segunda-feira, 8 de dezembro de 2025

WOROBÜYÉ – FÁBULAS KARIRI-XOCÓ, Seres de Conexão Universal – Volume 2 – Coletânea, Nhenety Kariri-Xocó






📘 FALSA FOLHA DE ROSTO



WOROBÜYÉ – FÁBULAS KARIRI-XOCÓ

Seres de Conexão Universal – Volume 2 – Coletânea

Nhenety Kariri-Xocó





📘 VERSO DA FALSA FOLHA DE ROSTO



Este livro apresenta fábulas originais de Nhenety Kariri-Xocó, inspiradas em saberes ancestrais, espiritualidades nativas, memórias indígenas e diálogos culturais entre mundos.





📘 FOLHA DE ROSTO (FRONTISPÍCIO)



WOROBÜYÉ – FÁBULAS KARIRI-XOCÓ

Seres de Conexão Universal – Volume 2 – Coletânea


Autor: Nhenety Kariri-Xocó

Edição Independente – Ano 2025

Porto Real do Colégio – Alagoas – Brasil





📘 FICHA CATALOGRÁFICA / FICHA TÉCNICA



Kariri-Xocó, Nhenety

Worobüyé – Fábulas Kariri-Xocó: Seres de Conexão Universal – Volume 2 – Coletânea /

Nhenety Kariri-Xocó. – Edição Independente. – Porto Real do Colégio, AL, 2025.


Fábulas indígenas.


Saberes ancestrais.


Cultura Kariri-Xocó.


Narrativas orais e espirituais.


Literatura brasileira contemporânea.


CDD: 398.2 – Fábulas

CDU: 821.134.3





📘 DEDICATÓRIA



Dedico estas palavras

aos espíritos guardiões que caminham comigo,

aos ancestrais que sopram histórias nos ventos,

às crianças da aldeia que mantêm o brilho da imaginação

e à minha nação Kariri-Xocó,

fonte eterna de força, memória e caminho.





📘 AGRADECIMENTOS



Agradeço aos meus Mestres e Mestras da Tradição Oral,

aos que me ensinaram a ouvir o silêncio e a ver o invisível.


Agradeço às histórias que chegam como pássaros,

aos seres da floresta que inspiram cada fábula,

e aos povos que preservam a linguagem do mundo vivo.


Agradeço também a todos que acompanham meu trabalho,

que leem, apoiam, incentivam e ajudam

a manter acesa a chama do conhecimento indígena.


E agradeço a você, leitor e leitora,

por permitir que estas histórias encontrem novos caminhos.





📘 EPÍGRAFE



"Todo ser que respira, caminha ou silencia

carrega consigo um fragmento da memória do Universo."

— Tradição Kariri-Xocó




📘 SUMÁRIO / ÍNDICE



Prefácio


Apresentação


Introdução


Fábulas



01. Cordoniz Bíblica e o Falcão Caçador


02. Batti Sutu Sacrísã, A Árvore de Natal Estrelar


03. Hiné Retsé, A Floresta de Luz


04. Tilápia da Galiléia, O Peixe do Milagre


05. Igaboineɲye Bihunu, O Jumento Sagrado Livre do Sofrimento 


06.  O Tapiti, O Coelho da Páscoa e o da TV;


07. Rena Buké Etçamyá, A Rena e o Cervo são Parentes


08.  Kawá e o Maguari, A Fábula do Menino e a Ave da Memória 


09. Guará Inghéá, O Lobo-Guará e as Crianças da Floresta 


10. Rayná e a Suçuarana, O Menino e a Onça-parda 


11. As Inghéá e Chorecá, As Crianças e a Raposa 


12. Itákyapûrang e o Itákyîutî, Os Picapaus Topete Vermelho e o Amarelo



Apêndices


Glossário Indígena Kariri-Xocó


Dados Biográficos do Autor


Orelha do Livro


Capa e Contracapa (feitas ao final)





📘 PREFÁCIO



As fábulas reunidas neste volume revelam o encontro profundo entre o mundo visível e o invisível, entre os seres da natureza e os seres da memória. Nas narrativas de Nhenety Kariri-Xocó, os animais falam não apenas com a boca do mito, mas com o coração da espiritualidade indígena.


Cada história é um caminho, cada caminho é uma mensagem, e cada mensagem guarda um ensinamento ancestral. Aqui, o leitor encontra fábulas que conversam com as estrelas, com o sagrado e com a terra, tornando-se um convite para olhar o mundo com outros olhos.


Este livro não é apenas literatura — é ponte, é reza, é ensinamento e também celebração do que somos.





📘 APRESENTAÇÃO



“Worobüyé – Fábulas Kariri-Xocó” nasce do encontro entre tradição e criação. As fábulas aqui reunidas foram escritas por Nhenety Kariri-Xocó e publicadas originalmente em seu blog, onde alcançaram leitores de diversas terras.


