Era outubro de 1978 quando os Kariri-Xocó deixaram as casas simples da Rua dos Índios e pisaram, com o coração apertado e os olhos esperançosos, a terra batida da antiga Fazenda Modelo. A mudança não foi apenas de endereço — foi o renascer de um sonho coletivo, a retomada de um território ancestral agora transformado em aldeia viva.
Naqueles primeiros tempos, as novas casas ainda não existiam. Os prédios da Fazenda estavam cheios de famílias que, com pouca ou nenhuma alternativa, faziam deles morada improvisada. Assim, a escola indígena continuou na velha Rua dos Índios, resistindo ao tempo e à poeira, onde os meninos e meninas aprendiam entre o som dos passarinhos e o eco da memória.
Foi só em 1981, com a chegada das 110 casas construídas pelo projeto conjunto entre a FUNAI e a Embaixada do Canadá, que o caminho da educação também se mudou. A Escola Indígena Gilberto Pinto Figueiredo Costa encontrou um lar definitivo na nova aldeia. Erguida com simplicidade e propósito, a escola tinha três salas de aula, uma cozinha cheirosa de mingau e café, e uma pequena secretaria onde os livros, como sementes, esperavam mãos curiosas para brotar sabedoria.
Sob o amparo do governo federal, conforme previa o Estatuto do Índio de 1973, a educação, assim como a saúde e o território, eram assegurados como direitos. O corpo docente, formado por mulheres de coragem e saber – Marly, Maria do Carmo, Lurdes e Ivone – era enviado pela FUNAI. Cada professora carregava não só o giz e os cadernos, mas também o compromisso de ensinar sem apagar a identidade do povo.
Com o tempo, os cadernos se multiplicaram, assim como os alunos. A aldeia crescia, e com ela, a necessidade de mais educadoras. Foi então que a prefeitura de Porto Real do Colégio uniu forças com a FUNAI, e novas professoras chegaram para partilhar o ofício de ensinar.
O tempo, como as águas do rio, seguiu seu curso. E em 2006, veio a estadualização das escolas indígenas. A Secretaria de Educação de Alagoas passou a cuidar do ensino nas aldeias com formação para professores e a construção de novas escolas. Na aldeia Kariri-Xocó, brotou um novo prédio, com nome sagrado e cheio de significado: Escola Indígena Pajé Francisco Queiroz Suíra.
Assim, a história da escola que nasceu na Rua dos Índios encontrou novo chão na aldeia. Mas seu espírito – o de ensinar com raízes profundas e olhos voltados para o futuro – segue firme, como a árvore que cresce regada por memórias e sonhos.
Autor: Nhenety KX



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