O sol ainda nascia por trás das matas quando Kawany acordou com o canto distante das aves. Da porta da Erá, ela avistou o brilho do Iwo Opará, o velho Rio São Francisco, que seguia seu curso calmo, como quem conhece todos os segredos do tempo. Para o povo Kariri-Xocó, o rio não era apenas água: era vida, memória e caminho.
Kawany tomou o Ruño, o pote de barro, e seguiu em passos firmes para o Tadzu Iwo, pegar água no rio. No caminho encontrou Manawá, sua amiga, que equilibrava o Setu, cesto na cabeça. Dentro dele iam o Runhú, panelas e o Aribé, pratos utensílios de barro que logo seriam Uanikutsu Iwo, lavados no rio. As duas riam baixinho, sentindo a areia fresca sob os pés, enquanto o rio as recebia como um parente antigo.
Mais adiante, Tawã, ainda menino, corria pela margem do Opará. Ele gostava de Bydihekié, brincar na areia, e não perdia uma chance de Buiempá, tomar banho em Bohé, junto com outros Inurá, filhos que acompanhavam suas Deá, as mães. Aquele era um Uaɲo, um costume antigo: crescer junto ao rio, aprender com ele, ouvir suas histórias silenciosas.
As Tetsiá, mulheres da aldeia, lavavam as Roácruté, as roupas de pano, enquanto conversavam sobre o dia, a colheita e os sonhos. O som da água batendo nas pedras misturava-se às vozes, criando uma canção que só o Opará sabia cantar. Para muitos, aquele momento era mais que trabalho: era encontro, partilha e alegria.
Na outra margem, alguns homens Mydzéá, pescavam com Yaentá yaclaro, a vara de anzol. Próximo dali ficava o Ubacródzuá, o porto das canoas, onde repousavam as Ubáydzé, canoas de pesca moldadas pela mão e pelo saber do povo. Manawá observava atenta, aprendendo também a Mydzé Jereré, pescar com rede de arco, prática ensinada pelas mulheres mais velhas.
O dia seguia leve. O rio acolhia quem queria Ponhú, nadar, quem buscava alimento e quem apenas desejava sentir a água correr pelo corpo. Todos eram Atseá, pessoas ligadas entre si pelo Opará e pela Antse, a Natureza.
Com o tempo, vieram as mudanças. A água encanada, os banheiros, as lavanderias e a tecnologia alteraram muitos costumes. Mas Kawany, Tawã e Manawá — assim como tantos outros — guardaram o rio dentro de si. Pois quem viveu o Opará na pele e no coração jamais esquece.
O Iwo Opará continua correndo. E enquanto houver memória, palavra e respeito, ele seguirá vivo na história do povo Kariri-Xocó, como símbolo de uma vida simples, saudável e profundamente feliz.
Autor: Nhenety Kariri-Xocó

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