carregando histórias pelo Uché, o Tempo que nunca para.


Era nesse entardecer, quando o vento soprava manso e as Dzuá, as Águas, murmuravam palavras antigas, que Mayara, moça curiosa e atenta aos sinais da vida, aproximou-se de sua mãe, Nancy. Seus olhos brilhavam como quem deseja compreender o que não se vê apenas com os olhos.


— Mãe — perguntou — o rio Opará representa o quê?

Nancy silenciou por um instante. Olhou para o horizonte, onde o céu se encontrava com as águas, e então falou com a voz mansa de quem carrega saber antigo:


— Minha filha, o Opará não é apenas as Dzuá que correm aqui diante de nossa Natiá, a Aldeia. Ele é muito mais do que parece.


Ela então explicou que a conexão do Opará nasce da própria Antse, a Natureza. Vem do Aranke, o Céu profundo, das Battiá, as Estrelas que vigiam a noite, e do Ukie, o Sol, que aquece o Aindzu, o Mar. Do encontro desses seres surgem as Arankedzoá, as Nuvens, que viajam pelo céu e alimentam muitos Iwoá, os Rios, até que todos retornem ao grande Opará.


— É no Uché das Dzoá, das Chuvas — continuou Nancy — que a Radá, a Terra, se torna fértil. É nela que plantamos os Uanhí Tdjeá, nossas lavouras e legumes. Eles alimentam nosso Buiehoho, o Corpo, assim como as Dzuá que bebemos, todas vindas do Opará.


Mayara ouvia em silêncio, sentindo que cada palavra da mãe corria dentro dela como o próprio rio.


— Olhe bem, minha filha — disse Nancy, com firmeza e doçura — Hietãdé uihoie Opará. Nós todos somos o Rio São Francisco.


Ela explicou que o Opará vive nas Atse, as Pessoas; nos Keríá Retsé, os Animais Silvestres; nas Ubuá, as Plantas; nos Boêdoá, os Montes; nas Naticróbeá, as Cidades Ribeirinhas; e nos Uanieá, os Povos Indígenas.


— Todos carregamos o Opará dentro de Hietãdé, de Nós — concluiu — seja nas Dzuá que sustentam a vida, seja no Amíá, o Alimento que a Natureza nos oferece por meio dele.


Quando a noite caiu, a Kaiaku, a Lua, surgiu no céu, chamando as marés do mar. Com ela vinham os Wãmyá, os Peixes, que subiam pelo Opará. Era o tempo das Mydzéá, as Pescarias, tradição antiga passada de geração em geração, ligando o passado ao presente como o curso do rio.


E assim, enquanto o Opará seguia seu caminho eterno, Mayara compreendeu que o rio não corre apenas pela terra: ele corre dentro de todos os seres que vivem, respiram e lembram.




Autor: Nhenety Kariri-Xocó




BAIWO OPARÁ BOHÉ, A VIDA SOCIAL NO RIO SÃO FRANCISCO






O sol ainda nascia por trás das matas quando Kawany acordou com o canto distante das aves. Da porta da Erá, ela avistou o brilho do Iwo Opará, o velho Rio São Francisco, que seguia seu curso calmo, como quem conhece todos os segredos do tempo. Para o povo Kariri-Xocó, o rio não era apenas água: era vida, memória e caminho.


Kawany tomou o Ruño, o pote de barro, e seguiu em passos firmes para o Tadzu Iwo, pegar água no rio. No caminho encontrou Manawá, sua amiga, que equilibrava o Setu, cesto na cabeça. Dentro dele iam o Runhú, panelas e o Aribé, pratos utensílios de barro que logo seriam Uanikutsu Iwo, lavados no rio. As duas riam baixinho, sentindo a areia fresca sob os pés, enquanto o rio as recebia como um parente antigo.


Mais adiante, Tawã, ainda menino, corria pela margem do Opará. Ele gostava de Bydihekié, brincar na areia, e não perdia uma chance de Buiempá, tomar banho em Bohé, junto com outros Inurá, filhos que acompanhavam suas Deá, as mães. Aquele era um Uaɲo, um costume antigo: crescer junto ao rio, aprender com ele, ouvir suas histórias silenciosas.


As Tetsiá, mulheres da aldeia, lavavam as Roácruté, as roupas de pano, enquanto conversavam sobre o dia, a colheita e os sonhos. O som da água batendo nas pedras misturava-se às vozes, criando uma canção que só o Opará sabia cantar. Para muitos, aquele momento era mais que trabalho: era encontro, partilha e alegria.


Na outra margem, alguns homens Mydzéá, pescavam com Yaentá yaclaro, a vara de anzol. Próximo dali ficava o Ubacródzuá, o porto das canoas, onde repousavam as Ubáydzé, canoas de pesca moldadas pela mão e pelo saber do povo. Manawá observava atenta, aprendendo também a Mydzé Jereré, pescar com rede de arco, prática ensinada pelas mulheres mais velhas.


O dia seguia leve. O rio acolhia quem queria Ponhú, nadar, quem buscava alimento e quem apenas desejava sentir a água correr pelo corpo. Todos eram Atseá, pessoas ligadas entre si pelo Opará e pela Antse, a Natureza.


Com o tempo, vieram as mudanças. A água encanada, os banheiros, as lavanderias e a tecnologia alteraram muitos costumes. Mas Kawany, Tawã e Manawá — assim como tantos outros — guardaram o rio dentro de si. Pois quem viveu o Opará na pele e no coração jamais esquece.


O Iwo Opará continua correndo. E enquanto houver memória, palavra e respeito, ele seguirá vivo na história do povo Kariri-Xocó, como símbolo de uma vida simples, saudável e profundamente feliz.




Autor: Nhenety Kariri-Xocó 



terça-feira, 30 de dezembro de 2025

KAYÁUCHÉ BATTI – O TEMPO QUE CAMINHA COM A LUA






Inamarú aprendeu cedo que o tempo não se conta com números, mas com sinais. Foi Inamarú, o mais velho da aldeia, quem lhe ensinou a ouvir o céu e a terra, a perceber quando a lua fala e quando o rio responde. Sentados à beira do Opará, sob o canto distante das cigarras, o velho iniciou mais uma vez o ensinamento do Kayáuché Batti, o Calendário do Tempo Lunar do povo Kariri-Xocó.


— Escuta, Tanoãny, disse Inamarú, apontando para o céu ainda pálido. — Nosso Radda Uanie, o Mundo Indígena, não nasce dos meses do homem branco. Ele nasce da lua, do vento, da chuva e do alimento.


Na Matikay Kayaku, a Lua da Festa Ritual do Ouricuri, o povo se reúne. É tempo do Akryte, o caju maduro, e dos Tidzebæ, os relâmpagos que riscam o céu como mensagens dos antepassados. Inamarú lembrava-se das danças, do cheiro da mata e do silêncio respeitoso antes do ritual.


Quando chega a Mydzé Kayaku, a Lua dos Peixes, o rio se agita. É a piracema, a subida dos peixes, e também o tempo do Buruhúá, quando as mãos dos artesãos trabalham sem descanso. Inamarú sorria ao ver Tanoãny observando as redes sendo lançadas e os cestos sendo trançados.


Na Uanhí Kayaku, a Lua da Lavoura, a terra é aberta com cuidado. Planta-se Masiche, o milho, e Ghinhé, o feijão. Já na Içá Kayaku, a Lua das Tanajuras, as formigas alçam voo para formar novos mundos sob a terra, ensinando que recomeçar é parte da vida.


A Siné Kayaku, a Lua Escura, traz respeito e atenção. As cobras aparecem, e com elas o aviso de que mudanças caminham. Logo depois vem a Dzó Kayaku, a Lua da Chuva. O som das Dzóá cai sobre a aldeia, e o milho verde alimenta corpos e histórias.


Na Curuté Kayaku, Lua da Colheita, o milho e o feijão secaram. É tempo de colher, comer e trocar. A Cunhí Kayaku, Lua do Frio, cobre a terra de neblina e prepara o solo para descansar sob o sol que retorna.

Quando o calor chega com a Hiaidé Kayaku, a Lua do Sol, inicia-se o Naté Ruñohú, o trabalho cerâmico. As mãos moldam o barro, como os antigos ensinaram. Na Puruá Kayaku, Lua das Flores, os ventos correm livres e as Cattiá, as abelhas, fazem o mel entre as árvores em flor.


Na Bunhawí Kayaku, a Lua da Cerâmica, na Ubacródzu, a Canoa do Porto, os potes e panelas são queimados no fogo certo, prontos para ganhar o mundo. Por fim, chega a Pehó Kayaku, a Lua da Enxurrada. O Opará sobe, trazendo força e lembrança, fechando o ciclo do tempo.


Inamarú silenciou. Tanoãny olhou para o céu e compreendeu: o tempo não termina, apenas se transforma. Enquanto houver lua, rio e palavra, o Kayáuché Batti continuará caminhando com o povo Kariri-Xocó.


E assim, o ensinamento seguiu, de ouvido a ouvido, de geração a geração.




Autor: Nhenety Kariri-Xocó 








OKENDZURIÓ – A PORTA D’ÁGUA DA LAGOA







Nas Beáiwo Opará, as margens antigas do Rio São Francisco, Teipó gostava de se sentar ao entardecer, olhando o espelho quieto das Dzurióá, as lagoas que a Antse, a Natureza, moldara com paciência desde o princípio do mundo. Ao seu lado vinha sempre Sãbuá, mais jovem, curioso, atento às palavras que não estavam nos livros, mas na terra, na água e no vento.


— Vovô Teipó, — dizia Sãbuá — por que essas lagoas parecem adormecidas?

Teipó respirava fundo, como quem chama a memória dos antigos.

— Elas não dormem, meu neto. Elas lembram.


E então começava a história.

No tempo antigo, quando as lagoas eram cobertas por Retséá, as florestas densas, chegava a Pehó Kayaku, a Lua da Enxurrada. Em dezembro, o Opará crescia, transbordava e abria caminhos invisíveis, enchendo as lagoas com água viva e com Wãmyá, os peixes do rio. Entravam livres, sem medo, porque ali era berçário, era começo de vida.


— Os peixes sabiam — continuava Teipó — que ali era casa do crumatá, traíra, lambiá, aragú, piaba, mandim, pitú, piranha, cumbá, surubim e outros mais. Além disso nas lagoas estava também jacaré, capivara, jaçanã e o cágado d'água. 


Na Hiaidé Kayaku, a Lua do Sol, os peixes cresciam fortes, engordavam, aprendiam a nadar contra a corrente. Quando o Uché, o tempo certo, chegava, eles voltavam ao Opará. Era então que o povo pescava, nunca antes, nunca além. A pesca era coletiva, celebrada, respeitosa. Ninguém tirava mais do que a lagoa podia dar.

Sãbuá imaginava o povo reunido, os risos, os cestos cheios, a fartura partilhada.

Mas a voz de Teipó mudava quando chegava outro tempo.


