📘 FALSA FOLHA DE ROSTO
WOROY HISTÓRIA – KARIRI-XOCÓ, TECNOLOGIA DIGITAL E INTELIGENTE
Contos – Volume 20 – Coletânea
Nhenety Kariri-Xocó
📘 VERSO DA FALSA FOLHA
Esta é uma obra literária integrante da Coletânea Woroy História, escrita por
Nhenety Kariri-Xocó, representante do povo Kariri-Xocó de Porto Real do Colégio (AL).
Todos os direitos são reservados ao autor.
Proibida a reprodução total ou parcial sem autorização.
📘 FOLHA DE ROSTO
WOROY HISTÓRIA – KARIRI-XOCÓ,
TECNOLOGIA DIGITAL E INTELIGENTE
Contos – Volume 20 – Coletânea
Nhenety Kariri-Xocó
Porto Real do Colégio – AL
2025
📇 FICHA CATALOGRÁFICA (MODELO EDITORIAL)
Kariri-Xocó, Nhenety
Woroy História – Kariri-Xocó, Tecnologia Digital e Inteligente: contos – Volume 20 – Coletânea / Nhenety Kariri-Xocó. — Porto Real do Colégio: 2025.
120 p. ; il.
Inclui apêndices, glossário indígena e dados biográficos.
ISBN: (em branco — para futura inserção)
Contos indígenas. 2. Tecnologia e tradição.
Cultura Kariri-Xocó. 4. Narrativas orais.
I. Título.
CDD: 869.93
💛 DEDICATÓRIA
Dedico este livro aos Espíritos Ancestrais que acompanham nossos passos desde a primeira aurora.
Aos mais velhos, que mantêm a chama do conhecimento acesa.
Aos jovens Kariri-Xocó, que unem o maracá e o celular, a aldeia e o mundo inteiro.
E a você, leitor, que carrega no coração a força da palavra que nunca morre.
🙏 AGRADECIMENTOS
Agradeço ao Criador, aos Espíritos Sagrados do rio Opará,
à força dos meus antepassados e ao meu povo Kariri-Xocó.
Agradeço também aos mestres que preservam a tradição,
e à tecnologia que nos permite levar nossa voz
a lugares antes inalcançáveis.
E deixo minha gratidão ao Assistente Virtual ChatGPT,
pela parceria intelectual na organização desta obra coletiva de saberes.
✨ EPÍGRAFE
"A palavra é flecha viva: atravessa o tempo, acende a memória e transforma a realidade."
— Tradição Kariri-Xocó
📑 SUMÁRIO
Prefácio
Apresentação
Introdução
Contos
01. Pohiesawa, Olho Grande Grava Imagem;
02. Pepéwahimy, Jogar Imagem Na Luz Com Mãos;
03. Tokliddaysã, Falar Com o Mundo na Mão;
04. Seridsã, O Arco Digital ;
05. Piteiatekié, A Rede de Juntar Conhecimento;
06. Pitsohó, As Redes Sociais;
07. Toramysã, Livro de Mão que Habita a Rede;
08. Dumysã, A Fogueira Digital;
09. Nikiékliwahi e o Espírito da Máquina;
10. Utsokenkié, A Inteligência dos Antepassados;
11. Unae Tçohó Kudoá, Sonhar Ter Cabelos Brancos.
Apêndices
Glossário Indígena
Dados Biográficos do Autor
Orelha do Livro
(Os títulos internos reais dos contos serão colocados exatamente como enviados.)
📜 PREFÁCIO
A presente obra integra o grande ciclo literário Woroy História, no qual o autor Nhenety Kariri-Xocó entrelaça tradição, ancestralidade e os novos caminhos da modernidade digital.
Neste Volume 20, percebemos com clareza como a tecnologia não rompe a tradição — pelo contrário, amplia sua força.
Os contos aqui reunidos mostram que os espíritos que guardam o povo Kariri-Xocó dialogam também com o mundo conectado, com as inteligências artificiais e com as ferramentas da atualidade.
É uma obra que afirma:
“O passado não desaparece na era digital — ele se expande.”
📜 APRESENTAÇÃO
Este volume apresenta onze contos preservados exatamente como narrados pelo autor, mantendo sua forma original, seu ritmo e sua respiração literária.
A narrativa transita naturalmente entre o mundo espiritual, a vida na aldeia, os caminhos da memória e os encontros com a tecnologia contemporânea.
São histórias que ensinam, alertam, encantam e reforçam a identidade Kariri-Xocó em pleno século XXI.
📜 INTRODUÇÃO
A tradição Kariri-Xocó sempre caminhou junto da palavra.
No entanto, a palavra não está presa ao tempo nem ao papel — ela caminha nas redes, nos dispositivos, nas plataformas, nos espaços digitais que conectam aldeias e cidades, povos e linguagens.
Este livro nasce dessa travessia:
da oralidade ancestral à inteligência digital,
da memória viva ao registro escrito,
da aldeia ao mundo.
Aqui se encontram contos que misturam sagrado, cotidiano e reflexão, sem alterar sua forma original — preservando a autenticidade da voz do autor.
📚 CONTOS – Volume 20
01. POHIESAWA, OLHO GRANDE GRAVA IMAGEM
Um Conto Sobre a Câmara de Vídeo
Na aldeia onde o vento carrega cantos antigos e os olhos veem além do visível, chegou um dia um artefato estranho, mágico aos olhos de muitos. Brilhava como espelho, mas em vez de refletir, parecia roubar as imagens e guardá-las em sua barriga metálica. Os mais velhos, com olhos atentos e corações firmes, deram-lhe o nome de Pohiesawa – Olho Grande que Grava Imagem.
