quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

IGABOROU DAMY, O CAVALO DE CARGA






No tempo em que o mundo andava devagar, quando ainda não existiam os Ibápohduá, os automóveis barulhentos, nem o Ibámeraipu, o trem de ferro cortando distâncias, os Iuwóá Radda — caminhos de terra — eram as veias abertas do Opará. Por elas passava a vida, marcada pelo som ritmado dos cascos e pelo ranger das cargas bem amarradas.


Era o tempo dos Igaborouá Damy, os cavalos de carga. Animais fortes, pacientes, que conheciam o caminho melhor que muito cristão. Sobre seus lombos seguia o sustento, a esperança e o trabalho de muitos povos. Onde hoje corre pressa, antes caminhava o tropeirismo — o vai-e-vem silencioso das mercadorias conduzidas por tropas de homens e cavalos.


Os Kariri chamavam aquele movimento de Bohé Anraná Igaborou, o grupo de homens de cavalos. Eles partiam em Itohiquiete, longas viagens, levando Damyá, as cargas, rumo às Naticróraí, as cidades espalhadas pelo interior do Brasil. O sol queimava a pele, a poeira grudava no suor, mas ninguém reclamava: o caminho era duro, porém conhecido.


Na Aldeia Kariri-Xocó, os mais velhos ainda contam, com voz mansa e olhos longe, sobre o indígena Gravié, tropeiro de respeito e curador. Dizem que ele falava pouco, mas seus cavalos entendiam tudo. Depois dele, seu sobrinho Profírio seguiu o mesmo rumo, já no começo do século XX, mantendo viva a lida antiga de transportar o mundo no lombo dos animais.


Até perto de 1970, não havia estrada de asfalto naquela região. O que existia era a estrada antiga, de barro vermelho e pedra solta, onde o transporte seguia no passo do cavalo. Cada viagem era um risco, cada chegada, uma vitória.


Às quintas-feiras, na Eisdembé, a Feira da Rua de Porto Real do Colégio, a cena se repetia como um ritual. Os matutos do interior chegavam cansados e famintos. Jantavam na casa de Indaiá, indígena acolhedora, enquanto na frente da casa se formava um mar de cavalos amarrados, respirando fundo após a jornada. Na sexta-feira cedo, as mercadorias seguiam para o centro da cidade, onde viravam troca, sustento e história.


Hoje, o asfalto cobre os antigos caminhos, e os cavalos quase não passam mais. Mas quem escuta com atenção ainda ouve, no fundo da terra, o som dos cascos dos Igaborouá Damy, lembrando que antes da pressa existia o passo, antes do motor existia o fôlego, e antes do esquecimento existia a memória.


E ela continua viva, contada de boca em boca, como deve ser.




Autor: Nhenety Kariri-Xocó 




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