sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

UNDÉÁ AIBY RADDA – OS LUGARES DA TERRA






Kanawí caminhava devagar, como quem escuta a terra antes de pisá-la. Seus pés conheciam cada curva da Radda, cada cheiro trazido pelo vento que vinha do Iwo Opará. Para ele, a terra não era apenas chão: era corpo vivo, memória antiga, voz dos Tokenhé, antepassados. 


Naquela manhã, Kanawí não caminhava sozinho.


Ao seu lado vinham George, biólogo de olhos atentos, sempre com um caderno nas mãos, e Clarice, antropóloga silenciosa, que preferia ouvir antes de perguntar. Ambos eram pesquisadores brancos, vindos de longe, atraídos pelo que os livros não conseguiam explicar.


— Aqui é Undéá Aiby Radda — disse Kanawí, quebrando o silêncio. — Os Lugares da Terra.


George levantou os olhos do caderno. Clarice sorriu com respeito.


— Nosso Tseho, povo vive aqui desde os Tokenhé, antepassados — continuou Kanawí —, com Natiá, aldeias espalhadas ao longo do Iwo Opará, que vocês chamam de Rio São Francisco.

Eles caminharam até um ponto mais alto.

Kanawí estendeu o braço, desenhando os limites invisíveis no ar.


— A leste, o Boêdo Dzurió Tasí, o Morro da Lagoa da Enxada. A oeste, o próprio rio. Ao norte, o Iwo Tibirí, Rio da Formiga. Ao sul, a Pohó Itiúba, a Várzea do Rio da Canoa.


Clarice anotava, mas o que mais a impressionava não eram os nomes, e sim a maneira como Kanawí falava deles — como se cada palavra fosse um parente.


— Esses lugares aparecem nas Woroyá, as histórias dos antepassados — disse ele, enquanto os conduzia em direção à serra da Maraba. — É daqui que tiramos a Tabatinga, a argila branca. Ela vira Ruñohú, nossa cerâmica. Cada peça guarda um pedaço da serra.


George ajoelhou-se, tocando a terra clara com cuidado.


— A composição mineral disso é impressionante — murmurou.

Kanawí sorriu.


— A terra ensina antes da ciência.

Mais adiante, apontou para outra serra.


— Ali é a Apreaca. Dela tiramos o caroá, que vira corda. Nada se perde. Tudo retorna.


Quando chegaram às Dzurióá, as lagoas, Kanawí parou em silêncio. Clarice sentiu que aquele não era um lugar comum.


— Aqui estão as Ebebunhá — explicou ele em voz baixa. — Fontes de barro. Daqui vem o Tauá, a argila amarela, e a Ebebunháhe, a vermelha. Cada cor tem um tempo, um uso, um respeito.


O vento passou suave sobre a água. George fechou o caderno. Clarice baixou a cabeça.


Por fim, Kanawí os conduziu à Retsé, a floresta.


— Aqui fica a Natianie, nossa aldeia tradicional — disse. — E mais adiante, perto da cidade, a Natierácró, a aldeia urbana. Dois mundos, uma só raiz.


Clarice respirou fundo.

— Kanawí… — disse ela — o que você quer que levemos conosco quando formos embora?


O indígena olhou para a terra, depois para o rio, depois para o céu.


— Levem o entendimento de que a Radda não é lugar vazio. Ela tem nome, memória e espírito. E quem aprende a ver, Ubí, nunca mais pisa sem cuidado.


O sol começava a se pôr sobre o Iwo Opará. Naquele instante, George e Clarice compreenderam: não estavam apenas pesquisando um território — estavam sendo apresentados a um modo de existir.




Autor: Nhenety Kariri-Xocó




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