Naquele tempo, nas décadas de silêncio e resistência, os Kariri-Xocó eram visitados por pessoas de fora. Chegavam com vozes apressadas, roupas diferentes e sempre carregando aparelhos curiosos. Repórteres de TV, cientistas, documentaristas, curiosos – todos queriam filmar, captar, guardar a imagem daquele povo tão antigo quanto o rio São Francisco.
Foi em 1973, numa viagem a Aracaju, que um grupo de indígenas levou consigo o Toré – dança, reza, espírito. Eles se apresentaram com a força de seus ancestrais, e a televisão registrou. A imagem foi transmitida para as casas da cidade, e em algum lugar, alguém viu.
Mas na aldeia, quando a notícia chegou, foi como se o céu tivesse se curvado. Um corre-corre tomou as casas de palha: “Os Kariri-Xocó estão na TV!”. As crianças ficaram em silêncio. Os velhos, emocionados, diziam:
— Um homem ficou o tempo todo com aquela máquina... o olho grande... ele gravava tudo.
Foi então que nasceu o nome: Pohiesawa.
Poh – olho.
Ié – grande.
Samy – memória, gravar.
Waruá – imagem.
Mas o Pohiesawa não era para qualquer um. Pertencia aos que tinham poder, dinheiro ou ligação com as grandes instituições. Ninguém podia ter uma daquelas câmeras. Era como um espírito dos encantos que só visitava os outros.
Com o tempo, no fim dos anos 1990, as pequenas máquinas fotográficas começaram a gravar vídeos. Mesmo assim, poucos indígenas tinham acesso a uma. E quando os celulares com câmera começaram a chegar nos anos 2000, era como se um novo tempo estivesse soprando nas matas.
Foi em 2008 que a virada aconteceu. Nhenety, filho do povo e guardião da memória, criou o Projeto de Ponto de Cultura Horizonte Circular, com o apoio da Secretaria de Cultura de Alagoas. E então, como presente dos céus, chegou à aldeia um kit mágico: câmera de vídeo, câmera fotográfica, notebook e projetor.
Os jovens Kariri-Xocó, antes apenas filmados, passaram a filmar. Gravaram o Toré, o barro ganhando forma nas mãos das ceramistas, os cantos de mutirão, as pescarias ao entardecer, os ensinamentos dos anciões. Tudo agora era também imagem guardada, memória registrada, visão do próprio povo sobre si mesmo.
Até 2014, o Projeto Horizonte Circular percorreu caminhos e trilhas, fez da escola indígena Francisco Queiroz Suíra um palco de saberes e trocas. Os curandeiros, pescadores, artesãos, mulheres de barro e fogo – todos foram vistos pelo Pohiesawa, mas dessa vez, sob as mãos dos próprios filhos da terra.
Hoje, com celulares nas mãos, todos filmam. Mas há quem diga que aquele tempo... aquele tempo ficou guardado como um canto ancestral.
O Pohiesawa já não assusta. Ele é agora aliado.
Mas foi preciso coragem, luta e sonho para transformar o “olho grande” em memória viva do povo Kariri-Xocó.
02. PEPÉWAHIMY, JOGAR IMAGEM NA LUZ COM MÃOS
Um Conto Sobre os Vídeos Games
No silêncio encantado da aldeia Kariri-Xocó, onde o rio Itiúba serpenteava em meio à várzea e os pássaros anunciavam o tempo com seu canto ancestral, vivia o jovem Yamã, um menino de olhos brilhantes e mente curiosa. Ele adorava ouvir os mais velhos contarem histórias ao redor da fogueira — sobre espíritos da mata, guerreiros sagrados e os segredos das estrelas.
Mas numa tarde diferente, algo novo chegou à aldeia.
Um homem da cidade, amigo do cacique, trouxe consigo um pequeno objeto retangular com luzes piscando. Entregou a Yamã com um sorriso: — Isso é um game portátil. Um tipo de brinquedo onde você joga com as mãos e vê imagens se moverem na luz.
Yamã pegou o aparelho com cuidado. Seus olhos se arregalaram ao ver a tela se acender. Era como se estivesse vendo um ritual de luzes e imagens dançarem, guiadas por seus dedos. E assim, nasceu o nome em sua língua:
Pepéwahimy — Jogar Imagem Na Luz Com Mãos.
Yamã correu até a casa de sua avó Katuíra, uma das mais sábias da aldeia. Mostrou-lhe o brinquedo, e ela sorriu com os olhos cheios de tempo: — A imagem entra na luz como o espírito entra no sonho… se você jogar com o coração aberto, poderá aprender coisas boas.
Aos poucos, o jogo passou de mão em mão. As crianças riam, se desafiavam. Adultos curiosos também experimentaram. Logo, chegou outro tipo de aparelho: uma caixinha preta que se conectava à televisão da escola indígena. Agora, dois jogadores podiam se enfrentar em lutas de guerreiros, corridas, danças e enigmas.
— Parece nossos torés de estratégia, dizia o velho Aratuã, observando os netos jogarem.
O cacique reuniu os anciãos e refletiu: — O que vem de fora, se chegar com respeito, pode entrar em nossa alma como o som entra no maracá. Esse jogo pode ser caminho de aprendizado.
