quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

CANGHÍÁ UCHÉTÉ – QUANDO OS BONS TEMPOS CHEGARAM






Na memória dos mais velhos, ainda ecoa o tempo em que a Natiá, a Aldeia, repousava na Woderáehó Uanieá, a antiga Rua dos Índios, apertada entre os caminhos da Naticróraí, a Cidade de Porto Real do Colégio, em Dzurióá, Alagoas. Ali vivíamos, mas não era ali que a alma dos Tokenhé, os Antepassados, repousava inteira.

Faltava espaço para o sonho, para o canto, para a roça crescer sem medo.


Então veio 1978. Ano marcado como Canchetéá — bons tempos. A mudança para a Wanheré Uanhícó, a Fazenda Sementeira, não foi apenas uma travessia de casas, mas um retorno do espírito à terra antiga. Quando o povo atravessou o Okenaye, o Grande Portão, algo invisível se abriu junto com ele: o direito de nomear. Ali escrevemos, com madeira, barro e coragem, o nome Aldeia Kariri-Xocó, selando o Canghíá Uchété — os bons tempos chegaram.


A terra nos reconheceu. Das Dzurióá, as lagoas, brotou a argila que virou Ruñonhú, cerâmica moldada pelas mãos que herdaram o saber do fogo. Das águas vieram os Wãmyá, peixes, alimento e celebração. As Erá, casas, nasceram com Wohoerá, quintais vivos, e as Bechiéá, roças, se estenderam como promessa de fartura. Cada passo no chão parecia reencontrar um rastro antigo.


Com o tempo, a aldeia foi se erguendo por inteiro. Surgiu o Erádékan, Polo Base de Saúde, cuidando dos corpos; a Erátekié, Escola, guardando a palavra; a Erantoá, Igreja, acolhendo a fé; o Bypeddá, Campo de Futebol, onde o riso corre solto; e a Erákemydzu, Estação de Tratamento d’Água, levando vida às casas. Tudo crescia em harmonia, como se a terra soubesse o lugar exato de cada coisa.


Os bons tempos trouxeram ainda mais. As Natisamyá, Aldeias Culturais, reacenderam o toré, fazendo o chão pulsar sob os pés. A Bypecró, Quadra de Futsal, virou ponto de encontro das gerações. Os Iabaerá, Conjuntos Residenciais, acolheram novas famílias. A Hinebakró, Energia Elétrica, iluminou as noites sem apagar as estrelas.


Assim, o Canghíá Uchété não foi apenas um tempo que chegou — foi um tempo que se assentou. Ficou na terra, no canto, na memória e no futuro. Porque quando um povo retorna ao chão dos seus antepassados, não constrói apenas moradas: reconstrói o próprio tempo.





Autor: Nhenety Kariri-Xocó




DIPETE AMITEÁ – A DOAÇÃO DE ALIMENTOS






No Uchécrá, o Tempo da Seca, quando a terra rachava e o vento levantava o pó fino das estradas, e também nas Pehóá, o Tempo das Enchentes, quando o Opará, o grande Rio São Francisco, crescia e cobria as margens, havia uma cena que se repetia como um ritual silencioso.


Desde cedo, ainda com o sol baixo, os Uanieá — os indígenas — formavam fila diante da escola, na Woderáehó Uanieá, a Rua dos Índios. Cada pessoa trazia consigo um Setu, o cesto, vazio por fora, mas cheio de esperança por dentro. Não havia pressa. Havia espera. E na espera, a dignidade.


O governo federal, tentando aliviar a Wongheré, a pobreza trazida pelas calamidades da natureza, realizava a Dipete Amiteá, a Doação de Alimentos. Não era fartura, mas era sustento. Não era escolha, mas era sobrevivência. A doação alcançava os indígenas e também as Naticróbeá, as cidades ribeirinhas, todas dependentes do humor do rio e do céu.


Os mais velhos lembravam bem das grandes cheias. Falavam dos anos como quem conta marcas no corpo da terra: 1979, 1985, 1992… depois 2007, 2020, 2022, 2023. Cada data trazia consigo histórias de água invadindo casas, de noites acordadas, de silêncio e medo. Mas já era outro tempo: os Kariri-Xocó estavam na Wanheré Uanhícó, a Fazenda Sementeira, terra de retomada, resistência e recomeço.