— Depois vieram os colonizadores.

As lagoas foram fechadas. Construíram o Okendzurió, a Porta D’Água da Lagoa. Duas Onhancróá, paredes de pedra, erguidas frente a frente, e entre elas a Ybyrápeba, a tábua de madeira, controlando o que antes era livre. A água passou a obedecer à mão do homem, não mais ao chamado da lua.

A Naticróraí, a Aldeia de Pedra dos Brancos, cresceu onde antes era território indígena. A Natiá virou cidade, Porto Real do Colégio. Até o nome da terra mudou: Alagoas, que na língua antiga sempre foi Dzurióá, as Lagoas.


Sãbuá apertava a terra com os dedos.

— E nós, vovô?


Teipó sorriu com tristeza e firmeza.

— Nós resistimos.


Depois da criação do Posto Indígena, em 1944, o povo Kariri-Xocó começou a refazer seus caminhos. Em 1978, retomaram lagoas importantes: a Dzurichi, Lagoa Comprida, e a Dzucuréá, Lagoa dos Porcos. Cada retomada era como abrir novamente uma porta da memória.

Hoje, o Opará já não inunda as lagoas como antes. As grandes enchentes são raras, acontecem talvez a cada dez anos. A pescaria coletiva, que era festa e cultura, tornou-se lembrança e ensinamento.

Teipó levantou-se devagar, apoiando-se no bastão.


O governo federal demarcou e homologou a Terra Indígena Kariri-Xocó, ainda faltam receber as outras lagoas: Dzurunhá "Lagoa do Barro" e a Dzurité "Lagoa do Coité" e a Dzurye "Lagoa Grande". 


— Mas enquanto alguém contar essa história, Sãbuá, o Okendzurió não estará fechado por completo. A palavra também é uma porta.


Sãbuá olhou para a lagoa e entendeu:

algumas águas correm no rio,

outras correm na memória. 




Autor: Nhenety Kariri-Xocó 




segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

WOHOERÁ NATIÁ – O QUINTAL DE INDAIÁ E NAMOÂNY






Na antiga Woderáehó Uanie, a Rua dos Índios, em Porto Real do Colégio, havia uma Erá, uma casa simples, mas viva, porque atrás dela pulsava o Wohoerá Natiá, o quintal na aldeia onde as mulheres conversavam com a terra.


Ali moravam Indaiá, mulher de mãos firmes e olhar sereno, e sua filha Namoâny, ainda jovem, mas já atenta aos sinais da natureza. Todas as manhãs, antes que o sol se erguesse por completo, as duas caminhavam descalças pelo quintal, sentindo o frescor da terra acordando.


— A terra fala cedo, Namoâny — dizia Indaiá. — Quem aprende a ouvir, cura.

O Wohoerá era amplo e bem cuidado. Perto da casa, as Ubudzoá, plantas medicinais, cresciam em canteiros organizados pelas mãos de Indaiá. Ela ensinava à filha os nomes e os usos, não apenas como remédio, mas como respeito.


— Esta é a Ainpeân, arruda, protege a casa e o espírito.


— A Jpâkuaçû, erva-cidreira, acalma o sono inquieto.


— A Caacica, mastruz, fortalece o peito e devolve o fôlego.


Namoâny aprendia observando. Sabia que não se colhe uma folha sem pedir licença, nem se prepara um chá sem intenção boa.

Entre os canteiros, passeavam os Keríerá, animais domésticos criados com cuidado feminino. O Bucuté, cão fiel, seguia Indaiá por todo o quintal; o Poió, gato atento, dormia à sombra da Bacobá; o Sabucá, galo altivo, anunciava o amanhecer; e o Kaplan, jabuti antigo, caminhava devagar, como quem guarda histórias mais velhas que a própria aldeia.


— Cada Keríerá tem um espírito — dizia Indaiá. — Eles cuidam da casa tanto quanto nós cuidamos deles.


Mais adiante estavam as Sutuá Uttihu, árvores frutíferas plantadas por gerações de mulheres. O Bucrenké, urucu, oferecia a cor do corpo e do ritual; o Mé, jenipapo, guardava o preto da pintura ancestral; o Akryte, caju, alimentava os dias de partilha; e o Obó, imbu, resistia aos tempos difíceis, ensinando paciência e força.


No fundo do quintal ficava a Uanhí Tdjeá, a lavoura. Indaiá mostrava a Namoâny como plantar o Madiki, a mandioca, com tempo e silêncio; o Ghinhé, feijão, que cresce em conjunto; e o Masiche, milho, que une famílias em colheita e festa.


— Mulher é raiz, filha — dizia Indaiá, enquanto cobria as sementes com a terra. — Quando cuidamos do Wohoerá, cuidamos do povo inteiro.


Namoâny guardou aquelas palavras como se guarda um colar antigo. Com o passar dos anos, ela entendeu que o quintal não era apenas espaço atrás da casa, mas um lugar de memória, cura e continuidade.


E assim, enquanto existirem mulheres como Indaiá e Namoâny, o Wohoerá Natiá continuará vivo — ensinando, curando e sustentando o povo Kariri-Xocó, em silêncio, junto à terra.




Autor: Nhenety Kariri-Xocó





domingo, 28 de dezembro de 2025

DUBOHERIÁ E DUBOHERIDÉÁ – OS GUARDIÕES DO SABER NO OPARÁ






À margem esquerda do grande Opará, onde o rio fala com as pedras e o vento atravessa as Retséá, as florestas vivia o povo Kariri do grupo linguístico Dzubukuá. Sua Natiá, aldeia repousava entre as águas da Dzurichi Lagoa Comprida e as florestas antigas, lugar onde o tempo não corria — caminhava.


Ali moravam Duboheriá, o Mestre do Saber, e Duboheridéá, a Mestra da Palavra Viva. Não usavam paredes nem livros de pedra. Seus ensinamentos nasciam da terra, do rio, do fogo e da memória. As crianças sentavam-se em roda, e os Subatekié, conhecimento, Nhenetí, tradição fluíam como canto antigo, passando de geração em geração.


— Aprender é escutar o espírito da terra, dizia Duboheriá, enquanto traçava sinais na areia.


— Ensinar é manter vivo o que não pode morrer, completava Duboheridéá, com a voz calma das avós do mundo.

Mas um dia, o silêncio da floresta foi cortado por vozes estranhas. Chegaram os Waréá, padres vestidos de preto, trazendo cruzes e palavras novas. Com eles vieram os Caraí, brancos, os Peró, portugueses como diziam os Tupinambás. No alto do Boêdo, onde antes se ouvia apenas o canto dos pássaros, ergueram a Erantoá, a casa dos santos, e logo depois o Erátekié, o colégio dos jesuítas.


Os ensinamentos mudaram.

Os Duboheriá e as Duboheridéá foram silenciados. Seus lugares passaram a ser ocupados por vozes que não conheciam o Opará nem falavam com os espíritos da floresta. As Erácró, casas de pedras  cresceram, transformando a antiga Natiá, aldeia tradicional numa Naticróraí — a aldeia de pedra dos brancos.

Com o tempo, veio o Império, depois a República. Os Kariri foram empurrados para fora do centro, vivendo agora na Woderáehó Uanieá, a Rua dos Índios. Sem proteção, sem terra, sem direito — mas ainda com memória.


As Duboheridéá, mestras envelheceram, mas nunca deixou de ensinar. À noite, reunia as crianças e sussurrava histórias proibidas, como sementes escondidas no chão seco. 

Em 1944, algo mudou. O Estado reconheceu novamente os indígenas. Surgiu o Posto Indígena Padre Alfredo Dâmaso. Na Rua dos Índios nasceu a Escola dos Kariri. Mas ainda não era tempo de retorno completo: os professores vinham de fora, ensinavam sem ouvir.


Só em 1973 as primeiras professoras indígenas cruzaram os portões da escola. Duboheridéá já não caminhava, mas sorriu quando soube. Na década de 1980, o número cresceu. O saber começava a voltar para casa.


Em 1999, a educação indígena foi reconhecida segundo sua própria cultura, arte, língua e história. O que antes era sussurro voltou a ser voz.


E em 2006, a escola recebeu o nome do Pajé Francisco Queiroz Suíra. Ali, finalmente, os professores e professoras eram do próprio povo Kariri-Xocó.

Naquele dia, dizem que o vento passou diferente sobre a Lagoa Comprida.

Duboheriá, agora espírito da memória, falou ao rio:


— Voltamos.

Hoje, o saber ancestral caminha novamente pela escola:

Duboherí Worobü ensina os números como caminhos,

Dubosamy ensina cultura como raiz,

Doboherí Nunúanie faz a língua nativa florescer,

Duboherí Subantse revela os segredos da natureza,

Dubohé Hibuyê faz do corpo movimento sagrado.


E assim, no Opará, o ensino voltou a ser o que sempre foi:

memória viva, palavra ancestral e continuidade do povo.




Autor: Nhenety Kariri-Xocó 




DZENUÁ ANTSE – OS GUARDIÕES DA NATUREZA






Na Radá, a Terra viva dos Uanieá, indígenas que existia numa Natiá, aldeia onde tudo respirava junto: as pessoas, as árvores, as águas e os animais. Ali, diziam os anciãos, a Antse, a Natureza, havia moldado o Radda, o Mundo, com a força do Ukie, o Sol, iluminando a Hine do Cayápri, o Dia.


Quando o Uché, o Tempo, se movia, surgiam o Tidzebæ, o Relâmpago, as Arankedzoá, as Nuvens, e então vinha o Dzo, a Chuva, descendo para alimentar as Dzuá, as Águas, que corriam até a Ebedzú, a Fonte sagrada do Iwo Opará, o grande Rio São Francisco.


Foi nesse lugar que vivia Ynori, um jovem curioso, que sonhava em se tornar um Dzenuá Antse, um Guardião da Natureza. Ele sabia que não bastava querer: era preciso aprender com quem escutava os seres da floresta.


Certa noite de Kaia, quando a Kaiaku, a Lua, iluminava o Aranke, no céu e as Batiá, estrelas que brilhavam, Ynori sentou-se ao lado do ancião Vovô Irecê, guardião dos Woroyá, as histórias antigas.


— Vovô, perguntou o jovem,

— por que tantos Keríá, animais desapareceram de nossas Retséá, florestas?


Irecê suspirou fundo, como quem chama a memória da Terra.


— Quando os colonizadores chegaram, eles esqueceram que Antse, a natureza tem espírito. Derrubaram as florestas, calaram muitos Keríá. Hoje, eles vivem mais nas Nhenetíá, nas tradições, e nas Woroyá, histórias que contamos.


E então o ancião começou a nomear os ausentes, como quem chama seus espíritos:


Inhiconete, a Preguiça; Hamoklekle e Rõti, as Onças; Murawó, o Porco-do-mato; Dziku, o Bugio; Kukryt, a Anta; Pãn, a Arara; Krêre, o Papagaio; Imbuam, a Seriema…

Cada nome fazia o fogo estalar, como se os Keríá escutassem.