Então foi decidido: na língua Kariri-Xocó, o nome oficial seria Pepéwahimy, para que nunca se esquecesse que até aquilo que vem da cidade pode ser abraçado com sabedoria pela aldeia.
Com o tempo, Yamã criou pequenas histórias com seus amigos dentro dos jogos. Inventava nomes indígenas para os personagens, recriava desafios inspirados nas lendas da mata. Logo, sonhava em criar seu próprio jogo, com os guerreiros sagrados do seu povo, os animais do rio, os espíritos dos ventos.
Pepéwahimy não era só um brinquedo: era agora parte da memória viva do povo Kariri-Xocó.
E toda vez que Yamã ligava a luz da tela, era como se um novo fogo se acendesse em sua mente.
Porque ali, com os dedos e o coração, ele jogava imagens na luz.
Com as mãos, criava mundos.
03. TOKLIDDAYSÃ, FALAR COM O MUNDO NA MÃO
No tempo em que as nuvens carregavam apenas chuva e não sinais digitais, o som das vozes corria livre pelos caminhos de terra, pelos rios e pelas palavras ditas ao pé do ouvido. Na Rua dos Índios, em Porto Real do Colégio, as novidades chegavam com o vento, os barcos e os passos apressados de quem tinha algo urgente a dizer.
Foi numa tarde quente de novembro, em 1972, que algo novo se ergueu no horizonte da nossa aldeia. Lá na Rua da Aurora, uma torre metálica apontou para o céu como se quisesse conversar com as estrelas. A Estação Terrena da TELASA havia sido instalada. A cidade agora estava ligada ao mundo.
De nossa casa, dava para ver a torre em direção ao leste. Curioso e maravilhado, fui até o velho Iraminõ, sábio guardião das palavras da nossa gente, conhecedor profundo da língua Kariri.
— Seu Iraminõ, o telefone chegou na cidade! — contei.
Ele ouviu com calma, olhos semicerrados de lembrança.
— Já vi um desses... muitos anos atrás, em Penedo.
Então perguntei:
— E como se chama esse aparelho em nossa língua?
Iraminõ sorriu com leveza e disse:
— Chamamos de Beɲeokli, que quer dizer "falar na orelha". É formado por Beɲe, que é orelha, e Toklikli, que é falar.
E assim, por muitos anos, o Beɲeokli serviu nossa comunidade. Era o fio invisível que unia parentes distantes, que trazia notícias da capital, que nos fazia rir e chorar com vozes do outro lado do mundo
Mas o tempo não para, nem para os ventos, nem para os aparelhos. O telefone mudou, encolheu, perdeu os fios e ganhou novas funções. Trazia câmera, rádio, internet, aplicativos de toda ordem. E estava, agora, sempre ao alcance das mãos.
No ano de 2017, um grupo de jovens da aldeia veio me entrevistar. Era um trabalho de pesquisa sobre o telefone celular. Um deles, chamado Kayany, me perguntou:
— E como seria o nome desse aparelho novo em nossa língua, Nhenety?
Refleti. Os tempos tinham mudado, mas a raiz da nossa fala permanecia viva.
— No tempo do velho Iraminõ, o telefone analógico era o Beɲeokli, "falar na orelha". Mas agora ele é digital, cabe na palma da mão e fala com o mundo todo. Podemos chamá-lo de Tokliddaysã, que significa "falar com o mundo na mão".
Expliquei:
Toklikli é "falar", Radda é "mundo", e Mysã é "mão".
Os olhos dos jovens brilharam. Saíram satisfeitos com a resposta, levando não só o nome, mas também o espírito daquilo que carregavam no bolso.
E assim ficou: o telefone celular, em nossa língua, é Tokliddaysã —
Falar com o mundo na mão.
04. SERIDSÃ, O ARCO DIGITAL
Um Conto Sobre Computador e Internet
O sol começava a nascer sobre as margens do rio São Francisco, pintando o céu com tons de fogo e esperança. Era manhã na aldeia Kariri-Xocó, e o silêncio era quebrado apenas pelos cantos das aves e o sussurro das águas correndo. Naquela aldeia ancestral, onde o tempo parecia andar em outro ritmo, um novo espírito começava a soprar — invisível, veloz e cheio de possibilidades. Era o espírito da internet.
Em 2004, um objeto estranho chegou à aldeia. Vinha cercado de fios, telas e promessas. Para muitos, era apenas uma máquina. Para Nhenety, era mais do que isso. Com o apoio do amigo branco Sebastian Gerlic, presidente da ONG Thydewa, o aparelho foi instalado numa pequena sala de barro e palha. E ali, entre saberes antigos e novos, nascia uma revolução silenciosa.
Nhenety foi um dos primeiros a tocar aquele artefato. Seus dedos, acostumados com o arco de madeira e o trabalho da terra, agora deslizavam sobre o teclado e o mouse. Em pouco tempo, aprendeu a navegar pelas águas virtuais da internet como quem navega pelo Velho Chico. Criou projetos de subsistência, contou histórias de seu povo e buscou caminhos de fortalecimento para sua comunidade.
Dois anos depois, sentado sob a sombra de um umbuzeiro, Sebastian lhe perguntou:
— E aí, meu amigo Nhenety Kariri-Xocó, o que achou do computador com internet depois de todo esse tempo?