Era na Eráye, também chamada Picriá, a Casa Grande, que a fila se formava. Ali, onde antes mandava o poder do não indígena, agora se reunia o povo. Um a um, os Setu se enchiam: Dzurósa, o café; Takuare'êku'i, o açúcar; Ghinhé, o feijão; Sekiche, a farinha de milho; Riné, a carne salgada; Sekiki, a farinha de mandioca. Alimentos simples, mas carregados de valor.


As pessoas saíam dali com o peso do cesto nos braços e um alívio no peito. Havia sorrisos contidos, palavras baixas, olhares de gratidão. Aquela Dipete Amiteá garantia que os filhos comeriam, que a panela fumegaria ao menos por alguns dias, que a vida seguiria apesar das dificuldades.


E assim, entre a seca e a enchente, entre a espera e a partilha, o povo Kariri-Xocó seguia caminhando. Porque mais do que alimentos, aquela fila ensinava algo antigo: resistir juntos é também uma forma de viver.




Autor: Nhenety Kariri-Xocó




quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

IBÁCHIDDÁ PIDÉKAN, O ÔNIBUS-AMBULATÓRIO NAS ALDEIAS






Na Woderáehó Uanieá, a Rua dos Índios, havia um dia esperado como quem espera a chuva depois da seca. Não vinha anunciado por sino nem por papel escrito, mas pelo som distante do motor que fazia o coração bater diferente. Era o Ibáchiddá Pidékan, o ônibus do Funrural, que surgia levantando poeira e esperança.


Desde 1971, ele chegava como um parente viajante, trazendo dentro de si remédios, instrumentos, vozes de cuidado e a promessa de alívio. Onde não havia posto de saúde nem casa de médico, o governo fazia rodar o socorro sobre rodas. O ônibus era branco, com faixas verde-lima, cores que se destacavam na paisagem da aldeia como sinal de vida.


Quando estacionava em frente à escola, o tempo parecia desacelerar. Homens, mulheres, crianças e anciãos se organizavam em fila, cada um carregando sua dor, seu medo ou apenas a necessidade de ser visto. O atendimento durava três dias, e nesses dias a aldeia respirava diferente.


O médico era o Dr. Rovérsio, homem de fala firme e mãos que examinavam com atenção. O dentista, Dr. Mário, trazia o som do motorzinho que assustava as crianças, mas também levava embora dores antigas. Dentro do ônibus, o espaço era pequeno, mas o cuidado era grande. Ali, muitos descobriram que sua dor tinha nome e tratamento.


Com o tempo, nosso povo se mudou para a nova Aldeia Kariri-Xocó, na Fazenda Modelo. Mesmo assim, o Ibáchiddá Pidékan continuou vindo, ficava defronte à Eráye "Casa Grande", atendendo os indígenas até meados da década de 1980.


Era antes do SUS, antes de acontecer a redemocratização, quando a saúde ainda vinha em passos lentos, mas vinha, fiel como o curso do rio, até a Aldeia Kariri-Xocó, no município de Porto Real do Colégio, Alagoas. 


Para nós, aquele ônibus não era só ambulatório. Era sinal de que ainda existíamos aos olhos do mundo. Trouxe alívio aos corpos, mas também esperança aos espíritos. Em cada partida, deixava saudade; em cada chegada, renovava a confiança de que viver valia a pena.


Hoje, quando a memória chama, ainda é possível ouvir o motor chegando na Woderáehó Uanieá, Rua dos Índios e ver, entre poeira e sol, o ônibus branco e verde-lima trazendo consigo o cuidado que atravessou gerações.




Autor: Nhenety Kariri-Xocó



TEUDIOKIÉ HONÉÁ UANIEÁ, A LUTA PELOS DIREITOS INDÍGENAS






Naquele tempo em que existir como Tseho Uanie ainda exigia silêncio e cautela, dois irmãos sustentavam o povo Kariri como colunas invisíveis da mesma casa: Suíra, o Pajé, e Nidé, o Cacique. Um guardava a palavra antiga, o outro conduzia os passos do presente. Ambos caminhavam juntos, porque assim ensinavam os ancestrais: a luta sem espírito se perde, e o espírito sem luta se cala.


O princípio da resistência começou com o Boedo Nhenetíá, o esconder das tradições, imposto quando os missionários levaram o povo para a missão de Natiwaré, a Aldeia dos Padres. Ali, queriam dobrar o tempo indígena ao tempo do sino. Mas Suíra dizia que tradição não morre — ela apenas se oculta, como raiz em tempo de seca. Nessa época o Cacique era Jonas Ibá que faleceu e ficou Nidé em seu lugar. 


