sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

UNDÉÁ AIBY RADDA – OS LUGARES DA TERRA






Kanawí caminhava devagar, como quem escuta a terra antes de pisá-la. Seus pés conheciam cada curva da Radda, cada cheiro trazido pelo vento que vinha do Iwo Opará. Para ele, a terra não era apenas chão: era corpo vivo, memória antiga, voz dos Tokenhé, antepassados. 


Naquela manhã, Kanawí não caminhava sozinho.


Ao seu lado vinham George, biólogo de olhos atentos, sempre com um caderno nas mãos, e Clarice, antropóloga silenciosa, que preferia ouvir antes de perguntar. Ambos eram pesquisadores brancos, vindos de longe, atraídos pelo que os livros não conseguiam explicar.


— Aqui é Undéá Aiby Radda — disse Kanawí, quebrando o silêncio. — Os Lugares da Terra.


George levantou os olhos do caderno. Clarice sorriu com respeito.


— Nosso Tseho, povo vive aqui desde os Tokenhé, antepassados — continuou Kanawí —, com Natiá, aldeias espalhadas ao longo do Iwo Opará, que vocês chamam de Rio São Francisco.

Eles caminharam até um ponto mais alto.

Kanawí estendeu o braço, desenhando os limites invisíveis no ar.


— A leste, o Boêdo Dzurió Tasí, o Morro da Lagoa da Enxada. A oeste, o próprio rio. Ao norte, o Iwo Tibirí, Rio da Formiga. Ao sul, a Pohó Itiúba, a Várzea do Rio da Canoa.


Clarice anotava, mas o que mais a impressionava não eram os nomes, e sim a maneira como Kanawí falava deles — como se cada palavra fosse um parente.


— Esses lugares aparecem nas Woroyá, as histórias dos antepassados — disse ele, enquanto os conduzia em direção à serra da Maraba. — É daqui que tiramos a Tabatinga, a argila branca. Ela vira Ruñohú, nossa cerâmica. Cada peça guarda um pedaço da serra.


George ajoelhou-se, tocando a terra clara com cuidado.


— A composição mineral disso é impressionante — murmurou.

Kanawí sorriu.


— A terra ensina antes da ciência.

Mais adiante, apontou para outra serra.


— Ali é a Apreaca. Dela tiramos o caroá, que vira corda. Nada se perde. Tudo retorna.


Quando chegaram às Dzurióá, as lagoas, Kanawí parou em silêncio. Clarice sentiu que aquele não era um lugar comum.


— Aqui estão as Ebebunhá — explicou ele em voz baixa. — Fontes de barro. Daqui vem o Tauá, a argila amarela, e a Ebebunháhe, a vermelha. Cada cor tem um tempo, um uso, um respeito.


O vento passou suave sobre a água. George fechou o caderno. Clarice baixou a cabeça.


Por fim, Kanawí os conduziu à Retsé, a floresta.


— Aqui fica a Natianie, nossa aldeia tradicional — disse. — E mais adiante, perto da cidade, a Natierácró, a aldeia urbana. Dois mundos, uma só raiz.


Clarice respirou fundo.

— Kanawí… — disse ela — o que você quer que levemos conosco quando formos embora?


O indígena olhou para a terra, depois para o rio, depois para o céu.


— Levem o entendimento de que a Radda não é lugar vazio. Ela tem nome, memória e espírito. E quem aprende a ver, Ubí, nunca mais pisa sem cuidado.


O sol começava a se pôr sobre o Iwo Opará. Naquele instante, George e Clarice compreenderam: não estavam apenas pesquisando um território — estavam sendo apresentados a um modo de existir.




Autor: Nhenety Kariri-Xocó




TORÁHEKIÉ – QUANDO OS PÉS APRENDEM A CONVERSAR

 





Antes mesmo de Akauã aprender a dar nome às coisas, seus pés já sabiam o caminho. O chão da aldeia falava com ele, e ele respondia com passos. O Toré pulsava como coração antigo, ensinando que dançar não era divertimento apenas, mas escuta: da terra, dos mais velhos, do tempo que nunca morre.


O som do maracá vinha dos antepassados. Cada giro do corpo era um fio invisível ligando o presente ao começo de tudo.


Mas havia outros sons, vindos de fora do círculo sagrado.


Quando Akauã atravessava as estradas de terra até Porto Real do Colégio, seus ouvidos se enchiam de novidades: a sanfona que chorava e sorria ao mesmo tempo, os risos soltos dos salões, as vozes que escapavam do Crameokli, o rádio, espalhando músicas como sementes no vento. Eram sons dos Caraí, danças de festa, passos que não pediam silêncio nem reza — apenas corpo.


Foi à sombra de um salão iluminado que Akauã viu Helena pela primeira vez.


