Ieendê, o Pássaro Construtor
Conto tradicional inspirado nos saberes do povo Kariri-Xocó
Na vastidão quente e ressequida da Caatinga, onde pulsa o coração da Terra Indígena Kariri-Xocó, em Porto Real do Colégio e São Brás, um pequeno ser alado se tornou mestre entre os povos: Ieendê, o João-de-Barro.
Diziam os anciãos da aldeia que Ieendê era muito mais que um pássaro; era um velho espírito da floresta disfarçado em penas castanhas, com a missão de ensinar. De manhã cedo, enquanto o sol dourava as folhas secas dos juazeiros e mandacarus, Ieendê trabalhava sem descanso. Com seu bico firme e decidido, amassava argila e misturava com fibras vegetais, moldando cada curva de sua casa redonda com a paciência dos sábios.
As crianças da aldeia corriam para vê-lo construir. “Olhem como ele molda a parede com barro e bagaço!”, dizia o velho Kairó, com um sorriso de sabedoria nos olhos. “Foi assim que nossos avôs aprenderam a levantar as paredes das casas de taipa. A natureza sempre foi nossa mestra.”
Mais do que um construtor, Ieendê era também um mensageiro. Quando fazia a portinha de sua casa voltada para o norte, os mais velhos logo diziam: “Vem muita chuva por aí!”. Mas se virada estivesse ao sul, sabiam que o tempo seria de seca, e era preciso preparar os potes e estocar os alimentos.
Ieendê não trabalhava só para si. Segundo a crença da aldeia, muitas vezes o periquito — um pequeno papagaio esperto — tomava conta da casinha depois de pronta. “É a partilha da floresta”, dizia Dona Yara, parteira e conhecedora das ervas. “Cada ser tem seu tempo, seu lugar, sua lição.”
Assim, geração após geração, o povo Kariri-Xocó aprendeu a respeitar cada ser vivo, entendendo que não estão acima, mas dentro do grande círculo da vida. Com os pássaros aprenderam a construir; com os peixes, a nadar e pescar; com as plantas, a curar. Cada ensinamento brotava do silêncio atento diante da natureza viva.
E até hoje, quando o céu se enche de nuvens ou o chão racha sob o sol, alguém olha para uma casinha de barro pendurada num galho e pergunta:
— E então? O que Ieendê está dizendo?
Autor: Nhenety Kariri-Xocó

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