sexta-feira, 5 de dezembro de 2025

WOROY HISTÓRIA – KARIRI-XOCÓ, CAMINHOS E SABERES, Contos – Volume 17 – Coletânea, Nhenety Kariri-Xocó






📄 FALSA FOLHA DE ROSTO



WOROY HISTÓRIA – KARIRI-XOCÓ, CAMINHOS E SABERES

Contos – Volume 17 – Coletânea

Nhenety Kariri-Xocó





📄 VERSO DA FALSA FOLHA DE ROSTO



Direitos reservados ao autor.

Nenhuma parte desta obra poderá ser reproduzida sem autorização expressa do autor.


Obra literária produzida em 2025.





📄 FOLHA DE ROSTO (FRONTISPÍCIO)



WOROY HISTÓRIA – KARIRI-XOCÓ, CAMINHOS E SABERES

Contos – Volume 17 – Coletânea


Autor:

Nhenety Kariri-Xocó

Povo Kariri-Xocó – Porto Real do Colégio (AL)





📚 FICHA CATALOGRÁFICA (MODELO)



Kariri-Xocó, Nhenety.

Woroy História – Kariri-Xocó, Caminhos e Saberes: Contos – Volume 17 – Coletânea /

Nhenety Kariri-Xocó. — 1. ed. — Brasil, 2025.

180 p. ; il.


ISBN: (a inserir)


Literatura indígena.


Contos tradicionais.


Cultura Kariri-Xocó.


Saberes ancestrais.


Narrativas orais.

I. Título.


CDD 869.93





🌺 DEDICATÓRIA



Dedico este volume

aos Espíritos Ancestrais que caminham comigo,

aos Encantos da Mata,

às águas do São Francisco,

e a cada Kariri-Xocó que preserva, com coragem,

o fogo sagrado das histórias.





🙏 AGRADECIMENTOS



Agradeço aos anciãos da minha aldeia,

aos meus mestres de palavra,

aos que vieram antes de mim

e deixaram pegadas na areia do tempo.

Agradeço também aos que leem esta obra,

pois cada leitura mantém viva a memória

dos caminhos e saberes do meu povo.





✨ EPÍGRAFE



"Quem guarda a história, guarda o espírito.

Quem conta a história, espalha a semente."

— Provérbio Kariri-Xocó





📑 SUMÁRIO



Prefácio


Apresentação


Introdução


Contos Caminhos e Saberes: 


1. Uo Aiby Nhenetí, O Caminho de Tradição;


2. Bohé Subatekié, A Transmissão do Conhecimento;


3. Bohé Worobü, Ensinar Contar; 


4. Netsoddayé, Ver o Mundo Todo; 


5. Patã e Porã, Dois Irmãos no Mundo;


6. Torãpisetí, Livretos Pendurado no Cordão; 


7. Casa de Nhenety;


8. Nhenety e a Escola da Vida; 


9. Ginásio São Francisco; 


10. Buyê Woroyá, A Fogueira das Histórias; 


11. Do Barro da Rua ao Saber da Aldeia. 


Apêndices


Glossário Kariri-Xocó


Dados Biográficos do Autor


Orelha do Livro


Capa e Contracapa 





📃 PREFÁCIO



Este livro nasce da força da memória, como água antiga que corre pelos veios do tempo e alimenta cada raiz plantada pelos antepassados. Woroy História – Kariri-Xocó, Caminhos e Saberes é mais do que um conjunto de textos: é uma travessia, uma caminhada sagrada pelas vozes que ecoam das margens do Opará, do terreiro da aldeia, do barro moldado pelas mãos sábias e do canto que vibra no coração dos espíritos guardiões.


Aqui, as histórias se entrelaçam como cipó entre árvores ancestrais, revelando passagens vividas, imaginadas, sonhadas e herdadas. Cada página é um reencontro com a essência do povo Kariri-Xocó, cada palavra é um modo de firmar a vida, a luta e a identidade.


Este prefácio convida você, leitor, a entrar com respeito e escuta. É preciso caminhar devagar, com espírito atento. As narrativas deste livro transportam para um tempo que não se perdeu: está vivo nos rituais, nos cantos, nos passos dançados e no conhecimento que atravessa gerações.


Que este livro seja ponte, raiz, memória e renascimento.

Que ele fortaleça a voz de Nhenety Kariri-Xocó e a grandeza de seu povo.

E que quem o leia possa sentir — como vento suave nos galhos — o sopro dos ancestrais.





📃 APRESENTAÇÃO



Sou Nhenety Kariri-Xocó, contador de histórias, filho da tradição oral e escrita, guardião das memórias do meu povo, e é com profundo respeito que apresento esta obra: Woroy História – Kariri-Xocó, Caminhos e Saberes. Este livro reúne contos, vivências, lembranças, ensinamentos, sonhos e percepções que caminharam comigo durante muitos ciclos da vida.


A obra surge como continuidade de minha missão de registrar, transmitir e preservar aquilo que herdamos dos mais velhos. São relatos que falam de espiritualidade, antepassados, caminhos de luta, de resistência, de cura e de beleza. Nada aqui está solto: tudo nasce da terra, do tempo, do sagrado e da ancestralidade.


Esta apresentação é um convite para que você, leitor, entre comigo nessa jornada. Aqui, a palavra não é apenas narrativa: é fundamento. É ferramenta de cura. É modo de existir.


Cada conto, cada reflexão e cada ensinamento presente neste livro foi tecido com zelo, com amor profundo pela cultura Kariri-Xocó, com reverência aos espíritos da floresta, aos guardiões do rio, e aos mestres que vieram antes de nós.


Receba este livro como se recebe um artesanato vivo: com cuidado nas mãos e com abertura no coração.





📃 INTRODUÇÃO



A história do povo Kariri-Xocó está escrita na terra, na água, no vento e no corpo de cada geração. Este livro surge como registro e celebração dessa caminhada, reunindo contos e saberes que atravessaram o tempo preservados pela oralidade de nossas famílias, pelos mestres da aldeia e pelos espíritos que guiam nossos passos.


Nesta introdução, o leitor encontrará o fio que conduz o restante da obra: a compreensão de que cada narrativa aqui apresentada resgata uma parte do imaginário ancestral, dos ensinamentos espirituais e dos caminhos vividos pelo autor e por seu povo. Não se trata apenas de ficção nem apenas de memória: trata-se da união entre o real e o sagrado, entre o vivido e o sonhado, entre o visível e o invisível.