Ela dançava como quem conversa com o ar. Seus pés não marcavam o chão; deslizavam. Quando percebeu o olhar atento do jovem indígena à porta, sorriu sem estranheza, como se já o conhecesse desde antes, e estendeu a mão.


— Vem — disse apenas.

Akauã hesitou. Dentro dele moravam dois mundos. Um falava baixo, com voz antiga; o outro chamava alto, com riso e movimento. Aceitou.


Os primeiros passos foram tímidos, mas logo seus pés aprenderam a linguagem da Toráhekié Caraí, a dança de diversão do branco. Não era Toré. Não pedia silêncio. Não chamava os espíritos. Ainda assim, havia alegria, encontro, partilha.


Helena e Akauã passaram a se encontrar sempre que a música surgia. Ela queria saber do Toré, do maracá, da dança que nasce do chão. Ele queria entender aquelas danças que mudavam com o tempo, que vinham agora não só da sanfona, mas do Craiwonhé, o toca-disco, do Warudókli, o televisor, e das vozes presas em fitas e discos.


— A dança muda — dizia Helena —, mas as pessoas continuam precisando dançar.

Akauã guardava a frase como quem guarda semente.


Vieram os anos. Vieram as máquinas que levavam som e imagem para dentro das casas, inclusive para as Erá da aldeia. Alguns temeram que o Toré se apagasse diante de tantas novidades. Akauã também sentiu o medo silencioso de quem ama o que é antigo.


Numa noite de lua cheia, decidiu.

Convidou Helena para a aldeia.

O terreiro se abriu sob o céu. O Toré começou. O maracá chamou. Os corpos se alinharam. Akauã dançava como quem escreve no chão o nome do seu povo.


Helena não se moveu. Apenas sentiu. Compreendeu que ali a dança não era espetáculo — era raiz.


Quando o canto cessou, Akauã falou baixo:

— Agora, se quiseres, mostra a tua dança.

Helena ligou o pequeno rádio. O forró correu leve pelo ar. Alguns riram. Outros observaram. Pouco a pouco, pés se moveram. Não para imitar, mas para experimentar.


Naquela noite, o Toré continuou inteiro. E a Toráhekié também encontrou lugar.

Akauã aprendeu que dançar o mundo não o afastava de sua origem. Helena aprendeu que algumas danças não se aprendem com os pés, mas com o respeito.


E assim, entre a aldeia e a cidade, os passos começaram a conversar — sem que nenhum precisasse silenciar o outro.




Autor: Nhenety Kariri-Xocó 








quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

BATIM HOPELE PAHANKÓ, SALTO DO BARRANCO NO OPARÁ






Yakoá cresceu ouvindo o rio antes mesmo de aprender a falar. Diziam os mais velhos que, ainda menino, ele reconhecia o som das Dzuá, as Águas, como quem reconhece o chamado de um parente antigo. Agora, já com os cabelos prateados pelo Uché do tempo, sentava-se à sombra de um ingazeiro, à beira do Iwo Opará, observando o rio crescer com a chegada da Pehó Kayaku, a Lua da Enxurrada.

Ao seu lado estavam Taré, o neto curioso, e Namara, a irmã dele, atenta aos mínimos movimentos das águas.


— Vovô — perguntou Taré, com os olhos brilhando — é verdade que o rio fala mais alto nessa lua?

Yakoá sorriu. Apontou o braço firme para o barranco úmido.


— É agora que acontece o Hopele Pahankó, meu neto. O estrondo das águas no barranco. Costume antigo dos nossos Tokenhé, os Antepassados. Quando o Opará enche, ele chama o povo para brincar, nadar e voar por um instante antes de cair nas Dzuá, águas.


Namara observava as Ubacroté, canoas de pano, subindo e descendo o rio, enquanto outras repousavam no Ubacródzuá, o porto das canoas. As mulheres, as Tetsiá, lavavam roupas cantando baixinho; as Tibudiná, moças ágeis, cuidavam dos pratos; e as Inghéá, crianças como eles, mergulhavam e nadavam em alegria.


— Eu quero saltar, vovô — disse Taré, sentindo o coração bater como o tambor da aldeia.


Yakoá se levantou devagar. Caminhou até a borda do barranco, onde tantas gerações haviam saltado antes dele.


— O Pahankó não é só pular — explicou —. É respeito. É confiar nas Dzuá. É saber que o rio te recebe se teu coração estiver limpo.


Ele contou então como, em sua juventude, praticava o Batim Piedi, pescando de mergulho, com o arpão artesanal firme na mão. Saltava do Cró, mergulhava fundo e voltava com os Wãmyá, os peixes, como presente do Opará para a aldeia.


— Nosso povo sempre viveu assim — continuou —. Somos os Tseho Dzubukuá, Povos das Ribeiras. Mas o mundo mudou…

Yakoá silenciou. O olhar ficou distante.