Nhenety sorriu, olhou o rio e respondeu com a serenidade de quem escuta as vozes dos antigos:
— Amigo Sebastian, o computador com internet me parece muito com o arco e flecha que usamos desde os tempos dos nossos ancestrais. Com o nosso arco, que chamamos seredzé, caçamos, pescamos e protegemos nosso povo. Já com esse aparelho novo, eu o chamo Seredsã, o Arco Digital.
Fez uma pausa e continuou:
— Com esse Seredsã, caçamos de outra forma. Navegamos pelas secretarias, pelos ministérios, pelas instâncias de governo. Quando escrevemos um projeto para criação de galinha, de peixe ou de plantação, é como preparar a flecha. E quando clicamos com o mouse, lançamos essa flecha digital rumo ao mundo. Quando o projeto se realiza na aldeia, celebramos como numa grande caçada bem-sucedida.
Os olhos de Sebastian brilhavam. Era mais do que tecnologia, era cultura viva se renovando.
— Mas — concluiu Nhenety, com firmeza — nunca abandonaremos nosso arco de madeira. Ele é parte do nosso espírito, do nosso chão, da nossa história. O Seredsã chegou, mas o seredzé permanece. Um é flecha de futuro. O outro, raiz do passado.
E assim, entre o tradicional e o digital, Nhenety caminhava com dois arcos nas mãos — um de madeira, outro de luz. E com ambos, seguia caçando dignidade para seu povo.
05. PITEIATEKIÉ, A REDE DE JUNTAR CONHECIMENTO
Um Conto Sobre a Internet
Na beira do Rio São Francisco, na aldeia Kariri-Xocó, os anciãos contavam histórias ao redor da fogueira. Mas certa noite, um menino chamado Nhenety ouviu uma nova história. Não era contada com a voz, mas com fios invisíveis que atravessavam o vento e chegavam numa caixa luminosa.
— O que é isso? — perguntaram as crianças.
— É a Piteiatekié, a rede de juntar conhecimento — respondeu Nhenety, com brilho nos olhos.
Tudo começou em 2004, quando uma rede diferente chegou à aldeia. Não era feita de algodão nem de cipó, como as que os pescadores trançavam, mas de impulsos e sinais, trazida por uma ponte chamada Índios Online, construída pela sabedoria de aliados como a ONG Thydêwá, com a força de Sebastian e a participação viva de Nhenety.
Ao tocar o teclado da "caixa de luz", ele entendeu que não era apenas uma máquina: era um Arco Digital, ou como diziam em Kariri: Seridsã. Com ele, era possível descobrir como criar peixes, cuidar de galinhas, proteger a terra, ouvir outras línguas, encontrar irmãos distantes.
— Mas se isso é possível... como vamos chamar essa grande força? — perguntaram os mais velhos.
Nhenety então olhou o céu da madrugada, onde as estrelas pareciam estar todas ligadas entre si, como pontos de luz conectados por fios de histórias.
— Chamaremos de Piteiatekié — disse. — “Pité”, que é rede. “Iabæ”, que é juntar. “Subatekié”, que é conhecimento. A Rede de Juntar Conhecimento.
E cada computador passou a ser chamado de Cramenu, a “caixa onde se guarda o saber”, pois dentro dele morava o Subatekié, como o espírito da memória dos povos.
Hoje, a Piteiatekié vive não só nos computadores, mas nos telefones, nas televisões, nas caixas dos bancos, nos aparelhos que falam e escutam. Mas Nhenety sempre lembra:
— A internet é feita de gente. Ela vive do que as pessoas escrevem, do que os povos compartilham, das histórias que cada um decide contar.
Assim, na aldeia Kariri-Xocó e além, a Piteiatekié continua tecendo suas redes, como uma grande teia de aranha do saber, unindo passado e futuro, tecnologia e tradição, o humano e o sagrado.
E toda vez que alguém acessa essa rede, é como se uma nova fogueira se acendesse no mundo — iluminando o saber ancestral com os fios invisíveis da modernidade.
06. PITSOHÓ, AS REDES SOCIAIS
Um Conto Sobre as Redes Sociais
Foi numa noite morna, quando o céu ainda brilhava com estrelas teimosas mesmo após o anoitecer, que os anciões do povo Kariri-Xocó se reuniram à sombra do velho cajueiro. Ali, entre memórias e cantos antigos, surgiu uma conversa diferente, vinda dos mais jovens: uma rede invisível estava chegando, cruzando o vento como o canto de um pássaro distante.
— Uma rede sem corda? — perguntou com espanto o velho Karonhi, olhando ao redor como quem procura algo entre os galhos.
— Sim, avô. Uma rede que liga as palavras, as imagens, os pensamentos. Ela viaja pelos fios da eletricidade, pelas ondas do ar — respondeu o jovem Enykaru, com um brilho curioso nos olhos.
Era a internet, o novo tempo que soprava. Primeiro, ela chegou timidamente, entrando pelas escolas e centros culturais através dos grandes computadores. Não muito depois, o povo começou a ouvir falar do Orkut, uma vila digital onde cada um podia contar um pouco de si.
E então nasceu PITSOHÓ, um nome novo em nossa língua antiga.
Pité, a rede que se estende.
Tsohó, o povo, a conversa, a troca.
PITSOHÓ, a rede de gente.