Ao longo das páginas, será possível perceber como cada conto carrega elementos da cosmologia indígena, da resistência histórica, das celebrações tradicionais, das mensagens deixadas pelos espíritos da mata e das experiências cotidianas que moldam a identidade Kariri-Xocó.


Esta introdução também serve como um reconhecimento: escrever é uma forma de lutar, de preservar e de ensinar. Por isso este livro não é somente um conjunto de textos — é um território de memória, um espaço de afirmação cultural, uma forma de manter viva a chama ancestral.


Que esta obra encontre seu lugar entre aqueles que desejam conhecer, respeitar e aprender com a simplicidade profunda que habita a sabedoria do povo Kariri-Xocó.





📃 CONTOS CAMINHOS E SABERES 




01. UO AIBY NHENETÍ, O CAMINHO DE TRADIÇÃO 





Nos tempos antigos, antes que os navios cruzassem o mar e trouxessem consigo a cruz e o ferro, existia, entre as árvores e os cantos do Opará, a aldeia sagrada de Natiá. Lá, os Kariri Dzubukuá dançavam com os pés na terra e os olhos no céu, entoando cantos que os velhos aprendiam com os espíritos e repassavam aos mais novos nas noites de lua cheia.


Natiá era mais que uma aldeia — era um coração pulsando no ventre da floresta. Seus caminhos se entrelaçavam com os passos dos encantos, seus fogos guardavam as histórias dos primeiros tempos. Em cada árvore, um ensinamento. Em cada pedra, uma memória.


Mas os ventos mudaram. Vieram os homens de além-mar com suas roupas escuras e vozes em línguas cortantes. Trouxeram livros, igrejas e escolas. Com eles, vieram os jesuítas, que conduziram os Kariri para o que chamaram de Missão do Colégio. Ali, fundaram uma nova aldeia: Natiacró, “a cidade de pedra”.


As casas foram construídas com blocos frios, alinhadas como se o espírito tivesse sido esquecido entre as frestas. Tudo era controlado, contado, medido. As rezas eram outras, e os cânticos dos pajés silenciados por sinos de ferro.


Mas o espírito Kariri é raiz funda e não morre.


À noite, quando o silêncio da missão repousava, os passos voltavam a ecoar pela mata. Homens, mulheres e crianças saíam em segredo de Natiacró, cruzando o velho caminho. Esse caminho era Uo Aiby Nhenetí, o Caminho da Tradição. Um trilho ancestral que unia o presente colonizado à memória viva dos encantos de Natiá.


Era um caminho estreito, de terra vermelha e alma antiga. As ladeiras lembravam as dificuldades de manter viva a cultura. As curvas, as surpresas e armadilhas do mundo dos brancos. As pedras, os obstáculos da luta cotidiana. Mas cada passo era também um reencontro com os avós, com os cantos antigos, com os rituais que o tempo não levou.


Em Natiá, os Kariri dançavam como antigamente. Os maracás cantavam novamente. Os rituais floresciam sob o céu estrelado. E antes do sol nascer, retornavam à aldeia urbana como se tivessem apenas sonhado. Mas era um sonho real, feito de verdade e resistência.


Muitas gerações passaram por esse caminho. Cada pegada deixada ali é uma lembrança de que somos feitos de resistência, de retorno, de memória.


Hoje, mesmo com a cidade de pedra ao redor, o povo Kariri-Xocó continua a trilhar o Uo Aiby Nhenetí. Pois enquanto houver caminho, haverá tradição. E enquanto houver tradição, haverá vida.





02. BOHÉ SUBATEKIÉ, A TRANSMISSÃO DO CONHECIMENTO 





Um Conto Sobre Conhecimentos 



Na aldeia de Natiá, onde as árvores da caatinga se curvam ao vento e os rios cantam histórias antigas, o jovem Tiré, de olhos curiosos como os de um beija-flor, caminhava ao lado de seu avô Duboré, um dos últimos Duboherí – mestre da sabedoria ancestral.


Era o dia da grande fogueira. Ao entardecer, todos se reuniam ao redor do fogo sagrado para ouvir histórias, aprender os ofícios e cantar os cantos do povo. Ali começava mais um ciclo de aprendizado. Era o Bohé, o momento de ensinar. Era o Subatekié, a semente da sabedoria sendo entregue de coração a coração.


— Tiré, hoje tu vais aprender como os antigos caçavam com arco e badoque — disse Duboré, oferecendo ao neto um pequeno galho reto da jurema-branca. — Mas antes, escuta o canto do vento. Ele te mostra por onde corre o veado, por onde salta a cutia.


Tiré pegou o galho, cheirou a madeira, e seu avô sorriu. Ali não era só o arco que estava sendo passado. Era o olhar, o silêncio da espera, o respeito pela floresta.


Enquanto isso, a avó Inhaná, mulher sábia das panelas e da cura, ensinava às meninas mais novas a modelar a argila: potes, panelas, pratos, tudo ganhava forma sob as mãos das anciãs. Ela dizia:


— A argila é como a nossa memória. Mole no começo, mas firme quando queimada no fogo da vida.


No roçado, o tio Kauiri mostrava aos rapazes como plantar o milho e a mandioca. Fazia o gesto com as mãos, enquanto dizia:


— O solo escuta o nosso coração. Se plantar com raiva, ele se fecha. Se plantar com amor, ele brota até no tempo seco.


Mais adiante, sob uma árvore grande, a jovem Yaratá ajudava as crianças a confeccionar bonecas de milho, arcos de brinquedo, e pinturas com urucum. O riso das crianças se misturava aos sons dos maracás e buzos, que os adolescentes aprendiam a construir com o velho Tamoré, o fabricante de música.


À beira do rio, pescadores experientes mostravam como usar a kuwú, o jereré, e as tarrafas, enquanto contavam histórias dos peixes encantados e da mulher-água que só aparece em noites de lua cheia.


E à noite, sob o luar, o contador de histórias Paraní se levantava. Sua voz era macia como o vento da madrugada, e dizia:


— Tudo isso que aprenderam hoje, crianças, é só metade do saber. A outra metade está no sonho. Dormir também é aprender.


Assim se formava o conhecimento do povo Kariri-Xocó. Não havia caderno, mas havia memória. Não havia prova, mas havia prática. E a aldeia inteira era escola, onde cada canto ensinava algo: das conchas e ossos dos animais, colhidos pelos catadores de ornamentos, às danças sagradas do Toré, aos cantos que ecoavam no corpo pintado.