Aqui, ganham forma de livro, preservando o espírito dos antigos narradores da aldeia: histórias contadas à beira do fogo, sob o brilho das estrelas, ou nas margens do rio Opará.


É um livro que une culturas, atravessa tempos e aproxima mundos.





📘 INTRODUÇÃO



As fábulas sempre ocuparam lugar especial entre os povos originários. Por meio delas, ensinamos o valor da vida, o respeito às criaturas, a convivência com o sagrado e a harmonia com a natureza.


No entanto, estas fábulas também dialogam com tradições externas, com memórias trazidas por outros povos, com símbolos cristãos, com figuras europeias e com narrativas que chegaram ao Brasil e se misturaram às nossas. Assim nasce o conceito de Seres de Conexão Universal — personagens que atravessam fronteiras, culturas e espiritualidades.


Este Volume 2 apresenta histórias que falam de compaixão, equilíbrio, fraternidade e ancestralidade. Cada fábula é uma semente plantada no coração do leitor.





📘 FÁBULAS 



01. CODORNIZ BÍBLICA E O FALCÃO CAÇADOR





A Fábula da Codorniz e o Falcão 



Nos céus quentes do oriente, sobre as dunas douradas do Deserto de Sim e de Quibrote-Taavá, voava o veloz Ieesitóhikie — o Falcão Peregrino, temido e respeitado por todas as aves como o “caçador do céu”. Seus olhos afiados perscrutavam a vastidão, e suas asas cortavam o vento como lâminas.


Ao avistar um bando de codornizes pousado entre os arbustos do Sinai, mergulhou com a força de uma flecha e agarrou uma delas com suas garras afiadas.


— Piedade, senhor Falcão! — implorou a pequena ave. — Eu não sou uma codorniz qualquer. Sou a Codorniz Bíblica, aquela que o Senhor enviou para alimentar o povo de Israel no deserto. Minha história é sagrada, e este é um solo abençoado.


O Falcão, surpreso, afrouxou as garras. Seu olhar, antes predador, tornou-se pensativo.


— É verdade… havia me esquecido que estas terras fazem parte do Sinai, lugar sagrado. — disse ele. — Em respeito à sua história e à memória desse povo, a partir de hoje não caçarei codornizes nestas paragens. Seja livre… e minha amiga.


A Codorniz, aliviada, abriu suas asas e partiu para junto de seu bando. O Falcão, por sua vez, seguiu rumo ao litoral, voando do Mar Vermelho em direção ao Mediterrâneo.


E assim, naquele dia, o caçador e a presa se despediram como amigos, provando que até mesmo entre os mais ferozes, há espaço para a honra e a compaixão.


Moral: O verdadeiro caçador sabe que há momentos de atacar e momentos de recuar. Respeitar o sagrado é a maior das vitórias





02. BATTI SUTU SACRÍSÃ, A ÁRVORE DE NATAL ESTRELAR 





Uma Fábula na Noite de Natal 



Era noite de calor manso na aldeia. A lua, redonda como um fruto branco, subia devagar pelo céu. Dentro das casas, as crianças indígenas estavam caladas, olhando para o vazio.


— Mainá… — sussurrou Nayara — será que Papai Noel sabe que nossa aldeia existe?


— Acho que não… — respondeu Mainá, segurando o próprio brinquedo de madeira — aqui nem temos árvore de Natal.


Lá fora, o pombo Tute, que voava de galho em galho, ouviu aquela tristeza. Abriu as asas e partiu. Voou longe, sobre as roças, os riachos, e chegou até a velha árvore sutu. Ela estava seca, sem folhas… mas algo mágico acontecia. No alto, a lua brilhava como a estrela mais luminosa, e cada galho se enfeitava com pontos de luz vindos do céu. O Vespeiro (Plêiades) piscava ao lado de Touro e Aldebarã; o Caminho da Anta (Via Láctea) cruzava a noite; a Cobra Mboi Tatá se estendia entre as estrelas.


Tute bateu as asas e voltou depressa.


— Crianças! — chamou, pousando na porta da oca de Abirã — Venham comigo! Tenho algo para mostrar!


— É comida? — perguntou Namã, com os olhos arregalados.


— Melhor que comida — disse Tute — é presente da própria noite.


As crianças saíram correndo. Quando chegaram à árvore sutu, pararam em silêncio. Nayara foi a primeira a falar:


— É… uma árvore de Natal feita pelo céu!


— Olhem! — apontou Abirã — a Ema (Landutim) corre entre as estrelas! E ali está a Linda Mulher (Joykexo)!


— E o Cruzeiro do Sul! — completou Mainá, com o dedo erguido.