— As Maecrótçawo, as hidrelétricas, prenderam o pulso do rio. Hoje o Opará já não cresce como antes. O Hopele Pahankó ficou raro, quase uma lembrança.


Namara segurou a mão do avô.

— Então a gente tem que guardar isso na memória, né, vovô?

Ele assentiu.


— Na memória, na palavra e no coração. Enquanto alguém lembrar e contar, o Pahankó continua vivo.


Naquele dia, Taré não saltou do barranco. Mas aprendeu algo maior: que nem todo salto é do corpo. Alguns são feitos para atravessar o tempo.


E o rio, mesmo contido, pareceu murmurar em resposta.





Autor: Nhenety Kariri-Xocó





AMITEÁ NHENETÍ TSEHO – O FOGO DE AMOTYRA






O sol ainda subia manso sobre o Iwo Opará quando Amotyra reacendeu o fogo da cozinha comunitária. O cheiro da lenha estalando misturava-se ao vento do rio, trazendo lembranças antigas, guardadas no tempo em que a Aldeia ainda era chamada de Natiwaré, a Aldeia dos Padres. Ali, onde muitos Tsehoá Uanieá haviam sido reunidos, nasceram histórias, dores e também um povo de tronco antigo: os Kariri-Xocó.


Amotyra conhecia essas histórias como quem conhece os caminhos do rio. Suas mãos, marcadas pelo tempo, mexiam a massa do Waraeró, o beijú de farinha de mandioca, enquanto ela falava aos visitantes que chegavam curiosos, vindos de longe para conhecer a culinária tradicional da Aldeia.


— Aqui não servimos apenas comida — dizia ela, com voz calma. — Servimos memória.


Os turistas se sentavam em silêncio respeitoso, observando cada gesto. Amotyra contava que muitos povos haviam se encontrado naquela terra: Kariri, Karapotó, Aconãs, Tupinambá, Xocó, Natú, e até os Peró, os portugueses. Cada um trouxe sua Samyá, sua cultura, e foi assim que as Amiteá, as comidas, ganharam tantas formas, cheiros e sabores.


Ela apontava para as panelas de barro alinhadas no chão.


— Somos povo do rio — explicava. — Do Iwo Opará tiramos os Wãmyá, os peixes. Da mata, as Utuá, as frutas, as Ubuá, as plantas, e também os Keríá, os animais. Tudo conversa entre si.


Amotyra colocava o Ghinhé, o feijão, para cozinhar lentamente, enquanto a Sekiki, a farinha fina de mandioca, descansava em cestos de palha. O Masiche, o milho, era assado nas brasas, estalando como se contasse histórias antigas.


Ela sorria ao falar das heranças Tupi: a Typy-óka, a tapioca que se molda como lua branca; o Mbeju; a Abati Pipoka que pula alegre no fogo; a Pa-soka; a Moka’eka cheirosa; o Pyrau, pirão; a Pamunhã; a Acanjic; o Pirá piri’a envolto em coco; e o Ka’wi, bebida que celebra encontros.


— Cada prato tem um espírito — dizia Amotyra — e cada espírito tem uma origem.


Também lembrava que os portugueses trouxeram novos Keríerá, os animais domésticos: o Curé "porco", o Cradzó "boi", o Wathõ "bode", a Erintuca "ovelha", o Sabucá "galo" e o Tute "pombo". Vieram também frutas "manga, jaca, laranja, maçã" e temperos "alho, cebola, tomate, cenora, canela, alface" que, com o tempo, aprenderam a morar na terra indígena como se sempre fossem dali.


Quando a comida ficou pronta, Amotyra convidou todos a se aproximarem. O fogo iluminava seu rosto sereno, e por um instante os visitantes compreenderam que não estavam apenas provando alimentos, mas entrando em um território de saber ancestral.


— Enquanto esse fogo existir — concluiu Amotyra — as Amiteá Nhenetí Tseho "Comidas da tradição do povo Kariri-Xocó" continuará contando sua história, não só com palavras, mas com o gosto da terra.

E o rio, lá fora, seguia seu curso, levando consigo o aroma da tradição viva.





Autor: Nhenety Kariri-Xocó 




terça-feira, 6 de janeiro de 2026

AMITEÁ UANHOÁ TSEHO – O SABER DA COMIDA KARIRI






Nas Natiá, as aldeias antigas dos Kariri do Opará e da Caatinga do sertão, o sol nascia sempre acompanhado do cheiro da terra aquecida e do canto dos pássaros. Ali vivia Suiara, mulher sábia, conhecedora dos Amiteá, os alimentos que sustentavam o corpo e o espírito de seu povo. Diziam que Suiara aprendia ouvindo a Antse, a Natureza, e que cada alimento lhe falava em silêncio.


Suas filhas, Nayane e Amany, já eram moças curiosas. Queriam aprender tudo o que a mãe sabia, pois entendiam que o saber da comida era também o saber da vida. Naquela manhã, sentaram-se ao redor da fogueira, enquanto Suiara preparava a Runhú, a panela de barro, e começou a ensinar.