Tiré, que começou o dia ouvindo o vento, dormiu nessa noite com o coração cheio. Sonhou que era um grande Duboherí, ensinando à próxima geração.


E assim o ciclo continuava.


No povo de Natiá, ensinar era viver.


E viver era não deixar morrer o que os ancestrais plantaram com tanto amor.






03. BOHÉ WOROBÜ, ENSINAR CONTAR 





Um Conto Sobre Aprender a Contar



Era fim de tarde na aldeia. O vento soprava suave entre as palhas das malocas e o cheiro do mingau de milho se misturava ao som dos pássaros voltando para seus ninhos. Sentada à sombra de um juazeiro, a menina Tainá observava a avó Mainá trançar um cesto de folhas de carnaúba. Seus olhos brilhavam de curiosidade.


— Mainá... como é que a gente aprende a contar na nossa língua? — perguntou, com a voz doce de quem carrega sede de aprender.


A anciã sorriu com ternura, seus olhos guardavam memórias antigas.


— Ah, minha netinha, vou te ensinar do jeito que aprendi com minha mãe, e ela com a mãe dela... Isso se chama Bohé Worobü, o ensino de contar. Nosso povo sempre usou o corpo para aprender, porque o corpo é a nossa primeira escola. Olhe aqui minhas mãos — disse, estendendo os dedos finos e firmes — elas são chamadas Mysã. E os nossos pés, que nos carregam pelo mundo, são os By. Com eles, a gente chega até o número vinte.


Tainá sorriu, prestando atenção enquanto a avó começava a mostrar:


— Um dedo é bihé...


A menina repetiu com alegria:


— Bihé!


— Dois é wacháni... três, wachanidikié... quatro, sumarã orobae... — e a avó continuava, apontando para cada dedo.


— Cinco? — perguntou Tainá, contando os dedos da mão.


— Ah, cinco já é especial. Dizemos: mŷ bihé misã saí, que quer dizer "levar uma mão para ele". — Mainá riu, tocando a mão da neta.


— E se eu quiser dizer seis?


— Então acrescentamos mais um dedo à mão. Dizemos mŷreprí bubihé misã saí, levar uma mão com mais um dedo para ele.


— E sete?


— Sete é mŷreprí wacháni misã saí, uma mão mais dois dedos. E assim por diante...


Enquanto ensinava, Mainá pegava pequenas sementes e colocava uma a uma sobre o cesto, ajudando Tainá a visualizar os números.


— Quando a gente chega em dez, dizemos mŷcribae misã saí, levar todas as mãos para ele. E se usamos também os pés, chegamos a vinte: mŷcribae misã idehó ibŷ saí, levar todas as mãos incluindo os seus pés para ele.


Tainá ficou maravilhada.


— Então se eu estiver com minha prima, nós duas juntas, podemos contar até quarenta?


— Exatamente! — respondeu Mainá, orgulhosa. — Nosso povo sempre foi criativo. Se tiver mais pessoas, podemos contar o mundo inteiro com as mãos e os pés.


As duas riram juntas. O sol começava a se esconder no horizonte, tingindo de ouro o céu do sertão. Naquele instante, Tainá não aprendeu só a contar. Aprendeu que números também carregam memória, afeto e ancestralidade.


E assim, sob o juazeiro, uma geração passava seu saber à outra — como o rio que segue, levando consigo a canoa dos antigos.






04. NETSODDAYÉ, VER O MUNDO TODO 






Um conto do povo Kariri-Xocó



Netsoddayé — Ver o Mundo Todo é um conto nascido da tradição oral do povo Kariri-Xocó.


Por meio da jornada de um menino que deseja se tornar contador de histórias, este texto nos convida a refletir sobre o valor da escuta, da sabedoria coletiva e da visão compartilhada de mundo.


Cada pessoa carrega um pedaço da realidade. O verdadeiro contador de histórias é aquele que costura essas visões com respeito e sensibilidade.


Que este conto, simples e profundo, inspire outros a ouvirem com mais atenção e a contarem com mais verdade.


Desde pequeno, Nhenety carregava um desejo no peito: queria ser um contador de histórias. Sonhava em guardar as memórias do seu povo e levá-las adiante como sementes levadas pelo vento.


Certa manhã, tomou coragem e procurou o velho cacique Otávio Nidé, que morava bem em frente à sua casa. Ele era respeitado como um grande mestre das histórias e dos saberes ancestrais.


— Tio Otávio, disse com os olhos cheios de brilho, quero ser contador de histórias como o senhor. O que preciso fazer?


O cacique sorriu com ternura e respondeu:


— Para isso, você precisa conhecer Netsoddayé.


Nhenety arregalou os olhos:


— O que é essa palavra, tio?


— Netsoddayé é “ver o mundo todo” — explicou o cacique, com voz serena, no Kariri a palavra netso é ver, enquanto radda o mundo e buyé poder ser grande.


O menino suspirou, preocupado:


— Então... eu nunca vou conseguir. Como poderei ver o mundo todo? 


O velho sábio repousou a mão em seu ombro e falou:


— Nosso povo Kariri-Xocó é o nosso mundo. E cada pessoa carrega um pedaço dele. Vá, fale com os mais velhos. Ouça com atenção. Assim você começará a ver o mundo. 


Renovado de esperança, Nhenety partiu em sua jornada.


Seu primeiro encontro foi com sua avó, a ceramista Júlia Muirá, que moldava com carinho a argila da terra.


— Vovó, perguntou com doçura, como é o mundo para você?


A avó sorriu e respondeu:


— Para mim, o mundo é a terra de onde retiro a argila. É nela que moldo potes e panelas de barro. O mundo nasce da terra e retorna para ela.


Mais adiante, em outro dia, Nhenety cruzou caminho com o caçador Kandará, que caminhava com passos leves pela mata.


— Senhor Kandará, perguntou, como é o mundo para o senhor?


Kandará respondeu:


— O mundo é a floresta. É onde caço tatu, capivara, preá, nambu. É um mundo de folhas, sombras e sons. Cada passo é um encontro com a vida.


Dias depois, à beira do rio, Nhenety encontrou o pescador Moaci.


— Senhor Moaci, perguntou com curiosidade, como é o mundo para o senhor?