Na Natierácró, a aldeia urbana misturada aos Caraí, brancos a vigilância era constante. Ainda assim, à noite, o povo saía em silêncio. Suíra e Nidé iam à frente, seguidos pelos mais jovens. Na Retsé, a floresta, longe dos olhos do mundo branco, o Matikay, ritual continuava vivo. Em Boedo, no segredo, o canto, a dança e a reza atravessaram muitos Battiá, anos  mantendo o povo unido.


Com o passar dos anos, as Radda, terras foram tomadas, as antigas Natiá, aldeias  transformadas em Naticróraí, cidades. Aos indígenas restou a Woderáehó Uanieá, a Rua dos Índios, estreita no espaço, mas larga de memória. Nidé observava aquilo com o coração apertado, e Suíra sentia que os antepassados pediam um novo movimento.


Foi então que, no início dos anos de 1942, os irmãos decidiram que o tempo do esconder precisava dar lugar ao tempo do falar. Começaram as Itohiquiete, longas e difíceis viagens até a cidade de Bom Conselho, em Pernambuco. Não iam sozinhos. Seguiam juntos Iraminõ, Jonas Ibá e Jurandi, irmão de sangue do povo e tio querido, homem de coragem e palavra firme.


A estrada era dura, mas os passos eram muitos. Em Bom Conselho, buscavam Claixiúa-lhá, o Padre Alfredo Dâmaso, assim chamado pelos Fulni-ô de Águas Belas. Nidé falava da terra roubada, das aldeias transformadas em cidade, do povo empurrado para a margem. Suíra rezava antes de cada encontro, pedindo que os antepassados sagrados amansassem os ouvidos de quem precisava escutar.


Foram muitas idas e vindas, muita espera, muita humilhação também. Mas a palavra insistida cria caminho. Em 1944, veio o reconhecimento: o Serviço de Proteção aos Índios (SPI) reconheceu oficialmente os indígenas Kariri de Porto Real do Colégio. Com isso, foi fundado o Posto Indígena Padre Alfredo Dâmaso, trazendo escola e enfermaria.


Naquele dia, Suíra chorou olhando para a terra, e Nidé pisou o chão com os pés, como quem reafirma pertença. Com o Posto vieram novamente os Honéá, os direitos: à Radda, à terra; à Pidékan, a saúde; e à Bohetekié, a educação. Não era o fim da luta, mas era a prova de que o caminho dos irmãos não fora em vão.


E assim, com Suíra e Nidé lado a lado — irmãos de sangue e de missão —, junto de Iraminõ, Ibá e Poité, o povo Kariri mostrou que a memória não se apaga, apenas espera o tempo certo de voltar a caminhar.





Autor: Nhenety Kariri-Xocó 




terça-feira, 13 de janeiro de 2026

PEHÓ IWO OPARÁ, A ENCHENTE DO RIO SÃO FRANCISCO








No Uché, o Tempo antigo que caminha junto com a memória do povo, os Kariri-Xocó deixaram a Woderáehó Uanieá, a Rua dos Índios, e seguiram para a Wanheré Uanhícó, a Fazenda Sementeira.


Era a Puruá Kayaku, a Lua das Flores, outubro de 1978, quando a terra ainda respirava mudança e esperança.


Moacy, indígena pescador do Opará, acompanhou aquele deslocamento com o olhar atento de quem conhece os sinais da água e do céu. Seu remo era extensão do braço, e sua canoa, uma velha companheira. Além de pescar, Moacy tinha uma missão que carregava orgulho: atravessar os estudantes da aldeia pelo rio, levando-os até o Ginásio, na cidade de Porto Real do Colégio. A educação, dizia ele, também era um tipo de pesca — lançava-se a rede hoje para colher amanhã.


Quando chegou a Pehó Kayaku, a Lua da Enxurrada, em dezembro, o Opará começou a mudar de voz. As Dzuá, as águas, cresceram dia após dia, subindo silenciosas, depois fortes, até alcançarem o tempo da Matikay Kayaku, a Lua da Festa Ritual do Ouricuri, em janeiro de 1979. O rio, que sempre foi pai e caminho, tornara-se vasto e inquieto.


