Nas margens serenas do rio Opara, onde o vento dança entre as folhas e os pássaros anunciam o nascer do dia com seus cantos antigos, repousa uma aldeia do povo Kariri-Xocó. Ali, entre cantos de toré e o eco das histórias dos mais velhos, vive uma menina de olhos brilhantes como a estrela d’alva. Seu nome é Maená.
Maená não era uma criança qualquer. Neta do sábio ancião Nhenety, ela trazia nos pés descalços o ritmo da terra e no coração, a força de uma tradição ancestral. Seu nome não fora escolhido por acaso – na língua dos Kariri, Maená significa cerca de proteção, aquela que guarda a aldeia com a firmeza de troncos unidos, como os antigos faziam com madeira, formando um círculo sagrado contra os perigos: feras da mata, povos inimigos, e até os ventos maus.
Os Tupis chamavam essa proteção de caiçara, mas para os Kariris, Maená era mais que uma cerca. Era símbolo. Era espírito. Era mãe e muralha. No toré, os cantos sagrados do povo, os corpos formam círculos como os troncos do Maená. No centro, as crianças, promessas do amanhã. Ao redor delas, os guerreiros, fortes e firmes como os troncos velhos. E por fora, tecendo o elo invisível da segurança, estão as mulheres. Unidas em canto e passo, elas são o Maená vivo da aldeia – o escudo de amor e resistência.
Maená crescia ouvindo os cantos do avô, sentada à sombra do jenipapeiro. Ele dizia:
— Tudo tem razão, minha netinha. Nada entre nós é por acaso. Cada canto, cada roda, cada nome… é ensinamento que veio dos nossos primeiros, passados de boca em boca, de coração em coração.
E assim ela aprendeu. Aprendeu que sua existência era um elo sagrado entre o passado e o futuro. Que seu nome carregava a força dos ancestrais. E que um dia, como as mulheres do toré, ela também seria o círculo mais externo — a que protege, a que ampara, a que guarda.
Porque Maená não era apenas uma menina da aldeia.
Ela era a própria Fortaleza do seu povo.
Autor: Nhenety KX

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