Foi num tempo em que a esperança era plantada com o suor da resistência que nasceram as primeiras moradas da Aldeia Kariri-Xocó. Corria o ano de 1978 quando o povo decidiu retomar o que por direito ancestral já lhes pertencia: a antiga Fazenda Modelo. Ali, entre casas abandonadas e galpões esquecidos, a comunidade se fez novamente presente. Homens, mulheres e crianças voltaram a erguer suas vidas sobre a terra fértil de Porto Real do Colégio, nas margens do sagrado rio São Francisco.
No início, nem todas as famílias tinham um teto firme. Muitos cobriam seus sonhos com lonas e plásticos, vivendo em barracas improvisadas, resistindo ao vento e à chuva, ao sol escaldante do sertão e ao descaso dos poderes de fora. Assim foi até 1980, quando a solidariedade cruzou fronteiras. Em 1981, a Embaixada do Canadá, em união com a FUNAI, estendeu a mão à comunidade Kariri-Xocó. Nasceu então o primeiro grande projeto residencial da aldeia: 110 casas começaram a ser erguidas, não apenas com cimento e tijolo, mas com o sentimento coletivo de reconstrução.
O tempo seguiu seu curso, e a aldeia crescia como crescem as raízes de uma árvore viva. Em 1985, um novo projeto foi implantado — desta vez com olhos voltados para o sustento e o bem viver: a irrigação das roças, a criação de peixes para alimentação, e mais 25 casas para aqueles que ainda esperavam um lar. Foi mais que um abrigo, foi dignidade para as famílias que mantinham viva a cultura e a língua de seus ancestrais.
Mas o clamor por moradia não cessava, pois o povo não parava de florescer. Em 1991, os ventos da transformação sopraram mais uma vez. A aldeia, agora mais fortalecida, conquistou um novo projeto para mais 45 casas, com água encanada, luz elétrica gratuita e, pela primeira vez, os próprios indígenas sendo contratados para trabalhar nas obras — erguendo com as próprias mãos as paredes que protegeriam os seus filhos.
Assim, tijolo por tijolo, ergueu-se mais do que casas: construiu-se memória, reconstruiu-se identidade. As primeiras casas da Aldeia Kariri-Xocó não foram apenas moradias — foram marcos de luta, raízes fincadas no solo da ancestralidade.
E ali, entre o calor da terra e a força do povo, a aldeia continuou a pulsar viva, como sempre foi.
Autor: Nhenety Kariri-Xocó



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