Quando o sol ainda se espreguiçava por cima do Opará, o rangido da Ibákabaru, carroça de Cavalo, já cortava o silêncio da manhã. Era um som conhecido, quase um chamado. Madeira cansada, ferro antigo e o passo firme do cavalo anunciavam que o Namytse Ibákabaru, serviço de carroça estava em movimento.
Desde o início do Brasil República, entre os Kariri-Xocó, o Ibákeríá — transporte de animais — seguia sendo mais que trabalho: era modo de viver. A carroça carregava Damy, mas também levava histórias, palavras trocadas na estrada, promessas de sustento e dignidade. Cada Natéibáruá, carroceiro conhecia o caminho pelo cheiro da terra e pela inclinação do animal.
No tempo em que a Iuwó Merata, estrada de ferro começou a rasgar Porto Real do Colégio, em meados do século XX, a cidade pulsava diferente. O apito distante do trem misturava-se ao bater dos cascos, e o Namytse Ibákabaru, serviço de carroça cresceu como cresce rio em tempo de cheia. Onde havia obra, havia carroça; onde havia peso, havia braço e cavalo dispostos.
Lá embaixo, no Cródzu Radamy, Porto de Baixo o movimento nunca dormia. As Ubácruté, canoas de panos balançavam presas à margem, as Eyemérata, balsa deslizavam lentas, e hoje, onde passam as Ubadzúpui, lanchas antes o barro guardava marcas profundas de rodas e pegadas. A carga ia e vinha, e a carroça era o elo entre a água e a terra.
A prefeitura chamava os carroceiros para o serviço pesado: obra, limpeza, Kenké Dimy. O lixo da cidade, que ninguém queria ver, seguia na Ibákabaru, conduzido com respeito. Era trabalho duro, mas honesto. Trabalho que ensinava que tudo tem lugar e destino.
Com o tempo, chegaram os Ibápohduá, os automóveis que vieram velozes, cheios de barulho e fumaça, e aos poucos empurraram a carroça para a beira da estrada da memória. O serviço diminuiu na cidade, e até na Aldeia Kariri-Xocó — que teve o maior comboio nos anos 1980 — o silêncio começou a ocupar o espaço do rangido.
Mas quem viveu aquele tempo sabe: enquanto houver lembrança, a Ibákabaru continua andando. Em cada história contada, em cada palavra antiga preservada, o cavalo ainda puxa, a roda ainda gira, e o Namytse não se perde.
Porque há serviços que não acabam.
Apenas viram memória.
Autor: Nhenety Kariri-Xocó

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