quinta-feira, 15 de maio de 2025

PIMOCLÉCLÉ, A Formiga Oncinha

 






Há muito tempo, quando o Vale do São Francisco ainda era coberto por densas florestas, a vida florescia em abundância. A Avó Natureza e a Mãe Terra ofereciam generosamente caça, pesca e abrigo aos povos que ali viviam. Era o tempo dos antigos, em que os Kariri-Xocó viviam em harmonia com o mundo ao redor.


Entre as muitas maravilhas desse tempo, havia uma pequena criatura cercada de mistério e respeito: Pimocléclé, a Formiga Oncinha. Diziam os mais velhos que, quando os caçadores saíam em busca de alimento e nada encontravam, bastava invocar a formiguinha com um cântico de súplica:


“Oncinha... Oncinha... Der a todos nós uma carninha...”


E como por encanto, Pimocléclé aparecia, com seu ferrão tão pequeno quanto poderoso. Ela seguia silenciosa pela mata até encontrar um veado. Com um só ferroar, o animal tombava. Então os caçadores seguiam os passos da formiga e, ao encontrarem a caça abatida, agradeciam à floresta. A carne era repartida igualmente entre todos da aldeia. Era um tempo de partilha e respeito.


Mas os tempos mudaram. Os senhores de engenho chegaram com suas serras e correntes. As matas caíram. O canto dos pássaros calou. A fartura virou escassez. O Vale foi tomado por pastagens, e o rio passou a ser chamado Rio dos Currais. O povo Kariri-Xocó passou fome.


Em desespero, recorreram novamente à velha aliada:


“Oncinha... Oncinha... Der a todos nós uma carne para comer com farinha...”


Pimocléclé ainda escutava. Mas, sem as florestas e os animais silvestres, restava-lhe apenas um novo caminho. E assim, começou a ferroar bois, carneiros, cabras e porcos — os animais dos fazendeiros. Um a um caíam, como antes caíam os veados. E os fazendeiros, sem entender o mistério, chamavam os indígenas para aproveitarem a carne.


Aos poucos, a fome deu lugar à esperança. E os próprios donos da terra passaram a ver com outros olhos o valor de manter a floresta viva. Com o tempo, os homens deixaram de destruir, e os animais selvagens voltaram. O ciclo da vida se refez.


E assim, conta-se até hoje no Vale, que quando o homem respeita os caminhos da floresta, os bichos o deixam viver em paz. Mas se esquecer, talvez ainda escute no vento um sussurro antigo:


“Oncinha... Oncinha... Der a todos nós uma carne para comer com farinha...”




Autor: Nhenety KX 


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