sábado, 24 de maio de 2025

UIDAMÍ, Somos O Que Comemos








O sol já começava a se esconder atrás das matas quando o velho Aruã, com os cabelos brancos como a espuma das corredeiras, chamou o pequeno Cauê para sentar-se à beira do rio Opará. As águas do São Francisco brilhavam douradas, calmas, como se ouvissem também o que o ancião iria dizer.


— Venha, meu neto. Hoje vou te contar um segredo que os antigos sempre souberam — disse Aruã, com a voz pausada, como quem ouve o tempo.


Cauê se aproximou curioso, sentindo o cheiro doce das folhas e o frescor da brisa vinda do rio.


— Opará… — começou Aruã, olhando as águas — …não é só um rio. Ele é nosso sangue. Cada gota que bebemos, cada peixe que comemos, cada planta que colhemos… tudo vem dele. Tudo é ele. Por isso, dizemos: Uidamí.


O menino franziu a testa.


— Uidamí?


O velho sorriu e explicou:


— Sim, meu pequeno… significa "Somos o que comemos". E comemos do rio, bebemos do rio, vivemos do rio. Quando comemos o peixe que nadou nestas águas, ele se transforma em nossa carne. Quando plantamos milho, feijão e mandioca na terra irrigada pelo Opará, o alimento nasce forte e nos dá força. Até os bichos que caçamos vivem nas florestas que ele mantém verdes e úmidas.


Aruã fez uma pausa e apanhou um punhado de areia molhada.


— Esta terra, úmida pela água do rio, é mãe do nosso sustento. E nós, assim como as árvores e os animais, somos parte dela. Por isso, Uidamí. O rio está em nós e nós somos o rio.


O menino ficou em silêncio, olhando o rio que parecia respirar, vivo, pulsante.


— Antes de nós, nossos avós e os avós deles já diziam isso. Que o Opará é um ser vivo, com alma, com força, com memória. Quando alguém pesca, colhe ou bebe de sua água, não está tirando… está se unindo a ele. Por isso, respeitamos o rio. Cantamos para ele, agradecemos, fazemos festa quando as águas enchem.


O menino sorriu, lembrando-se das danças e dos maracás soando, quando celebravam as chuvas que faziam as matas renascer.


— E o rio… ele ouve, vovô? — perguntou Cauê, curioso.


O velho assentiu, fitando a correnteza.


— Opará ouve tudo. Ele já ouviu nossas alegrias e nossas dores. Viu quando nossos antigos chegaram aqui, viu quando lutamos para manter nossa terra, viu nossos rituais e viu você nascer.


Aruã então colocou a mão no ombro do neto e concluiu:


— Lembre-se sempre, meu pequeno: o meio que nos cerca molda quem somos. Somos feitos do rio, da mata, da chuva e do vento. Não existe separação entre nós e a natureza. Por isso, cuide sempre do Opará. Ele é você. Ele é Uidamí.


O menino, agora com o olhar brilhando, inclinou-se e tocou a água fria com as mãos pequenas, como quem cumprimenta um velho amigo.


E o rio, calmo e eterno, seguiu correndo, levando consigo as histórias, os sonhos e a vida dos Kariri-Xocó.




Autor: Nhenety Kariri-Xocó 



Consultado por meio da ferramenta ChatGPT (OpenAI), inteligência artificial como apoio para elaboração do trabalho, em 23 de maio de 2025 e a capa no dia 24 de maio de 2025.




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