Logo, começaram a rir e pular. Trouxeram frutas, panelinhas, colares de sementes e brinquedos feitos à mão. Colocaram tudo aos pés da árvore. Nayara olhou para Tute e disse:


— Não precisamos de enfeites comprados… o que temos já é bonito.


— E o que é nosso, quando partilhado, vira luz — respondeu o pombo.


Naquela noite, a aldeia cantou, trocou presentes e histórias. E o nome daquela visão mágica passou a ser Batti Sutu Sacrísã, a Árvore de Natal Estrelar.


E até hoje, quem olha para o céu no Natal e vê a lua coroando um galho seco pode ouvir, ao longe, o bater de asas de Tute… lembrando que a verdadeira festa mora no brilho de cada coração que sabe compartilhar.





03. HINÉ RETSÉ, A FLORESTA DE LUZ 





A Fábula da Floresta de Luz 



Na noite de Natal, quando o céu se enche de estrelas como sementes espalhadas pela mão do Criador, uma pomba branca chamada Tute abriu suas asas para mais uma viagem.


Tute não voava apenas por voar — sua missão era antiga: visitar cada canto da Terra e levar consigo a paz e a esperança.


Do alto, ela viu algo maravilhoso: cidades inteiras brilhando com luzes coloridas, ruas repletas de árvores enfeitadas, janelas sorrindo em cores. E, vista assim, de cima, a Terra já não parecia feita de pedra e asfalto, mas transformada em uma imensa Hiné Retsé — uma Floresta de Luz.


Tute voou baixo, passando sobre praças e lares. Onde havia alegria, ela via famílias reunidas, abraços e partilhas. Em casas humildes, onde a ceia era pequena, via mãos dividindo o pouco que havia. Em mansões, via mesas fartas, mas também corações que aprendiam a doar.


Porém, Tute também encontrou janelas apagadas. Casas frias e silenciosas, onde a solidão tinha feito morada. Então, a pequena pomba pousava discretamente, colhia no bico um fragmento de luz das casas felizes e o levava até as janelas escuras. Não eram lâmpadas que ela acendia, mas corações esquecidos.


Quando a madrugada chegou, Tute subiu novamente aos céus. Lá do alto, a Terra não era apenas uma floresta de luzes — era um jardim vivo, onde cada ponto brilhante era um lar e cada luz, um gesto de amor.


Desde então, na noite de Natal, Tute volta a voar sobre o mundo, lembrando que a luz mais forte não é a que enfeita as ruas, mas a que brota do coração.


Moral da fábula:


O Natal brilha mais quando a nossa luz acende no coração de outra pessoa.





04. TILÁPIA DA GALILÉIA, O PEIXE DO MILAGRE 





A Fábula do Peixe Milagroso 



Era tempo de águas minguadas no velho Opará, o Rio São Francisco. Desde que grandes represas se ergueram, as correntezas já não corriam como antes, e muitos peixes haviam diminuído.


Foi então que, vinda de terras distantes, chegou ao rio uma nova visitante: a Tilápia-do-Nilo, seguida pela Tilápia-da-Galiléia, peixe nobre das águas do Oriente Médio, conhecido por muitos como o peixe de São Pedro, o mesmo que um dia foi partilhado por Jesus no milagre da multiplicação.


O Cará, peixe nativo e guardião das histórias do Opará, percebeu a novidade. Nadou velozmente e reuniu todos os peixes para conhecer os recém-chegados.


— Irmãos! — anunciou o Cará — Temos visitantes de longe.


Antes que pudessem perguntar mais, surgiu nadando a Tainha-Mugil, viajante do mundo, que já conhecia mares e rios de outras terras, inclusive o Jordão e o Mar da Galiléia.


— Olhem bem — disse a Tainha, com voz de quem carrega segredos antigos — Esta é a Tilápia-da-Galiléia, o peixe sagrado que esteve nas mãos do Mestre quando Ele alimentou a multidão.


O silêncio caiu sobre as águas. Todos sentiram um respeito profundo. O Cará aproximou-se e falou com solenidade:


— Seja bem-vinda, irmã Tilápia. Que tua presença abençoe o Opará, e que nossas águas sejam férteis como nos tempos antigos.


E assim foi. A Tilápia-do-Nilo e a Tilápia-da-Galiléia multiplicaram-se, povoando rios e açudes, tornando-se queridas por pescadores e apreciadas nas mesas.


Mas, entre as histórias contadas nas margens do Opará, sempre ficou um aviso: "Todo visitante é bem-vindo, mas que sua chegada seja guiada pela sabedoria, para que o equilíbrio das águas nunca se perca".


Moral da fábula:


O que vem de longe pode trazer bênçãos, mas também exige cuidado, para que a harmonia da vida não se quebre.





