Era um tempo em que tudo vivia em harmonia. A floresta era viva, verdejante e sagrada. Os rios corriam límpidos como olhos de divindade, e os animais conversavam entre si com respeito e alegria. O índio vivia livre em sua maloca — grande casa coletiva de palha — onde não havia paredes, apenas o espaço do afeto. Cada família tinha seu canto, seu fogo, sua cama de vara. Os troncos serviam de banco. Tudo era dado pela Mãe Terra: peneiras, abanadores, pilões, arcos, flechas... A floresta era fonte, lar e altar.
Mas então veio o europeu, e com ele, o corte. Cortou-se a mata, feriu-se o chão, e o equilíbrio se partiu. Chegaram os móveis, os guarda-roupas, as camas estrangeiras, os armários de madeira serrada. A aldeia teve que se adaptar.
Wirím, filho da floresta, cresceu nesse novo tempo. Estudou na escola do branco, recebeu diploma, conseguiu emprego. Casou-se com Surinã, bela filha da aldeia. Com esforço, construiu uma casa de tijolos. Queria o melhor para sua família. Colocou dentro de casa móveis de qualidade, comprados na cidade: cama, mesa, guarda-roupa, tudo embelezando o lar.
Mas, com a floresta desmatada, o Cupim da Terra ficou sem lar. Sem raízes e sem troncos, saiu em busca de abrigo. Encontrou a casa de Wirím. Entrou manso, em fila. Devagar, sem alarde, alojou-se nos móveis. Ruiu primeiro o guarda-roupa. Depois, a cama. Em seguida, a mesa. Quando Wirím percebeu, era tarde: tudo o que havia comprado com tanto suor estava destruído.
O que não servia mais, foi jogado fora. A madeira virou pó, o pó virou terra. Tudo voltou ao seu princípio.
E assim Wirím compreendeu: nada se separa da Terra. A natureza precisa estar em equilíbrio, pois dela somos parte, não donos. Os animais, mesmo os pequenos, também são vida. Quando tiramos seu lugar, tiramos também o nosso.
Autor: Nhenety Kariri-Xocó

Nenhum comentário:
Postar um comentário