Na sombra fresca de uma grande Sutuá, árvore às margens do Opará, sentava-se Amoãny, a anciã conselheira do povo. Seus cabelos brancos pareciam fios de lua, e seus olhos guardavam histórias mais antigas que as pedras do rio. Ao seu lado, brincavam suas netas, Kayany e Soany, curiosas como passarinhos recém-saídos do ninho.
— Vovó Amoãny, — perguntou Kayany, coçando o braço — por que existem insetos que mordem, coçam e fazem adoecer as pessoas?
Soany completou, espantando uma Kõpere, muriçoca que zumbia perto do ouvido:
— Eles sempre foram assim?
Amoãny sorriu devagar, como quem abre uma porta antiga, e respondeu:
— Não, minhas netas. Nem sempre foi assim. Ouçam, pois esta é uma história da Radadé, a Mãe Terra.
Ela apontou para a floresta que ainda resistia.
— Antigamente, quando as Retséá, as Florestas, cobriam quase toda a terra, havia equilíbrio. As Atseá, as Pessoas, sabiam viver em harmonia com a Antse, a Natureza. Nós, os Uanieá, indígenas respeitávamos cada ser, grande ou pequeno.
Kayany e Soany sentaram-se mais perto.
— Naquele tempo — continuou Amoãny — os Tiri, os Insetos, tinham seus lugares certos.
O Dú, o Piolho, vivia nos pelos dos animais silvestres.
O Munim, o Grilo, cantava escondido entre as folhas.
A Kõpere, a Muriçoca, repousava nas sombras das matas.
O Xykxyk, o Gafanhoto, saltava livre nas campinas.
A Pyxa, o Bicho-de-pé, dormia na Kitci, a areia.
O Chichã, o Percevejo, habitava troncos antigos.
O Takyra, o Carrapato, vivia nos corpos da Doyé, da Chorecá, do Hazú e de outros Keríá Retsé, os Animais Silvestres.
E a Tunguçu, a Pulga, fazia parte desse mesmo ciclo.
— Então eles não prejudicavam ninguém? — perguntou Soany.
— Não, — respondeu a anciã — porque cada ser tinha sua morada.
A voz de Amoãny ficou mais grave.
— Mas vieram os Caraí, chamados de Peró por outros povos. Derrubaram as florestas para plantar cana e levantar Natiacró, as Cidades. Onde antes havia vida diversa, restaram campos vazios e fumaça.
Kayany apertou a mão da irmã.
— Sem as florestas, os Tiri perderam seus lares — disse Amoãny. — Sem Keríá Retsé, animais silvestres, sem árvores, sem sombra. Então eles caminharam, sem querer, para as Erá, as Casas, para as Bechiéá, as Roças, para os corpos das pessoas e dos Keríerá, os Animais Domésticos.
— Foi aí que eles se tornaram… — murmurou Kayany.
— Tiri Moaîba Atseá — completou Amoãny — os insetos que prejudicam as pessoas.
O vento passou entre as folhas, como se concordasse.
— Lembrem-se, minhas netas — concluiu a anciã — o erro não nasceu nos insetos, mas no desequilíbrio causado pelos humanos. Quando a Antse é ferida, todos sofrem. Até os menores seres mudam seu caminho.
Kayany e Soany olharam para a floresta com novos olhos. Não viam mais apenas árvores, mas casas antigas de muitos povos invisíveis.
E Amoãny, em silêncio, agradeceu à Radadé por ainda restarem histórias para ensinar — e ouvidos dispostos a ouvir.
Autor: Nhenety Kariri-Xocó

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