05. IGABOINEƝYE BIHUNU, O JUMENTO SAGRADO LIVRE DO SOFRIMENTO 





A Fábula do Jumento Sofredor



Nas margens do grande rio Opará vivia Tupiná, homem de braço forte e coração endurecido.


Ao seu lado, todos os dias, caminhava IgaboinéƝye, o jumento.


Não caminhava por vontade própria… caminhava porque era puxado, empurrado, carregado de peso.


E quando não andava rápido… a mão de Tupiná caía pesada sobre ele.


O sol queimava, a poeira subia, e IgaboinéƝye andava…


Andava…


Andava…


E cada passo parecia mais pesado que o anterior.


A intervenção


Um dia, pelo mesmo caminho, vinha Arami, moça de passos leves e olhar de rio manso.


Ela parou. Olhou o jumento. Viu a respiração cansada, viu as marcas no pelo.


Aproximou-se.


Passou a mão sobre sua testa quente.


— Por que maltrata teu companheiro? — perguntou.


— Companheiro? — disse Tupiná. — Este bicho é carga, não amizade.


Arami sorriu triste e respondeu:


— Sabes quem é este animal que chamas de carga?


Entre todos os animais, foi o jumento que carregou Maria, José e o menino Jesus, fugindo para o Egito.


Silencioso, paciente, caminhou noite e dia para salvar a vida sagrada.


A revelação sagrada


Arami ergueu o rosto e falou como quem repete palavras de muito tempo atrás:


— Minha avó Kairá me ensinou: todo jumento carrega o sangue daquele que salvou o menino.


Quem levanta a mão contra ele… levanta a mão contra a bondade que Deus deixou no mundo.


O vento parou.


O caminho ficou em silêncio.


Tupiná olhou para IgaboinéƝye… e IgaboinéƝye olhou para Tupiná.


Não havia raiva. Não havia acusação.


Só havia olhos grandes… e serenos.


A transformação


Então algo se quebrou dentro de Tupiná — não era raiva… era vergonha.


Abaixou-se, tocou a cabeça do jumento e disse:


— Perdoa-me, pequeno irmão.


De hoje em diante, nunca mais serás meu escravo… serás meu companheiro.


E assim foi.


E assim ficou.


Encerramento cerimonial


Dizem que desde aquele dia, IgaboinéƝye caminhava leve.


Dizem que desde aquele dia, Tupiná aprendeu a carregar mais no coração e menos no lombo do jumento.


E eu digo: quem respeita a vida sagrada em todas as criaturas,


carrega dentro de si a paz que liberta.


Eu falei… os ventos ouviram… a terra guardou…


E agora esta história é vossa também.





06. O TAPITI, COELHO DA PÁSCOA E O DA TV  





A Fábula das Crianças e o Coelho 



Numa clareira da floresta, duas crianças indígenas corriam alegres entre as árvores. O som das risadas misturava-se ao canto dos pássaros quando, de repente, um tapiti surgiu, com suas orelhas curtas e olhos atentos.


— Olha! É o coelhinho da Páscoa! — disse a menina, lembrando das histórias que ouvira na escola.


O irmão riu e respondeu:


— Não, é aquele coelho da TV! Eu já vi ele correndo engraçado nos desenhos.


O tapiti parou, curioso com aquelas palavras que não entendia, e então falou com sua voz suave, como o vento entre as folhas:


— Crianças, eu sou o Tapiti. Vivo aqui desde os tempos antigos. Os povos de suas avós e bisavós já contavam histórias sobre mim.


As crianças se entreolharam, admiradas.


— Mas… e o Coelho da Páscoa? — perguntou a menina.


O tapiti respondeu com serenidade:


— Esse veio de longe, junto com a religião trazida pelos colonizadores. Ele traz ovos coloridos e fala de renascimento. É bonito, mas não nasceu nesta terra.


— E o coelho da TV? — quis saber o menino.


— Esse é do mundo das telas — disse o tapiti. — Foi criado para divertir, fazer rir e mostrar esperteza. Ele não existe na floresta, mas na imaginação que chega pelas imagens.


O tapiti ergueu-se um pouco sobre as patas traseiras e completou:


— Cada um de nós vive em um mundo diferente: eu pertenço à floresta e à memória dos povos indígenas; o Coelho da Páscoa pertence à fé e às festas cristãs; e o coelho da TV pertence às histórias inventadas nos desenhos. Mas todos falamos de esperança, de riso e de vida.


As crianças sorriram, encantadas.


— Então vamos lembrar sempre de você, Tapiti, o coelho da nossa terra!


O animal desapareceu entre as folhas, deixando apenas o som leve de sua corrida.


E as crianças compreenderam que o mundo é feito de muitas histórias que podem viver lado a lado.


🌟 Moral da Fábula


Cada cultura cria seus símbolos e personagens, mas é importante reconhecer e valorizar o que é da nossa própria terra. O tapiti ensina que tradição, fé e imaginação podem se encontrar sem que uma apague a outra.