— Antes dos Peró, os portugueses, — disse Suiara — nosso povo já conhecia os Uanhoá, os costumes que vinham da Retsé, da floresta, e dos Iwoá, os rios.

Ela mostrou os Wãmyá, peixes pescados com respeito; os Uttihu, frutos colhidos no tempo certo; os Keritóá, animais de caça; os Tudjeá, legumes da roça; e o Kati, o mel doce oferecido pelas abelhas da mata.


Nayane observava enquanto a mãe colocava os ingredientes no fogo. Amany ajudava a preparar o Aribá, o prato de barro, e o Babasité, o espeto para assar a carne. Mais adiante, Suiara apontou o Badzuru, o moquém onde as carnes eram defumadas lentamente, e o Bubehó, o forno que guardava o calor da terra.


— Foi assim que aprendemos a fazer o Saredu, o bolo doce de mandioca; o Woudu, de massa simples; o Waraeró, o beijú assado; e a Sekiki, a farinha fina e seca — explicou com calma.


À noite, enquanto a lua subia, Suiara falou das bebidas. Contou sobre o Bydzu, licor doce misturado com frutas e mel; o Yeru, o vinho trazido pelos capuchinhos; e o Nhupy, vinho de milho fermentado naturalmente, preparado com paciência e respeito.


— Não é só comida, minhas filhas — disse ela — é memória.


Suiara ensinou também o Creyá, a técnica de assar sob a terra; o Madzó, milho verde nas brasas; o Waredú, bolo de mandioca adocicado com mel de uruçú. Falou do tempo em que chegaram os colonizadores, trazendo o gado e a Riné, a carne salgada, e o Crodzó, a carne de boi cozida ou assada.


Por fim, reuniu os alimentos que nunca faltaram: o Ghinhé, feijão companheiro de tudo; a Muicú, mandioca de muitas formas; a Bacobá, banana simples ou em mingau; e o Obó, fruto do umbu, que virava embuzada nos tempos de seca.


Nayane e Amany ouviram em silêncio. Sabiam que aquele aprendizado não estava apenas na palavra, mas no gesto, no fogo e no tempo. Ao final, abraçaram a mãe.


E Suiara sorriu, certa de que o saber dos Kariri continuaria vivo, passando de geração em geração, como o fogo que nunca se apaga.




Autor: Nhenety Kariri-Xocó 



segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

DUANTOÁ OKENERÁ – AS FOGUEIRAS DOS SANTOS NAS PORTAS






Na Pehó Kayaku, a Lua da enxurrada de dezembro, o Iwo Opará, o grande Rio São Francisco, começava a subir suas Dzuá, águas trazendo no corpo os troncos de Sutuá, árvores antigas arrancadas pela força da correnteza. Era nesse tempo que Suré e Seremy, mestres do Toré, caminhavam atentos pelas margens, olhos de quem sabe ler os sinais da terra.


— Essa lenha já vem benzida pelo rio, dizia Suré, tocando o tronco úmido.

— É Héisú boa pras Buyêantoá, fogueira sagrada respondia Seremy. Vai aquecer santo e gente.


Os meninos Awanã e Naryãny seguiam atrás, curiosos, aprendendo em silêncio. Eles sabiam: nada ali era só madeira. Tudo tinha tempo, nome e espírito.


Quando chegava a Uanhí Kayaku, a Lua da lavoura de março, o povo abria as Bechiéá, roças plantando Masiche, milho e Ghinhé, feijão. E no dia 19, antes mesmo do sol se despedir, Suré acendia a primeira Buyê, a fogueira de São José, bem na Okenerá, a porta da casa.


— É aqui que o santo entra, explicava ele a Awanã.

— E é aqui que o Toré começa, completava Seremy, batendo leve o maracá.


As Woderáehó Natiá, ruas da aldeia, se enchiam de luz e cheiro de fumaça boa. As portas viravam lugares sagrados.


Na Dzó Kayaku, a Lua da chuva de junho, o coração da aldeia batia mais forte. No dia 13, a fogueira de Santo Antônio chamava o povo. Quando a Kayá chegava, a noite as Buyê mó torá Toré, fogueiras eram acesas, e a Bohé, a coletividade do povo, se formava em roda.

Seremy cantava, Suré puxava o passo, e Awanã e Naryãny já dançavam, aprendendo com o corpo aquilo que não se ensina com palavra.


Nos dias 23 e 24, o Masichi Erã, o milho verde, era colhido. As Amí Nhenetí, comidas da tradição surgiam: canjica, pamonha, pipoca. O Toré ecoava junto aos Buyêranke, os fogos que riscavam o céu em cores, sem apagar a força do chão.


