Muito antes das grandes barragens cortarem o curso do Velho Chico, quando o rio corria livre entre matas, aldeias e povoados, havia tantos peixes nas águas que o próprio São Francisco parecia um espelho vivo das estrelas. Eram tempos de fartura e histórias. Cada pescador tinha uma prosa, cada anzol era uma promessa de aventura.
Foi nessa época, há muito tempo atrás, que surgiu a história de um peixe assombroso, daqueles que só se ouvem em cochichos ao redor do fogo. Um peixe imenso, desconhecido, que atacava quem ousasse se banhar ou colher água no rio. Os ribeirinhos do Baixo São Francisco tremiam só de ouvir falar dele.
Conta-se que, numa manhã clara, uma mulher da nossa tribo Kariri-Xocó desceu sozinha até as margens para encher seu poti — o vaso de barro moldado com arte e sabedoria pelas mulheres da aldeia. Ao se abaixar para colher a água, algo súbito e brutal emergiu das águas: um peixe tão grande que sua sombra cobria a beira do rio. Num movimento veloz, ele abocanhou o poti, como se fosse comida.
A mulher gritou tão alto que a aldeia inteira estremeceu. Desceram todos em alvoroço, temendo o pior. Mas ali estava ela, viva, trêmula e pálida, dizendo:
— O peixe engoliu o poti, pensando que era eu! Por pouco não me levou junto!
Desde esse dia, o medo tomou conta da aldeia. Ninguém mais queria se aproximar da água. O peixe virou lenda antes mesmo de sumir. Dias se passaram, talvez semanas. Até que, em outra parte do rio, pescadores de uma cidade distante avistaram algo estranho boiando. Era um peixe enorme, morto, levado pela correnteza.
Arrastaram-no até a margem com esforço e espanto. Suas escamas eram do tamanho de pratos de barro, e sua barriga, tão estufada quanto uma cuia de mandioca. Decidiram abri-la, e o que encontraram ali dentro causou arrepio: um poti de barro, inteiro, do mesmo tipo usado pelas mulheres Kariri-Xocó.
Um velho pescador, coçando a barba branca, disse: — Esse bicho morreu de fome...
E explicou: ao engolir o poti com a abertura voltada para a frente, o peixe prendeu a boca. Cada vez que comia, a comida se acumulava dentro do vaso. Ele engolia, mas não se alimentava. Assim, definhou aos poucos, sem conseguir se livrar do pote que o condenara.
Desde então, o monstro nunca mais foi visto. A história correu pelas margens do São Francisco, ganhando vida nas bocas dos antigos. Chamaram-no de Pirapoti — pirá, que em nossa língua significa peixe, e poti, o vaso sagrado das mulheres da tribo.
Hoje, o rio já não é o mesmo. As barragens o feriram, as águas diminuíram. Mas quem escuta com atenção pode ouvir, nas brisas e nos redemoinhos, o sussurro da história do peixe que engoliu o pote e morreu de tanto querer comer.
E assim se conta, para que não se esqueça.
Autor: Nhenety Kariri-Xocó

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