— Mas nem tudo se perdeu, continuou Irecê.


— Os Dzenuá Antse ainda caminham entre nós.


No dia seguinte, Ynori foi levado à floresta por Anaiê, uma anciã que conversava com os pequenos seres. Ela mostrou o Ibozoim, o Sonhim, a Kati, a Abelha trabalhadora, o Munim, o Grilo cantor, e até o Myghy, o Caramujo paciente.


— Todo ser tem Ba, Vida, disse Anaiê.

— Até o menor Axum, a Formiga, sustenta o mundo.

Mais adiante, perto das águas, aprenderam sobre a Nieɲi, a Cobra guardiã dos caminhos, o Klimi, a Lontra das Dzuá, águas e o Hazú, o Tamanduá silencioso. Anaiê explicou que proteger também era não caçar, não destruir, saber esperar.

— A Boregor, a Caipora, ainda protege os Keríá Uaplu, disse ela.


— Hoje, só caçamos quando a Antse, natureza permite, e apenas em extrema necessidade.


Ao entardecer, Ynori viu Gongá o sabiá cantar, o Xáj, picapau bater o bico no tronco e o Xõn, urubu circular no alto, limpando o mundo. Ele compreendeu, então, que ser Dzenuá Antse não era lutar contra a natureza, mas caminhar com ela.


Naquela noite, olhando a Kaiaku, lua refletida no Aindzu, o Mar distante, Ynori fez seu juramento silencioso:

guardar as florestas, respeitar os Keríá, ouvir os anciãos e ensinar aos mais novos.

E assim, dizem os Woroyá, que todo Kariri-Xocó pode se tornar um Dzenuá Antse, desde que escute a Antse, respeite o Uché e cuide do Radda como quem cuida da própria alma.





Autor: Nhenety Kariri-Xocó 




sábado, 27 de dezembro de 2025

DUBOHERI MYDZÉ – O MESTRE DA PESCARIA






O Rio São Francisco, o grande Opará, corria manso naquela manhã, refletindo o céu como um espelho antigo. Suas águas guardavam segredos profundos, histórias de ancestrais e o movimento silencioso dos Wãmyá, os peixes que sustentam a vida do povo Kariri-Xocó. Às suas margens, Anamy trabalhava com calma, moldando varas e fibras para construir seus Pãri, os artifícios de pesca herdados dos mais velhos.


De repente, chegaram rapazes e moças alunos da Escola Indígena, entre eles Tanawany e Kawrã, atentos a cada gesto do pescador. O som do rio misturava-se ao riso dos alunos e ao canto distante das aves. De repente, Tanawany olhou e disse, com os olhos brilhando:


— Olá seu Anamy o Senhor é o Duboheri Wãmy, o Mestre dos Peixes!


Anamy sorriu com ternura, sem parar o trabalho, e respondeu com voz serena:

— Não, moça. Os verdadeiros mestres dos peixes são Ipupiara, o Ser que surge das águas profundas, o Negro D’Água, e Yara, a Mãe D’Água, guardiã do Opará. Eu sou apenas Duboheri Mydzé, o Mestre da Pesca, porque trabalho, faço Naté, e respeito os saberes que nos foram ensinados.


Curioso, Kawrã se aproximou ainda mais e perguntou:


— Anamy quais são esses Pãri que o senhor faz?

Anamy apoiou as mãos no joelho e começou a ensinar, como quem acende uma fogueira de conhecimento:


— São muitos, rapaz . Temos o Cuvú, feito de vara, afunilado para guiar o peixe. O Pari, uma esteira que prende o peixe na lagoa. O Iarú, a flecha; o Seridzé, o arco; o Cludimu, covo cilíndrico de taboca para pequenos peixes e camarões. Há também o Yaclaro, o anzol com linha e chumbada; a Yaentá, a vara de pescar; o Puçá, para os camarões; o Jereré, em forma de arco; e o Muhé, a grande rede feita de algodão ou fibra de tucum.


Os alunos ouviam em silêncio, sentindo que aquelas palavras não eram apenas nomes, mas caminhos antigos.


— Na pescaria — continuou Anamy — usamos o Matapi, a armadilha; a Mupunga, para espantar o peixe com a batição da água; o Setu, para juntar os Wãmyá; e o Ubáydzé, nossa canoa, que repousa no Ubacródzuá, o porto das canoas. Tudo isso faz parte do Piratýpe, a linguagem e o sistema de conhecimento da pesca.

Antes de lançar qualquer armadilha no rio, Anamy fechou os olhos por um instante. Os estudantes da escola aprenderam que aquele silêncio era sagrado.


— O Mydzé, o pescador, sempre pede proteção e autorização à Yara, a dona espiritual dos peixes — explicou. — Para agradá-la, plantamos Masichi, o milho, e Ghinhé, o feijão, para que ela coma ainda verde, à beira do Opará. As Mydzédzí, as mulheres pescadoras, fazem o mesmo, mas com o Ipupiara.


O rio pareceu responder com um leve movimento, como se tivesse escutado.

Anamy concluiu, olhando para os alunos:

— Seguindo esses Subatekié, esses conhecimentos, nunca faltará peixe no Opará. É assim que nosso povo mantém a vida e guarda a memória.


Tanawany e Kawrã compreenderam, naquele instante, que o Duboheri Mydzé não era apenas um pescador. Era guardião de saberes, ponte entre os ancestrais, os espíritos das águas e as gerações que ainda viriam.


E o Opará continuou a correr, levando consigo a história viva do povo Kariri-Xocó.




Autor: Nhenety Kariri-Xocó 




sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

DUBOHERUBÁ – O MESTRE DA CANOA






O Rio São Francisco, que os antigos chamam de Opará, corria como uma serpente viva, guardando em suas águas as histórias dos povos que nasceram às suas margens. Desde as nascentes até a foz no Aindzu, o grande Mar, o rio era caminho, alimento e espírito. Era por ele que as aldeias se reconheciam como irmãs.


Na Natiá, a aldeia assentada à beira do Opará, vivia o velho Duboherubá Mhoácy conhecido por todos como o Mestre da Canoa. Seus cabelos já eram da cor da lua cheia, e suas mãos traziam os calos do tempo, marcas de quem conversava com a madeira antes de transformá-la em Ubá.


— A canoa não nasce do machado, dizia ele ao jovem Iruan, seu aprendiz.


— Ela nasce do respeito à árvore e ao rio.

Iruan escutava atento enquanto o mestre tocava o tronco escolhido, pedindo licença aos espíritos da mata. Para os Kariri, a canoa não era apenas transporte. Em Tupi, chamavam-na Ubá; entre os Kariri, Banahoya. Era extensão do corpo humano sobre a água.


Defronte à aldeia ficava o Ubacródzu, o Porto das Canoas. Ali repousavam as Ubáydzéá, canoas de pescaria que deslizavam silenciosas nas madrugadas. Algumas levavam os homens ao mydzéá, a pescaria; outras seguiam para as sitóá, as caçadas; muitas carregavam os frutos das Bechiéá, as roças que sustentavam a vida do povo.


O velho Duboherubá lembrava do tempo em que o rio era estrada viva.


— O Opará conhece nossos passos, dizia. Ele sabe quem somos.


Com a chegada dos portugueses, surgiram novas canoas, maiores, cobertas de pano. Os indígenas as chamaram de Ubácruté, as canoas de pano. Elas mudaram o comércio, levaram mercadorias e trouxeram outras formas de viver. A mais famosa foi a Canindé, imensa, capaz de carregar mil e duzentos sacos de arroz. Para muitos, ela parecia um bicho grande navegando lentamente pelo rio.


Mas o tempo, como a água, não para.

Quando a BR-101 foi construída, em 1970, o silêncio começou a ocupar o Opará. As canoas foram ficando paradas, o porto esvaziou, e muitos Mestres da Canoa seguiram para a Natiantoá, a Aldeia Sagrada, onde moram os ancestrais.

Certa tarde, Iruan perguntou ao velho mestre:


— E quando o senhor se for, quem fará as canoas?


Duboherubá sorriu, olhando o rio.

— Enquanto houver quem escute o Opará, haverá Duboherubá.


— Você será um deles.


Hoje, poucos Duboheriá, Mestres da nova geração, ainda conversam com a madeira e com o rio. Mas cada canoa que nasce carrega dentro de si a memória dos antigos, o sopro dos ancestrais e a certeza de que o Opará jamais esquecerá seu povo.


E assim, sempre que uma Ubá toca a água, o rio reconhece:

a história continua.




Autor: Nhenety Kariri-Xocó






DUBOHERI TORÁ – CANTO DO MESTRE DO TORÉ







Na terra de Porto Real do Colégio, onde o rio escuta e a mata responde, vive o Toré, conjunto de cantos, danças e instrumentais do povo Kariri-Xocó. Certo dia, as crianças Mayra e Nakã se aproximaram do avô Suré e perguntaram em voz curiosa: “Vovô, como é o Toré? Por que as pessoas daqui gostam tanto de cantar e dançar? Sempre foi assim? E o teu nome, o que quer dizer?” 


O velho Suré respirou fundo, olhou a grande roda da aldeia e começou a cantar-falar: “Escutem bem, meus netos. O Toré significa o Som Sagrado da Flauta. É o sopro do Buzo, trombeta feita da Ubaúba, que traz a sonoridade que imita o trovão de Tupã, nosso Deus, por isso é som sagrado.” 


A comunidade respondeu em coro: “É som sagrado, é voz do trovão, é Tupã falando no sopro do Toré.” Suré continuou: “Meu nome, Suré, quer dizer Soprador de Toré, tocador, soprador de flauta ou buzo.


Quando eu era jovem, iniciei como tocador de flauta nos Ka, os cantos, e no Torá, as danças. Hoje sou Duboheri Torá, Mestre do Toré, Kawonhé, puxador de canto, aquele que inicia com Ebayasi, os assobios que chamam a dança e acordam a grande roda.” 


O narrador então diz que o Ebayasi ecoa no ar e o povo responde: “Ebayasi, Ebayasi, o Toré vai começar.” Suré segue contando: “Antigamente, antes dos brancos chegarem, cantávamos o Toré com Rouanie, a roupa indígena. 


O corpo era canto: Bukencré "Pintura Corporal"; Sasá, a saia de palha; Daklotsebu Songaá, o cocar de penas; Dakloro, adorno do braço; Dakloeɲe, o brinco; Dakloɲe, o colar; e Daklowõ, o adorno da perna.” 


Mayra e Nakã perguntam com voz triste: “E por que não é sempre assim, vovô?” Suré responde: “Porque os jesuítas proibiram nossos costumes e tradições, tentaram calar o Toré. Mas ele não morreu.” A comunidade afirma forte: “O Toré não morreu, o Toré resistiu.” 