07. RENA BUKÉ ETÇAMYÁ, A RENA E O CERVO SÃO PARENTES 





A Fábula da Menina e o Cervo



Numa manhã dourada, quando o Sol dançava entre as folhas e o cheiro da terra fresca encantava os sentidos, um grupo de crianças brincava nos campos abertos de uma aldeia alegre. Entre elas estava Nemoã, menina de olhos curiosos como a Lua cheia.


De repente, no meio da vegetação alta, surgiu um imponente Cervo-do-Pantanal, com galhadas que pareciam tocar o céu.


Nemoã apontou animada:


— Olhem! É Cometa, a rena de Papai Noel! Ela veio visitar o Brasil!


As crianças correram até o animal e, com sorrisos nos olhos, perguntaram:


— Você é Cometa, a rena veloz que voa no trenó?


O cervo sorriu com doçura e respondeu com voz calma como o vento da tarde:


— Não, pequenos. Sou um Cervo-do-Pantanal. Vivo aqui, no coração do Brasil. Habito os campos e matas do Centro-Oeste, Norte e Nordeste, nas regiões da Caatinga, Cerrado e Mata Atlântica.


As crianças se entreolharam, surpresas.


— Mas você se parece tanto com a rena que vimos na televisão! — disse Anauá, menino sábio de poucas palavras.


O cervo assentiu com a cabeça:


— Sim, meus pequenos. As renas e os cervos são parentes próximos. Carregamos em nossos corpos a mesma dança da natureza. Elas vivem longe daqui, nas terras frias da Groenlândia, Escandinávia, Rússia, Alasca e Canadá. Mas, nas noites de Natal, as renas ganham asas na imaginação e viajam pelo mundo com Papai Noel, inclusive aqui, onde os corações acreditam no espírito natalino universal.


As crianças se encantaram com a sabedoria do cervo.


— Então somos todos parentes também, não é? — perguntou Nemoã.


— Exatamente — respondeu o cervo. — Se nos reconhecermos como parte da mesma família da Terra, nunca estaremos sós.


E assim, o cervo partiu mansamente, deixando pegadas de sabedoria e respeito na alma de cada criança.



✨ Moral da Fábula:



Mesmo distantes na geografia, todos os seres que compartilham a Terra carregam laços de ancestralidade e respeito. Conhecer e valorizar nossas diferenças é celebrar o parentesco universal da vida.





08. KAWÁ E O MAGUARI, A FÁBULA DO MENINO E A AVE DA MEMÓRIA 





Num tempo onde os lagos ainda sussurravam as histórias do mundo, vivia um menino curioso chamado Kawá. Ele gostava de andar pelas margens do lago Dzurió, ouvindo o vento e conversando com os animais.


Certa manhã, ao brincar entre as pedras e as flores do brejo, Kawá avistou uma grande ave de penas cinzentas e bico forte. Era o Maguari, o guardião das águas e das lembranças antigas.


— Maguari, — disse Kawá com os olhos brilhando — é verdade que você carrega os bebês no bico e os entrega nas casas para que nasçam?


O Maguari pousou com elegância e respondeu com voz serena:


— Não, meu pequeno amigo. Essa história não nasceu aqui. Veio de longe, com os ventos da colonização. Um dos meus parentes distantes, a Cegonha-branca, vive nas terras da Europa. Foi lá que começaram a dizer que ela trazia os bebês nos bicos.


Kawá franziu a testa, curioso:


— Mas por que dizem isso?


O Maguari explicou com paciência:


— Os seres, Kawá, não vivem apenas no mato ou no céu. Eles também vivem nas memórias das pessoas. Quando os portugueses chegaram ao Brasil, trouxeram suas tradições, suas crenças e histórias. A Cegonha-branca passou a viver aqui também — não no ar, mas no coração das famílias que acreditam nela.


Kawá pensou um pouco e então disse sorrindo:


— Então, se eu acreditar, ela pode trazer um menino para nossa casa?


O Maguari respondeu com um leve bater de asas:


— Pode sim. Porque as tradições vivem onde há fé, sonho e mistura. E o Brasil, meu pequeno Kawá, é feito de muitas crenças — de indígenas, de africanos, de europeus. Somos um povo de muitas memórias.


E, com um último olhar de sabedoria, o Maguari alçou voo, deixando Kawá com um novo entendimento: que a força dos seres está tanto na natureza quanto nas histórias que escolhemos guardar.


Moral da fábula:


As tradições viajam pelo tempo e vivem na memória dos povos. Quando acreditamos, os seres ganham vida — seja nas águas, no céu ou no coração da gente.