Na finalização, nos dias 28 e 29, o Toré seguia noite adentro. Quando o Sabucanheyé, o galo, anunciava o amanhecer, era Suré quem entoava o canto final, como quem fecha um ciclo e abre outro. Agora, Awanã e Naryãny cantavam juntos, voz firme, memória viva.


Mesmo com a chegada da Hinebakró, da energia elétrica, com o Crameokli, o rádio e o Craiwonhé, Toca-disco tocando Amara Caraí, as cantigas de branco, o povo não largou o Toré. Dançava-se também o Torá Rocruté, o Toré com roupa de pano, sem esquecer a pintura da alma.


Era tempo de vestir Rocruté woroby, roupa nova, mas também de renovar o espírito antigo.


Suré olhou para os mais novos e disse baixinho:


— Enquanto houver fogo na porta, o povo não se perde.

E assim, ano após ano, as Duantoá Okenerá, as Fogueiras dos Santos nas Portas, continuam acesas — não só na lenha, mas no coração do povo Kariri-Xocó.




Autor: Nhenety Kariri-Xocó 




IBENHETE ONHANTOÁ – AS IMAGENS DOS SANTOS NA PAREDE






Geriçá sentava-se sempre no mesmo banco de madeira, encostado à parede mais antiga da casa. Ali, o barro batido do chão conhecia seus passos desde menino, e a parede, coberta por imagens, guardava mais histórias do que muitos livros. Acima de sua cabeça, alinhadas com cuidado, estavam as Ibenhete Onhantoá, as imagens dos santos na parede, testemunhas silenciosas do tempo.


O jovem Içánauá, seu neto, observava curioso aquelas figuras de papel, pintura e fotografia. Para ele, eram imagens; para o avô, eram presenças.


— Vovô Geriçá, — perguntou o menino — por que o senhor fala com essas imagens como se fossem gente viva?

O ancião sorriu devagar, como quem abre uma porta antiga.


— Porque elas caminharam com nosso povo, meu neto.


E começou a contar.

Disse que o contato dos Uanieá, os indígenas, com a Erantoá, a igreja, vinha desde o princípio da chegada dos Caraí, os brancos, chamados Peróá, os portugueses. Vieram com eles os Waréá, missionários, e fundaram a Natiwaré, a Aldeia dos Padres. Ali, entre rezas estranhas e palavras novas, os primeiros encontros aconteceram.


A primeira Ibenhete, a imagem de santo que chegou àquelas terras, foi a de Hietçãdé Tohikiete, Nossa Senhora da Conceição. Era feita de Hé, madeira, e de Bunháongó, barro cozido em terracota. Não era apenas objeto: era símbolo de um tempo novo que se impunha, mas que também era reinterpretado pelos olhos indígenas.


— Ela viu nossos avós crescerem, — disse Geriçá — e ouviu nossas línguas misturadas às deles.


No século XIX, continuou o ancião, a Natiá, a aldeia, foi transformada em Natierácró, cidade. Mudaram os nomes, as cercas, os caminhos. Mas os Kenhéá, os costumes da Itu, a fé aprendida dos colonizadores e missionários, foram absorvidos pelos Uanieá à sua maneira, atravessando os séculos sem apagar quem eles eram.

Içánauá escutava atento.


Já na Natiá Samyá, a aldeia aculturada, na década de 1970, surgiram novas imagens. Na Woderáehó Uanieá, a Rua dos Índios, apareceram os Atsemiucan, vendedores ambulantes. Eles traziam objetos do mundo dos Caraí: rádios, retratos, calendários coloridos.


Foi nesse Uché, nesse tempo, que chegaram as Ibenhehanpé, imagens de parede de santos, e também a Ibentserã, a fotografia, imagem da pessoa no papel. Vieram as He-erã, pinturas no papel, e pouco a pouco as casas indígenas passaram a ter, em suas paredes, santos impressos, colados, pendurados.

Geriçá levantou-se com esforço e apontou para uma imagem amarelada.


— Essa aqui não é só papel, Içánauá. Ela carrega o tempo em que aprendemos a olhar o mundo do outro sem esquecer o nosso.


O neto se aproximou e tocou a parede com cuidado. Pela primeira vez, entendeu que aquelas imagens não estavam ali para substituir a memória indígena, mas para revelar o caminho tortuoso da convivência, da resistência silenciosa e da adaptação.

Naquela casa, as Ibenhete Onhantoá não eram apenas santos na parede. Eram marcas do encontro entre mundos, guardadas pelo olhar atento de Geriçá e agora acolhidas pela curiosidade viva de Içánauá.


E assim, entre imagens, palavras e silêncio, a história continuava.




