Um Conto Sobre o Serviço de Auto-falante
Era uma manhã clara de 1952 quando a cidade de Porto Real do Colégio acordou com um som diferente. Não era o cantar dos pássaros nem o murmúrio do rio São Francisco — era a voz do tronco de pedra que canta e fala "Bewocró katokli". Assim chamaram os mais velhos da aldeia Kariri-Xocó o novo serviço de auto-falante inaugurado na praça central, um verdadeiro marco que uniu tempo, voz e memória num só corpo sonoro.
No coração da praça Rosita de Góis Monteiro, erguia-se um coreto que guardava a alma da transmissão: ali ficava a sala de controle. No obelisco ao lado, quatro grandes auto-falantes apontavam para os quatro cantos da cidade, espalhando mensagens, melodias e memórias. Era como se a pedra ganhasse voz — e sua canção atravessava ruas, casas e corações.
Da Rua dos Índios, onde viviam os Kariri-Xocó, ouvia-se tudo com nitidez. Era dali que partiam os ouvidos atentos ao chamado das missas na matriz, às músicas das paradas de sucesso dos fins de semana, e às palavras de Cicinho e Zé Luiz — os apresentadores de vozes familiares, contratados pela prefeitura, que anunciavam com alegria e respeito o cotidiano do povo.
Nas manhãs de Semana Santa, a Paixão de Cristo ecoava como se fosse vivida ali, nas ruas e calçadas de cada casa. No tempo das eleições, os resultados vinham firmes como tambores que batem na aldeia. Mas era em dezembro que o som se tornava mais mágico: de 29 de novembro a 8 de dezembro, durante as novenas de Nossa Senhora da Conceição, as marchas e dobrados da Academia das Agulhas Negras preenchiam o ar às 6 da manhã, ao meio-dia e às 18 horas — como um sino invisível que marcava a fé de um povo.
Era mais que som. Era cultura. Era comunicação. Era religiosidade. Era arte. Era pertencimento. Era a cidade e seus povos falando juntos.
O tronco de pedra cantou por 32 anos. Até que um dia, em 1984, silenciou. O coreto permaneceu, o obelisco também. Mas o som... esse virou lembrança. Uma lembrança viva que mora nas histórias contadas, nos corações saudosos e na esperança de que, um dia, o tronco de pedra cante e fale novamente.
E aqui deixo este conto, memória de um tempo que pulsa dentro de mim, para que as novas gerações saibam que a nossa história é viva — e se confunde com os caminhos, vozes e sons de Porto Real do Colégio.
Autor: Nhenety Kariri-Xocó

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