🌟 Epígrafe Narrativa
“A Rua dos Índios é o chão sagrado
onde o passado respira e o futuro floresce.”
Nhenety Kariri-Xocó
🎶 Epígrafe em Cordel
Na Rua dos Índios guardada,
há lembrança e tradição,
barro, telha e resistência,
força viva da nação.
Kariri-Xocó ressoa,
batendo em cada coração.
Memórias da Rua dos Índios em Porto Real do Colégio
🌸 Dedicação 🌸
Esta casa não é feita apenas de barro, telha e alvenaria.
Ela é feita de memórias, de vozes antigas e de sonhos de crianças.
Cada parede guarda uma história,
cada objeto carrega um pedaço da vida,
cada canto é testemunha do riso e do choro,
da luta e da resistência do povo Kariri-Xocó.
Dedico estas páginas à minha família,
aos que vieram antes de mim
e aos que virão depois,
para que nunca se esqueçam
que a Rua dos Índios é também
rua da vida, rua da memória,
rua da eternidade.
Nhenety Kariri-Xocó
A Rua dos Índios
Os Kariri-Xocó, indígenas do município de Porto Real do Colégio (AL), viviam originalmente na aldeia do Alto do Bode. Com a chegada dos jesuítas, foram levados para o Colégio, onde se fundou outro aldeamento. Posteriormente, além da Missão do Colégio, chegaram portugueses e pessoas de outras regiões.
Em 1759, os jesuítas foram expulsos do Brasil e da missão. Já em 1763, a Missão de Colégio foi elevada à Freguesia de Nossa Senhora da Conceição. A partir daí, os indígenas tiveram que deixar o centro da povoação de Porto Real. Na periferia, os povos Kariri, Karapotó, Aconã e Natu fundaram a chamada Rua dos Índios, formada por chopanas de palha e barro.
A Casa de Nhenety na Rua dos Índios
Da fundação da Rua dos Índios em 1763 até 1972, as casas eram feitas de palha, barro e, em alguns casos, de telha. Em 1972, a FUNAI (Fundação Nacional do Índio) realizou uma reforma: construiu habitações de alvenaria de tijolos, pintadas em cores variadas, com energia elétrica e água encanada. Essa mudança transformou a estrutura tradicional do lugar.
A casa onde Nhenety nasceu foi também a casa de seus irmãos. Inicialmente, pertenceu aos avós paternos Manoel Nunes Suré e Júlia Pires Muirá, até 1948, quando passou a ser de Alírio Nunes e Maria de Lurdes Ferreira.
Alírio Nunes e Maria de Lurdes Ferreira
Em 1948, os indígenas Alírio Nunes de Oliveira e Maria de Lurdes Ferreira casaram-se na Igreja de Nossa Senhora da Conceição, em Porto Real do Colégio. Dessa união nasceram os filhos e filhas: Marinalva, Lindinalva, Hélia, Antônio, Lurdinha, José (Nhenety) e Erílio.
Todos nasceram nessa casa, feita de barro e telhas até 1971, ano anterior à reforma promovida pela FUNAI.
A Sala da Casa
Na sala da casa reformada havia uma balança antiga, utilizada por Alírio Nunes em seu trabalho de comerciante de peixes do Rio São Francisco.
Nesse espaço, também havia:
uma mesinha com rádio,
uma cadeira,
o quadro de Nossa Senhora de Fátima,
o quadro do Coração de Jesus,
e o retrato do casal.
Era ali que os indígenas escutavam notícias, jogos de futebol e programas de rádio.
Quarto do Casal
No quarto de Alírio e Maria de Lurdes havia uma cama de casal e um guarda-roupa, onde eram guardadas as roupas de todos os membros da família.
Em tempos de festas na cidade, colocavam-se as roupas novas em cima da cama, para admirar antes de vestir. Nesse quarto nasceram todos os filhos do casal, e foi também o espaço onde as crianças brincavam juntas.
Quarto dos Filhos
No quarto dos filhos havia inicialmente três camas; depois, duas, além de um berço e um baú.
Com o tempo, as filhas foram se casando: primeiro Marinalva, depois Lindinalva e, por último, Hélia. Ficaram então os irmãos Antônio, Lurdinha, José Nunes (Nhenety) e Erílio (Lirinho).
O caçula, Erílio, dormia numa redinha no quarto dos pais até os quatro anos de idade.
Sala de Jantar
A sala de jantar era ampla, com:
uma mesa colonial de pés torneados,
cadeiras antigas,
uma cristaleira com pratos de porcelana, bule, xícaras, talheres e copos.
A mesa era sempre farta no café da manhã, no almoço e no jantar, reunindo filhos, netos e parentes.
O cardápio incluía peixes do Rio São Francisco, feijão, arroz, farinha, mandioca e produtos cultivados na aldeia ou comprados na cidade.
A Cozinha da Casa
Na cozinha havia um armário antigo azul, onde se guardavam pratos, talheres e copos.
Um fogão de carvão de duas bocas, o tanque de carvão e os potes de barro com água tratada completavam o espaço.
A comida preparada por Maria de Lurdes tinha sabores inigualáveis: cozidos, ensopados, doces e, por vezes, chás medicinais da tradição indígena.
Na prateleira ficavam panelas, caldeirões, colheres e canecos de alumínio típicos da época.
Quintal da Casa
Nos fundos havia um quintal com flores variadas e um pé de coqueiro.
No lado oeste, um muro de alvenaria fazia divisa com a Escola Indígena.
No lado sul, uma cerca de madeira delimitava a Lagoa do Cordeiro.
Ali eram criados cachorros, patos, galinhas e porquinhos-da-índia.
O quintal foi um espaço muito especial, onde todas as crianças brincavam, deixando lembranças inesquecíveis da Rua dos Índios.
Conclusão
A Casa de Nhenety, na Rua dos Índios, é mais do que uma moradia: é um lugar de memória, resistência e identidade.
Entre paredes de barro, telhas, alvenaria e cores, guarda-se a história de uma família e de um povo, que mantém viva a presença Kariri-Xocó em Porto Real do Colégio.
Autor: Nhenety Kariri-Xocó










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