O pescador, enquanto ajeitava suas redes, respondeu:


— O mundo, para mim, é o rio. Ele é cheio de peixes que alimentam minha família. É um mundo de águas que nunca param, sempre em movimento.


O tempo passou, e Nhenety cresceu. Por muitos anos, conversou com seu povo: ouviu as histórias dos anciãos, dos artesãos, dos curandeiros, das crianças. Guardou cada palavra com carinho.


Um dia, já rapaz, viu o velho cacique Nidé sentado sob uma árvore, agora com os cabelos brancos como nuvem.


Sentou-se ao seu lado e contou tudo o que havia aprendido — os mundos que conhecera em cada pessoa.


O cacique ouviu em silêncio. Depois, com um sorriso sábio, disse:


— Nhenety, o mundo do nosso povo ninguém vê por completo. Cada pessoa enxerga um lado, um canto, um fragmento. O contador de histórias precisa andar todo o círculo, ouvir cada um, costurar esses fragmentos. Só assim terá uma visão maior do mundo.


Nhenety compreendeu, enfim, que a verdadeira arte de contar histórias não estava em conhecer tudo, mas em ouvir com o coração aberto. E que, em cada voz, morava um pedaço do Netsoddayé.


Naquele dia, ela se levantou com uma certeza: já havia começado a ver o mundo todo.


Agora era sua vez de espalhar essas histórias como sementes.


Pois quem ouve para aprender, um dia contará para ensinar.





05. PATÃ E PORÃ, DOIS IRMÃOS NO MUNDO 





Nas margens sagradas do Rio São Francisco, nasceu uma dupla de irmãos na aldeia Kariri-Xocó: Patã e Porã. Vieram ao mundo sob o mesmo céu, respiraram o mesmo ar, aprenderam com o mesmo rio. Desde pequenos eram inseparáveis — nadavam, corriam entre as árvores, pescavam com as mãos e com riso fácil. O tempo era feito de brincadeiras e descobertas.


Quando a escola chegou à aldeia, Patã logo se encantou. Havia um brilho em seus olhos diante dos livros, das letras, dos mapas. Queria saber do mundo grande, das cidades com muitos carros, das terras além das matas. Porã, ao contrário, torceu o rosto. Não queria escola de branco. Preferia as lições do vento, da mata, dos velhos sábios. Ele via beleza nas palavras ancestrais, nas histórias dos espíritos e nas danças do povo.


O tempo passou, como o rio que nunca para. Patã foi embora um dia, sem muitas palavras. Partiu para conhecer o mundo dos livros, das cidades, das novidades. E conheceu. Viajou muito, trabalhou, enriqueceu, casou-se com uma mulher branca e construiu uma família grande.


Porã ficou. Plantou, caçou, escutou. Casou-se também, formou sua família e aprendeu, pouco a pouco, os cantos da floresta, o nome das estrelas, os sinais do tempo. Tornou-se sábio na tradição do seu povo.


Décadas se passaram até que um dia, quando o sol se deitava lento no horizonte do rio, Patã retornou. Trazia no rosto rugas de saudade. Porã o reconheceu de imediato, e os dois se abraçaram como se a vida inteira coubesse naquele gesto. Patã trouxe presentes, lembranças do mundo lá fora, e alegria à família do irmão.


Conversaram longamente ao redor da fogueira. Patã disse, com os olhos marejados:


— Irmão, vi o mundo, conheci cidades imensas, aprendi línguas, costumes. Mas sinto um vazio em mim. Falta-me a alma da aldeia, as histórias do nosso povo que eu nunca vivi...


Porã então respondeu, com a mesma emoção:


— E eu, irmão, que fiquei, carrego outro vazio. Sinto falta de saber como é o mundo lá fora, as coisas que o branco criou, as pontes, as máquinas, os caminhos que nunca vi...


Silenciaram por um tempo. E então, com a sabedoria que só os rios e os reencontros ensinam, disseram quase ao mesmo tempo:


— Me ensina o mundo de fora?


— Me ensina o mundo de dentro?


E assim fizeram. Um passou a ensinar ao outro. Patã contava das cidades, das invenções, do outro jeito de viver. Porã ensinava os cantos antigos, os rituais, as plantas, os espíritos. Era uma grande troca. Um aprendizado duplo. O saber da aldeia e o saber do mundo.


Descobriram então que mesmo aquele que nasceu na tribo podia estar distante dela — e mesmo o que foi embora podia trazer algo de volta. Compreenderam que todos os povos da Terra foram criados e são necessários.


E ali, nas margens do velho rio, os dois irmãos fundaram um novo tempo — onde os saberes se abraçam e caminham juntos.






06. TORÃPISETÍ, LIVRETOS PENDURADO NO CORDÃO 





Um Conto Sobre o Cordel



Na aldeia onde o vento conversa com as folhas e os pássaros carregam as histórias no bico, vivia um velho ancião chamado Arakuá. Seus cabelos brancos pareciam algodão de nuvem e sua voz era pausada como o bater de um tambor ancestral. Toda tarde, ele se sentava à sombra do juazeiro com um punhado de livretos amarelados, pendurados por um cordão de palha.


Certo dia, um jovem curioso chamado Itã aproximou-se, intrigado com aqueles papéis escritos em rimas, desenhos simples e capas coloridas.


— Vovô Arakuá — disse Itã, com olhos atentos — por que o senhor gosta tanto desses cordéis? E por que chama de Torãpisetí?


O velho sorriu, como quem abre a porteira do tempo.


— Ah, meu neto... Torãpisetí quer dizer “Livretos Pendurado no Cordão”. No outro lado do oceano ele veio com os portugueses chamado histórias de cordel. 


 Mas em nossa língua: Torarã, que são cartas ou livros; Pineté, que é pequeno; e Setí, que é o cordão. Esses livretos falam de tudo que mora no coração do nosso povo. Quer saber como eles nasceram?


Itã assentiu com entusiasmo.


— Então escuta, que vou te contar por ciclos, como as fases da lua...


— Primeiro, nasceu o ciclo das maravilhas, Itã. — disse Arakuá, olhando para o céu — Lá moram os gigantes, as fadas, os monstros dos sonhos. O povo contava sobre a Princesa Encantada na Montanha do Fim do Mundo, onde cada estrela era uma sentinela. Tinha também a Serpente dos Sete Olhos, que vigiava os rios secretos da floresta.


Itã abriu a boca, maravilhado.


