O Ibámeraipu, o trem, chegou a Porto Real do Colégio como quem anuncia um novo tempo. Era meados do século XX, e o apito da Maria-Fumaça ecoou pelas margens do Opará, chamando o povo para ver, ouvir e sentir a Eraibáme, nascer. A estação foi inaugurada em dia de festa: bandeirolas ao vento, autoridades de paletó engomado, crianças correndo, mulheres de vestido simples e olhos curiosos. O chão parecia tremer de alegria.
Pela Iuwó Merata, a estrada de ferro, vinham diferentes Ibámeraipu. Havia o trem Maria-Fumaça, cuspindo fumaça preta como nuvem de chuva; o Ibámeraipu Itohiquiete, trazendo passageiros, histórias e novidades; e o Ibámeraipu Damy, pesado, lento, carregado de riqueza bruta e suor humano. Cada chegada era um acontecimento, cada parada, um pequeno ritual.
Com o trem, a região despertou. O comércio cresceu, turistas começaram a aparecer e a Eraibáme virou lugar de trabalho e encontro. Entre os homens que ali labutavam estavam os Anramy, os estivadores — muitos deles indígenas, filhos da terra, acostumados ao peso da vida e à força dos braços. Eles conheciam o ritmo do trem, o tempo da carga e o silêncio que precede o esforço.
Do Ibámeraipu Damy desciam sacas e mais sacas: Uanhí, grãos e cereais; Masiche, o milho dourado; Cromera, minério de ferro pesado como destino; Sekiraê, o açúcar branco que adoçava terras distantes. Os Anramy carregavam tudo nos ombros, passo firme, suor escorrendo, levando as sacas até o Carnaúba, o armazém que guardava o coração econômico daquele tempo.
Naqueles dias, o trem cortava a cidade de Porto Real do Colégio como um rio de ferro. Depois, seguia até as margens do Opará, onde parava e esperava. Ali, sobre a Eyemé Merata, a balsa de ferro, atravessava o rio rumo a Propriá, em Sergipe. O trem parecia aprender a navegar, respeitando as águas antigas do Velho Chico.
O trabalho na estação marcou gerações. Ficou gravado nas mãos calejadas, nas costas curvadas, nas histórias contadas ao entardecer. Mas o tempo, como o próprio Ibámeraipu, não para. Em dezembro de 1972, com a inauguração da Uocró Idabacrú, a ponte sobre o rio, o trem mudou sua rota. A Eraibáme silenciou aos poucos.
Ainda assim, para quem viveu aquele tempo, nada se perdeu. A estação continua viva na memória do povo, no eco distante do apito e na lembrança dos Anramy Eraibáme — os estivadores que sustentaram, com força e dignidade, a passagem do trem pela história de Porto Real do Colégio.
Autor: Nhenety Kariri-Xocó

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