As Naticróbeá, cidades ribeirinhas, ficaram submersas. As Maecrótçawoá, hidrelétricas, abriram suas Okendzuá — as grandes Portas D’Água — e o Opará espalhou-se sem pedir licença. Na nova aldeia Wanheré Uanhícó, na  Fazenda Sementeira o povo Kariri-Xocó ficou ilhado. A Dzurye, a Lagoa Grande, a Dzurichi, a Lagoa Comprida, a Dzucuréá, a Lagoa dos Porcos, e o próprio rio formaram um grande espelho de água em volta da aldeia.


Mesmo assim, Moacy não deixou seu ofício. Com a canoa firme, enfrentava a correnteza para buscar mantimentos, notícias e, quando possível, atravessar quem precisava. Os estudantes, agora sem aulas, olhavam o rio com respeito dobrado. Moacy lhes dizia:


— O Opará ensina. Hoje ele cobre a terra, amanhã ele devolve.


O governo federal enviou Dipete Amiteá, doação de alimentos, para os ribeirinhos e para os indígenas. A ajuda chegava, mas o povo também buscava força na própria terra. Havia Utuá, frutas abundantes, que nasciam mesmo depois da água passar, como sinal de que a vida sempre retorna.


Na Içá Kayaku, a Lua das Formigas Grandes, em abril, o Opará começou a baixar. As marcas da enchente ficaram gravadas nas paredes, nos caminhos e na lembrança. As famílias começaram a reconstruir casas, roçados e histórias.


Moacy voltou a atravessar os estudantes com mais frequência. O rio já não rugia; murmurava conselhos antigos.


E assim, entre luas, águas e remadas, o povo Kariri-Xocó seguiu adiante. O Opará continuou sendo rio, estrada e memória.


Moacy, com sua canoa, permaneceu como testemunha viva de um tempo em que a enchente ensinou resistência, e a travessia se tornou lição para as gerações futuras.




Autor: Nhenety Kariri-Xocó



WOROY TOKLIKLI BOHÉ UANIE, O CONTO DA ESCOLA ONDE A PALAVRA ANDA






O Conto da Escola Onde a Palavra Anda

Dizem os mais velhos que, antes mesmo de existirem paredes, a Escola já morava na palavra. E foi assim que começou a Woroy Toklikli, a História Oral do Ensino Nativo, quando o vento ensinava e o rio escutava.


Na aldeia Kariri-Xocó, a Nhenetí Toklikli, a Tradição Oral, caminhava de boca em boca como quem atravessa gerações sem cansar. Ali, a Woroy, a História, não dormia nos livros: ela acordava nos contos do Bohé Uanie, o Ensino Nativo.


Quem carregava essa palavra era o Worobü Woroyá, o Contador de Histórias. Quando homem, chamavam-no Duboherí, Mestre; quando mulher, Duboherídé, Mestra. Mas, acima de tudo, eram semeadores do saber.


Havia muitos Mestres na aldeia.

A Duboheridé Ruñohú, que ensinava a terra a virar cerâmica.


Os Duboruhúá, que trançavam artesanatos como quem escreve caminhos.

O Duboeretuá, que fazia do balaio uma morada.


O Duboheri Torá, que ensinava o corpo a conversar com o chão no Toré.

O Duboherubá, senhor das canoas, que conhecia os segredos do rio.


E o Duboheri Mydzé, que lia os peixes como se fossem estrelas d’água.


Mas nem só de mãos vivia o saber. Havia também os Dzenuandzoá, Guardiões da Cura Nativa;


os Dzenuá Samyá, Guardiões da Memória e da Cultura;


o Dzenu Katiantse, Guardião das Abelhas Nativas;


e os Dzenuá Antse, Guardiões da Natureza, que falavam baixo para não assustar a vida.


Com o tempo, a palavra pediu casa. E nasceu a Erátekié Uanie, a Escola Indígena.

Ali, o Ensino escrito passou a caminhar junto com o saber antigo.


Os Duboherí Tonranran, Mestres dos Livros, chegaram sem apagar os rastros dos ancestrais.


Cada professor e professora trazia consigo uma estrada de conhecimento:


o Duboruhú, que ensinava a Arte a enxergar o invisível;


o Duboherí Subateradá, que mostrava a Geografia como corpo da Terra;


o Doboherí Subantse, que revelava os segredos da Natureza;


o Dubosamy, que ensinava Cultura como raiz;


o Duboherí Nunú Peró, que dialogava com a Língua Portuguesa;


o Duboherí Worobü, que fazia a Matemática contar histórias;


o Doboherí Nunúanie, guardião da Língua Indígena;


e o Bohé Hibuyê, a Educação do Corpo, onde aprender era também mover-se.


