sábado, 17 de maio de 2025

SAMBYYÉ, Verdades Ancestrais

 






Como Contador de Histórias da tribo Kariri-Xocó, aprendi desde cedo que o tempo dos antigos não é passado morto, mas presença viva. As histórias que recebi dos mais velhos não são invenções, nem fantasias. São caminhos. São verdades ancestrais.


Certa vez, enquanto o vento dançava entre as folhas do jenipapeiro, fui procurado por uma jovem estudante de história da UFAL — Universidade Federal de Alagoas. Ela veio fazer um trabalho acadêmico sobre “mitos e lendas” do nosso povo.


Sentou-se à minha frente com um caderno na mão e olhos cheios de curiosidade. Disse que queria registrar os “mitos e lendas” dos Kariri-Xocó. Olhei para ela com calma e disse:


— Aqui, não há mitos nem lendas.


Ela arregalou os olhos, surpresa, quase em choque e ela me disse: Nhenety aqui na Aldeia não tem mitos e lendas? Expliquei, com voz serena como os rios que nos cercam:


— Entre nós, o que vocês chamam de mito é verdade. O que chamam de lenda, é realidade que caminha conosco desde os tempos imemoriais. Não é mentira, não é invenção. É memória, é ensinamento.


Falei da Mãe D’Água, guardiã dos rios e dos peixes. Disse que ouvimos os recados da natureza nos cantos dos pássaros, nas asas dos insetos, nos sinais do céu. Quando as formigas abandonam seu formigueiro, sabemos que a chuva virá. Quando o joão-de-barro constrói sua casinha com a porta virada para o norte, é sinal de um inverno chuvoso.


— O índio acredita em sua cultura — continuei — porque é uma verdade pura. Se deixarmos de acreditar em nossa espiritualidade, tudo se perde: o caminho, o equilíbrio, a conexão com o Ser Superior e com a nossa Mãe Terra.


A estudante me ouviu em silêncio. Não sei o que escreveu em seu caderno, mas vi em seus olhos o início de uma compreensão. Naquele instante, talvez ela tenha sentido — como muitos já sentiram — que as chamadas “lendas” de um povo não são histórias para entreter, mas chaves que abrem portas invisíveis. São raízes profundas, cravadas na terra e no tempo.


E assim, contei a ela mais do que histórias. Contei a verdade do nosso povo. A verdade que vive, canta e resiste.


Sambyyé. Verdades que não morrem.




Autor: Nhenety KX 



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