quinta-feira, 12 de junho de 2025

CAMINHOS DA COLÔNIA






Na cidade de Porto Real do Colégio, em Alagoas, havia uma rua chamada Rua dos Índios. Era ali que moravam os filhos da terra, os Kariri-Xocó. Viviam amontoados em casas simples, mas firmes na identidade ancestral. Ainda assim, não tinham terra para plantar suas roças nem criar os animais que sustentavam o dia a dia.


Foi depois da chegada do Posto Indígena Padre Alfredo Dâmaso que uma luz brilhou no horizonte: em 4 de agosto de 1947, o Fomento Agrícola cedeu à comunidade uma área de 54 hectares, conhecida desde então como Colônia Indígena. A Colônia ficava a três quilômetros do grande Rio São Francisco, distante da Rua dos Índios, mas perto do coração dos que sonhavam com liberdade.


A terra fértil logo atraiu os que ansiavam por mais que paredes — queriam raízes. Vinte e cinco famílias deixaram a Rua dos Índios e rumaram em mutirão para a nova morada. Muitos se reuniram ao redor da casa do velho Pajé Francisquinho, sábio guardião dos cantos e dos mistérios do Ouricuri. Outros se espalharam pelos lotes, levantando suas casas de taipa, plantando milho, feijão e sonhos.


Ali se ouviam os cantos de rojão, ecoando entre plantações e fogueiras, celebrando o esforço coletivo e a força de um povo. A Colônia ganhou vida: uma escola com 72 alunos, a casa de farinha do Sr. João Sampaio, um chafariz com água corrente e tantos pés de fruta que os pássaros festejavam.





Antes da escola, havia um campo de futebol. Era lá que os jovens se desafiavam em partidas animadas entre os times da Rua dos Índios e da Colônia, suando a camisa entre risos e gritos de torcida.


Em 1950, uma cicatriz atravessou aquele chão sagrado: a Estrada de Ferro. Com o tempo, trouxe tristeza — como a morte do índio Cadête, atropelado por um trem. Ainda assim, a vida resistia. Os que ainda moravam na Rua dos Índios iam até a Colônia cuidar das suas roças. Cada família tinha três tarefas de terra, onde criavam bichos, plantavam e pescavam.


Nos meses de abril e junho, a Colônia vibrava: abril era tempo de plantio, junho de colheita. Em cada canto, os mutirões seguiam como antigamente, com cantos, risadas, e o batimento do feijão no chão da cultura.


O tempo, porém, é como o vento — sopra para muitos lados. Em 1978, os ventos da retomada da Fazenda Modelo A Sementeira levaram muitos de volta. A Colônia foi sendo deixada, mas o amor à terra é teimoso. Em 1989, ainda havia famílias por lá, apegadas à memória e à história.


Entre elas, estavam nomes eternos: Pajé Francisco Suira, Julio Suira, Odilon, Amarilio e Clara, Analbertino Pires, José Quirino, Candará, Selé, Pixaxo, Tonho Neguinho, Manarí, e muitos outros que resistiram com dignidade.


A estrada que levava ao ritual do Ouricuri sempre passava pela Colônia. Ali, os viajantes paravam, encontravam parentes, partilhavam farinha e histórias. As famílias Caciano, Crizelina, Firmino Pires, João Sampaio, Anabertino Pires, Amarilho e Mari-Inha moravam ao longo do caminho, acolhendo os que seguiam com fé.


A Colônia era muito mais que terra — era refúgio, era esperança, era cultura viva. Nos tempos bons, os homens saíam juntos para pescar na Várzea do Itiúba. O caminho passava pela Colônia, onde combinavam a pescaria de camarões e mandins, em abundância, como bênçãos do rio.


E os jovens? Jogavam futebol. Disputavam partidas animadas com os times da Rua dos Índios, entre poeira, bola e alegria.


A Colônia, mesmo em silêncio, guarda ainda hoje os ecos desses passos, dessas cantigas, desses risos.




Autor: Nhenety Kariri-Xocó 



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