Com ele, o Dubohé Hibuyê, Professor de Educação Física, ensinava que o corpo também pensa.


Entre todos eles caminhava Nhenety.

Não como quem manda, mas como quem escuta.


No Subatekié Uanieá, o Curso Saberes Indígenas, Nhenety era o Duboherí Utsohode, o Mestre Formador. Seu trabalho era juntar caminhos: o da escola, o da aldeia e o da memória.


Na Escola Indígena Estadual Pajé Francisco Queiroz Suíra, Nhenety e os professores sabiam que ensinar não era encher cadernos, mas acender histórias.

E toda vez que um aluno aprendia, a Woroy ganhava fôlego.


Porque enquanto houver quem conte, a História não se perde.


E assim segue a Woroy Toklikli Bohé Uanie:

um conto que não termina,

uma escola que anda,

uma palavra que vive.




Autor: Nhenety Kariri-Xocó 





segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

UCHÉ AMITE EICORÉ – TEMPO DE ALIMENTO ESCASSO

 






Naquele tempo antigo, que os mais velhos chamam de Tudenhé, o Passado, a terra falava pouco e o céu se fechava. O Iwo Crocrá, o Rio Seco, estendia seu leito rachado como se fosse pele cansada, e as Dzurióá, as lagoas, guardavam apenas um resto de água, espelhando o sol forte do verão. As Dzóá, as chuvas, demoravam a chegar, e o Amite, o alimento, tornava-se raro.


Era nessas horas que o ancião Ibamurú, que conheceu muitos tempos difíceis, reunia as crianças e os jovens sob a sombra do ouricuri. Sua voz era baixa, mas firme, carregada de memória.


— Esse é o tempo do Uchê Amite Eicoré, dizia ele. Tempo de escassez, mas também de ensinamento.


Ao seu lado estava Marú, seu filho, já homem feito, atento a cada palavra do pai. E um pouco mais à frente, sentada sobre uma raiz grossa, estava Inauãny, sua sobrinha, olhos curiosos, aprendendo com o silêncio tanto quanto com a fala.


Ibamurú ensinava que, quando o alimento falta, o povo não se perde. Aprende a olhar de novo para a terra.


— Nas Dzurióá com pouca água, explicava ele, ainda vivem o Musũ, peixe alongado, a Piaba, o Sãmbá, o cágado paciente, e o Myghy, o caramujo que se esconde, mas não some.


Marú lembrava das vezes em que, com cuidado, pescavam apenas o necessário, respeitando o tempo da lagoa. Inauãny observava como cada gesto tinha medida, como nada era tirado além do que o corpo precisava.


Na Retsé, a floresta do Ouricuri, o povo buscava o que a terra oferecia em silêncio: o Kariru, planta que enche o cesto, o Majõgomy, o beldroegão que fortalece; o Igaboró, o inhame-bravo, que só quem conhece sabe preparar.


— A floresta ensina paciência, dizia Ibamurú. Ela testa quem anda nela.


No Merá, o campo aberto, surgia o Dupami, a frutinha vermelha chamada mata-fome, e o Umari, fruto do marizeiro. As amêndoas eram levadas ao fogo para Udé, cozinhar, e depois repartidas em Bohé, a coletividade, porque ninguém comia sozinho.


Na Sitó, a caça, vinham a Tijubina, lagarto bico-doce, e o Bani, o mocó ágil das pedras, o Cóaca "Caroço de Jaca" e a Jety "Batata-doce" que eram assadas na brasa tem um bom sabor. Sempre com respeito, sempre agradecendo.


Quando a noite chegava, Inauãny perguntava:


— Vovô Ibamurú, como nosso povo resistiu a tudo isso?


O ancião sorria, olhando o fogo dançar.

— Resistimos porque nunca esquecemos o Samy, nossa cultura, nem o Nhenetí, nossas tradições. A fome pode apertar o corpo, mas não pode vencer a memória.


Marú completava, olhando para a nova geração:


— Enquanto soubermos ouvir os mais velhos e respeitar a terra, o povo Kariri-Xocó nunca estará perdido.

E assim, no tempo do alimento escasso, o povo aprendeu que sobreviver não era apenas comer, mas lembrar quem se é.




Autor: Nhenety Kariri-Xocó