Houve um tempo antigo, um Uché em que o mundo caminhava devagar, no mesmo ritmo do sol e dos passos do boi. Naquele tempo, os Caraí, os homens brancos, chamaram o grande rio de Rio dos Currais.
Mas os Kariris, atentos ao sentido das coisas, logo compreenderam de outro modo e passaram a chamá-lo de Iwo Dedíá, o Rio dos Currais, porque foi exatamente nesse tempo que o Cradzó, o boi, chegou às margens do Opará.
Era um tempo de mudança.
Os indígenas passaram a viver na Natiwaré, a Aldeia dos Padres, onde os missionários ergueram o Erátekié, o Colégio dos Jesuítas. Ali, entre rezas, sinos e ensinamentos, tentavam introduzir a cultura cristã nos costumes trazidos pelos Peró, os portugueses. Mas a terra, silenciosa e paciente, continuava ensinando do seu próprio jeito.
Com a construção das Erácró, as Casas de Pedra, chegou também um novo modo de caminhar sobre o chão. Os colonizadores trouxeram um transporte pesado, de madeira rangente e passos lentos. Os Kariris deram-lhe nome, como sempre fizeram com tudo o que passa a existir: Ibádzó.
Ibá, o carro.
Cradzó, o boi.
Assim nasceu o nome que atravessaria gerações.
O Ibádzó tornou-se parte da vida cotidiana. Era ele quem levava o fruto do trabalho da terra: o Masiche, o milho dourado; o Geɲe, o feijão miúdo; os Uanhí, grãos e cereais; e o Abati-uaupé, o arroz que alimentava o corpo e a esperança. Rangendo, lento, paciente, o carro de boi cruzava caminhos de barro, puxando não apenas colheitas, mas histórias.
O tempo seguiu seu curso, como o rio. Séculos passaram. O Ibádzó resistiu ao esquecimento e chegou aos tempos mais próximos, aqueles que ainda moram na lembrança dos mais velhos. Muitos recordam Teipó, o indígena cuidador do carro de boi da senhora Maria Matildes.
Dizem que até o ano de 1944 ele ainda conduzia o Ibádzó, com mãos firmes e olhos atentos, como quem guarda um saber antigo.
Hoje, a Aldeia já não possui mais um Ibádzó. O silêncio tomou o lugar do rangido das rodas. Mas, por todo o Opará e pelo Nordeste do Brasil, a tradição do Carro de Boi ainda respira. Vive nas festas, nos caminhos de terra, na memória dos povos e no coração daqueles que sabem que certas coisas não morrem — apenas caminham mais devagar.
E assim, no compasso do boi e da madeira, o tempo continua passando.
Autor: Nhenety Kariri-Xocó

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