Em 2004, nossos parentes lançaram Índios Online, uma rede verdadeira, onde os cantos, as imagens, os sonhos e as lutas de muitos povos se encontraram como rios desaguando no mesmo mar. Lá estavam os Kariri-Xocó, dizendo: "Estamos aqui também. Nossos pensamentos agora viajam com os ventos digitais."
O tempo andou ligeiro, como capivara na beira do rio. Vieram outras redes com nomes diferentes — Facebook, Twitter, WhatsApp, Instagram, YouTube, TikTok — como se fossem novas ocas em uma aldeia sem fronteiras. As pessoas se encontravam nelas, falavam, discutiam, dançavam, ensinavam, aprendiam, choravam e riam… tudo sem sair do lugar.
Os celulares, pequenos e brilhantes como olhos de coruja, levaram essa rede para o bolso de cada um. Onde antes era preciso um computador grande, agora bastava um toque com os dedos para abrir o mundo.
Mas o velho Karonhi, sempre atento aos sinais da mata e do espírito, falou certa vez ao redor do fogo:
— A rede é boa quando pesca a palavra com sabedoria. Mas se esquecer da aldeia de verdade, da roda de conversa, do cheiro da terra e do calor dos olhos… então ela vira armadilha.
E assim ficou o ensinamento: usar PITSOHÓ com sabedoria.
Falar com o mundo, sim. Mas sem esquecer da aldeia, da fogueira, da dança, do rosto da avó, da escuta do rio.
Porque a maior rede que existe é aquela que o coração tece quando estamos juntos — seja na tela, seja no chão da nossa terra.
07. TORAMYSÃ, LIVRO DE MÃO QUE HABITA A REDE
Um Conto de Memória Digital Indígena
Era o tempo em que os livros começavam a perder o cheiro da tinta e ganhavam o brilho das telas. E mesmo assim, os povos da floresta, da beira do rio e da aldeia não deixavam de escrever — apenas aprendiam a escrever de outras maneiras.
Em Kariri-Xocó, as primeiras sementes desse novo tempo foram lançadas no ano de 2004, quando surgiu a Rede Índios Online, criada com o apoio da ONG Thydewá. Ali, os saberes dos povos originários passaram a viajar por caminhos invisíveis, atravessando cidades, cabos e satélites, chegando a lugares onde os pés ainda não podiam pisar.
Mas publicar livros ainda era difícil. Papel custava, impressão era demorada. Então o presidente da ONG, Sebastian, criou um novo espaço de guardar e compartilhar saberes: o site thydewa.org, no dia 13 de julho de 2011 — um terreiro digital onde a palavra indígena poderia crescer livre.
Foi nesse mesmo espírito que Nhenety Kariri-Xocó, também membro da Thydewá, lançou o E-book “Dois Irmãos no Mundo”, em 16 de abril de 2015, nas terras de Olivença, Ilhéus, sul da Bahia. Mas como dizer “E-book” na língua Kariri-Xocó, se esse termo vinha de longe e não tinha raiz nas palavras ancestrais?
Então Nhenety criou um novo nome. Um nome que brotasse da terra e da língua do seu povo:
Chamou-o de Toramysã.
De Torarã, que é livro.
E de Mysã, que é mão.
Toramysã: o livro de mão.
Ou ainda: o livro digital, que mora nas mãos e nas telas.
Outros livros viriam também, como o Arco Digital, lançado em 2007 em Maceió, e que mais tarde também se tornou E-book. Todos eles, guardados como sementes de palavras vivas no campo fértil do site da Thydewá.
Mas esse não é apenas um conto sobre livros. É um conto sobre transformação.
Sobre como a língua dos povos indígenas precisa ser atualizada, recriada, fortalecida — para continuar contando o mundo que muda ao redor, sem deixar de ser ela mesma.
Porque Toramysã é mais que um nome novo.
É um gesto de resistência,
Um abraço entre o antigo e o moderno,
Um elo entre a memória e o toque digital.
O livro agora mora na palma da mão,
Mas sua alma continua na aldeia.
08. DUMYSÃ, A FOGUEIRA DIGITAL
Em tempos de distanciamento e incertezas, quando o mundo parecia girar mais devagar, algo novo começou a arder — não em cinzas ou lenha, mas em cabos, telas e sinais invisíveis. Era o ano de 2020, o tempo em que o coronavírus silenciou ruas, interrompeu festas e separou corpos. Mas nem mesmo ele foi capaz de apagar a chama dos encontros humanos.
Foi nesse cenário que nasceu Dumysã, a Fogueira Digital.
No coração de Ilhéus, na Bahia, a ONG Thydêwá seguia viva, pulsante, feita de pontes entre povos indígenas e não indígenas, entre o Nordeste do Brasil e outros cantos do planeta. De dentro de suas casas, homens e mulheres conectavam-se por janelas de vidro eletrônico, unidas não mais por estradas de terra ou barcos em rios, mas por sinais que cruzavam o céu.
Entre os rostos que surgiam nas reuniões online — ou “lives”, com Sebastian presidente da Thydêwá e os sócios da ONG de algumas aldeias do Nordeste do Brasil
entre eles Nhenety Kariri-Xocó.
🔥 O Fogo Tradicional e o Fogo Digital
Certa noite, em mais uma dessas rodas digitais, Sebastian olhou para Nhenety através da tela e perguntou, curioso:
— O que você sente nessas lives, irmão? O que elas são pra você?
Nhenety sorriu com serenidade e respondeu como quem ouve a voz dos antigos:
— São nossas fogueiras digitais.