— Essas histórias, meu neto, nascem do que a gente sente, do medo e da coragem. Os primeiros cordéis foram como cantos de encantamento.


— Depois vieram os heróis antigos. — continuou Arakuá — Aqueles de força e glória. Sansão, o fortíssimo de Deus, que derrubou colunas com as próprias mãos. E Hércules, que venceu doze desafios, entre feras e monstros. Até Alexandre, o rei que falava com magos do Oriente.


— Tudo isso em cordel? — perguntou o menino, surpreso.


— Tudo, sim. Porque o cordel é como o tambor: guarda o eco do mundo.


— Quando o coração do povo apertava de dor ou se enchia de fé, nasceram os cordéis religiosos. — disse o ancião com reverência — Tem a Vida, Paixão e Morte de Nosso Senhor Jesus Cristo. Milagres de Padim Ciço, que curava com olhar. E São Francisco, que falou com o lobo e o fez amigo dos homens.


— Esses são os que a vovó reza de noite, né?


— Exatamente, Itã. O Torãpisetí também serve de oração.


— Depois, meu neto, veio o tempo da luta. — disse com voz firme — Cordéis que contam sobre reis desaparecidos, como Dom Sebastião, que o povo espera até hoje. Falam de Zumbi, rei dos quilombos, e de Tiradentes, que sonhava com liberdade.


— Eles também são heróis?


— Heróis do povo. O cordel lembra quem enfrentou a injustiça.


— E o nosso sertão? Ah, esse virou palco de valentia e peleja. — sorriu Arakém — Lampião e Maria Bonita desceram até o inferno em versos. Zé Sereno brigou com o coronel Libório. Cada cabra valente do sertão virou cantiga pendurada no cordão.


— Esses eu ouvi no rádio!


— Pois é, o rádio pegou do cordel o jeito de contar história.


— Por fim, Itã, veio o ciclo da vida comum. — disse Arakuá — O vaqueiro Benedito que perdeu o gado e achou o amor. A moça da roça que namorou o rapaz da cidade. Até a internet chegou no sertão e ganhou cordel!


Itã deu uma gargalhada.


— Até a internet?


— Ué, o mundo muda, mas o cordão segura tudo. É como raiz que cresce em todo canto.


O sol já caía quando Arakuá levantou um dos livretos e entregou ao neto.


— Leva este contigo, e lê em voz alta sempre que puder. Porque quando o Torãpisetí balança no cordão, balança junto a alma do povo.


Itã apertou o livreto no peito, como quem segura um segredo ancestral.


E desde esse dia, nas tardes quentes da aldeia, dois se sentam à sombra do juazeiro: o velho e o novo, juntos, segurando com orgulho os livretos pendurados no cordão.






07. CASA DE NHENETY



A Rua dos Índios é o chão sagrado onde o passado respira e o futuro floresce.


Na Rua dos Índios guardada,

há lembrança e tradição,

barro, telha e resistência,

força viva da nação.

Kariri-Xocó ressoa,

batendo em cada coração.



Memórias da Rua dos Índios em Porto Real do Colégio





A casa de barro e telhas na Rua dos Índios, onde Nhenety nasceu em 10 de setembro de 1963. Anteriormente as casas eram de palhas e barro, mas na enchente do Rio São Francisco em 1960 as casas foram danificadas, o SPI ( Serviço de Proteção aos Índios ) fez a reforma de casas de barro e telhas. 


Esta casa não é feita apenas de barro, telha e alvenaria.

Ela é feita de memórias, de vozes antigas e de sonhos de crianças.

Cada parede guarda uma história,

cada objeto carrega um pedaço da vida,

cada canto é testemunha do riso e do choro,

da luta e da resistência do povo Kariri-Xocó.



A Rua dos Índios





Os Kariri-Xocó, indígenas do município de Porto Real do Colégio (AL), viviam originalmente na aldeia do Alto do Bode. Com a chegada dos jesuítas, foram levados para o Colégio, onde se fundou outro aldeamento. Posteriormente, além da Missão do Colégio, chegaram portugueses e pessoas de outras regiões.



A Casa de Nhenety na Rua dos Índios





Da fundação da Rua dos Índios em 1763 até 1972, as casas eram feitas de palha, barro e, em alguns casos, de telha. Em 1972, a FUNAI (Fundação Nacional do Índio) realizou uma reforma: construiu habitações de alvenaria de tijolos, pintadas em cores variadas, com energia elétrica e água encanada. Essa mudança transformou a estrutura tradicional do lugar.



A casa onde Nhenety nasceu foi também a casa de seus irmãos. Inicialmente, pertenceu aos avós paternos Manoel Nunes Suré e Júlia Pires Muirá, até 1948, quando passou a ser de Alírio Nunes e Maria de Lurdes Ferreira.



Alírio Nunes e Maria de Lurdes Ferreira





Em 1948, os indígenas Alírio Nunes de Oliveira e Maria de Lurdes Ferreira casaram-se na Igreja de Nossa Senhora da Conceição, em Porto Real do Colégio. Dessa união nasceram os filhos e filhas: Marinalva, Lindinalva, Hélia, Antônio, Lurdinha, José (Nhenety) e Erílio.


Todos nasceram nessa casa, feita de barro e telhas até 1971, ano anterior à reforma promovida pela FUNAI.



A Sala da Casa





Na sala da casa reformada havia uma balança antiga, utilizada por Alírio Nunes em seu trabalho de comerciante de peixes do Rio São Francisco.



Nesse espaço, também havia:


uma mesinha com rádio,


uma cadeira,


o quadro de Nossa Senhora de Fátima,


o quadro do Coração de Jesus,


e o retrato do casal.


Era ali que os indígenas escutavam notícias, jogos de futebol e programas de rádio.



Quarto do Casal





No quarto de Alírio e Maria de Lurdes havia uma cama de casal e um guarda-roupa, onde eram guardadas as roupas de todos os membros da família.


Em tempos de festas na cidade, colocavam-se as roupas novas em cima da cama, para admirar antes de vestir. Nesse quarto nasceram todos os filhos do casal, e foi também o espaço onde as crianças brincavam juntas.



Quarto dos Filhos





No quarto dos filhos havia inicialmente três camas; depois, duas, além de um berço e um baú.


Com o tempo, as filhas foram se casando: primeiro Marinalva, depois Lindinalva e, por último, Hélia. Ficaram então os irmãos Antônio, Lurdinha, José Nunes (Nhenety) e Erílio (Lirinho).


