terça-feira, 13 de maio de 2025

IEENÇOCAHÉ, O PICAPAU EM APUROS

 







Na aldeia Kariri-Xocó, entre as matas sagradas do Ouricuri, onde as árvores conversam com o vento e os bichos são tratados como parentes, vivem crianças que sabem ouvir os cantos dos pássaros e os sussurros do mato. Elas crescem ouvindo as histórias que os mais velhos contam sobre os seres da floresta, aprendendo que cada animal tem sua sabedoria, seu espírito e seu papel no grande ciclo da vida.


Mas também há televisão. E nas noites de céu estrelado, quando o gerador ronrona e a luz chega às casas da aldeia, é comum ver os pequenos reunidos diante da telinha, maravilhados com as peripécias dos personagens animados. Entre todos, havia um que fazia sucesso: o Picapau da TV, com seu riso engraçado e suas aventuras malucas. Para muitas crianças, ele era real, talvez até um encanto vindo do mundo dos desenhos.


Certa manhã, numa das andanças pela mata, um grupo de crianças descobriu um visitante especial. Lá estava ele, bicando um velho tronco de angico, com a cabeça avermelhada e as penas negras brilhando ao sol: um filhote de picapau, ainda desajeitado no voo. As crianças correram, apontando e gritando:


— Olha o Picapau da televisão!

— É ele mesmo! Olha ali! — diziam, em coro.


Cercaram a árvore, olhos arregalados, corações palpitando. O pequeno pássaro, assustado com a agitação, tentou voar de um galho para outro, mas ainda era novo demais para fugir com firmeza. Foi então que Wikaí, um dos guardiões da floresta, percebeu o perigo. Correu na frente das crianças, braços abertos como asas protetoras, e com paciência conseguiu segurar o frágil picapau em suas mãos.


— Calma, ele está assustado... — disse, com voz mansa.


As crianças se aproximavam, querendo tocar o pequeno herói alado. Para elas, era como ver um artista famoso de carne, osso e penas. Mas Wikaí sabia que aquele não era um personagem qualquer — era Ieençocahé, o verdadeiro espírito do picapau, filho da mata, irmão dos Kariri-Xocó.


Chamou então Joelma, a índia que tinha um carro. Juntos, levaram Ieençocahé para o coração da mata, bem longe das vozes e dos olhos curiosos. Lá, soltaram o filhote com carinho, desejando-lhe um bom voo e uma vida livre.


As crianças voltaram contando a história para todos: que o picapau da televisão esteve ali, na aldeia, e que Wikaí e Joelma o salvaram. Talvez fosse só um passarinho. Talvez fosse um espírito. Talvez fosse os dois.


Hoje, quando se ouve um picapau martelar alto no tronco de um angico, alguém sempre diz:


— É Ieençocahé... Ele voltou para nos visitar.




Autor: Nhenety Kariri-Xocó 





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