Suré então explica: “Para não perder nossa tradição, passamos a cantar o Torá Rocruté, o Toré com roupa de pano, vestes trazidas pelo colonizador. Na Dzó Kayaku, lua da chuva de junho, com a colheita do Masichi Erã, o milho verde, cantamos o Torá Rocruté para comemorar Santo Antônio, São João e São Pedro, nas fogueiras da aldeia.” 


O narrador diz que na Iworoyé, a grande roda, o povo acende o Buyê mó torá Toré, a fogueira para dançar, e ali, nos intervalos, são assados milho verde, carne e peixe para alimentar o povo durante os festejos. Suré continua: “O Toré é cantado em muitas ocasiões: no Torá Diparí, o Toré do morto, nos despedimos de quem partiu; no Torá Curoté, agradecemos à Mãe Terra pela colheita; no Torá Sacrí, damos boas-vindas à criança que nasce; e no Torá Piwonhé, abençoamos o casamento dos recém-casados.” 


Mayra e Nakã perguntam com alegria: “Então o Toré é tudo, vovô?” E Suré responde firme: “Sim, meus netos. O Toré é nossa história cantada, é memória viva, é resistência do povo Kariri-Xocó.” O narrador encerra dizendo que no Batti, final de ano, na Pehó Kayaku, lua da enxurrada de dezembro, havia um grande Toré na festa de Nossa Senhora da Conceição, cantado a noite inteira até o dia amanhecer, enquanto a comunidade canta em uníssono: “Toré vive, Toré resiste, Toré é Kariri-Xocó.”





Autor: Nhenety Kariri-Xocó





quinta-feira, 25 de dezembro de 2025

DZENU KATIANTSE – O GUARDIÃO DAS ABELHAS NATIVAS






Na Terra Indígena Kariri-Xocó, onde a vida caminha entre dois mundos, estendem-se os ecossistemas que nossos antigos nomearam com sabedoria. De um lado, a Retséaraí, a Floresta Branca da Caatinga; do outro, a Retsé Aindzu, a Floresta do Mar, a Mata Atlântica. Entre elas, como coração que ainda pulsa apesar das feridas, resiste a Retséantoá, a Floresta Sagrada do Ouricuri.


As cidades do Baixo São Francisco, às margens do Rio Opará, avançaram no passado como fogo sem dono, devastando florestas e silenciando cantos antigos. Restaram poucas áreas — e nelas, a memória dos seres que sustentavam a vida.


Entre esses seres estavam as Katiá, as abelhas. Não quaisquer abelhas, mas as Katiantse, abelhas nativas sem ferrão, guardadas na tradição oral como se fossem parentes próximos.


— Vovô, por que o senhor fala com tanto cuidado quando diz o nome delas? — perguntou certa vez um menino, sentado à sombra de um ouricuri.


O velho ancião Baca, de olhar profundo como a terra antiga, sorriu antes de responder:


— Porque nome é espírito, meu neto. Quando digo Jandaíra, Uruçu, Tiúba, Mandaçaia, Manduri, Jataí ou Arapuá, eu chamo quem sustenta a floresta.


Baca era conhecido como o Dzenu Katiantse, o Guardião das Abelhas Nativas. Em seu quintal viviam cortiços de Uruçu, Tiúba e Mandaçaia. Ele não as possuía — apenas cuidava.


— Elas trabalham sem ferir ninguém, dizia o ancião, enquanto observava o voo delicado das abelhas.


— E o que elas fazem, vovô?

— Elas acordam as Purúá, respondeu, apontando para as flores da floresta. Sem elas, a Retsé adoece.


As abelhas polinizavam as flores, e as flores sustentavam a vida. Assim era o equilíbrio.


Com o tempo, Baca partiu para o mundo dos espíritos ancestrais. Mas o guardião não morreu — apenas se multiplicou.

Hoje ainda existem Dzenuá Katiantse. Um deles é Nhãbojô, sobrinho de Baca, que aprendeu com o tio o silêncio, a paciência e o respeito pelos seres pequenos. O outro é Kaynamã, conhecedor profundo da Arapuá, a abelha redonda.


— O mel dela não é doce como o das outras, explicou Kaynamã a uma jovem artesã.


— Então por que cuidamos dela?


— Porque sua cera ensina nossas mãos a lembrar quem somos.


Mas nem tudo permaneceu em equilíbrio. Com a chegada dos colonizadores, vieram também as Eíraetémaîu, as abelhas estrangeiras bravas. Com ferrão e agressividade, elas tomaram espaço, atacaram as nativas, feriram pessoas e animais.


— Essas abelhas não conhecem a floresta, lamentou Nhãbojô.


— Elas não pedem licença, completou Kaynamã.


Muitas Katiantse desapareceram. Outras resistem em segredo, escondidas em troncos antigos, aguardando o tempo da volta.


Hoje, o povo Kariri-Xocó guarda uma esperança viva.


— Vamos trazer de volta nossas abelhas, diz o mais velho ao redor do fogo.


— Como faremos isso? — pergunta uma criança.


— Pedindo ajuda aos parentes que ainda guardam colmeias. E ensinando aos mais novos que cuidar da floresta é cuidar de nós mesmos.


E assim, enquanto houver quem conte essa história, o Dzenu Katiantse continuará caminhando invisível pela Retsé, protegendo as abelhas, as flores e o futuro.





Autor: Nhenety Kariri-Xocó





DZENUÁ SAMYÁ, OS GUARDIÕES DA MEMÓRIA E DA CULTURA





Naquele fim de tarde, quando o vento atravessava a Retséantoá, a Floresta Sagrada do Ouricuri, o velho Nhamuã caminhava lentamente entre as árvores. Seus passos eram firmes, mas leves, como quem não pisa no chão, e sim na lembrança dos ancestrais. Nhamuã era conhecido entre os Kariri-Xocó como Dzenu Woroy, o Guardião da História.

Ao seu lado seguiam dois jovens aprendizes: Amoãny, atenta como o voo do gavião, e Kanamã, curioso como as águas do rio que nunca cessam de perguntar à terra por onde passam.


Nhamuã parou diante de um tronco antigo, marcado pelo tempo, e ali se sentou. Com a voz serena, iniciou o ensinamento:


— Meus filhos, antes de tudo, precisam saber que o Nordeste foi o primeiro chão pisado pelos colonizadores, mas também o primeiro a sentir a dor do contato. Muitos povos perderam suas línguas, seus cantos, seus costumes… alguns quase desapareceram como fumaça ao vento.

Amoãny abaixou a cabeça, respeitoso. Kanamã, com os olhos brilhando, perguntou:


— Mas por que nós ainda estamos aqui, Nhamuã?

O velho sorriu, como quem guarda o segredo do mundo.


— Porque aprendemos a resistir. Sobreviver não foi fácil. Foram séculos de estratégia, amor ao povo e fidelidade à memória. Ser Kariri-Xocó é carregar o tempo dentro do peito.


Nhamuã então tocou o chão com a palma da mão e continuou:


— Entre nós existem os Dzenuye ou Dzenuá, os Guardiões. São eles que mantêm vivo aquilo que o tempo tenta apagar.

E, um a um, foi nomeando, como quem convoca espíritos antigos:


— Há o Dzenu Samy, Guardião da Memória e da Cultura.

— O Dzenu Woroy, Guardião da História.

— O Dzenu Woroyé, Guardião dos Contos e das Fábulas.

— O Dzenukaá, Guardião dos Cantos.

— O Dzenu Torá, Guardião da Dança.

— O Dzenu Toré, o Guardião Soprador.

— O Dzenu Uaɲoá, Guardião dos Costumes.

— O Dzenu Nhenetíá, Guardião das Tradições.

— E o Dzenu Amíudé, Guardião da Culinária.


Cada nome parecia ecoar entre as árvores, como se a floresta respondesse em silêncio.


— Manter os uaɲo, os costumes — prosseguiu Nhamuã — é um ato de amor ao povo. Assim como preservar o nhenetíá, nossas tradições. Viver onde viveram nossos pais, nossos parentes e nossos ancestrais nos dá equilíbrio, harmonia e paz de espírito.


Kanamã respirou fundo e sentiu o cheiro da terra úmida, misturado à fumaça distante do fogo comunitário.


— É por isso que dançamos o toré? — perguntou.


— Sim — respondeu o velho. — É por isso que cantamos, pescamos juntos, partilhamos a comida, celebramos os mutirões e entramos na floresta sagrada. Tudo isso é memória viva passando de geração em geração.


O sol começava a se esconder. Nhamuã levantou-se lentamente.


— Um dia, Amoãny… Kanamã… vocês também serão Dzenuyeá. E quando esse dia chegar, lembrem-se: guardar a história não é apenas contar o passado, mas proteger o espírito do povo para o futuro.


Os dois jovens permaneceram em silêncio, sentindo que naquele instante haviam recebido algo maior que palavras: haviam recebido a missão.


E assim, na Retséantoá, a memória continuou viva.




Autor: Nhenety Kariri-Xocó 





quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

DZENUANDZOÁ, GUARDIÕES DA CURA NATIVA





No Brasil, terra de muitos povos, muitas línguas e muitas memórias, vivem os Kariri-Xocó, guardiões antigos do chão, da palavra e do espírito. Na aldeia, quando o sol nasce lento sobre o rio São Francisco e o vento passa conversando com as árvores, há sempre alguém que procura a casa do Pajé, o Bidzamu, aquele que escuta o invisível. Outros vão aos Atseáde, “Pessoas que Rezam”, os rezadores e rezadeiras, e também aos Atseandzoá, “Pessoas que Curam”, os curadores.


Na Aldeia Kariri, antigamente, e depois na Aldeia Kariri-Xocó, passaram várias gerações de pajés, rezadores, rezadeiras e curadores.


Entre os pajés estiveram: Pedro Lolaço, Ludovico, Baltazar, Manoel Paulo, Manoel Joaquim (Dunga), Francisco Suíra e Júlio Suíra.


Entre os rezadores, rezadeiras e curadores estiveram: Gravié, Matildes, Iria, Marieta, Kandará, Maria Véia, Frederico e Kênede.

Todos eles são Dzenuandzoá, os Guardiões da Cura.


São assim reconhecidos:

Bidzanuandzo – Pajé, Guardião da Cura;

Dzenude – Guardião da Reza;

Dzenuandzoá – Guardiões da Cura.

Naquela manhã, enquanto o Pajé preparava sua Dzó, a mesinha sagrada onde repousam os remédios da floresta, aproximou-se Ynorá, jovem da aldeia, curiosa e respeitosa. Ela observava em silêncio o movimento lento das mãos do Pajé, que maceravam folhas do Uanrandzi, remédio ensinado pelos ancestrais.


— Vovô Suíra, — disse ela em voz baixa — por que tanta gente vem de longe até sua casa?


O Pajé levantou os olhos, fundos como a mata do Ouricuri, e sorriu com a paciência de quem já ouvira aquela pergunta muitas vezes.