O caçula, Erílio, dormia numa redinha no quarto dos pais até os quatro anos de idade.



Sala de Jantar 





A sala de jantar era ampla, com:


uma mesa colonial de pés torneados,


cadeiras antigas,


uma cristaleira com pratos de porcelana, bule, xícaras, talheres e copos.


A mesa era sempre farta no café da manhã, no almoço e no jantar, reunindo filhos, netos e parentes.


O cardápio incluía peixes do Rio São Francisco, feijão, arroz, farinha, mandioca e produtos cultivados na aldeia ou comprados na cidade.



A Cozinha da Casa





Na cozinha havia um armário antigo azul, onde se guardavam pratos, talheres e copos.


Um fogão de carvão de duas bocas, o tanque de carvão e os potes de barro com água tratada completavam o espaço.


A comida preparada por Maria de Lurdes tinha sabores inigualáveis: cozidos, ensopados, doces e, por vezes, chás medicinais da tradição indígena.


Na prateleira ficavam panelas, caldeirões, colheres e canecos de alumínio típicos da época.



Quintal da Casa





Nos fundos havia um quintal com flores variadas e um pé de coqueiro.


No lado oeste, um muro de alvenaria fazia divisa com a Escola Indígena.


No lado sul, uma cerca de madeira delimitava a Lagoa do Cordeiro.


Ali eram criados cachorros, patos, galinhas e porquinhos-da-índia.


O quintal foi um espaço muito especial, onde todas as crianças brincavam, deixando lembranças inesquecíveis da Rua dos Índios.


A Casa de Nhenety, na Rua dos Índios, é mais do que uma moradia: é um lugar de memória, resistência e identidade.


Entre paredes de barro, telhas, alvenaria e cores, guarda-se a história de uma família e de um povo, que mantém viva a presença Kariri-Xocó em Porto Real do Colégio.






08. NHENETY E A ESCOLA DA VIDA





"Memórias de um contador de histórias: Nhenety relembra seus primeiros passos na escola indígena e os ensinamentos ancestrais de seu povo Kariri-Xocó."


"Cada memória é uma semente que guardo no coração. Neste conto, compartilho um pedaço da minha infância na aldeia Kariri-Xocó, quando descobri o poder das palavras e dos saberes ancestrais. Que essa história possa também tocar você."



Nhenety e a Escola da Vida



Um conto de saberes entre livros e histórias ancestrais



Na Rua dos Índios, na periferia de Porto Real do Colégio, em Alagoas, existia um pedaço de tempo guardado. Ali, onde hoje passavam carros e crianças com mochilas coloridas, foi, desde o Brasil Colonial, a morada dos Kariri.


Em 1944, o Posto Indígena Padre Alfredo Dâmaso trouxe novos ventos para a aldeia. Com ele, nasceram uma escola e uma pequena enfermaria — janelas para o futuro em meio ao barro vermelho da terra.


Era ao lado da escola que morava o pequeno Nhenety, filho de Alírio Nunes e Maria de Lourdes. Na casa simples, com cheiro de café e ervas do mato, cresciam também seus irmãos: Marinalva, Lindinalva, Hélia, Antônio, Lurdinha e Erílio.


Nhenety era o penúltimo da fila. Começou a escola em 1969, aos seis anos, levado pela mão calejada do pai. Quem ensinava era dona Terezinha Wanderley, uma mulher branca, vinda da cidade, que abria as portas do conhecimento com um sorriso e uma paciência infinita.


Na escola, o menino se encantou pelas palavras. Em 1973, já lia e escrevia com fluência. Seus olhos brilhavam mais forte quando, após as aulas, se refugiava na pequena Biblioteca Padre Anchieta. Ali descobriu mundos encantados nos contos dos Irmãos Grimm, e histórias que diziam do seu próprio povo e da terra onde pisava.


Os anos corriam, como o rio São Francisco que margeava a aldeia. Em 1976, Nhenety concluiu a 4ª série primária, como se dizia então. A escola tinha um novo nome — Gilberto Pinto Figueiredo Costa — homenagem da FUNAI a um sertanista que havia desbravado sertões e corações.


Tão próxima era a escola de sua casa que, nos momentos em que o rádio se calava, Nhenety ouvia as aulas da professora como um eco familiar, entrando pela janela.





Que tempos doces aqueles. Havia o recreio, as brincadeiras, as quadrilhas juninas, e o Dia do Índio, celebrado a cada 19 de abril com cantos e danças. No fogão da escola, dona Marieta preparava lanches que até hoje povoam as lembranças de Nhenety com gosto de infância.


Em 1980, já adolescente, ele seguia para o Ginásio São Francisco, na cidade. Atravessava ruas e estradas para estudar a 8ª série, ao lado de colegas indígenas e brancos. Ali conheceu jovens de outras paragens — meninos e meninas que vinham dos povoados, trazendo suas próprias histórias.


Mas foi em casa, ao cair da noite, que Nhenety aprendeu as lições mais valiosas. O ancião Otávio Nidé, cacique da aldeia, morava defronte. Todas as noites, atravessava a rua para escutar o rádio junto de Alírio, pai de Nhenety. E ali, entre uma canção e outra, os anciãos contavam histórias antigas, passadas de boca em boca como relíquias.


Nhenety ouvia em silêncio. Palavras se desenhavam em sua mente como traços de um bordado invisível. Mal sabia ele que, um dia, seria também contador dessas histórias — guardião da memória do povo Kariri-Xocó.


E assim, entre livros e fogueiras, rádio e tradição, o menino da Rua dos Índios foi se tornando aquilo que já era, em essência: um contador de histórias reconhecido a partir de 1990 com 27 anos de idade e daí não parou mais até os dias de hoje.


A escola da Aldeia recebeu vários nomes ao longo de sua história. Quando fundou o Posto Indígena Padre Alfredo Dâmaso em 1944 a instituição educacional recebeu o nome de Escola Kariri dos indígenas de Porto Real do Colégio. Em 1978 mudou o nome para Gilberto Pinto Figueiredo Costa. A partir de 2006 recebeu o nome de Escola Indígena Estadual Pajé Francisco Queiroz Suíra. 