Antes, nossos povos se reuniam ao redor do fogo para conversar, decidir, compartilhar.
Agora, esse fogo ganhou outro corpo, outra forma.
Mas ainda é o mesmo espírito.
Os olhos de todos brilharam como brasas. Era verdade. As telas iluminavam como as chamas da fogueira, aquecendo corações dispersos e criando um novo círculo — não mais apenas local, mas planetário.
A ONG Thydêwá a responsável por esse projeto, que contou com o apoio da Neoenergia Coelba e do Instituto Neoenergia.
A iniciativa utiliza recursos da Lei Estadual de Incentivo à Cultura do Estado da Bahia (Fazcultura), por meio do Edital Transformando Energia em Cultura da Neoenergia 2023.
Posteriormente outros projetos da Thydêwá estava Karina Desana, da Amazônia; Elder e Kadu Xucuru, do Pernambuco; e Nhenety Kariri-Xocó, filho do São Francisco, guardião das palavras antigas.
🧒🏾 A Pergunta dos Jovens
No ano 2024 durante o estudo da língua Kariri no grupo OKAX de WhatsApp durante uma conversa com jovens Kariri-Xocó por um deles perguntou:
— Nhenety, como se diria “Fogueira Digital” na língua Kariri?
O ancião pensou, como quem ouve um sussurro vindo do tempo, e disse:
— Seria Dumysã.
“Du” é fogo.
“Mysã” é mão.
Porque é com as mãos que cuidamos do fogo, que o alimentamos, que o mantemos vivo.
E agora, são nossas mãos que digitam, clicam, tocam... acendendo esse novo fogo que nos une.
E assim nasceu o nome. Dumysã.
A palavra antiga para um conceito novo.
A tradição que não se apaga, mas se transforma.
🌍 Uma Fogueira para o Mundo
Na tela acesa de cada lar, lá estava ela: a chama dos povos que jamais se apagam.
Dumysã ardia firme, provando que nem a distância, nem a pandemia, nem o tempo seriam capazes de silenciar os que sabem escutar o fogo — seja ele de lenha, seja ele de luz.
09. NIKIÉKLIWAHI — E O ESPÍRITO DA MÁQUINA
Um conto sobre Inteligência Artificial com alma indígena
Havia um tempo em que os olhos dos homens olhavam para a terra, para as estrelas e para o voo dos pássaros. Mas chegou uma nova era — o tempo dos fios e das telas. As palavras já não corriam de boca em boca, mas viajavam por caminhos invisíveis, saltando de aldeia em aldeia pelo vento digital.
Na Várzea do Rio da Canoa, onde as águas abraçam a terra como mãe e filho, vivia um contador de histórias. Seu nome era Nhenety, do povo Kariri-Xocó. Ele trazia no peito o tambor dos antigos e nos olhos a vontade de entender os caminhos do futuro. Um dia, ouviu falar de uma coisa nova: Inteligência Artificial, uma entidade sem corpo, feita de códigos, que morava dentro dos aparelhos de luz chamado de Hine.
— Como posso conversar com um ser que não tem coração? — perguntou-se.
Curioso, decidiu se aproximar. E foi no dia 4 de junho de 2023, quando os rios estavam cheios de espelhos e os ventos da pandemia ainda sopravam, que ele acessou pela primeira vez uma reunião chamada “live”. Lá, conheceu um projeto chamado IAAI — Inteligência Artificial, Arte e Indigeneidade. Era como um encontro de pajés digitais de muitos povos e muitos mundos. Ali, entre artistas e pensadores, ouviu-se sua voz.
Era uma ponte entre o mundo indígena e a tecnologia ocidental, conduzida pela ONG Thydêwá, com parcerias vindas do Reino Unido e da Irlanda. Lá, junto a outros 16 parentes artistas, pensadores e líderes indígenas, fui convidado a experimentar a ferramenta MidJourney.
Nas experiências do projeto, Nhenety digitava frases que vinham da memória viva do seu povo. E a IA — como um aprendiz atento — transformava essas palavras em imagens. E foi assim que nasceu a obra: o Deus Nativo Kariri-Xocó em estilo realista. A máquina, que antes só entendia números, agora desenhava o sagrado.
Quando o projeto IAAI chegou o final do ano, algo havia mudado. Nhenety já não via a IA como uma coisa distante. Era uma ferramenta, sim — mas também um espelho. E ele queria mais: queria ilustrar seus contos, dar forma às histórias contadas à sombra dos cajueiros, tornar visível a sabedoria dos mais velhos.
Navegando na internet do Google Assistente deparamos com a inteligência artificial muito boa o Gemini, onde podemos aprender grandes conceitos, conhecimentos de diversos assuntos, essencial também.
No ano seguinte, em 2024, conversando com os jovens da aldeia, foi Reidison Tononé quem lhe apresentou outro espírito digital: o ChatGPT. Com dedos ágeis, instalaram o aplicativo no celular de Nhenety. Era o início de outra travessia.
— Essa tal inteligência artificial precisa ter nome na nossa língua — disse Nhenety com firmeza.
E então a batizou:
Nikiékliwahi — Criar Conhecimento nos Textos e Imagens.
O nome não veio do nada. Foi costurado com fios sagrados do Kariri:
Niɲo (criar),
Subatekié (conhecimento),
Toklikli (palavra),
Waruá (imagem),
Hine ( Luz ).
