quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

AERÃUBÍ RADÁNUNÚ: O MAPEAMENTO DA TERRITORIALIDADE NA LÍNGUA KARIRI-XOCÓ






1. Introdução


O território indígena ultrapassa a dimensão geográfica e jurídica. Para o povo Kariri-Xocó, a territorialidade está profundamente vinculada à língua, à memória histórica e à relação espiritual com o espaço. O conceito de Aerãubí Radánunú — mapeamento da territorialidade na língua Kariri-Xocó — expressa essa compreensão ampliada, na qual cada palavra constitui um marco geográfico, histórico e cultural.


Este estudo apresenta uma análise descritiva da territorialidade Kariri-Xocó a partir de sua própria nomenclatura tradicional, destacando elementos geográficos, históricos, ambientais e socioculturais, bem como os impactos das transformações ocorridas após a chegada dos colonizadores.


2. Fundamentação Histórica e Identitária


A etimologia do nome Kariri-Xocó revela sua conexão com o território. “Ka” significa cantar; “Ri”, derivado de Rihu, significa lagoa; e “Xocó” refere-se ao pássaro Socó, ave característica das lagoas. Assim, o nome do povo associa-se diretamente ao ambiente lacustre e à prática cultural do canto, evidenciando a integração entre identidade e natureza.


Na Woroy (história tradicional), registra-se que os Waréá (padres) retiraram os indígenas da Natianie (aldeia tradicional), estabelecendo a Naticróraí, povoado que posteriormente se consolidou como cidade. Esse deslocamento marca um momento significativo de reorganização espacial e social, mas não rompeu os vínculos simbólicos com a Radá Nhenetí (terra tradicional).


3. Delimitação Territorial Tradicional


A Radá Nhenetí localiza-se às margens do Rio São Francisco, denominado na língua Kariri-Xocó como Opará.


Os limites tradicionais são descritos da seguinte forma:


Oeste: onde o Ukie Dzunú (sol) se põe;

Norte: Siririté da Maraba (serra);


Leste: Boêdo da Dzurió Tasí (morro da Lagoa da Enxada);


Sul: a cidade de Porto Real do Colégio.

Dentro da Terra Indígena encontram-se importantes referências ambientais e culturais:


Dzurió Curéá (Lagoa dos Porcos);

Dzurióchi (Lagoa Comprida);

Pohó Itiúba (Várzea da Canoa);

Retsé Matkaí (Floresta do Ouricuri);

Natiá (Aldeia).


Esses espaços constituem marcos ecológicos e simbólicos do território.


4. Transformações Territoriais e Impactos


Parte do território encontra-se homologada, enquanto outra parte ainda aguarda regularização. Nas áreas ocupadas externamente surgiram as Wanheréá Caraí (fazendas dos brancos), as Erácró (casas de alvenaria) e povoados como Tibirí, Tapera e Girau.


Com a expansão não indígena, a Antse (natureza) sofreu modificações significativas. A construção de hidrelétricas — denominadas Maecrótçawoá, “cerca de pedra que corta o rio” — alterou o fluxo do Opará.


Destaca-se também a construção da ponte rodoviária sobre o Rio São Francisco, na década de 1970, elemento que intensificou a integração viária regional.


Essas intervenções representaram mudanças estruturais no ambiente físico e no modo de vida tradicional, impactando práticas culturais, econômicas e espirituais.


5. Estrutura Sociocultural Atual


Na Aldeia encontram-se instituições que articulam tradição e contemporaneidade:


Erantoá (igreja, casa dos santos);

Erátekié Uanie (escola indígena);

Iabaerá (conjuntos residenciais);

Hinebakró (poste de luz elétrica);

Bypeddá (campo de jogar).


A fauna e a biodiversidade da mata Retsé permanecem componentes essenciais da territorialidade, incluindo espécies como cobra (Nieɲi), lontra (Klimi), gato-do-mato (Poió Retsé) e tamanduá (Hazú), reforçando a relação entre língua, ecologia e cosmovisão.


6. A Territorialidade como Linguagem


O Opará ocupa papel central na Samy (cultura) Kariri-Xocó. Ele não é apenas recurso natural, mas eixo estruturante da identidade coletiva.


O conceito de Aerãubí Radánunú demonstra que o território é também um sistema linguístico. A língua organiza o espaço, nomeia a natureza e consolida a memória histórica. Assim, a preservação linguística configura-se como instrumento de resistência territorial.


7. Conclusão


O mapeamento da territorialidade Kariri-Xocó evidencia que território não se restringe à demarcação física ou jurídica. Ele é constituído por narrativas, significados e expressões linguísticas que perpetuam a identidade coletiva.


A língua Kariri-Xocó funciona como cartografia cultural, na qual cada termo representa um marco espacial e histórico. Manter viva essa língua é assegurar a continuidade da Radá Nhenetí e da Samy do povo.


O Aerãubí Radánunú, portanto, não é apenas um conceito, mas um método de preservação identitária e territorial.




Referências Bibliográficas


BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília, DF: Senado Federal, 1988.


FUNAI – Fundação Nacional dos Povos Indígenas. Povos indígenas no Brasil: Terras indígenas e processos de demarcação. Brasília: FUNAI, 2023.


RIBEIRO, Darcy. O povo brasileiro: a formação e o sentido do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.


SANTOS, Milton. A natureza do espaço: técnica e tempo, razão e emoção. São Paulo: Hucitec, 1996.





Autores: Nhenety Kariri-Xocó, Formador, Orientadoras, Professores da Escola Estadual Indígena Pajé Francisco Queiroz Suíra. 




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