09. GINÁSIO SÃO FRANCISCO





Naquela manhã de julho de 1960, o sol iluminava as margens do rio São Francisco com uma intensidade que parecia pressagiar algo grandioso. Era dia de festa em Porto Real do Colégio, cidade alagoana que despertava para novos tempos. Nas proximidades da praça principal, o povo se aglomerava diante do novo prédio de linhas modernas e paredes recém-pintadas. Ali nascia o Ginásio São Francisco — símbolo de esperança e avanço na educação do município.


Entre discursos e aplausos, o prefeito Ademário Vieira Dantas cortou a fita inaugural. Ao seu lado, líderes comunitários, professores e curiosos sentiam no peito um orgulho incontido. Aquela construção era mais que tijolo e cimento — era o sonho da educação germinando em solo fértil.


Com o passar dos anos, os bancos escolares do ginásio abrigaram os filhos da cidade e dos povoados ao redor. Da 5ª à 8ª série do 1º grau, formaram-se gerações de alunos que aprendiam, brincavam, sonhavam. A partir da década de 1970, os passos firmes dos jovens Kariri-Xocó começaram a ecoar pelos corredores. Saíam da Rua dos Índios em direção ao centro da cidade, de cabeça erguida, para estudar junto aos filhos dos brancos — cruzando fronteiras que antes pareciam invisíveis e intransponíveis.


Entre os indígenas que estudaram no Ginásio São Francisco, estava Nhenety Kariri-Xocó, que traz muitas boas lembranças de seus colegas de sala de aula, professores e direção. Mesmo após saída dos Kariri-Xocó da Rua dos Índios em 1978 para a nova Aldeia Sementeira, os indígenas continuaram no ginásio até seu fechamento. 


Nos dias 7 de setembro, a cidade parava para ver o desfile da Independência. Era bonito de ver. Uniformes bem passados, bandeiras em mãos, passos sincronizados ao som da banda marcial do ginásio. O bumbo, os metais, o ritmo da marcha — tudo aquilo fazia o peito vibrar. E, como se não bastasse, o velho ginásio ainda tinha um time de futebol que levava seus estudantes às disputas locais com garra e alegria. Cada partida era uma festa.


Mas como toda construção humana, o tempo foi impiedoso. Em 1985, com a criação do Centro Educacional Professor Ernane Figueiredo, o Ginásio São Francisco começou a perder sua força. Um a um, os estudantes migraram, os sons cessaram, as paredes silenciaram. E hoje, o que resta são ruínas cobertas de poeira e saudade.


Ainda assim, para quem estudou ali, o ginásio vive. Vive no cheiro da terra molhada ao sair das aulas, nos cadernos rabiscados, nas amizades eternas e nos desfiles cheios de orgulho. Talvez um dia, mãos decididas reergam o prédio e a memória que ele guarda. Até lá, o Ginásio São Francisco continuará vivo nas lembranças de um povo que nele aprendeu a sonhar.






10. BUYÊ WOROYÁ, A FOGUEIRA DAS HISTÓRIAS 





Quando o sol mergulha atrás da mata e o céu começa a se encher de estrelas, os Kariri-Xocó se reúnem ao redor da fogueira. A chama crepita como se tivesse boca, sussurrando os segredos antigos da terra. É nessa hora mágica, entre o crepúsculo e o sonho, que as histórias ganham vida.


Ali, sentados em círculo, os mais velhos falam — e os jovens escutam. É assim que se aprende na aldeia: ouvindo e vivendo. Durante o dia, as palavras viram ação — no roçado, na pesca, na coleta na mata, na construção das casas de taipa, nos rituais do ouricuri e nos mutirões para limpar a terra. À noite, os ensinamentos voltam em forma de histórias, como se fossem sementes jogadas ao vento, prontas para brotar na alma.


Naquela noite, o fogo dançava diferente. Os olhos brilhavam, não só pela luz, mas pela lembrança dos grandes Contadores de Histórias que haviam passado. O menino Rayron de olhos atentos perguntou:


— Avô Nhenety, quem eram eles? Os contadores antigos?


O ancião sorriu. Seus cabelos brancos reluziam como luar sobre a areia do rio. “Meu neto”, disse ele, “quem sabe contar a história da sua gente, já alcançou o doutorado da vida.” As histórias nativas e dos colonizadores se conectaram. 


E então, como se abrisse um grande livro invisível, o velho começou a narrar. Nós indígenas aprendemos com nossas tradições e também com a histórias que os brancos trouxeram e viveram com nós aqui em outros tempos.


“Houve Joaquim Fumaça, que falava do Tempo do Rei, das assombrações do engenho, do lobisomem espreitando na estrada de barro. O Velho Gringo era valente nas palavras — contava dos cangaceiros, de Lampião e Corisco, dos valentões do sertão e das artimanhas de João Grilo e Zé Bico Doce. Já Manoel Iraminon era um livro de política e história: falava da Revolução de 30, dos vaqueiros, dos coronéis e do sertanejo pobre.”


“O Cacique Otávio Nidé conhecia os caminhos da alma — contava dos pajés antigos, do Cemitério Sagrado onde se enterrava em igaçabas, das trovoadas como aviso do tempo. Pajé Francisco Suíra era outro mundo: falava com espíritos, curava doenças, enfrentava feitiços e invejas com a força do toré.”


"E Candará... Ah, esse era bicho do mato. Imita o canto dos pássaros, segue o rastro da capivara, do veado e do teiú. Antônio Preto era o homem do barro e do cipó: sabia levantar choupana e girau, conhecia os remédios da floresta e os segredos da madeira.”


“Cícero Irêcê, o grande Cacique, sabia das tribos do São Francisco, dos Kariri, Xocó, Tupinambás, dos conflitos com os brancos, das leis esquecidas e das promessas não cumpridas. E Júlio Queiroz, filho do Pajé Suíra, puxava toré com alma e rojões com fé — enquanto ajudava na roça, cantava a resistência.”


O menino escutava com olhos marejados. A fogueira tremulava como se aplaudisse.


“Dessas histórias saíram decisões importantes, meu neto. Retomamos nossa terra, fortalecemos nossos cantos, danças, a tradição do toré. As palavras dos velhos são como raízes — seguram nossa cultura firme contra qualquer vento.”


Naquela noite, o menino entendeu. Um dia, também ele contaria histórias ao redor da fogueira. Não porque era bonito, mas porque era necessário.





