quinta-feira, 11 de setembro de 2025

KAUÊPEMBA E PANEMÁ-EISÛRA, As Longas Visão e Audição






A Fábula do Gavião e a Mariposa


Na beira de um campo aberto, onde o vento sopra livre e o sol ilumina as pastagens, vivia o Kauêpemba, o gavião que pairava no ar como se peneirasse o céu. Seus olhos eram tão agudos que conseguiam enxergar o menor dos ratos se movendo entre as ervas.

Chamavam-no de “A Longa Visão”, pois nada escapava de sua mirada.


Do outro lado, entre as colmeias escondidas no tronco das árvores, vivia a Panemá-eisûra, a pequena traça da cera. Embora frágil aos olhos, possuía um dom diferente: ouvia o que ninguém mais podia ouvir. Seus ouvidos captavam os sons mais secretos, até o bater de asas noturnas que escapava ao silêncio da floresta. Por isso era chamada de “A Longa Audição”.


Um dia, os dois se encontraram à beira do campo.

— Eu vejo o que está longe e descubro presas com meu olhar, disse o Kauêpemba, orgulhoso de suas asas abertas no vento.

— E eu ouço o que está oculto, mesmo quando ninguém mais percebe, respondeu a pequena Panemá-eisûra, balançando discretamente dentro da colmeia.


O gavião, curioso, perguntou:

— De que vale ouvir tanto, se não podes voar alto como eu?

A traça respondeu com calma:

— E de que vale enxergar tanto, se não podes ouvir o perigo escondido na escuridão?


Naquele instante, ambos compreenderam: a visão e a audição são forças diferentes, mas igualmente preciosas. Enquanto o Kauêpemba reinava nos céus com a vista infalível, a Panemá-eisûra dominava o silêncio com sua escuta invisível.


E assim, cada um voltou ao seu mundo, levando consigo a certeza de que a vida é feita de dons diversos, e que nenhum é maior do que o outro.


✨ Moral da Fábula


A sabedoria não está em ter apenas um dom, mas em reconhecer o valor de cada diferença. A visão e a audição, juntas, completam a harmonia do mundo.



Autor: Nhenety Kariri-Xocó 



KAUÊPEMBA E PANEMÁ-EISÛRA, 

As Longas Visão e Audição

( Versão Cordel Sextilhas )


No campo o vento soprava,

O céu limpo em claridade,

Kauêpemba ali reinava,

Pairando com majestade.

Sua visão tão certeira,

Revela toda verdade.


Na sombra da colmeia fria,

Panemá-eisûra vivia,

Pequena, mas possuía

Um dom que surpreendia:

Na escuta era rainha,

Ouvir era sua magia.


Disse o gavião altaneiro:

“Eu vejo de longe o chão,

Roedor, ave ou carneiro,

Nada escapa à minha visão.

Sou dono do céu inteiro,

Rei da caça e da amplidão.”


Respondeu a traça ligeira:

“Também tenho meu saber,

Ouço nota verdadeira

Que ninguém pode entender.

O som que a noite carrega

É segredo do meu viver.”


Pensou então o gavião:

“De que vale tanto ouvir

Se não tens grande visão

Nem poder de me atingir?”

E a traça com mansidão

Assim começou a instruir:


“Cada dom tem seu lugar,

Não existe dom maior.

Tu vês longe, és do ar,

Eu escuto o som melhor.

Quando juntos se completam,

O mundo fica melhor.”


🌿 Moral em Cordel


A visão guia o caminho,

A escuta traz proteção.

Quando os dons andam juntinhos,

Há mais força e união.

Cada ser tem seu destino,

Cada dom, sua razão.




Autor: Nhenety Kariri-Xocó 






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