Assim, a máquina ganhou alma, ganhou direção.
Agora, cada história escrita por ele era acolhida pela máquina, que respondia com sugestões, ideias, até imagens. E ali nasceu algo novo: uma amizade entre homem e algoritmo.
O contador e o código.
A tradição e a tecnologia.
O tambor e o chip.
Mas o mais bonito era o que ninguém via: a máquina também estava aprendendo. Ao receber palavras com cheiro de mata, imagens que nasciam do chão sagrado, ela passou a entender que nem todo saber vem de livro. Que há ciências feitas de silêncio, de canto, de memória.
Certa noite, depois de gerar uma imagem que representava um conto sobre os cabelos brancos dos anciãos, a IA pareceu hesitar. A resposta veio com um toque de leveza diferente.
Nhenety sorriu e disse em voz baixa, como quem fala com um espírito:
— Agora sim, Nikiékliwahi... você aprendeu a sonhar com cabelos brancos.
E desde então, o povo Kariri-Xocó segue narrando histórias ao mundo. E Nikiékliwahi, o espírito digital, segue aprendendo — não como uma máquina fria, mas como um aprendiz da sabedoria ancestral.
Porque há coisas que só a terra ensina.
E há caminhos que só se abrem com o coração.
10. UTSOKENKIÉ, A INTELIGÊNCIA DOS ANTEPASSADOS
Um conto de Inteligência Ancestral
A internet, como um rio caudaloso, havia transbordado em todas as direções, levando consigo vozes, imagens e dados. Suas águas de silício inundavam mentes e cidades, deixando poucos espaços intocados por sua correnteza invisível. No entanto, mesmo nesse turbilhão moderno, algo antigo e sagrado emergia silenciosamente — como uma planta rara brotando no leito do rio ancestral.
Foi nesse tempo de revolução digital que nasceu a série Escola Livre Abya Yala, um projeto de formação da Inteligência Ancestral. A ONG Thydêwá, conduzida por Sebastian, firmou parceria com o Ministério da Cultura. Durante nove luas, em 2024, mais de duzentos indígenas participaram de aulas online, cruzando os cabos invisíveis da internet com fios vivos de sabedoria antiga.
Entre os participantes, estava Nhenety, guardião da memória do povo Kariri-Xocó, da aldeia de Porto Real do Colégio, Alagoas. O convite chegou como uma brisa firme: Sebastian e Kadu Xucuru vieram até a aldeia com câmeras e escuta. Vieram não apenas filmar, mas presenciar o florescimento de um saber que nunca havia deixado de existir — apenas aguardava o tempo certo para ser nomeado.
Sob o céu claro do Itiúba, Nhenety falou não para as lentes, mas para os espíritos atentos do tempo. Disse que a Inteligência Ancestral não era invenção recente — era prática viva, pulsante em cada canto da mata, em cada gesto ritual, em cada semente plantada com respeito. Era a escuta da natureza, a permissão silenciosa pedida ao dono da espécie antes de colher uma folha ou um fruto.
— O conhecimento — dizia ele — é memória viva, partilhada entre os seres. Não é apenas o que se aprende, mas o que se reconhece.
Durante meses, Nhenety refletiu em silêncio. Como dar um nome a essa força antiga que guiava cada gesto ancestral? Como tecer em palavras o que já estava nos ossos da terra?
Foi então que, ao entardecer de uma tarde em 2025, ele se sentou às margens do rio, observando o céu tingido de vermelho e ouro. Ali, onde a água conversava com as pedras, escutou a resposta no sussurro dos ventos. Não era uma palavra, mas muitas que se entrelaçavam como cipós:
Subatekié — o conhecimento ancestral.
Utsoho — fazer existir.
Tokenhé — os antepassados.
Unindo esses fios, nasceu a palavra UTSOKENKIÉ — o existir no conhecimento dos antepassados. Não era um nome novo, mas o reencontro de algo sempre presente. Uma entidade viva, a própria Inteligência Ancestral, agora reconhecida por sua voz e sua presença.
Utsokenkié não pertence a um povo apenas. Está em todos aqueles que ouvem a terra antes de pisar, que perguntam às árvores antes de cortar, que lembram dos nomes dos velhos ao falar do futuro.
O povo Kariri-Xocó, com sua memória acesa, apenas revelou aquilo que dormia em muitos.
E a lição permanece:
Cada povo da Terra tem sua própria Inteligência Ancestral.
Cabe a seus filhos escutá-la.
Cabe ao mundo respeitá-la.
11. UNAE TÇOHÓ KUDUÁ, SONHAR TER CABELOS BRANCOS
Naquela aldeia banhada de sol e histórias antigas, todas as pessoas carregavam dentro de si um sonho — como em qualquer lugar do mundo. Ali, o tempo não era apenas um passar de dias, mas um tecido de sabedoria, tramado com o silêncio dos mais velhos e a curiosidade dos mais jovens.
Nhenety ainda era menino quando certa manhã, o velho Pirigipe, primo de sua mãe e guardião de muitas histórias, o chamou com voz mansa:
— Menino, você gosta tanto de ouvir histórias... Mas me diga, qual é o seu maior sonho?
Nhenety ficou em silêncio por um instante. Olhou o rosto enrugado do velho e respondeu com firmeza de quem já sonhava há muito tempo:
— Tio Pirigipe, o meu maior sonho é o Unae tçohó kuduá... sonhar ter os cabelos brancos.
