Na terra de Porto Real do Colégio, onde o rio escuta e a mata responde, vive o Toré, conjunto de cantos, danças e instrumentais do povo Kariri-Xocó. Certo dia, as crianças Mayra e Nakã se aproximaram do avô Suré e perguntaram em voz curiosa: “Vovô, como é o Toré? Por que as pessoas daqui gostam tanto de cantar e dançar? Sempre foi assim? E o teu nome, o que quer dizer?”
O velho Suré respirou fundo, olhou a grande roda da aldeia e começou a cantar-falar: “Escutem bem, meus netos. O Toré significa o Som Sagrado da Flauta. É o sopro do Buzo, trombeta feita da Ubaúba, que traz a sonoridade que imita o trovão de Tupã, nosso Deus, por isso é som sagrado.”
A comunidade respondeu em coro: “É som sagrado, é voz do trovão, é Tupã falando no sopro do Toré.” Suré continuou: “Meu nome, Suré, quer dizer Soprador de Toré, tocador, soprador de flauta ou buzo.
Quando eu era jovem, iniciei como tocador de flauta nos Ka, os cantos, e no Torá, as danças. Hoje sou Duboheri Torá, Mestre do Toré, Kawonhé, puxador de canto, aquele que inicia com Ebayasi, os assobios que chamam a dança e acordam a grande roda.”
O narrador então diz que o Ebayasi ecoa no ar e o povo responde: “Ebayasi, Ebayasi, o Toré vai começar.” Suré segue contando: “Antigamente, antes dos brancos chegarem, cantávamos o Toré com Rouanie, a roupa indígena.
O corpo era canto: Bukencré "Pintura Corporal"; Sasá, a saia de palha; Daklotsebu Songaá, o cocar de penas; Dakloro, adorno do braço; Dakloeɲe, o brinco; Dakloɲe, o colar; e Daklowõ, o adorno da perna.”
Mayra e Nakã perguntam com voz triste: “E por que não é sempre assim, vovô?” Suré responde: “Porque os jesuítas proibiram nossos costumes e tradições, tentaram calar o Toré. Mas ele não morreu.” A comunidade afirma forte: “O Toré não morreu, o Toré resistiu.”
Suré então explica: “Para não perder nossa tradição, passamos a cantar o Torá Rocruté, o Toré com roupa de pano, vestes trazidas pelo colonizador. Na Dzó Kayaku, lua da chuva de junho, com a colheita do Masichi Erã, o milho verde, cantamos o Torá Rocruté para comemorar Santo Antônio, São João e São Pedro, nas fogueiras da aldeia.”
O narrador diz que na Iworoyé, a grande roda, o povo acende o Buyê mó torá Toré, a fogueira para dançar, e ali, nos intervalos, são assados milho verde, carne e peixe para alimentar o povo durante os festejos. Suré continua: “O Toré é cantado em muitas ocasiões: no Torá Diparí, o Toré do morto, nos despedimos de quem partiu; no Torá Curoté, agradecemos à Mãe Terra pela colheita; no Torá Sacrí, damos boas-vindas à criança que nasce; e no Torá Piwonhé, abençoamos o casamento dos recém-casados.”
Mayra e Nakã perguntam com alegria: “Então o Toré é tudo, vovô?” E Suré responde firme: “Sim, meus netos. O Toré é nossa história cantada, é memória viva, é resistência do povo Kariri-Xocó.” O narrador encerra dizendo que no Batti, final de ano, na Pehó Kayaku, lua da enxurrada de dezembro, havia um grande Toré na festa de Nossa Senhora da Conceição, cantado a noite inteira até o dia amanhecer, enquanto a comunidade canta em uníssono: “Toré vive, Toré resiste, Toré é Kariri-Xocó.”
Autor: Nhenety Kariri-Xocó

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