segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

PITÉ UANIEÁ PITEIATEKIÉ, REDE ÍNDIOS ON-LINE






Naquele tempo em que o mundo ainda caminhava mais devagar nas aldeias, quando o canto do pássaro era o aviso da manhã e a palavra corria de boca em boca, algo novo começou a se anunciar no horizonte. Não veio pelo vento nem pelo rio, mas por fios finos, quase invisíveis, que atravessavam cidades, serras e sertões.


Foi assim que os povos Kariri-Xocó, Xucuru-Kariri, Pankararú, Tumbalalá, Kiriri, Tupinambá e Pataxó-Hãhãhãe decidiram se encontrar — não num terreiro comum, mas num espaço ainda desconhecido. Um portal. Uma porta aberta para o diálogo entre etnias, saberes e sonhos. Era o ano de 2004, e a aliança nascia com o propósito de fortalecer culturas, trocar experiências e afirmar cidadania em tempos de mudança.


A semente dessa ideia foi plantada pela ONG Thydêwá, que deu nome ao sonho: Índios On-Line. Com apoio e parcerias que vinham de longe — ministérios, programas culturais e patrocinadores — o portal cresceu e foi reconhecido como Ponto de Cultura Viva, pulsando saber ancestral em linguagem digital.


Quando a Internet chegou às aldeias, não foi apenas uma máquina que entrou. Entrou o espanto, a curiosidade, o medo e a coragem. Entrou a possibilidade de falar com o mundo sem sair da terra. Entrou o desafio de manter viva a língua, agora também escrita em telas.


Anos depois, os Kariri-Xocó batizaram aquele caminho novo com palavras próprias, nascidas da língua e do pensamento ancestral: Pité Uanieá Piteiatekié.


A Rede Índios On-Line.

Pité era rede.

Iabae, juntar.

Subatekié, conhecimento.

Crametekié, a caixa do saber — o computador.


Assim, a Internet ganhou alma indígena: a rede de juntar conhecimento.


Hoje, muita coisa mudou. O que antes era novidade virou costume. A conexão cabe no bolso, ilumina a sala, fala pela televisão. Mas aquele primeiro momento ficou marcado na memória das aldeias como um tempo de travessia — quando o saber antigo encontrou o novo caminho e decidiu caminhar junto, sem se perder de si.

Porque rede não é só fio.


Rede é gente.

Rede é palavra que circula.

Rede é cultura viva que não se cala.





Autor: Nhenety Kariri-Xocó





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