11. DO BARRO DA RUA AO SABER DA ALDEIA





Era outubro de 1978 quando os Kariri-Xocó deixaram as casas simples da Rua dos Índios e pisaram, com o coração apertado e os olhos esperançosos, a terra batida da antiga Fazenda Modelo. A mudança não foi apenas de endereço — foi o renascer de um sonho coletivo, a retomada de um território ancestral agora transformado em aldeia viva.


Naqueles primeiros tempos, as novas casas ainda não existiam. Os prédios da Fazenda estavam cheios de famílias que, com pouca ou nenhuma alternativa, faziam deles morada improvisada. Assim, a escola indígena continuou na velha Rua dos Índios, resistindo ao tempo e à poeira, onde os meninos e meninas aprendiam entre o som dos passarinhos e o eco da memória.





Foi só em 1981, com a chegada das 110 casas construídas pelo projeto conjunto entre a FUNAI e a Embaixada do Canadá, que o caminho da educação também se mudou. A Escola Indígena Gilberto Pinto Figueiredo Costa encontrou um lar definitivo na nova aldeia. Erguida com simplicidade e propósito, a escola tinha três salas de aula, uma cozinha cheirosa de mingau e café, e uma pequena secretaria onde os livros, como sementes, esperavam mãos curiosas para brotar sabedoria.


Sob o amparo do governo federal, conforme previa o Estatuto do Índio de 1973, a educação, assim como a saúde e o território, eram assegurados como direitos. O corpo docente, formado por mulheres de coragem e saber – Marly, Maria do Carmo, Lurdes e Ivone – era enviado pela FUNAI. Cada professora carregava não só o giz e os cadernos, mas também o compromisso de ensinar sem apagar a identidade do povo.


Com o tempo, os cadernos se multiplicaram, assim como os alunos. A aldeia crescia, e com ela, a necessidade de mais educadoras. Foi então que a prefeitura de Porto Real do Colégio uniu forças com a FUNAI, e novas professoras chegaram para partilhar o ofício de ensinar.





O tempo, como as águas do rio, seguiu seu curso. E em 2006, veio a estadualização das escolas indígenas. A Secretaria de Educação de Alagoas passou a cuidar do ensino nas aldeias com formação para professores e a construção de novas escolas. Na aldeia Kariri-Xocó, brotou um novo prédio, com nome sagrado e cheio de significado: Escola Indígena Pajé Francisco Queiroz Suíra.


Assim, a história da escola que nasceu na Rua dos Índios encontrou novo chão na aldeia. Mas seu espírito – o de ensinar com raízes profundas e olhos voltados para o futuro – segue firme, como a árvore que cresce regada por memórias e sonhos.




Autor dos Contos: Nhenety Kariri-Xocó 





📃 APÊNDICES



Apêndice A – Tradições Espirituais Kariri-Xocó


Registro de elementos sagrados que atravessam a vida do povo Kariri-Xocó: rituais de cura, cantos ancestrais, uso das ervas, caminhos espirituais, e os modos como os mais velhos ensinam a caminhar com respeito.


Apêndice B – História e Território


Breve panorama sobre o território tradicional Kariri-Xocó, a formação da aldeia, as lutas históricas, as transformações do tempo e o papel da memória coletiva.


Apêndice C – A Tradição Oral


Explicação sobre a importância da narrativa oral, os contadores de histórias, a transmissão familiar dos saberes, e a força do Woroy, a palavra que caminha.





📃 GLOSSÁRIO KARIRI-XOCÓ



Bohé Subatekié – A Transmissão do Conhecimento.


Bohé Worobü – Ensinar Contar.


Buyê – O fogo do povo Kariri do sertão  nordestino. 


Jurema – Planta sagrada utilizada nos rituais de cura e conexão espiritual.


Kariri-Xocó – Povo originário da região do baixo São Francisco, guardiões da memória, da terra e dos saberes ancestrais.


Netsoddayé – Ver o Mundo Todo.


Nhenety – Nome tradicional que significa “Palavra que floresce” ou “Aquele que ecoa a memória”, "Tradição".


Opará – Nome tradicional do Rio São Francisco, sagrado para diversos povos da região.


Pajé – Líder espiritual que conduz curas, ensinamentos e comunicações com os espíritos.


Patã –  A pancada forte.


Porã – O poder dos espíritos. 


Torãpisetí – O cordel, livretos pendurado no cordão. 


Toré – Ritual sagrado que reúne dança, canto e espiritualidade.


Uo Aiby Nhenetí – O Caminho de Tradição.


Woroyá –  As histórias contadas na fogueiras.


Woroy – Palavra viva, história que caminha, narrativa ancestral.





📃 DADOS BIOGRÁFICOS DO AUTOR



Nhenety Kariri-Xocó é contador de histórias, poeta, pesquisador da cultura ancestral e guardião da memória de seu povo. Nascido na aldeia Kariri-Xocó, em Porto Real do Colégio (AL), cresceu ouvindo os ensinamentos dos mais velhos, aprendendo os caminhos espirituais, o valor da palavra e o respeito à terra.


Autor de contos, cordéis, reflexões e registros culturais, dedica-se à preservação das tradições do seu povo, mantendo viva a chama da oralidade sagrada. É também estudioso das culturas antigas, das filosofias indígenas, das raízes espirituais das Américas e da força que conecta passado, presente e futuro.


Sua missão é transformar memória em palavra, palavra em ponte, e ponte em caminho para que novos leitores possam compreender a grandeza dos povos originários.





📃 ORELHA DO LIVRO



Woroy História – Kariri-Xocó, Caminhos e Saberes é uma travessia poética, espiritual e ancestral. Nesta obra, Nhenety Kariri-Xocó apresenta contos, memórias e reflexões que brotam do coração de seu povo e dos espíritos que caminham com ele. Cada história aqui é um território vivo, uma trilha aberta no tempo, um sopro de sabedoria que ecoa desde os antepassados até os dias de hoje.


Este livro é convite e reverência: convite ao leitor para adentrar o universo sagrado do povo Kariri-Xocó, e reverência aos mestres, pajés, anciãos e guardiões que mantêm a memória acesa. Uma obra que une tradição e palavra escrita, preservando o que é eterno e celebrando aquilo que continua vivo no espírito da aldeia.


Ao virar cada página, o leitor encontrará a força do Opará, o canto da mata, a coragem dos guerreiros antigos, e a profundidade dos ensinamentos que só o tempo e a ancestralidade podem oferecer.






Autor: Nhenety Kariri-Xocó 






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