O sol ainda nem tinha dado sinal no céu quando seu Jurandí ajeitava o bornal de palha. Com passos firmes, cruzava o terreiro coberto de sereno, indo rumo à estrada de barro que levava à fazenda do outro lado do Opará. Ali, no Rio dos Currais, desde tempos muito antigos, moravam as histórias que nem o tempo ousava esquecer.
A lembrança vinha forte: seus avós contavam que, bem antes da chegada dos brancos, as margens do rio eram vivas de aldeias Kariri, Karapotó e Aconã. Mas no tempo da colonização, vieram as fazendas grandes, cheias de gado, engenhos e cercas. Uma delas, a Urubumirim, deu origem ao que mais tarde virou a Missão do Colégio. A partir daí, tudo mudou.
Os antigos diziam que os primeiros a trabalhar nas fazendas dos padres jesuítas foram seus próprios ancestrais. Faziam roçado, colhiam algodão, plantavam milho e viviam como podiam. Quando os jesuítas foram embora, expulsos em 1759, as terras passaram de mão — leiloadas, vendidas, tomadas. Os portugueses viraram donos. E os povos originários, de trabalhadores, tornaram-se "empregados".
Já era 1876 quando nasceu a vila de Porto Real do Colégio. Era nova no nome, mas antiga na dor. Os Kariri-Xocó já chamavam esse tempo de Naté Wanheré Caraí – “trabalhar na fazenda dos brancos”. O nome era um sopro de desabafo em sua língua, um lamento que guardava séculos de injustiça.
A terra, que um dia fora de seus antepassados, agora tinha escritura com outros nomes. Império ou República, tanto fazia. Nada voltava. Eles trabalhavam por migalhas: um prato de farinha, uma muda de roupa, às vezes nem isso. Muitos viajavam dias, iam para outras cidades, deixavam família, sonhos e saudade para trás, só por uma semana de trabalho duro e mal pago.
Mas a esperança, ainda que tímida, caminhava junto com a luta. Em 1944, um posto indígena foi criado com o nome de Padre Alfredo Dâmaso. Foi um marco. Pouco depois, em 1947, chegaram os primeiros lotes da chamada Colônia Indígena. Pequenos pedaços de terra, mas que traziam grande alívio. Era pouco, mas era algo.
Hoje, olhando para trás, os mais velhos se lembram desse tempo com olhos marejados. Eles viveram o peso do trabalho, do esquecimento, mas também da resistência.
— Tudo passa... — diziam.
E passou. Agora, com a Terra Demarcada, os Kariri-Xocó vivem em sua terra, entre os seus. Plantam, colhem, celebram. As mãos ainda carregam calos, mas também carregam sementes. E toda semente carrega um mundo por vir.
Autor: Nhenety Kariri-Xocó

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