O Radda, o Mundo, sempre esteve aberto como um grande corpo vivo. Nele se estendem os Iuwóá, os Caminhos, traçados não apenas pela terra, mas pelo sopro do tempo e pela passagem das Atseá, as Pessoas. Caminhos que atravessam as Retséá, as Florestas profundas, onde os Kerítséá, Animais Silvestres, conhecem cada sombra e cada cheiro. Caminhos que acompanham as Dzuá, as Águas correntes, por onde os Wãmyá, Peixes, seguem seus percursos antigos. Caminhos que se erguem até os Arankeá, os Céus, onde os Ieendeá, Pássaros, riscam rotas invisíveis com suas asas.
Houve um Uché, um Tempo antigo, em que o Mundo ainda não conhecia os inventos do homem. Não existiam Ibá, Carros de ferro e fumaça. Não havia Ubá, Canoas talhadas para vencer as águas, nem Yeemerãkié, Aviões que cortam os céus. Nesse tempo primeiro, o corpo era o próprio transporte, e as Atseá caminhavam com os Biá, os Pés, sentindo a pele da terra, o calor do chão e a aspereza das pedras.
O Itohiquiete, o Viajante, aprendia desde cedo que caminhar era mais que ir — era escutar. Escutar o vento que falava com as folhas, o silêncio das matas, o chamado distante dos rios. Pela floresta ele seguia, subindo Siririté, as Serras, com o coração firme e as pernas confiantes. Cada passo era uma conversa com os ancestrais, cada trilha guardava histórias deixadas por quem passara antes.
O viajante caminhava para Eriwí, Visitar os Etçamyá, Parentes, nas Natiá, Aldeias espalhadas pelo território vivo. Assim foi por milênios, de geração em geração. As Biá, Pernas humanas, levavam sonhos, notícias, cantos e saudades. Levavam também o saber de que todo lugar alcançado tinha um motivo, e todo motivo nascia do espírito.
Os caminhos nunca foram apenas linhas na terra. Alguns conduzem às Bechiéá, as Roças, onde o alimento brota do cuidado. Outros levam às Sitoá, as Caçadas, onde o respeito ao animal é lei antiga. Há os que seguem para as Mydzéá, as Pescarias, onde a água ensina paciência. E há ainda os caminhos invisíveis, aqueles que conduzem ao entendimento e à memória.
Tudo depende do sentido da busca. Pois caminhar, no Radda, o mundo nunca foi apenas chegar a um Undéá, um Lugar. Caminhar sempre foi descobrir quem somos enquanto seguimos adiante.
Autor: Nhenety Kariri-Xocó

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