sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

TORÁHEKIÉ – QUANDO OS PÉS APRENDEM A CONVERSAR

 





Antes mesmo de Akauã aprender a dar nome às coisas, seus pés já sabiam o caminho. O chão da aldeia falava com ele, e ele respondia com passos. O Toré pulsava como coração antigo, ensinando que dançar não era divertimento apenas, mas escuta: da terra, dos mais velhos, do tempo que nunca morre.


O som do maracá vinha dos antepassados. Cada giro do corpo era um fio invisível ligando o presente ao começo de tudo.


Mas havia outros sons, vindos de fora do círculo sagrado.


Quando Akauã atravessava as estradas de terra até Porto Real do Colégio, seus ouvidos se enchiam de novidades: a sanfona que chorava e sorria ao mesmo tempo, os risos soltos dos salões, as vozes que escapavam do Crameokli, o rádio, espalhando músicas como sementes no vento. Eram sons dos Caraí, danças de festa, passos que não pediam silêncio nem reza — apenas corpo.


Foi à sombra de um salão iluminado que Akauã viu Helena pela primeira vez.


Ela dançava como quem conversa com o ar. Seus pés não marcavam o chão; deslizavam. Quando percebeu o olhar atento do jovem indígena à porta, sorriu sem estranheza, como se já o conhecesse desde antes, e estendeu a mão.


— Vem — disse apenas.

Akauã hesitou. Dentro dele moravam dois mundos. Um falava baixo, com voz antiga; o outro chamava alto, com riso e movimento. Aceitou.


Os primeiros passos foram tímidos, mas logo seus pés aprenderam a linguagem da Toráhekié Caraí, a dança de diversão do branco. Não era Toré. Não pedia silêncio. Não chamava os espíritos. Ainda assim, havia alegria, encontro, partilha.


Helena e Akauã passaram a se encontrar sempre que a música surgia. Ela queria saber do Toré, do maracá, da dança que nasce do chão. Ele queria entender aquelas danças que mudavam com o tempo, que vinham agora não só da sanfona, mas do Craiwonhé, o toca-disco, do Warudókli, o televisor, e das vozes presas em fitas e discos.


— A dança muda — dizia Helena —, mas as pessoas continuam precisando dançar.

Akauã guardava a frase como quem guarda semente.


Vieram os anos. Vieram as máquinas que levavam som e imagem para dentro das casas, inclusive para as Erá da aldeia. Alguns temeram que o Toré se apagasse diante de tantas novidades. Akauã também sentiu o medo silencioso de quem ama o que é antigo.


Numa noite de lua cheia, decidiu.

Convidou Helena para a aldeia.

O terreiro se abriu sob o céu. O Toré começou. O maracá chamou. Os corpos se alinharam. Akauã dançava como quem escreve no chão o nome do seu povo.


Helena não se moveu. Apenas sentiu. Compreendeu que ali a dança não era espetáculo — era raiz.


Quando o canto cessou, Akauã falou baixo:

— Agora, se quiseres, mostra a tua dança.

Helena ligou o pequeno rádio. O forró correu leve pelo ar. Alguns riram. Outros observaram. Pouco a pouco, pés se moveram. Não para imitar, mas para experimentar.


Naquela noite, o Toré continuou inteiro. E a Toráhekié também encontrou lugar.

Akauã aprendeu que dançar o mundo não o afastava de sua origem. Helena aprendeu que algumas danças não se aprendem com os pés, mas com o respeito.


E assim, entre a aldeia e a cidade, os passos começaram a conversar — sem que nenhum precisasse silenciar o outro.




Autor: Nhenety Kariri-Xocó 








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