— Eles não vêm só atrás da cura do corpo, Ynorá. Vêm buscar a cura do espírito. O que dói por dentro, muitas vezes, não se resolve com remédio da cidade.

Ela se aproximou mais.


— E quem lhe ensinou tudo isso?

O Pajé suspirou, olhando para o chão batido da casa.


— Foi a floresta, foram os antepassados, foram meus avós e os avós deles. Nada disso é só meu. Eu apenas guardo e repasso. O saber não tem dono; é do povo.

Do lado de fora, chegavam pessoas da cidade, dos povoados vizinhos e até de outros estados do Brasil. Todos entravam com respeito, cabeça baixa e coração aberto. Ali, na casa simples do Pajé Suíra, encontravam silêncio, palavra certa e a força invisível da tradição.


À noite, quando o ritual acontecia na floresta sagrada do Ouricuri, todos os Kariri-Xocó se reuniam. O fogo aceso iluminava os rostos, e o Pajé conduzia o ritual com firmeza e humildade. Ninguém interrompia. Todos sabiam: ali falava o Guardião.


Ynorá, sentada entre os mais velhos, compreendeu então que o Pajé não era apenas um curador, mas um elo vivo entre passado, presente e futuro. Um guardião da cura, da memória e da identidade de seu povo.


E assim, enquanto houver floresta, palavra e respeito, o Bidzanuandzo continuará caminhando entre os Kariri-Xocó, curando corpos, acalmando espíritos e, junto aos outros Dzenuandzoá — Guardiões da Cura — mantendo viva a chama ancestral.





Autor: Nhenety Kariri-Xocó




DUBOERETUÁ, O MESTRE DOS BALAIOS






A aldeia despertava lentamente sob o sopro do tempo novo. A globalização chegava como vento estranho, trazendo consigo objetos de plástico, metal e palavras apressadas. Mesmo assim, entre os Kariri-Xocó, havia coisas que o tempo não conseguia levar. Certos costumes permaneciam firmes como raízes antigas fincadas na terra.


Entre esses costumes estava o Setu, o balaio. Não era apenas um objeto. Era símbolo de fartura, de trabalho coletivo, de respeito à terra. Dentro dele iam os frutos da roça, os alimentos colhidos na floresta, a certeza de que a vida seguia seu curso natural. E, na aldeia, havia um homem que guardava esse saber como quem guarda um segredo sagrado: Duboeretuá, o Mestre dos Balaios.


A aproximação do Curuté Kayaku, a Lua da Colheita, anunciava que julho estava às portas. As espigas de masiche (milho) já se inclinavam maduras, o ghinhé (feijão) esperava ser colhido, e a bechiéá (roça) pedia mãos cuidadosas.


Foi então que o jovem Aponã, com o olhar curioso dos que caminham entre dois mundos, se aproximou do tio.


— Tio Akyná — disse ele —, vou à cidade comprar sacos de nylon para colher o milho e o feijão.


O velho Akyná ergueu os olhos com calma. O rosto carregava o tempo, mas também a memória dos ancestrais.


— Não, Aponã — respondeu com firmeza serena. — Esses sacos não me agradam. São artificiais, não conversam com a terra, eles representam a ganância capitalista de produção desenfreada. 

Fez uma pausa, como quem escuta o silêncio antes de continuar.


— Eu gosto mesmo é do Setu, do balaio que simboliza a fartura. Nasci e me criei nessa tradição. Para esta colheita, vou encomendar os Setu e os Bará ao senhor Nhãnoá, o grande Duboeretuá, Mestre dos Balaios.


E assim foi feito.


Quando chegou o dia da colheita, os caminhos da roça se encheram de passos e cantos. Os Bará, grandes balaios entrançados de cipó e taquara, carregavam masiche, ghinhé, muicú (mandioca) e idzá (frutas). Eram fortes, resistentes, feitos para sustentar não apenas alimentos, mas histórias.


Os Setu, menores, guardavam utensílios e pequenos objetos do cotidiano. E havia também a Tinhé, a cesta mais delicada, com alça de cipó, que repousava no ombro como extensão do corpo. Cada peça tinha sua função, seu espírito, sua palavra silenciosa.


Tudo aquilo saíra das mãos de Duboeretuá. Suas mãos conheciam o tempo certo do cipó, o modo correto do entrançado, o respeito necessário para transformar matéria viva em objeto de uso. Ele não fazia balaios apenas por encomenda; fazia por compromisso com os que vieram antes e com os que ainda virão.


Mesmo com tantas mudanças culturais, a tradição resistia. Os balaios ainda eram feitos, ainda circulavam na aldeia, ainda carregavam a colheita e o sentido da vida comunitária.


E enquanto houvesse alguém que lembrasse, alguém que ensinasse, e alguém que escolhesse o balaio em vez do nylon, a tradição permaneceria viva — entrançada como cipó, forte como taquara, eterna como a memória do povo Kariri-Xocó.




Autor: Nhenety Kariri-Xocó




terça-feira, 23 de dezembro de 2025

DUBORUHÚÁ – OS MESTRES DOS ARTESANATOS






Na Aldeia Kariri-Xocó, em Porto Real do Colégio, Alagoas, o tempo caminhava ao ritmo do rio São Francisco e da memória dos antigos. A partir dos anos de 1990, uma nova força passou a sustentar muitas famílias: o Buruhúá, o artesanato tradicional, herança viva das mãos e dos saberes ancestrais.


Foi nesse tempo que Yakoá, rapaz recém-casado, sentiu o peso da responsabilidade crescer em seu peito. Precisava encontrar um meio de sustentar sua casa sem se afastar da cultura de seu povo. Pensando nisso, decidiu procurar Kaikurú, um dos artesãos mais respeitados da aldeia.


Ao encontrá-lo, Yakoá falou com humildade:


— Kaikurú, o senhor é o Duboruhúá, Mestre dos Artesanatos. Gostaria de aprender essa arte para melhorar minha renda.

O velho Kaikurú sorriu com serenidade, como quem carrega muitas histórias nos olhos, e respondeu:


— Yakoá, sou apenas um Duboruhú, Mestre de Artesanato. Duboruhúá, Mestres dos Artesanatos, existem muitos em nossa aldeia. Cada um guarda um saber. Posso lhe ensinar a minha arte, pois sou Duboredzé Benhekié, Mestre de Arco e Flecha de Brinquedo, que faço para vender.

Kaikurú então passou a ensinar não apenas com palavras, mas com memória. Disse a Yakoá que na aldeia existiam muitos mestres:


Havia os Dubodaklon, Mestres dos Adornos:


— o Dakloro, adorno do braço;

— o Dakloeɲe, brinco;

— o Dakloɲe, colar;

— o Daklowõ, adorno da perna.


Havia também o Duboawí, Mestre do Cachimbo de Pau;

o Duboriaru, Mestre da Zarabatana, chamada Toriaru;

o Dubouibú, Mestre do Maracá;

Duboebaté "Mestre do Colar de sementes, dentes de animais, ossos de peixe, garras ou pedrinhas";

o Duboheri Tçambusebé, Mestre do Cocal

e o Duboasá, Mestre da Saia de Palha.


— Existem muitos Duboheri, Mestres — concluiu Kaikurú —, mas todos eles formam os Duboruhúá, os Mestres dos Artesanatos.


Yakoá ouviu com atenção e respeito. Seu coração se encheu de entendimento.


— Agora compreendo, grande mestre Kaikurú. Muito obrigado por me mostrar os saberes vivos de nossa aldeia.


Kaikurú então falou com firmeza e carinho:

— Diante de tudo o que ouviu, cabe a você escolher qual caminho seguirá dentro de nossa arte e cultura.


Após um breve silêncio, Yakoá respondeu decidido:


— Grande mestre Kaikurú, desejo aprender a confeccionar o Toriaru, a Zarabatana. Quem sabe, um dia, eu possa me tornar um Duboheri, até alcançar o caminho de Duboriaru, Mestre da Zarabatana.

O ancião assentiu com aprovação:


— Fez uma boa escolha. Procure Akinoã, o ancião Duboriaru. Ele lhe ensinará a confeccionar e a manejar o Toriaru.

 Aprendendo essa arte, você encontrará sustento e dignidade, pois quem trabalha com a cultura nunca caminha sozinho.

Yakoá agradeceu profundamente. Dias depois, procurou Akinoã. Aprendeu com paciência, respeito e dedicação. Suas mãos passaram a compreender o silêncio da madeira, o sopro do vento e o equilíbrio do gesto.


Com o tempo, alcançou seu objetivo. Passou a viver de sua arte, sustentando-se com o trabalho honesto e com o amor à sua vocação, mantendo viva a sabedoria ancestral do povo Kariri-Xocó.

E assim, na aldeia, os saberes continuaram a caminhar de geração em geração, como o rio que nunca deixa de correr.




Autor: Nhenety Kariri-Xocó






DUBOHERIDÉ RUÑOHÚ – A MESTRA DA CERÂMICA






Na aldeia Kariri-Xocó, o barro sempre falou pelas mãos das mulheres.

Chamavam essa arte de Ruñohú, a cerâmica que, por séculos, sustentou a economia da comunidade e guardou a memória do povo no formato de potes, panelas, pratos e talhas. Cada peça carregava o sopro da terra, o fogo do tempo e a sabedoria das anciãs.


Mas os anos passaram, e as Dubobunhá, as Mestras do Barro, foram envelhecendo. Poucas mãos jovens se aproximavam do barreiro, e a tradição começou a silenciar.

Numa tarde quieta, a jovem Saynã, ainda Tibudina — moça em tempo de aprender — percebeu a tristeza da avó Soyá, sentada à sombra, olhando o chão como quem escuta a terra chorar.


— Vovó Soyá, por que estás tão triste? — perguntou a neta.

A anciã suspirou fundo antes de responder:


— Estou triste, minha neta, porque as Ruñohú estão ficando velhas. Não vejo mais Tibudina interessada em aprender. Assim, a tradição do barro pode morrer.

Saynã sentiu o peso daquelas palavras. Aproximou-se da avó e disse com firmeza:


— Não fique triste, vovó. Eu vou aprender. E vou chamar as outras moças da aldeia para aprender comigo.


O rosto de Soyá se iluminou num sorriso antigo, daqueles que só quem carrega muitas luas conhece.


— Sim, minha neta. Vocês darão continuidade à tradição do barro. É um caminho longo, mas vale a pena. Nossas esperanças estão nas Tibudina.

No dia seguinte, ainda cedo, Soyá chamou Saynã e as outras moças.


— Vamos buscar o barro.

Pegaram o Tasípi, a enxada pequena, e o Bará, o balaio. Caminharam até o Bunhakuá, o barreiro onde nasce a argila, o bunhá. Ali cavaram o barro — Kla dó bunhá — colocaram o barro seco no balaio — Andé ti crá bunhá anra bará — e seguiram de volta para a Erá, a casa.


— Agora começa o verdadeiro trabalho, disse Soyá.


