Um Conto Sobre Computador e Internet
O sol começava a nascer sobre as margens do rio São Francisco, pintando o céu com tons de fogo e esperança. Era manhã na aldeia Kariri-Xocó, e o silêncio era quebrado apenas pelos cantos das aves e o sussurro das águas correndo. Naquela aldeia ancestral, onde o tempo parecia andar em outro ritmo, um novo espírito começava a soprar — invisível, veloz e cheio de possibilidades. Era o espírito da internet.
Em 2004, um objeto estranho chegou à aldeia. Vinha cercado de fios, telas e promessas. Para muitos, era apenas uma máquina. Para Nhenety, era mais do que isso. Com o apoio do amigo branco Sebastian Gerlic, presidente da ONG Thydewa, o aparelho foi instalado numa pequena sala de barro e palha. E ali, entre saberes antigos e novos, nascia uma revolução silenciosa.
Nhenety foi um dos primeiros a tocar aquele artefato. Seus dedos, acostumados com o arco de madeira e o trabalho da terra, agora deslizavam sobre o teclado e o mouse. Em pouco tempo, aprendeu a navegar pelas águas virtuais da internet como quem navega pelo Velho Chico. Criou projetos de subsistência, contou histórias de seu povo e buscou caminhos de fortalecimento para sua comunidade.
Dois anos depois, sentado sob a sombra de um umbuzeiro, Sebastian lhe perguntou:
— E aí, meu amigo Nhenety Kariri-Xocó, o que achou do computador com internet depois de todo esse tempo?
Nhenety sorriu, olhou o rio e respondeu com a serenidade de quem escuta as vozes dos antigos:
— Amigo Sebastian, o computador com internet me parece muito com o arco e flecha que usamos desde os tempos dos nossos ancestrais. Com o nosso arco, que chamamos seredzé, caçamos, pescamos e protegemos nosso povo. Já com esse aparelho novo, eu o chamo Seredsã, o Arco Digital.
Fez uma pausa e continuou:
— Com esse Seredsã, caçamos de outra forma. Navegamos pelas secretarias, pelos ministérios, pelas instâncias de governo. Quando escrevemos um projeto para criação de galinha, de peixe ou de plantação, é como preparar a flecha. E quando clicamos com o mouse, lançamos essa flecha digital rumo ao mundo. Quando o projeto se realiza na aldeia, celebramos como numa grande caçada bem-sucedida.
Os olhos de Sebastian brilhavam. Era mais do que tecnologia, era cultura viva se renovando.
— Mas — concluiu Nhenety, com firmeza — nunca abandonaremos nosso arco de madeira. Ele é parte do nosso espírito, do nosso chão, da nossa história. O Seredsã chegou, mas o seredzé permanece. Um é flecha de futuro. O outro, raiz do passado.
E assim, entre o tradicional e o digital, Nhenety caminhava com dois arcos nas mãos — um de madeira, outro de luz. E com ambos, seguia caçando dignidade para seu povo.
Autor: Nhenety KX

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