09. GUARÁ INGHÉÁ, O LOBO-GUARÁ E AS CRIANÇAS DA FLORESTA 





A Fábula do Lobo-guará e as Crianças 



Em tempos antigos, quando os ventos ainda sussurravam segredos aos ouvidos atentos da mata, duas crianças da Aldeia Natiá — o menino Awbirã e sua irmã Anawí — partiram pela trilha da roça em busca de seu pai. Ambos eram inghéá, espíritos novos, curiosos e cheios de perguntas para o mundo.


Caminhavam entre árvores altas da Mata Atlântica, onde os cantos dos pássaros dançavam com o som do vento, quando, de repente, um ser de pelos avermelhados surgiu diante deles. Era o Guará, com seus longos membros e olhar manso.


Anawí, com os olhos arregalados e lembranças da escola na mente, perguntou sem medo:


— O senhor é o Lobo Mau? Aquele que come criancinhas, como na história que a professora contou?


O Guará sorriu com o canto da boca e respondeu com voz tranquila:


— Não, pequenos inghéá. Eu não sou o Lobo Mau. Sou o Lobo-guará, guardião desta terra que chamam de Brasil. Diferente do lobo das histórias da Europa, eu não como crianças. Na verdade, somos da mesma família, mas não do mesmo gênero.


Curioso, o menino Awbirã quis saber mais:


— E o senhor se alimenta de quê?


— Sou onívoro, respondeu o Guará com orgulho. Como pequenos mamíferos, aves, répteis, insetos e frutas como a lobeira, que adoro. Já o lobo da Europa é carnívoro, e caça alces, veados e javalis. Mas nenhum de nós, nem aqui nem lá, tem humanos no cardápio.


As crianças riram aliviadas. Mas o Guará, com sua sabedoria ancestral, fez um alerta:


— Mesmo que eu não represente perigo, a floresta é cheia de seres mais perigosos, como as onças e as serpentes venenosas. Crianças não devem andar sozinhas por estas trilhas. A mata é bela, mas exige respeito. Voltem sempre com seus pais.


Com um aceno de cauda e passos leves como o vento, o Guará desapareceu entre as folhas.


Awbirã e Anawí voltaram para casa com uma nova história para contar — uma história de verdade, onde o “lobo” era amigo, sábio e filho da terra como eles.


Moral da fábula: Nem tudo que aprendemos nos livros é igual em todas as partes do mundo. O saber da floresta ensina com respeito, convivência e verdade.





10. RAYNÁ E A SUÇUARANA, O MENINO E A ONÇA-PARDA 





A Fábula do Menino e a Onça-parda 



Rayná era um menino curioso, que gostava de andar pela mata ouvindo os cantos dos pássaros e observando cada detalhe das árvores. Um dia, ao subir a encosta do morro, seus olhos se depararam com um felino de corpo esguio, cauda longa e olhar dourado.


Assustado e encantado ao mesmo tempo, Rayná pensou:


— Ué! Mas eu conheço esse bicho dos desenhos! Só que na tela era uma pantera

colorida e engraçado… aqui, na floresta, é real e imponente.


A suçuarana, tranquila, observava o menino com olhos atentos. Não tinha pressa nem raiva, apenas curiosidade. Rayná entendeu, em silêncio, que aquele animal não era de brincadeira, mas sim um guardião da mata, respeitado por todos os outros seres.


Com voz baixa, disse:


— Eu achei que você fosse só imaginação… mas vejo que é de verdade. Você é a dona dos caminhos escondidos e das montanhas silenciosas.


A suçuarana, sem emitir som, deu meia-volta e sumiu entre as pedras, como se fosse um sopro da floresta.


Rayná voltou para casa pensativo. Aprendeu que a natureza também cria personagens muito mais grandiosos do que qualquer desenho. Desde aquele dia, sempre que via a lua iluminar a mata, lembrava da felina que parecia vinda de um sonho, mas que era tão real quanto seu próprio coração.


Moral da fábula:


A imaginação mostra caminhos, mas a natureza guarda segredos ainda mais maravilhosos do que qualquer história inventada.





11. AS INGHÉÁ E CHORECÁ, AS CRIANÇAS E A RAPOSA 





A Fábula das Crianças e a Raposa 



Nas caatingas do Nordeste, o sol dourava o chão seco e as árvores retorcidas guardavam segredos antigos. Duas crianças nativas, Sainá e seu irmão Kaunã, caminhavam pelos campos quando ouviram um farfalhar entre as ramagens.


Era Chorecá, a Raposa esperta, que farejava algo, sempre curiosa como quem procura um mistério escondido.


— Olha ali! — disse Sainá, apontando para o animal. — É o Coiote da TV, procurando o Papa-léguas!


Chorecá ergueu as orelhas e riu com astúcia:


— Coiote? Papa-léguas? Quem são esses que vocês mencionam?