Prepararam o barro — Diteri dó bunhá — quebraram os torrões — Pedabó bunhá crærù — molharam com água — Curaempá dehó dzu — e amassaram com areia e cinza — Poroné bunhá dehó bydi andé ketci. Formaram o bolo de barro — Küdi bunhá — até ficar pronto para trabalhar — Pidé prihy aiby naté.


As mãos jovens aprenderam a sentir o tempo do barro.


Nasceram Sacrí, o pote Ruño, a panela Runhú, o prato Aribé e a grande talha Buhú, que os parentes Tupi chamam Igaçaba. Usaram o Prebúde, capeador de coité; a argila amarela Tawá; e a semente de Mucunã para alisar as peças, como ensinavam as antigas.


Depois de secas ao sol — Kuedi crá canghité bunhá andé banhe — as peças foram levadas ao forno, o Bubehó. O fogo foi preparado — Diteri dó isú anra bunhá bubehó — e a queima começou ao cair da tarde, atravessando a noite, enquanto o fogo conversava com o barro.


Só depois do esfriar veio o momento de retirar as peças, fortes e vivas.

— Pronto, minha neta, disse Soyá. Vocês aprenderam. A cerâmica mantém viva a tradição e também gera renda para o nosso povo.


Saynã sorriu e perguntou:

— E depois, vovó?

— Depois levamos a cerâmica para as cidades próximas ao rio Opará, respondeu a anciã. Lá fazemos Taiutará: trocas e vendas com os Caraí. Trazemos galinha, farinha, crueira de mandioca, vestidos, fumo e dinheiro.


Saynã olhou para as peças, para as mãos das moças e para a avó.

Naquele dia, a tradição não apenas sobreviveu.


Ela renasceu.

E o barro, mais uma vez, falou.





Autor: Nhenety Kariri-Xocó 




segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

NATIUANI ERÁCRÓ – A ALDEIA INDÍGENA URBANA






A aldeia sempre esteve ali, mesmo quando a cidade cresceu ao seu redor. Antes de Porto Real do Colégio ter nome de rei e pedra, já havia chão, rio, passos e memória Kariri-Xocó. Foi desse ventre antigo que nasceu a cidade, moldada pelo tempo, pelo contato e pelas mudanças que o mundo impôs.


Com os anos, vieram outros costumes, outras formas de viver. Os Kariri-Xocó aprenderam a conviver com a civilização europeia, absorvendo hábitos, tecnologias e palavras novas. Mas, no fim da década de 1970, chegou o tempo da retomada. Saíram da cidade e fundaram novamente sua aldeia — não distante do mundo moderno, mas enraizada na identidade ancestral. Assim nasceu uma aldeia diferente: indígena e urbana ao mesmo tempo.


Era comum, nas tardes tranquilas da comunidade, que as crianças cercassem os mais velhos com perguntas. Queriam entender por que a aldeia tinha ruas, postes, casas de pedra e aparelhos que falavam sozinhos. Foi numa dessas tardes que o jovem Itauaçú, curioso como todo aprendiz da vida, aproximou-se de sua avó Anemy, guardiã das palavras e dos sentidos.


— Vovó, o que é uma Aldeia Indígena Urbana? — perguntou ele, sentando-se ao seu lado.

Anemy sorriu com a calma de quem já ouviu muitas perguntas e conhece muitas respostas.


— Meu neto, Aldeia Indígena Urbana é Natiuani Erácró.

Natiá é Aldeia.

Uanie é Indígena.

Erá é Casa.

Cró é Pedra.

Ela fez uma pausa, olhando ao redor.


— Então, somos uma Aldeia Indígena de Casas de Pedra, mas com espírito antigo e coração vivo.


Itauaçú abriu um sorriso largo.

— Agora eu entendi, vovó.

Anemy continuou, apontando com o olhar para os caminhos da aldeia.


— Aqui temos Woderáehó, que são as ruas por onde caminhamos. Vieram também os Iabaerá, os conjuntos residenciais. Temos o Hinebakró, a luz que nasce do tronco de pedra, os postes que levam energia à noite. E ali, onde as crianças correm e os jovens sonham, fica o Bypeddá, o campo de Byghitó, o futebol.


Depois, falou das casas.


— Dentro das Erá, nossas casas, convivem o antigo e o novo:

o Crameokli, o rádio que leva vozes distantes;

a Cramenunhí, a geladeira que guarda o alimento;

o Crameupudu, o fogão a gás que aquece a comida;

e o Warudókli, a televisão que mostra o mundo.


Anemy lembrou também dos caminhos e dos meios de ir e vir:


— Ainda usamos a Ibákabaru, a carroça de burro, mas também a Ibaranú, a moto; o Ibápohdu, o automóvel; e a Ibaworóbi, a bicicleta que desliza leve pelas ruas.

Por fim, sua voz ficou mais firme, como quem ensina algo importante.


— Temos nossas casas de cuidado e aprendizado: a Subatekerá, a escola; o Pidékanerá, o posto de saúde; a Inghérá, a creche; e o Erádzu, a casa da água, onde nasce a água encanada que corre pelas torneiras.


Itauaçú ouviu tudo em silêncio, entendendo que viver numa Aldeia Indígena Urbana não era deixar de ser quem se é, mas aprender a caminhar entre mundos sem perder as raízes.


E assim, em Natiuani Erácró, a modernidade não apagou a ancestralidade — apenas passou a morar com ela.




Autor: Nhenety Kariri-Xocó




UANIENATÉ – O TEMPO E AS VOCAÇÕES DO POVO






O sol já caminhava lento sobre a aldeia quando dois anciãos, Tanawã e Ibaná, sentaram-se à sombra generosa de uma velha árvore. O vento leve trazia o cheiro da terra e o som distante das crianças brincando. Ali, naquele instante simples, o Uché, o Tempo, parecia escutar atento.

Tanawã olhou ao redor, como quem conversa também com os espíritos antigos, e começou a falar. Sua voz carregava a memória dos povos indígenas e dos costumes que atravessaram gerações.


— Desde os tempos mais antigos — disse ele — nossos parentes vivem do que a terra, o rio e a mata oferecem. Caçamos, pescamos, fazemos artesanato, cuidamos da roça. As mulheres moldam a cerâmica com as mãos e com o coração, outros constroem ocas, canoas e utensílios. Assim sempre foi entre os Kariri-Xocó. Tudo nasce do Itse, a Pessoa, e do Naté, o Trabalho, que sustenta a família e fortalece a comunidade. Alguns se tornam Duboheri, Mestres do saber, e outras, Duboheridé, Mestras da tradição.


Ibaná, que escutava atento, balançou a cabeça em concordância e tomou a palavra, como quem organiza os fios da memória.


— Pelo que conheço — disse ele — as profissões, os Uanienatéá, dos nossos parentes indígenas, na vida tradicional, o Nhenety, são muitas e cheias de significado. Há o Itsemydzé, o pescador e a pescadora; o Itsesitó, o caçador; o Itsenatédda, agricultor da terra sagrada; o Itsebekati, aquele que coleta o mel; o Duboruhú, mestre do artesanato; a Duboheridé Ruñohú, mestra da cerâmica; o Duboerá, mestre da oca; o Duboherubá, mestre da canoa; e o Itseandri, a pessoa do remédio, guardião da cura.


Enquanto falava, Ibaná percebeu que Madysã, sentado ali por perto, ouvia tudo em silêncio respeitoso. Então se virou para ele e perguntou:


— E você, Madysã, que hoje trabalha como farmacêutico no Posto de Saúde da aldeia, o que pensa de tudo isso?

Madysã respirou fundo antes de responder. Seus olhos traziam o brilho de quem caminha entre dois mundos.


— É verdade, meus parentes — disse ele com calma. — O mundo está mudando. Algumas profissões tradicionais tomaram novas formas, porque muitos de nós estão estudando. A profissionalização chegou às aldeias, mas não levou embora nossa essência.


Ele continuou, com a voz firme:


— Os Duboheriá, os Mestres de antes, hoje também são professores que estudaram, mas continuam ensinando com o espírito do povo. Eu mesmo estudei para ser farmacêutico e continuo sendo Itseandri, Pessoa do Remédio. No Posto de Saúde da Aldeia Kariri-Xocó, trabalham indígenas como dentistas, enfermeiras, agentes de saúde, motoristas. São novos caminhos, mas todos nascem do mesmo tronco.


O silêncio voltou a ocupar o espaço entre eles. O vento passou outra vez pelas folhas da árvore, como se aprovasse aquelas palavras. Tanawã sorriu, Ibaná fechou os olhos por um instante, e Madysã sentiu que o Tempo, o Uché, seguia seu curso — levando adiante as tradições, agora caminhando junto com os novos saberes.


E assim, entre passado e presente, o povo Kariri-Xocó continuou tecendo suas vocações, mantendo viva a memória e abrindo caminhos para o futuro.





Autor: Nhenety Kariri-Xocó 




domingo, 21 de dezembro de 2025

NATIÁDÉ OPARÁMÜ – A ALDEIA MÃE DO BAIXO SÃO FRANCISCO






O sol descia lento sobre as águas largas do rio quando Anawany, sentada à sombra de um velho juazeiro, quebrou o silêncio da tarde. Seus olhos acompanhavam o caminho do Opará, que seguia firme, como quem conhece todos os destinos.


— Tia Maiara, — perguntou a menina, com a curiosidade própria de quem começa a escutar os chamados da memória — por que sempre dizem que aqui é Natiádé Oparámü, a Aldeia Mãe do São Francisco?

A anciã respirou fundo. Seus olhos, marcados pelo tempo, pareciam atravessar séculos. Tocou a terra com a mão aberta, como quem pede licença aos espíritos antigos, e começou a falar.


— Antes de qualquer bandeira, antes das cruzes e dos nomes estrangeiros, este rio já se chamava Opará. Ele era — e ainda é — caminho, ventre e palavra. Foi às margens dele que muitos povos viveram livres: Kariri, Karapotó, Aconãs, Tupinambás, Chocó, Natu, Caxagó, Progê… Cada um com sua língua, seu canto e sua maneira de existir.


Maiara apontou para o rio, que refletia o céu avermelhado.

— Quando os colonizadores chegaram, trouxeram a divisão. Aldearam nossos povos em missões: Colégio, Jaciobá, São Brás, Pacatuba, Ilha de São Pedro. Diziam que era proteção, mas era controle. Mesmo assim, nossos parentes resistiram, guardando o saber como semente enterrada.


A voz da anciã ficou mais grave.

— No tempo em que Portugal transformava aldeias em vilas, muitas missões foram apagadas. Aqui, em Colégio, tentaram fazer o mesmo. Em 1876, nos chamaram de Vila de Porto Real do Colégio. Mas a terra lembrava quem éramos. E ajudou o fato de termos, por um tempo, um indígena na administração: Alferes Firmino José dos Santos. Foi assim que muitos parentes de outras missões vieram buscar abrigo aqui.


Anawany escutava atenta, como quem recebe um presente invisível.

