O avô Aruã gostava de contar histórias sob a sombra do velho oitizeiro que resistia no quintal. “As raízes desta árvore”, dizia ele tocando o tronco rugoso, “são como as nossas: nascem no centro da aldeia, espalham-se, mas nunca se quebram.” Foi ali, entre cheiros de folhas secas e o canto dos sabiás, que ouvi pela primeira vez a saga de nossa gente — a longa caminhada que transformou o coração da missão numa rua periférica, mas jamais apagou o fogo de quem somos.
1. A aldeia do centro (1661)
Na alvorada de 4 de maio de 1661, os sinos da nova Capela de Nossa Senhora da Conceição romperam o silêncio das margens do São Francisco. Kariri, Karapotó, Aconã e Tupinambá juntaram-se aos jesuítas para erguer paredes de taipa e palha; ali nascia a Missão de Colégio. Padre Nicolau Botelho ensinava o latim dos salmos, e Padre João Batista abria cadernos de caligrafia com letras que pareciam formigas dançando. Em troca das lições, os nossos antepassados mostravam como caçar cotias, curtir o couro do veado e cantar toantes que faziam o céu estremecer de alegria.
Meu trisavô, então menino, aprendeu a dobrar o “r” de “Portugal” e a conjugar o verbo “rezar” enquanto desenhava, na areia, o formato de um arco e uma flecha. “Ensine-nos a pescar almas”, pediu um missionário; e meu povo respondeu: “Nós lhes ensinaremos a pescar peixes.” Assim nasceu uma convivência tensa e terna, feita de promessas de salvação e da lembrança insistente da mata que sussurrava nossos nomes primordiais.
2. O vazio que ficou (1759)
Certo crepúsculo, chegaram ordens de Lisboa: os jesuítas deviam partir. O cascalhar das sandálias dos soldados soou como chuva de pedras. Dizem que, quando Padre Nicolau subiu pela última vez ao púlpito, sua voz quebrou: “Alleluia e adeus.” Os sinos calaram-se; o altar cheirava a cera fria. A missão, que fora escola e abrigo, virou carcaça de barco abandonado à beira-rio.
Sem a mão visível dos padres, sobraram às famílias dois caminhos: permanecer ao redor da capela ou cruzar o rio rumo às caatingas sem fim. Mas a coroa portuguesa tinha outros planos.
3. A freguesia dos brancos (1763)
A notícia chegou nos tambores do vento: “Aqui será Freguesia de Nossa Senhora da Conceição.” O traço do urbanista luso transformou a aldeia em mapa geométrico. As casas de barro e sapé, que abraçavam a igreja, pareciam feridas no desenho elegante da futura praça. “Recuem”, ordenaram. “Aqui ergueremos sobrados.” O centro — outrora quilha do nosso mundo — já não cabia mais nos sonhos de quem falava alto em português.
Os Kariri, Karapotó, Aconã, com mais de seus parentes recém chegados Natú, Xocó que vieram do Panema foram empurrados para o norte, onde a mata ainda cantava. Uma trilha de poeira abriu-se entre mandacarus: ali nasceu a Rua dos Índios. Levamos conosco potes de barro ainda úmidos, espelhos de quijá e as histórias guardadas em cada nome: Jurumbá, Jakui, Pindaíba, Maruandá. Quando a lua subiu naquela primeira noite, parecia espanto: longe do sino, mas perto das estrelas, a rua nascia sem lâmpadas — iluminada por fogueiras e sonhos persistentes.
4. O Imperador e o Pajé (1859)
Quase um século depois, um vapor branco soprou fumaça no porto: D. Pedro II descera para ver de perto suas províncias. A comitiva marchou em nuvem de poeira até a igreja. O Imperador, de casaca azul-petróleo, esperava encontrar povoado manso; encontrou o pajé Manoel Baltazar parado na escadaria, tal qual tronco de jatobá. Contam que o pajé ergueu o braço, e o Imperador, curioso, abaixou a cabeça para ouvir:
— As águas que banham teu Império correm também por nossas veias. Lembra-te disso quando voltares ao teu palácio.
Diz-se que D. Pedro guardou a frase num caderno de capa de couro. Na Rua dos Índios, a visita virou lenda: “O homem-mais-importante-do-mundo inclinou-se diante do nosso pajé.” E a rua brilhou naquela noite — lamparinas tremulando como vaga-lumes eternos.
5. Os 215 anos (1763-1978)
Gerações passaram, e cada geração fez da rua um refúgio e um estandarte. Nas paredes de pedra-canga, cruzes católicas dividiam espaço com grafismos de jiboias e sóis. Nos quintais, canteiros de milho dançavam ao som de sanfonas. Havia rezas em português para agradar o padre e cantos em Kariri para não esquecer quem éramos.
A Rua recebeu também o nome de São Vicente por causa de uma fábrica de algodão em 1937 e que depois passou a ser Usina São Vicente se beneficiamento de arroz, assim para ter um novo endereço comercial e jurídico. Mas a tradição registrou como Rua dos Índios.
Mas o asfalto chegou, negro e quente, anunciando o “progresso”. Em 1978, cerca de 96 % dos indígenas foram morar na Fazenda Modelo para erguer a nova Aldeia Kariri-Xocó, outros ficaram por amor ao lugar, mas fica logo ali pertinho ao lado dos parentes.
Epílogo: As raízes e o tronco
Aruã, o avô contador, concluiu a história olhando para minhas mãos:
— Quando pisares na Rua São Vicente, escuta. O chão fala. Diz o que foi silenciado.
Hoje, quando passo por ali, sinto o rumor de passos antigos sob o cimento. Vejo o pajé Baltazar piscando nas sombras da igreja; ouço mulheres cantando ladainhas que começam em latim e terminam em Kariri. E lembro-me do oitizeiro: quanto mais o empurram, mais fundo ele finca as raízes.
Porque, afinal, não importa quantas vezes mudem o nome de nossas ruas: o centro sempre caminha conosco.
Autor: Nhenety Kariri-Xocó


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