Nesse instante, pousou por perto o Poeba, o Jacu da caatinga, que vinha saltitando entre os galhos.


— Ali está! — gritou Kaunã. — O Papa-léguas chegou agora!


O Jacu arregalou os olhos, meio confuso:


— Papa-léguas? Não sou personagem de desenho, crianças! Meu nome é Poeba, e vivo nestas matas há muito tempo.


Chorecá, com seu jeito sabido, explicou:


— Meus pequenos, vocês confundem o que veem na televisão com o que existe em nossa terra. O Coiote e o Papa-léguas vivem lá no México e nos Estados Unidos. Aqui no Brasil, vocês têm a mim, Chorecá, que pareço com o Coiote, e têm o Poeba, que lembra aquele Papa-léguas correndo pelo sertão.


As crianças se entreolharam, surpresas.


— Então não é tudo igual? — perguntou Sainá.


— Não, não é — respondeu a Raposa. — Cada país tem seus animais e aves. Alguns se parecem, mas são espécies diferentes. É preciso observar, perguntar, aprender... Vocês devem conversar com a professora para conhecer melhor a fauna e a flora de nossa terra.


Sainá e Kaunã assentiram, felizes com a lição. A caatinga parecia cantar ao redor, como se também aprovasse aquele ensinamento.



Moral da fábula:


Quem conhece a fauna e a flora de sua própria terra aprende a respeitar o lugar onde vive, sem deixar de admirar o que existe em outros cantos do mundo.





12. ITÁKYAPÛRANG E O ITÁKYÎUTÎ, OS PICAPAUS TOPETE VERMELHO E O AMARELO 





A Fábula dos Picapaus e as Crianças 



Certa manhã, um menino curioso e uma menina sonhadora caminhavam pela mata. De repente, ouviram batidas fortes num tronco e viram um pássaro com o topete vermelho como fogo. Logo adiante, outro surgiu, de plumagem amarelada e brilho dourado.





 — Olha! — disse o menino — É o Pica-Pau da televisão, aquele de cabeça vermelha!


— Não! — retrucou a menina — Este deve ser o Pica-Pau Amarelo da história de Monteiro Lobato!


As aves, ao ouvirem, bateram as asas e pousaram diante das crianças.


O do topete vermelho falou:


— Eu sou Itákyapûrang, o Pica-Pau-de-topete-vermelho. Não sou personagem de desenho, mas um guardião da floresta. Vivo nas árvores altas, alimento-me de insetos escondidos nos troncos e meu canto ecoa pelo Brasil e além.


O amarelo, por sua vez, completou:


— E eu sou Itákyîutî, o Pica-Pau-amarelo verdadeiro, que habita a Amazônia e muitas matas do Brasil. Não sou criação de livros, mas parte viva da floresta, com o brilho do sol em minhas penas.





As crianças se entreolharam, meio envergonhadas.


— Então vocês não são o da TV, nem o do sítio? — perguntou a menina.


— Não — respondeu Itákyapûrang —, mas cada história tem sua importância.


— Os homens inventaram personagens para ensinar e divertir. Nós existimos para lembrar que a floresta é a nossa verdadeira casa, e precisa ser respeitada — disse Itákyîutî.


O menino e a menina sorriram.


— Agora entendemos: o desenho e o sítio são imaginação, mas vocês são vida de verdade.


As aves abriram as asas e voaram alto, deixando no ar o eco de suas batidas no tronco, como se fosse uma lição gravada na memória das crianças.



🌿 Moral da fábula:



A imaginação cria personagens, mas a natureza cria a vida verdadeira. Valorizar os seres da floresta é proteger as histórias mais antigas do mundo.





Autor das Fábulas: Nhenety Kariri-Xocó 





📘 APÊNDICES



APÊNDICE A – Sobre a Tradição das Fábulas Indígenas


As fábulas sempre tiveram um papel essencial entre os povos originários. São ferramentas de transmissão de ensinamentos espirituais, comportamentos sociais, ética comunitária e relação harmônica com o mundo vivo.

Entre os Kariri-Xocó, histórias com animais e seres encantados ajudam a educar crianças, orientar jovens e fortalecer laços com o sagrado.


Estas narrativas funcionam como chaves simbólicas que conectam:


o mundo dos humanos;


o mundo dos animais e espíritos guardiões;


e o círculo maior da criação, onde tudo está interligado.


As fábulas deste livro seguem essa tradição ancestral, mas apresentam também diálogos com outras culturas e espiritualidades, mantendo a essência indígena de aprendizados baseados em respeito, reciprocidade e sabedoria.


APÊNDICE B – Sobre os Seres de Conexão Universal


O termo Seres de Conexão Universal refere-se às entidades, animais, símbolos e presenças espirituais que aparecem em diversas culturas ao redor do mundo e que, nas mãos do autor, se tornam pontes entre tradições.