— Vieram Natu, Xocó, Prakiô, Caxagó, Carnijó, Pankararu, Romari, Xucuru… Cada chegada reforçava o espírito acolhedor da aldeia. Por isso ela se tornou mãe.

O vento passou entre as folhas, como se confirmasse a palavra.


— Alguns seguiram novos caminhos — continuou Maiara. — Em 1912, parentes fundaram o Tingui-Botó. Em 1944, o Posto Indígena Padre Alfredo Dâmaso trouxe assistência, mas também vigilância. Em 1966, os Xocó daqui se reencontraram com os Xokó da Ilha de São Pedro, e em 1979 veio a retomada. Mais tarde, surgiram os Karapotó de Terra Nova, os Fulkaxó, os Aconãs, os Caxagó, os Pankariri…


A anciã sorriu, com ternura.

— Todos partiram, mas todos levaram um pouco daqui. E agora muitos retornam às suas terras antigas, formando novas aldeias. É o ciclo do Opará: ir, voltar, renascer.


Anawany olhou novamente o rio. Pela primeira vez, entendeu que ele não apenas corria — ele lembrava.

— Então, tia… — disse a menina, em voz baixa — a Aldeia Mãe nunca deixa de ser mãe.


Maiara assentiu.

— Natiádé Oparámü não é só um lugar. É um espírito. E enquanto houver memória, ele continuará vivo, correndo junto com o São Francisco.

O rio seguiu seu curso. E a história, mais uma vez, foi contada.





Autor: Nhenety Kariri-Xocó 




NATÉ BECHIÉÁ – TRABALHO NA ROÇA





Naquela noite clara, sob o céu costurado de estrelas, a fogueira ardia no centro da Natiá, a Aldeia. O fogo estalava como se também quisesse contar histórias. Em roda, sentados sobre a terra firme, estavam os anrotseá, os anciãos, com seus olhos profundos voltados tanto para as chamas quanto para o passado.


O velho pajé Suíra passou a mão lenta pela barba branca e falou com voz mansa, mas firme. Era tempo de bechiéá, o trabalho na roça. A lua já anunciava o Uanhí Kayaku — a Lua da Lavoura, no mês de março. Irecê, atento ao céu e à terra, confirmou: era o período do tçate retsé, o cortar do mato, feito com a creyahé, a foice que abre caminho para o plantio.


Ynorá, sentada perto da fogueira, escutava em silêncio. Aprendia que, depois do mato cortado, vinha a coivara, o queimar do mato seco, para que a terra se tornasse uanhídda — terra boa para lavoura, viva e pronta para receber a semente.

Dias depois, a aldeia despertou com o som do mutirão. Homens, mulheres, jovens e velhos se reuniram para roçar o mato, arrancar tocos e preparar a coivara. Era o trabalho coletivo de entreajuda, onde ninguém ficava sozinho.


Na manhã seguinte, os anraná pegaram a tasí, a enxada, e começaram a cavar a terra. As tetsiá, com mãos sábias, plantaram masiche (milho), ghinhé (feijão), eremú (abóbora), muicú (mandioca) e endi (algodão). Nos arredores da Natiá, as mulheres também plantaram bacobá (banana), behedzí (melancia), propwi (melão-de-são-caetano) e tané (fumo). Cada semente lançada era um gesto de fé no futuro.


Quando o sol já se inclinava no céu, o Wontyrõ  "mutirão" chegou ao fim. Então foi servido o Amíuyõ, a comida coletiva de muitos. O alimento partilhado aquecia o corpo, e a presença reunida aquecia o espírito.

Foi nesse momento que o pajé Suíra se levantou. O silêncio se fez. Ele agradeceu a todos por manterem viva a tradição, mas sua voz carregava preocupação. Disse que, a cada batti — a cada ano — via menos gente nos mutirões. Falou das ibaranúá, as motos; do ibápohduá, o automóvel; e do tokliddaysã, o telefone celular, que aos poucos afastavam as pessoas da roça e da convivência.


— A agricultura é a base de nossa alimentação — disse ele. — Nossos produtos são puros, livres de contaminação. Eles trazem saúde para o corpo e para o espírito. Podemos usar a tecnologia, sim, mas nunca abandonar nossa tradição e nossa cultura.

As palavras do velho pajé tocaram fundo. Um a um, todos concordaram. Prometeram continuar o bechiéá, o trabalho na roça, como os antigos ensinaram.


Passado algum tempo, chegou a Curuté Kayaku — a Lua da Colheita, no mês de julho. A aldeia se reuniu novamente em grande mutirão. A terra respondeu generosa: colheram muito milho, feijão, abóbora e melancia. A fartura encheu os cestos e os corações.


À noite, a comunidade celebrou em um grande Toré. Os pés batiam a terra, os cantos subiam ao céu, e todos agradeceram à Raddadé, a Mãe Terra, pela abundância da grande roça comunitária. A fogueira, mais uma vez, iluminava rostos felizes — e a tradição seguia viva, passada de geração em geração.




Autor: Nhenety Kariri-Xocó




sábado, 20 de dezembro de 2025

SAMYTSEDÉ — A CULTURA ESTÁ NO POVO





A Aldeia Kariri-Xocó costuma receber muitos passos de fora. São passos curiosos, atentos, às vezes apressados. Vêm estudantes, turistas, parentes de outros povos e pessoas da cidade. Cada um chega trazendo perguntas nos olhos.

Numa dessas visitas, um grupo de estudantes atravessou o Opará, vindo da cidade de Propriá, em Sergipe. Entre eles estava a jovem Mariana, que caminhava observando tudo: as casas, os fios de luz, os carros parados à sombra. Aquilo lhe parecia tão próximo de sua própria cidade que a dúvida lhe nasceu natural.


Ela se aproximou do cacique Seregê e perguntou, com respeito e curiosidade:

— Ô cacique Seregê, a aldeia é assim tão urbanizada? Tem televisão, luz elétrica, automóveis… como a nossa cidade?

Seregê sorriu devagar, como quem sabe que uma pergunta carrega muitas outras dentro dela. Olhou em volta, depois para o rio, e respondeu:


— Sim, Mariana. Mas temos outras aldeias aqui, bem diferentes dessa. Vou contar para todos como é o nosso povo.

E então, como se abrisse um mapa invisível no ar, Seregê começou a narrar.

Disse que, ao longo dos séculos de convivência com a sociedade brasileira, o povo Kariri-Xocó aprendeu a caminhar entre mundos sem perder o próprio passo. Desenvolveu estratégias de preservação cultural diante das mudanças do mundo civilizado, sem romper o fio que liga os vivos aos antepassados.


— Em nosso território indígena — explicou — existem três formas de aldeia, três modos de estar no mundo.


Primeiro, falou da Natierácró, a Aldeia Urbana, localizada próxima à cidade de Porto Real do Colégio, em Alagoas. Ali, as casas são de alvenaria, há tecnologia, luz elétrica, água encanada. Os costumes dialogam com a sociedade nacional e com o mundo da globalização. É um espaço de convivência direta com a cidade, sem que o povo deixe de ser quem é.


Depois, sua voz ganhou outro tom, mais profundo, quase como um canto antigo.

— Na mata do Ouricuri — disse — está a Natianhe, a Aldeia Tradicional, também chamada Matkaí. É território sagrado. Ali, as casas, os rituais, os costumes e as tradições seguem como nos tempos dos antepassados. Não existe nada da civilização. É uma floresta de cem hectares, cheia de plantas e animais silvestres da nossa região. Os brancos não podem visitar. É o lugar onde a espiritualidade respira livre.


Mariana ouvia em silêncio, sentindo que cada palavra carregava um ensinamento.

Então Seregê concluiu o mapa:


— Entre a Aldeia Urbana e a Aldeia Tradicional, a partir dos anos de 1990, surgiram as Natisamyá, as Aldeias Culturais. Foram construídas pelos grupos de toré: Sabucá, Baca, Etçâmy, Pahankó, Opará Taré, Kaçafeita, entre outros. Nessas aldeias, os visitantes podem chegar, conhecer, comprar artesanato, assistir e participar da nossa cultura viva.

O cacique fez uma breve pausa, como quem sela o ensinamento.


— Por isso dizemos assim: Samytsedé — a cultura está no povo. Não é a casa, nem a mata, nem a cidade que definem quem somos. São as pessoas, com seus saberes nativos, que moldam o ambiente e configuram o mundo segundo sua visão cultural, social e espiritual.

O vento passou leve entre as árvores. Mariana entendeu, sem precisar perguntar mais.


— Essa — concluiu Seregê — foi a maneira que encontramos de viver em comunidade, dialogar com a sociedade e preservar nossa espiritualidade em comunhão com os antepassados sagrados, sem jamais esquecer quem somos.

E naquele instante, entre o rio, a aldeia e a escuta, Samytsedé deixou de ser apenas uma palavra. Tornou-se presença.





Autor: Nhenety Kariri-Xocó






WOROIA WONTSERÉ – HISTÓRIA DOS GRUPOS DE TORÉ






A fogueira ardia no centro da aldeia, cuspindo faíscas que subiam ao céu como pequenas estrelas. Ao redor dela, a noite escutava. Foi ali que o jovem Nayrã, com os olhos curiosos e o coração inquieto, rompeu o silêncio e perguntou ao velho Nidé, que descansava sobre uma pedra antiga como a própria terra:


— Meu grande cacique, o que é o Toré? Desde quando ele existe? E para que serve?


O ancião demorou a responder. Fitou o fogo como quem consulta os espíritos e, em seguida, falou com voz baixa, mas firme, como se cada palavra tivesse peso sagrado:


— O Toré, meu neto, é o som que vem da flauta e ecoa no mundo invisível. É som sagrado. Ele nasce do trovão de Tupã e corre pelo vento até encontrar nossos corpos. Vem desde o começo do mundo, desde quando nossos antepassados aprenderam a escutar a terra.


Nidé explicou que o Toré não acontece por acaso. Ele nasce de um motivo, de uma necessidade do povo. Serve para agradecer a colheita, celebrar nascimentos, unir casamentos, honrar os mortos, fortalecer a paz, curar feridas do corpo e da alma, e também para afirmar a luta, a identidade e a memória.


Os anos passaram como passam as águas do rio São Francisco. Nayrã cresceu, tornou-se adulto, e em muitas fogueiras ouviu novamente as histórias do Toré. Soube então que, em 1859, quando o Imperador Dom Pedro II visitou a Aldeia Kariri de Colégio, foi recebido com um Toré conduzido pelo pajé Manoel Baltazar e por um grupo de indígenas. Mesmo diante do poder do Império, foi o som ancestral que falou primeiro.


Mais tarde, conversando com o velho Irecê, Nayrã compreendeu algo ainda mais profundo. O Toré foi essencial para o reconhecimento étnico dos Kariri de Colégio. Os grupos eram liderados pelos Duboheriá, os Mestres do saber: Manoel Ibá, Antônio Tinga, Giriçá e outros que, em 1935, dançaram e cantaram diante do pesquisador Carlos Estevão. Daquele registro nasceu, anos depois, em 1944, o Posto Indígena Padre Alfredo Dâmaso.


