Nas margens sagradas do Opará, o rio que corta o coração da mata, vivia o velho Muruibá, um sábio indígena dos Kariri-Xocó. Desde menino, aprendeu com os mais velhos a esculpir sua própria canoa — a ubá — feita do tronco da muiraubá, árvore nobre e silenciosa, que só se deixava tombar com cânticos e permissão. Era com sua ubá que pescava, viajava pelas aldeias, visitava parentes e fazia as caçadas na estação certa.
Para os filhos do Opará, a ubá não era apenas um meio de transporte. Era uma extensão do corpo, um elo com o rio e com os encantados que moravam nas profundezas das águas.
Certa manhã, chegou do porto de Penedo um burburinho: Pedro, o pescador, homem moreno de fala solta, voltara de viagem com uma novidade.
— Vi uma canoa feita de ferro! — disse com os olhos arregalados.
Muruibá soltou um sorriso curto.
— Canoa de ferro? Isso não existe, Pedro. Canoa que é canoa nasce da mata.
— Pois essa navega, e desce o rio ligeira! É grande, reluzente e ronca como bicho estranho — insistiu Pedro, animado.
Dias depois, a novidade desceu o Opará. Um grupo de homens brancos pilotava a embarcação. Alta, brilhante, com um casco frio e barulhento, a canoa de ferro atracou no porto de Porto Real do Colégio, trazendo o espanto e a curiosidade para muitos.
Muruibá foi até a beira do rio, observou com atenção, tocou o ferro.
— Isso não é ubá, Pedro. Ubá é feita com reza, com corte certo, com tempo. Isso aí é outra coisa.
— Mas se anda sobre as águas, não é canoa? — retrucou Pedro.
— Não. É Ubatã. Canoa dos brancos. A nossa canoa é de pau, chamada muiraubá. Essa daí não tem alma.
Os mais jovens se aproximaram, perguntaram, queriam subir, experimentar. Mas Muruibá, com voz calma, disse:
— O ferro não canta com o rio. O ferro corta. A ubá dança.
E então, com um gesto lento, entrou na sua canoa de madeira. Lançou-se às águas como quem reencontra o ventre da mãe. A ubá desceu o rio silenciosa, deixando atrás de si apenas o som do remo e do respeito.
Autor: Nhenety KX

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