Autor: Nhenety Kariri-Xocó 




domingo, 4 de janeiro de 2026

TIRI MOAÎBA ATSEÁ – O CONSELHO DE AMOÃNY E OS INSETOS QUE PASSARAM A PREJUDICAR AS PESSOAS

 





Na sombra fresca de uma grande Sutuá, árvore às margens do Opará, sentava-se Amoãny, a anciã conselheira do povo. Seus cabelos brancos pareciam fios de lua, e seus olhos guardavam histórias mais antigas que as pedras do rio. Ao seu lado, brincavam suas netas, Kayany e Soany, curiosas como passarinhos recém-saídos do ninho.


— Vovó Amoãny, — perguntou Kayany, coçando o braço — por que existem insetos que mordem, coçam e fazem adoecer as pessoas?

Soany completou, espantando uma Kõpere, muriçoca que zumbia perto do ouvido:


— Eles sempre foram assim?

Amoãny sorriu devagar, como quem abre uma porta antiga, e respondeu:


— Não, minhas netas. Nem sempre foi assim. Ouçam, pois esta é uma história da Radadé, a Mãe Terra.

Ela apontou para a floresta que ainda resistia.


— Antigamente, quando as Retséá, as Florestas, cobriam quase toda a terra, havia equilíbrio. As Atseá, as Pessoas, sabiam viver em harmonia com a Antse, a Natureza. Nós, os Uanieá, indígenas respeitávamos cada ser, grande ou pequeno.


Kayany e Soany sentaram-se mais perto.

— Naquele tempo — continuou Amoãny — os Tiri, os Insetos, tinham seus lugares certos.


O Dú, o Piolho, vivia nos pelos dos animais silvestres.


O Munim, o Grilo, cantava escondido entre as folhas.


A Kõpere, a Muriçoca, repousava nas sombras das matas.


O Xykxyk, o Gafanhoto, saltava livre nas campinas.


A Pyxa, o Bicho-de-pé, dormia na Kitci, a areia.


O Chichã, o Percevejo, habitava troncos antigos.


O Takyra, o Carrapato, vivia nos corpos da Doyé, da Chorecá, do Hazú e de outros Keríá Retsé, os Animais Silvestres.


E a Tunguçu, a Pulga, fazia parte desse mesmo ciclo.


— Então eles não prejudicavam ninguém? — perguntou Soany.

— Não, — respondeu a anciã — porque cada ser tinha sua morada.


A voz de Amoãny ficou mais grave.


— Mas vieram os Caraí, chamados de Peró por outros povos. Derrubaram as florestas para plantar cana e levantar Natiacró, as Cidades. Onde antes havia vida diversa, restaram campos vazios e fumaça.

Kayany apertou a mão da irmã.


— Sem as florestas, os Tiri perderam seus lares — disse Amoãny. — Sem Keríá Retsé, animais silvestres, sem árvores, sem sombra. Então eles caminharam, sem querer, para as Erá, as Casas, para as Bechiéá, as Roças, para os corpos das pessoas e dos Keríerá, os Animais Domésticos.


— Foi aí que eles se tornaram… — murmurou Kayany.


— Tiri Moaîba Atseá — completou Amoãny — os insetos que prejudicam as pessoas.

O vento passou entre as folhas, como se concordasse.


— Lembrem-se, minhas netas — concluiu a anciã — o erro não nasceu nos insetos, mas no desequilíbrio causado pelos humanos. Quando a Antse é ferida, todos sofrem. Até os menores seres mudam seu caminho.


Kayany e Soany olharam para a floresta com novos olhos. Não viam mais apenas árvores, mas casas antigas de muitos povos invisíveis.


E Amoãny, em silêncio, agradeceu à Radadé por ainda restarem histórias para ensinar — e ouvidos dispostos a ouvir.





Autor: Nhenety Kariri-Xocó 





sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

UCHÉ UTTIHUÁ – O TEMPO DAS FRUTAS






Quando o sol começava a dourar as margens do Opará e a Pehó Kayaku, a Lua da Enxurrada, surgia no céu de dezembro, a Aldeia Kariri-Xocó despertava para o Uché Uttihuá, o Tempo das Frutas. Era um tempo antigo, vivido desde antes da chegada dos colonizadores, mas que aprendeu a conviver com as mudanças trazidas pelos séculos de contato.


Naquele amanhecer, Curiãny, mulher forte e de passos firmes, atravessava o caminho de terra com um grande Setuá Uttihu, o balaio de frutas, equilibrado na cabeça. Seu corpo conhecia o peso da fartura e o valor da colheita. No balaio, misturavam-se as Uttihuá Caraí, frutas trazidas pelos brancos — mangas maduras, laranjas perfumadas, uvas doces — com as Uttihuá Uanieá, frutas indígenas colhidas na mata e na várzea.


Curiãny vinha da Pohó Itiúba, a Várzea do Rio da Canoa, onde a terra negra e molhada oferecia abacaxis, goiabas, mamões e jabuticabas. Em seus pensamentos, ela lembrava que aquela terra havia alimentado gerações, muito antes das cidades nascerem às margens do rio.