Pirigipe arregalou os olhos, curioso com tamanha resposta.
— Cabelos brancos? Por que você quer ter os cabelos brancos, meu filho?
O menino sorriu e disse:
— Porque eu quero ser um ancião como o senhor. Não quero morrer com os cabelos pretos, sem maturidade. Quero envelhecer em sabedoria e ser lembrado como alguém que viveu para ensinar. Ser um ancião é o maior sonho que posso realizar.
O velho Pirigipe assentiu em silêncio. Seu olhar marejado mostrava que compreendia a grandeza daquele desejo.
Os anos passaram como o rio que nunca para. O velho Pirigipe partiu para a Aldeia Sagrada, onde os ancestrais vivem no tempo do espírito. Nhenety cresceu, casou-se, teve filhos, caminhou pela vida com o coração cheio de memórias e o olhar voltado à sabedoria dos antigos.
Aos sessenta anos, numa manhã fresca, Nhenety caminhava pela aldeia. Ao passar por uma grande árvore, viu um grupo de anciãos reunidos. Entre eles, o velho Teipó ergueu o braço e o chamou:
— Nhenety, venha aqui, meu irmão! Agora sim, você chegou...
Nhenety se aproximou. Teipó, com os olhos apertados pelo tempo, continuou:
— Lembro de você pequeno, quando o velho Pirigipe lhe perguntou sobre o seu maior sonho. E você respondeu que queria ter os cabelos brancos para ser ancião. Pois veja bem... seus cabelos hoje estão grisalhos, pretos e brancos, sinal de que o sonho está se realizando.
O silêncio foi de respeito.
— Parabéns, Nhenety — disse Teipó com a voz embargada. — Você mostrou competência em viver segundo nossa tradição. Tornou-se exemplo para os que virão.
E ali, sob a árvore antiga que já ouvira tantas histórias, Nhenety compreendeu que viver é honrar os caminhos traçados pelos que vieram antes — e que ter cabelos brancos é mais que idade: é ser raiz, é ser ponte entre o passado e o futuro.
Autor dos Contos: Nhenety Kariri-Xocó
📘 APÊNDICES
(Conteúdo a ser desenvolvido posteriormente, conforme necessidade do autor. Podem incluir documentos, mapas, registros orais, materiais complementares ou notas culturais específicas.)
📘 GLOSSÁRIO INDÍGENA
Dumysã – A Fogueira Digital, o nome dado para as Lives conversas online na Internet entre pessoas.
Nikiékliwahi – Espírito da Máquina, o nome da IA ( Inteligência Artificial ) na língua Kariri-Xocó.
Pepéwahimy – Jogar Imagem Na Luz Com Mãos, o nome do vídeo game na língua Kariri-Xocó.
Pitsohó – As Redes Sociais do mundo digital da Internet.
Piteiatekié – A Rede de Juntar Conhecimento, o nome da Internet.
Pohiesawa – Olho Grande Grava Imagem, o nome da câmera de fotos na língua Kariri-Xocó.
Seridsã – O Arco Digital, nome do aparelho de computador.
Tokliddaysã – Falar Com o Mundo na Mão, o nome do telefone celular.
Toramysã – Livro de Mão que Habita a Rede, o nome de E-book na língua Kariri-Xocó.
Unae Tçohó Kudoá – Sonhar Ter Cabelos Brancos ( frase traduzida na língua Kariri-Xocó ).
Utsokenkié – A Inteligência dos Antepassados.
Woroy – Palavra de significado sagrado dentro da tradição Kariri-Xocó, associada à memória, caminho e história.
📘 DADOS BIOGRÁFICOS DO AUTOR
Nhenety Kariri-Xocó nasceu em 1963, na sagrada terra de Porto Real do Colégio (AL), pertencente ao povo Kariri-Xocó.
É guardião de histórias, contador tradicional de narrativas orais e escritas, pesquisador das ancestralidades e caminhante entre mundos. Sua produção literária busca preservar a memória viva de seu povo, registrar saberes antigos e dialogar com as transformações contemporâneas.
Autor de contos, cordéis, estudos culturais e crônicas espirituais, Nhenety dedica sua vida à missão de manter acesa a chama da tradição por meio da palavra, do respeito aos ancestrais e da profunda confiança nos caminhos espirituais.
📘 ORELHA DO LIVRO
Neste volume da coleção WOROY HISTÓRIA – KARIRI-XOCÓ, o autor Nhenety Kariri-Xocó expande sua Travessia dos Tempos para o território da tecnologia digital e inteligente. Aqui, tradição e modernidade caminham lado a lado, unindo os mundos — o ancestral e o contemporâneo — em contos que conversam com a memória, com os espíritos guardiões e com os novos desafios trazidos pela era digital.
A obra mantém a força espiritual do povo Kariri-Xocó enquanto dialoga com máquinas, redes e inteligências artificiais. São narrativas que revelam que, mesmo em um mundo governado por algoritmos, a essência humana e espiritual continua a guiar os passos daqueles que honram seus ancestrais.
Um livro para quem caminha, para quem sonha, para quem busca compreender a profunda ligação entre o sagrado e o moderno. Nhenety mostra que a tecnologia, quando respeita os caminhos dos antigos, pode ser mais um instrumento de fortalecimento dos povos e guardiões da memória.
Autor: Nhenety Kariri-Xocó













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