terça-feira, 13 de maio de 2025

INDAIÁ E O BAGRE DA FARTURA

 








Nas margens generosas do Velho Chico, onde o vento acaricia as folhas do caniço e o tempo parece escutar as histórias antigas, vivia a índia Maria de Lourdes Ferreira, conhecida entre os seus como Indaiá. Mulher de fibra e alma firme, filha do povo Kariri-Xocó, ela conhecia os segredos do rio como quem escuta o coração da terra.


Era tempo difícil, de luta e de sol ardente. Muitos de sua gente trabalhavam de sol a sol nas roças de algodão, alugados pelos fazendeiros da região, movida pela fome das indústrias têxteis que se expandiam. Entre eles, o índio Alírio Nunes, conhecido como Wayúi "Peixe caro", esposo de Maria de Lourdes, também doava sua força ao trabalho alheio, enquanto o sonho de liberdade amadurecia silencioso em seu peito.


Foi numa dessas manhãs de pesca simples, quando Indaiá, com seu caniço de capim forte — retirado da mata ciliar do rio — lançou-se à beira d’água, que tudo mudou. O caniço vergou, o braço firme puxou, e das águas profundas emergiu um bagre grande, reluzente como presságio. Era o peixe da fartura.


Ao chegar em casa, entregou o peixe a Alírio, que o levou ao Grande Hotel da Ferrovia. Vendeu-o por um bom preço e voltou radiante, os olhos brilhando mais do que o sol do sertão. “E agora, Indaiá, o que fazemos com este dinheiro?”, perguntou. Ela, com a sabedoria dos antigos, respondeu sem titubear: “Home, vá à Lagoa Grande, fale com Tojal, compre muito peixe e vá vender na cidade de Colégio.”


Assim começou a virada. Alírio comprou três balaios de peixe e partiu para o comércio. Deixou a enxada do fazendeiro e ergueu seu próprio caminho. Os pescadores do Baixo São Francisco passaram a vender a ele seus peixes, e Alírio Nunes se tornou conhecido e respeitado em toda a região. A casa antes simples se encheu de alimento, de roupa nova para as crianças e de esperança. E não era só para eles — nas horas difíceis, ajudavam a tribo, compartilhando o que tinham.


Tudo começara com aquele peixe — o Bagre da Fartura.


Mas os tempos mudaram outra vez. Veio a construção das grandes hidrelétricas — Sobradinho, Xingó, Três Marias, Paulo Afonso. O rio, antes pleno, agora corria contido. As lagoas deixaram de encher. A pesca, outrora abundante, entrou em decadência.


Mesmo assim, a história de Alírio e Indaiá a indígena Maria de Lourdes vive como semente em terra fértil. Um lembrete de que a dignidade pode nascer de um gesto simples e que a fartura, quando repartida, floresce em comunidade.


Hoje, o Velho Chico clama por cuidado. Cabe a todos nós proteger suas águas, plantar árvores nas nascentes, cuidar de seus afluentes. Cada pequeno gesto conta. Porque o Rio São Francisco... somos todos nós.


Na cidade de Porto Real do Colégio atualmente o mercado do peixe recebe a denominação de Mercado do Peixe Alírio Nunes de Oliveira, homenageando o indígena no município. Indaiá ficou feliz por ter uma grande família. 




Autor: Nhenety Kariri-Xocó 





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