Perto da aldeia, o cheiro do barro queimado anunciava o trabalho de Soyá, a ceramista. Sentada à sombra, ela alisava com cuidado um Ruño, o pote de barro, moldado com saber herdado dos antigos. O barro vinha do chão, a água do rio, e o fogo dava forma ao que serviria para guardar alimentos, água e histórias.


— Hoje é dia de troca — disse Soyá, ao ver Curiãny se aproximar.


— Dia de fartura — respondeu a mulher do balaio, sorrindo.


O Ruño passou das mãos de Soyá para as de Curiãny, e as frutas seguiram o caminho contrário. Assim era o costume: a cerâmica encontrava as frutas, e o trabalho encontrava o alimento, num equilíbrio que mantinha viva a aldeia.


Perto dali, as jovens Anary e Rayná observavam tudo com olhos atentos. Elas carregavam pequenos cestos e aprendiam, em silêncio, o valor daquele tempo. Anary admirava a força de Curiãny, enquanto Rayná se encantava com os desenhos simples gravados no barro de Soyá.


— É no Uché Uttihuá que o povo se fortalece — disse a mais velha da aldeia, aproximando-se. — É quando as frutas amadurecem e o espírito se prepara para a Matikay Kayaku, a Lua da Festa Ritual do Ouricuri.


As meninas sabiam que, naquele tempo, também chegavam as Uttihuá Retsé, as frutas silvestres: ubáia, maracujá-do-mato, quixaba, gobiraba, gravatá e gavadî. Frutas que não vinham das cidades, mas da mata que ainda resistia.


Às vezes, as frutas também chegavam pelas águas, trazidas das Naticróbeá, as cidades ribeirinhas. Vinham na Ubacródzu, a Canoa dos Portos, em longas viagens onde o povo trocava cerâmica por alimentos, mantendo laços antigos com o rio.


Quando a noite caiu, a aldeia se encheu de vozes, cantos e risos. O Tempo das Frutas não era apenas de comer, mas de lembrar, celebrar e agradecer. Entre balaios, potes de barro e luas que passavam, o povo Kariri-Xocó seguia mantendo vivo o que nunca se perdeu: a relação sagrada entre a terra, o rio e o saber ancestral.

E assim, enquanto as frutas amadureciam, amadurecia também a memória do povo.





Autor: Nhenety Kariri-Xocó 





BATSOMYÁ BOHÉ WODERÁEHÓ, A VIDA CULTURAL E SOCIAL NA RUA






A Vida Cultural e Social na Rua

A antiga Natiá, a Aldeia dos Uanieá Kariri-Xocó, acordava todos os dias com o mesmo sopro da terra, ainda que seus olhos agora vissem mudanças. Onde antes só havia caminhos de barro e casas de palha, surgiram as Erácró, casas de pedra e alvenaria. Vieram também os Hinebakró, postes de luz elétrica, iluminando a noite e alterando o silêncio antigo. Assim, pouco a pouco, a aldeia virou Natierácró, uma cidade.


Mesmo com as transformações, o coração do povo não se afastou de suas raízes. Ao norte da cidade, os anciãos decidiram erguer uma nova Natianie, uma aldeia indígena que guardasse os Kenhéá, os costumes tradicionais, ainda que misturados aos elementos do mundo dos brancos. Ali, o passado e o presente aprenderam a caminhar juntos.


O Tseho, o povo, cresceu. As famílias aumentaram, novas casas surgiram, e foi preciso organizar as Woderáehó, as ruas da aldeia. Essas ruas não eram apenas caminhos: eram lugares de encontro, de troca, de vida cultural e social, onde a Batsomyá, vida cultural pulsava em cada gesto coletivo.

Em uma dessas ruas vivia Samany, ceramista de mãos firmes e olhar atento.


Desde cedo aprendera com as mais velhas a conversar com o barro. Na Ruñohú,  cerâmica ela moldava potes, panelas e figuras que carregavam histórias. Ao seu lado, sempre atentos, estavam os jovens Rayane e Tanauá, aprendizes curiosos, que observavam cada movimento, cada silêncio, cada ensinamento que não precisava de palavra.


Mais adiante, sob a sombra de um juazeiro antigo, trabalhava Akinoã, artesão respeitado. Seu Buruhúá, artesanatos nascia da madeira, da palha e da fibra retirada com cuidado da natureza. Ele ensinava que o artesanato não era só trabalho, mas respeito: à terra, aos espíritos e aos que viriam depois. Rayane e Tanauá também passavam horas ali, aprendendo a ouvir antes de fazer.


Durante o dia e à noite, o povo se reunia nas Okenerá, as portas das casas. Ali se conversava, se ria e se contavam Woroyá, histórias antigas que atravessavam gerações. As Inghéá, crianças da aldeia, enchiam as ruas com suas Benhekié, brincadeiras que misturavam Kaiworaí, cantigas de roda dos brancos, com as Kauanieá, cantigas indígenas que ecoavam como reza e alegria.