São seres que:


carregam mensagens de fraternidade;


aparecem em mitos indígenas, hebraicos, cristãos, africanos ou europeus;


simbolizam união cultural;


e revelam que o sagrado não está preso a uma única geografia.


É através dessa perspectiva que o autor constrói uma literatura viva, intercultural e profundamente espiritual.


APÊNDICE C – O Papel da Criança nas Fábulas


A criança ocupa lugar central na cultura Kariri-Xocó: é continuação, futuro e memória viva.

Nos ensinamentos tradicionais, as histórias são contadas para formar caráter, fortalecer coragem e ensinar o valor da vida.


As fábulas deste livro dialogam com as crianças, mas também com os adultos que guardam dentro de si uma criança antiga — aquela que nunca deixou de acreditar na luz do invisível.





🪶 GLOSSÁRIO INDÍGENA KARIRI-XOCÓ



Batti  – Estrela, ano, Plêiades, colheita.


Bihunu – Livre, liberto, sem amarras.


Buké – O cervo, veado, parecido com a rena, ser que carrega a força, energia vital que move todos os seres.


Chorecá –  Raposa 


Etçamyá – Parente, alguém conectado pela linhagem espiritual.


Kawá – Guardião silencioso, aquele que observa e orienta.


Ibé – Caminho ou trilha espiritual.


IgaboinéƝye – Espírito-animal guardião, protetor de passagens importantes.


Inghéá – As crianças, irmão, companheiro de jornada, aquele que caminha ao lado.


Itákyîutî – Picapau de Topete Amarelo 


Itákyapûrang – Picapau de Topete Vermelho


Hiné – Luz, brilho ou manifestação espiritual.


Maguari – Ave branca de longas pernas, símbolo de vigilância e memória.


Opará – Nome ancestral do Rio São Francisco, considerado sagrado por muitos povos originários.


Retsé – Floresta 


Tapiti – Coelho 


Sacrísã – O nascimento, sagrado, divino, consagrado pelo espírito.


Suçuarana – Onça-parda, puma 


Sutu – Tronco, raiz ou origem primordial.


Worobüyé – Palavra associada ao ato de contar histórias, narrativas sagradas ou ensinamentos antigos.





🪶 DADOS BIOGRÁFICOS DO AUTOR



Nhenety Kariri-Xocó é um contador de histórias, escritor, pesquisador da tradição oral e guardião cultural de seu povo. Nascido no território indígena Kariri-Xocó, em Porto Real do Colégio, Alagoas, carrega consigo a força ancestral de sua nação e dedica sua obra à preservação da memória e dos saberes indígenas.


Escreve contos, crônicas, cordéis, fábulas, reflexões espirituais e narrativas que conectam tradição, cultura e conhecimento universal. Sua literatura caminha entre mundos — indígena, histórico, mítico e espiritual — criando pontes entre tempos e povos.


Além de escritor, é divulgador cultural, estudioso das antigas civilizações, pesquisador da origem dos povos ameríndios e apaixonado por tradições sagradas. Mantém um blog onde publica parte de sua produção escrita, sempre com objetivo de compartilhar conhecimento e fortalecer a identidade indígena.


Com delicadeza, força e visão ancestral, Nhenety usa a palavra para manter viva a chama de seu povo e honrar os espíritos que caminham ao seu lado.





⭐ ORELHA DO LIVRO (LADO ESQUERDO) – Sobre o Autor



Nhenety Kariri-Xocó é mais que escritor: é um contador de histórias nascido da tradição oral de seu povo. Suas palavras carregam o ritmo das águas do Opará, a força do vento que sopra nas aldeias e o brilho dos ensinamentos espirituais preservados há gerações.


Sua obra combina sabedoria ancestral, sensibilidade poética e profunda conexão com o sagrado. Fala para adultos, crianças e espíritos — todos que caminham entre a memória e o sonho.


Neste volume, ele dá continuidade ao projeto literário que homenageia sua nação e revela ao leitor um universo rico em mensagens, símbolos e beleza.





⭐ ORELHA DO LIVRO (LADO DIREITO) – Sobre a Obra



“Worobüyé – Fábulas Kariri-Xocó” apresenta um conjunto de narrativas que iluminam o caminho do leitor. São histórias que unem animais, espíritos, símbolos universais e elementos da vida indígena, formando uma teia harmoniosa de ensinamentos.


Cada fábula é uma semente.

Cada personagem, um mensageiro.

Cada linha, um gesto de amor ao conhecimento ancestral.


Este livro é convite e travessia: ele conduz o leitor ao encontro do visível e do invisível, do real e do espiritual, do antigo e do presente.

Uma obra para ser lida com o coração atento e o espírito aberto.






Autor: Nhenety Kariri-Xocó 



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