Mas o Toré não ficou preso às páginas dos estudos. Ele seguiu vivo. Em 1973, o cacique Irecê levou um grupo Kariri-Xocó para além da aldeia. Foram até Aracaju, capital sergipana, onde apresentaram o Toré ao mundo de fora. O som ecoou nos jornais, na televisão, e atravessou fronteiras invisíveis.


Com o tempo, muitos grupos de Toré nasceram, como sementes espalhadas pelo vento. Na década de 1990 surgiram o Seregê, liderado pelo cacique José Tenório; o Thydjo, sob a liderança de Cará; o Suré, do soprador mágico Ademir Cruz; o Wakái, do líder Mocó; e o Dzubukuá, conduzido por Nido. Esses grupos não apenas dançavam: vendiam artesanato, arrecadavam alimentos, curavam, ensinavam, falavam ao mundo.


Nos anos 2000, novos passos se somaram à roda. Vieram o Etçãmy, de Batoré; o Sabucá, de Pawanã; o Kaçafeita, de Coção; o Yegeri, das grandes chamadoras de chuva, liderado por Nelcide; e o Subatekié, do conhecimento, conduzido por Idiane Crudzá. Muitos outros ainda nasceram, tantos que a lista já não cabe na memória escrita.


Naquela mesma fogueira, agora já homem feito, Nayrã entendeu: o Toré nunca foi apenas dança ou canto. Ele é raiz viva. Enquanto houver quem escute o trovão de Tupã e bata o pé na terra, o Toré continuará renascendo, mais forte, mais firme, como esperança que não se apaga.

E o fogo, em silêncio, concordou.




Autor: Nhenety Kariri-Xocó



sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

TAIUTARÁ RUÑOHÚ MIDZÉ, Trocar e Vender Cerâmica e Peixe

 




A velha Soyá acordava antes do sol. Suas mãos, marcadas pelo tempo, conheciam o barro como quem conhece o próprio corpo. Sentada à sombra de um juazeiro, às margens do Opará, ela amassava a argila com calma, enquanto a neta Aramã observava em silêncio, aprendendo mais com o gesto do que com as palavras.


— Vê, Aramã… — dizia Soyá, sem levantar os olhos. — O barro escuta a gente. Se a mão estiver pesada, ele racha. Se estiver mansa, ele vira ruñohú.


A cerâmica sempre foi assim para o povo Kariri-Xocó: mais que trabalho, era vida. Desde antiga data, as mulheres moldavam potes e panelas de barro, o ruñohú, e seguiam em taioiará, vendendo e trocando com os carai, os brancos. Em troca vinham o taiu, o dinheiro; a sabucá, a galinha; e o sekiki, a farinha que sustentava a casa.


Soyá lembrava bem do tempo da Rua dos Índios, quando ainda não tinham a terra reconquistada. As mulheres seguiam pelo rio na Ubacródzu, a canoa do Porto das Pedras, levando a cerâmica para os Atserácroraí, os povoados ribeirinhos. O rio era estrada, mercado e companhia.

Depois veio a retomada da Terra Indígena,  já nos anos de 1990. 


A aldeia se firmou às margens do Opará, cercada por lagoas fartas de midzé, os peixes. A vida mudou. Agora, junto com os potes de barro, as mulheres carregavam setu, balaios cheios de peixe fresco, para vender e trocar nos Atserácaddá, os povoados do interior.


— Foi o tempo mais bonito, Aramã — contou Soyá certa vez. — A terra voltou pra gente, e o peixe vinha como presente.

Já não era mais a canoa. As mulheres seguiam nos Ibáchiddá, os carros compridos da terra, atravessando Apreaca, Angico, Girau, Salomé e Xinaré. 


A Nova Aldeia trouxe estrada, luz elétrica, casa de alvenaria e água encanada. Trouxe conforto, mas também trouxe silêncio para o barro.


Agora, Soyá estava aposentada. Muitas das velhas ceramistas também. As mãos cansaram, os olhos falharam, e poucas jovens quiseram aprender o ofício. O barro começou a esfriar.


Aramã, porém, escutava tudo com atenção. Naquele dia, ajoelhou-se ao lado da avó e pediu:

— Ensina de novo, vó. Quero aprender a ouvir o barro.


Soyá sorriu. Um sorriso lento, profundo, como quem vê o futuro respirando.

— Então senta, minha neta. Enquanto houver mão jovem pra aprender, o ruñohú não morre. A tradição só dorme quando ninguém chama por ela.


E ali, entre o barro úmido, o rio antigo e a memória viva, Soyá passou à neta não apenas a técnica da cerâmica, mas a história de um povo que troca, vende, resiste e permanece.





Autor: Nhenety Kariri-Xocó 







WOROY ERÁYE – A HISTÓRIA DA CASA GRANDE





A Casa Grande sempre esteve ali, silenciosa e atenta, como se guardasse em suas paredes a respiração antiga da terra. Chamávamos de Eráye ou Picriá e ela não era apenas uma casa: era um marco, um sinal de mudança, um ponto de travessia na história do povo Kariri-Xocó.


A história da Fazenda Sementeira é muito antiga. Ao longo do tempo, aquela propriedade teve vários nomes e diferentes sedes administrativas, acompanhando os interesses dos brancos e do Estado. O prédio da Casa Grande, como sede principal, correspondeu apenas a uma das fases dessa longa história de ocupação e transformação do território indígena.


Quando, em 1978, retomamos a Fazenda Modelo — conhecida também como Sementeira — a Casa Grande deixou de ser sede de fazenda para tornar-se abrigo de muitas vidas. Funcionários da CODEVASF foram retirados, e nós, indígenas Kariri-Xocó, ocupamos as construções que ali existiam: casarões antigos, galpões, cocheiras, escola, casas de funcionários. Quem não encontrou teto, ergueu barracas. A terra nos recebia novamente.


A Casa Grande tornou-se lar de vinte e duas famílias. Cada porta, cada canto, cada alpendre guardava uma história. Ali viveram Alírio e Maria de Lourdes, Ivete e Antônio Cruz, Luiza Tenório e família, Arnaldo e Chica, Zé Brinquinho e Especília, Helena Tenório e Lucineide, Mané Galo e Ianí, Antônio Tenório e Landa, Gena e Zeire, Dinalva e Juarez, Zé Tenório e Givalda, Gergina e família, Gringo e Antônia, Maria Vermelha e Miguel Suíra, o cacique Cícero e Anália, Zé Gatinho e Eurides, Paulo Nunes e Maria Véia, Zé Taré e Antônia. Havia ainda Zefina, Vera, Roselita e Euda — famílias do coração, unidas pelos filhos e pela convivência.


Eu, Nhenety, morei ali com minha família. Por isso conto essa história.


A Casa Grande era cheia de vida. Os mais velhos contavam histórias ao cair da noite, enquanto os adultos saíam para pescar nas lagoas fartas. Nos fundos, o alpendre se enchia de fogos de lenha acesos, e tudo era repartido: comida, palavra, silêncio. À noite, redes armadas, lençóis no chão, esteiras e tapetes acolhiam corpos cansados, mas esperançosos.


Em 1979, veio a grande enchente. Ficamos ilhados. Os meninos saíam para colher mangas nas margens do Rio São Francisco, que parecia não ter fim. O alimento enviado pelo governo chegou e amenizou a fome por alguns dias, mas foi a união que nos sustentou.


Atrás da Casa Grande ficava a Dzurichi, a Lagoa Comprida. Ali pescávamos e plantávamos arroz. Suas águas banhavam o Hechi Wathõ, o Alto do Bode, morro sagrado onde antes existira a Natianie, a antiga aldeia indígena tradicional. A terra falava conosco, mesmo quando não percebíamos.


Outro fato importante sobre o local da Casa Grande me foi contado pela velha índia Mareinha. Um dia, ela me disse assim:

— Olha, Nhenety, esse lugar onde hoje fica a Casa Grande foi, no final do século XVIII, morada do Pajé Ludovico. A casinha do pajé era coberta com casca de jatobá. Depois que ele morreu, anos mais tarde, os brancos tomaram o local.


Essa palavra ficou guardada em mim como semente, mostrando que, antes das paredes de tijolo, ali já existia morada de saber, reza e cura.


Durante a enchente, os jovens que estudavam no Ginásio São Francisco, na cidade, pediram ao prefeito uma canoa para atravessar o rio e não perder as aulas. Eu estava entre eles. Ao voltar da escola, eu, Lenoir, Zé Birrinha e Dijalma fazíamos mingau de milho com leite em pó. Era nosso jantar, simples e compartilhado.


Quando as águas baixaram, surgiu uma superpopulação de preás nos arredores. Davi e meu irmão Antônio fizeram aratacas. Pegamos muitos. Nossas mães preparavam cozidos e carnes moqueadas — comida boa, lembrança viva até hoje.


Lembro também de 1980, quando Jaime trouxe um toca-discos. No alpendre da Casa Grande dançamos ao som da música popular brasileira. A alegria também fazia parte da luta.


Certo dia, perguntei a Miguel Suíra:

— Miguel, o senhor sabe quando essa Casa Grande foi construída?


Ele respondeu com calma:

— Sei sim, Nhenety. Trabalhei aqui como servente de pedreiro, fazendo a argamassa. Essa casa foi construída em 1960 para ser sede da Fazenda Escola. Funcionou até 1978 como Fazenda Modelo. Nós, Kariri-Xocó, fomos a mão de obra dessa fazenda por décadas.


Agradeci. A Casa Grande, então, ganhou mais uma camada de memória.


Quando a terra foi conquistada, fizemos um Toré na Casa Grande. Antônio Tinga puxou o canto. Gente de todas as casas chegou para celebrar. Foi um momento forte, daqueles que não se esquecem.


Em 1981, chegou o projeto das 110 casas. Cada família deveria fabricar dez mil tijolos, queimar, trabalhar na construção. O governo fornecia cimento, madeira e telhas. Assim nasceu a Nova Aldeia. Em 1982, as casas ficaram prontas. As famílias deixaram a Casa Grande, que passou a ser sede do Posto Indígena Kariri-Xocó até 2003.


Depois disso, outras famílias ali viveram: Esso e Rita, Vânio e Cil, Galego e esposa, Mudinha e esposa, Zé Van e esposa, Vânia de Zeire e esposo, Ara e filhos. A Casa Grande continuou acolhendo.


Hoje, a Eráye é a Creche Tia Marieta. Nela, crianças pequenas aprendem a dar os primeiros passos na vida. Onde antes houve luta, hoje há riso. Onde houve enchente, hoje há futuro.


A Casa Grande permanece.

Não como ruína, mas como memória viva, fazendo novas histórias nascerem todos os dias.





Autor: Nhenety Kariri-Xocó