Entre uma casa e outra, os Keríerá, animais domésticos caminhavam livres: o Curé, porco; o Igaborou, cavalo; o Cradzó, boi; o Wathõ, bode; a Erintuca, ovelha; o Irerê, pato; e o Sabucá, galo. Eles faziam parte da aldeia tanto quanto as pessoas, cruzando as ruas sem pressa, como se também conhecessem o valor daquele lugar.


As mudanças traziam novos sons e imagens. Passavam pela aldeia a Ibákabaru, a carroça de burro; a Ibaworóbi, bicicleta; o Ibápohdu, automóvel; e a Ibaranú, moto. Eram sinais claros de que o mundo dos brancos estava cada vez mais próximo. Ainda assim, nas Woderáehó, permanecia viva a imagem das pessoas trabalhando, criando, ensinando.


Samany dizia aos aprendizes que o barro guarda memória. Akinoã ensinava que a madeira sente quando é respeitada. Rayane e Tanauá aprendiam que viver na rua da aldeia era mais do que ocupar espaço: era pertencer, cuidar e continuar.


E assim, entre luz elétrica e cantiga antiga, entre carro e carroça, entre cidade e aldeia, o povo Kariri-Xocó seguia vivendo. Porque enquanto houver rua com história, mãos que criam e jovens que aprendem, a Batsomyá Bohé Woderáehó — a vida cultural e social no Rua — jamais deixará de existir.




Autor: Nhenety Kariri-Xocó 




quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

HIETÇÃDE BARETSÉ – NOSSA VIDA NA FLORESTA






Nas Radaá Hechi, as Terras Altas que se afastam da Naticróraí, a cidade de Porto Real do Colégio, estende-se a Retsé, nossa floresta viva. Ali repousa a Natianie, a Aldeia Indígena Tradicional do povo Kariri-Xocó, onde o tempo não corre apressado e cada passo respeita a respiração da Antse, a Natureza.


Foi ali que o velho cacique Nidé sentou-se à sombra de um angico antigo, com o olhar voltado para o Boêdo Dzurió Tasí, o Morro da Lagoa da Enxada, no lado Leste da floresta. Seus cabelos brancos lembravam a névoa que, ao amanhecer, cobre as folhas quando o Ukie, o Sol, desperta a terra, e a Kaiaku, a Lua, se recolhe lentamente rumo ao Opará, o Rio São Francisco, onde se põe ao Oeste.


Ao seu lado estava Nhamuãny, a jovem de olhos atentos e pensamento inquieto. Ela aprendia tanto com os livros da escola quanto com as palavras silenciosas da floresta. Naquele dia, trouxe consigo Mariana, uma moça branca da cidade, sua colega de estudos, curiosa e respeitosa, que caminhava com cuidado, como quem pisa num chão sagrado.


— Aqui tudo escuta, disse Nidé, com voz baixa e firme. — A floresta ouve antes de falar.


Mariana observava, admirada. Via os Keríá Retsé, os animais silvestres, surgirem como ensinamentos vivos: o Ibozoim, sonhim gritava oculto; a Kati, abelha zumbia entre as flores; o Munim, Grilo  marcava o ritmo do chão; enquanto o Nieɲi, cobra deslizava silencioso entre as folhas. Mais adiante, o Klimi, lontra surgia à beira d’água, e o Hamo, bicho deixava suas marcas na terra fofa.


Nhamuãny explicou, com orgulho sereno, que aquela diversidade não era apenas vida — era parentesco. O Tatú, o Jabuti, o Jacaré, o Coelho, o Veado do Mato, todos tinham seu lugar no equilíbrio antigo ensinado pelos Tokenhé, os antepassados.


Os Ieendeá, os pássaros, cruzavam o Aranke, o céu aberto: o Gongá, sabiá cantava como se chamasse lembranças; o Xáj, picapau batia o bico nos troncos; o Tute, pombo e o Xõn, urubu circulavam no alto, guardiões do invisível.

Quando a Kayá, a noite, caiu sobre a floresta, o céu se fez Battiá, coalhado de estrelas. A Kaiaku iluminou os caminhos, e o lamento do Urutau ecoou como uma história antiga sendo recontada.


Mariana sentiu, pela primeira vez, que aprender não estava apenas nos cadernos. Estava ali, na coletividade, no Tseho Bohé, no modo como o povo vivia seus Matkaí, rituais que mantêm a floresta viva porque mantêm viva a memória.


— Nossa vida é aqui, concluiu Nidé. — Enquanto houver respeito, a Retsé continuará falando.


Nhamuãny sorriu. Mariana silenciou. E a floresta, satisfeita, continuconsiderou cada uma delas parte de sua própria história.




Autor: Nhenety Kariri-Xocó